Sábado, 21.11.09
Maria João Pires

Foi através do Expresso, e com atraso, que cheguei à notícia da "improvável" capa do Femmes du Maroc. A foto é  semelhante (ligeiramente mais casta) à que Annie Leibovitz tirou a Demi Moore - e fez capa da Vanity Fair - em 1991, provocando uma escandaleira. Obviamente que esta, de Nadia Larguet, está a fazer o mesmo, afinal estamos a falar de uma marroquina que exibe o corpo nu na capa de uma revista de um país muçulmano. Mas há mais corpos a abanarem o mundo muçulmano.


Rogério da Costa Pereira

Bzz, bzz, bzz. Alguns seres foram imaginados para serem enxotados (enxotar e esmagar são aqui sinónimos). Zotes bzudos. Têm como destino um encontro imediato forçado e sangrento e de asas partidas com o vidro da janela que não percebem. Não percebem que o varejento disforme que os encara é o reflexo do filho da mãezinha que os desovou (são filhos únicos). Tentam desviar-se, uma e outra vez, até que alguém lhes ponha fim ao anseio. Um pano de cozinha basta. É um favor que lhes fazem, que as moscas domésticas querem-se higienizadas em casa ‒ e depois pela sanita abaixo. O horizonte que se vê de cá da janela, por mais cinzento que apareça, é um azul em potência que eles não podem impedir. O Campo Pequeno é prós touros.


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João Pinto e Castro

A British Airways está entre as maiores transportadoras aéreas nas ligações entre a Europa e a América do Norte e Central. A Ibéria domina o tráfego aéreo no Atlântico Sul. Foi anunciada a fusão das duas.

Um porta-voz da TAP assegura que a transportadora nacional não será afectada pela operação. O Expresso de hoje concorda: "Fusão anglo-ibérica não afecta Portugal". (Será isto uma notícia?)

Portugal sempre foi historicamente o aliado ibérico preferencial do Reino-Unido em tudo o que respeita ao Atlântico Sul. Neste caso, porém, foi posto de parte.

A localização geográfica do país só não será irremediavelmente periférica se funcionar como plataforma de articulação com outros espaços. No caso do transporte aéreo, esses espaços só podem ser a África e a América do Sul.

Como pode alguém pretender que, isoladamente (ou melhor, desintegrada de uma aliança que reforça a sua posição no espaço atlântico), a TAP tem condições para competir com êxito contra a Ibéria e a British Airways associadas?

O problema da orientação estratégica da TAP arrasta-se há anos sem que o assunto mereça a atenção devida da opinião pública, dos partidos ou do governo. Não resta muito tempo nem muita margem de manobra.


João Pinto e Castro

Os últimos tempos revelaram que não só as classes dirigentes nacionais no seu todo, como uma boa parte dos advogados e juízes, está-se nas tintas para o primado da lei e o Estado de Direito. Felizmente, nem toda a gente pensa assim. Eis o que hoje escreve no Diário Ecomómico Daniel Proença de Carvalho:

"Tarde e a más horas, as escutas chegaram ao PGR e ao presidente do Supremo; ambos consideraram que não existem indícios de crime e o segundo considerou-as nulas e ordenou a sua destruição. Ao que diz a comunicação social, a ordem do presidente do Supremo continua por cumprir. Não é isto a subversão do Estado de Direito? Polícias, agentes do M.P. e um juiz que actuam contra a lei e não cumprem uma decisão do presidente do Supremo?

"É claro que a prática destas ilegalidades conduziu a outro crime que diariamente é praticado na mais absoluta impunidade: o crime de violação do segredo de justiça. Os jornalistas cúmplices neste tipo de criminalidade já divulgaram alegados tópicos das conversas criminosamente guardadas e não tardará que apareçam as suas transcrições, obviamente por motivos de ordem política. O sistema de justiça afunda-se neste lamaçal arrastando na enxurrada a já pouca credibilidade do regime.

"Isto foi possível em resultado da opacidade do sistema de justiça. Todos nós conhecemos os actores políticos, os seus percursos, as ideias que professam, os seus comportamentos políticos; e, muito importante, exercem o poder com base no voto popular, que é a regra da democracia. Que sabemos nós dos detentores do poder judiciário? Por onde andaram, que ideias políticas professam? E a pergunta fatal: qual a raiz do seu poder soberano? Com que legitimidade o exercem? Esta é a questão crucial com que, mais dia, menos dia, teremos de confrontar-nos."
 


'I'm not interested in writing short stories. Anything that doesn't take years of your life and drive you to suicide hardly seems worth doing.'

 

cormac mccarthy, novembro de 2009

 

(obrigada, rui herbon)


ontem, antes de adormecer, comecei a ler um artigo da vanity fair sobre o crash dos bancos americanos (é para aí o décimo que a vf publica in a row). às tantas, um dos banqueiros liga a um investidor que resolveu levantar a massa toda -- e era muita massa -- a tentar convencê-lo a não o fazer. o outro diz 'o dinheiro é meu'. o banqueiro responde: 'sim, mas quero que saibas que estou a fazer listas. listas dos meus amigos e dos meus inimigos'.

 

suspeito com o que se pareceria, ao fim das contas, a lista do banqueiro. uma canseira, e para concluir o que já se sabe: estamos sempre sós, mesmo que só demos por isso quando justamente precisávamos de não estar. milagre é poder alinhar meia dúzia de nomes na lista dos amigos, que alguém se atravesse. ou não o sabíamos?


Ana Vidigal

No MoMa

 


Palmira F. Silva

Um dos principais centros de estudo das alterações climáticas, a Unidade de Estudos Climáticos  (Climate Research Unit, CRU) da Universidade de East Anglia em Norwich, foi hackado ontem tendo sido copiados mais de mil ficheiros, onde se incluem 1079 emails e 72 documentos trocados ao longo dos últimos 18 anos. Cientistas da CRU tiveram um papel decisivo no Intergovernmental Panel on Climate Change's (IPCC) Fourth Assessment Report, que por sua vez terá (ou teria) um papel decisivo na cimeira da ONU sobre alterações climáticas que se realiza já no próximo mês em Copenhaga.

 

Pelo que se sabe, foi um blogue céptico-ambientalista, chamado “The Air Vent”, que ontem divulgou o material, através de um ficheiro zippado com 61 megabites. O blogue, que opera a partir de um servidor russo, foi encerrado algumas horas depois, mas nessa altura já a informação estava a ser distribuída por toda a Internet, refere a Nature News. O conteúdo de alguns ficheiros, cuja veracidade ainda não foi contestada, está a fazer as delícias dos cépticos do aquecimento global antropogénico. Na realidade, há alguns emails de cientistas proeminentes no campo que lançam suspeitas sobre os métodos que utilizaram para validar os seus modelos e invalidar os alheios.
 

Ver mais... )

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Sexta-feira, 20.11.09

"As «escutas» já chegaram ao Luís Figo em manchete no Correio da Manhã. O ambiente está propício às mais desbragadas aventuras noticiosas, ao boato sob a forma de «notícia». A bagunça vai tão alta que Vasco Pulido Valente, no Público de hoje, já escreve que «não é legítimo, nem recomendável arriscar nessa querela (tentar remover Sócrates de cena) a própria integridade do regime.» Acompanha-o José Pacheco Pereira, ontem na Sábado: «ou se penaliza os jornalistas e o jornal por essa violação (do segredo de justiça) ou qualquer protesto é vão.» Em Portugal, uma parte da oposição ao Governo, ao PS e a José Sócrates abandonou definitivamente o território da política, onde se sente pouco à vontade porque deixaram de pensar. Age como o Hammas: atiram bombas para cima da população indefesa. Mas com uma diferença significativa: aqui, atiram as bombas de longe cientes da impunidade que a lei e a Justiça lhes oferece; lá, na Palestina, quem transporta a bomba também morre."

 

Tomás Vasques, Regra do Jogo


Qualquer profissional sabe os riscos que corre quando critica os membros da mesma profissão. Há sempre um conflito de interesses entre a sua consciência - ou seja, aquilo que acha que é verdade e que deve ser dito - e o interesse de não arranjar problemas com "a corporação". Quando em Abril de 2009, num painel de debate da TVI24, disse que considerava não haver jornalismo de investigação no caso Freeport, mas notícias plantadas sob a forma de "informações" alegadamente (sublinhe-se o alegadamente) extraídas de um processo em segredo de justiça, estava bem consciente desse conflito de interesses e do risco que as minhas declarações implicavam, apesar de outros opinadores - caso de Ferreira Fernandes, neste jornal, utilizando a feliz expressão "milho aos pombos" e sublinhando serem os pombos "animais estúpidos" - terem dito o mesmo antes e depois.

 

Na SIC, no Expresso e no Correio da Manhã, as minhas opiniões tiveram direito a peças noticiosas. O destaque das três, porém, não foi a existência de jornalistas que criticam o jornalismo que se faz; foi a minha identificação como "namorada de José Sócrates". Considerando intolerável quer a devassa da minha vida íntima quer a redução da minha pessoa a sucursal de outra, apresentei queixa dos autores das peças ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas e à instituição que legalmente tem a função de fiscalizar a deontologia da profissão, a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas.

 

O CD (cujo parecer é de Julho de 2009 e, curiosamente, não foi noticiado) considerou "tecnicamente incorrecta e deontologicamente reprovável o enfoque e identificação da jornalista como sendo "namorada de" nos títulos e destaques das notícias, em análise, elaboradas pela SIC, pelo Correio da Manhã e pelo Expresso", relembrando que "a devassa da vida privada dos cidadãos por alguns meios de comunicação não é, por si, susceptível de transformar acontecimentos privados em públicos, nem a sua divulgação e conhecimento legitima que eles possam ser retomados por outros media". A Secção Disciplinar da CCPJ, porém, arquivou as queixas. Recorri para o plenário; o recurso foi indeferido. E porquê? Diz a CCPJ que era "de interesse público", identificar a relação, "que era pública" (a CCPJ não vê nisto contradição) por causa do "conflito de interesses" - a saber, o de ter "defendido publicamente" a pessoa de quem, segundo a CCPJ, sou "publicamente" namorada.

 

E que faz este órgão máximo e autorizado da deontologia jornalística para declarar "pública" uma relação cujos alegados membros nunca tornaram pública - ou seja, nunca declararam publicamente existir? Não se atrapalha: refere fotografias de paparazzi efectuadas à porta da minha casa como eventual "liberdade de informar", juntando-as aos autos (sim, juntando-as aos autos) e diz que a relação é "assumida" numa biografia de José Sócrates, inferindo ser o próprio biografado a assumir nela a tal da relação - o que é falso, mas a ser verdade não podia ter qualquer relevância na apreciação da queixa de outra pessoa e nas questões deontológicas a dirimir (até porque nenhuma das peças cita fontes no que ao alegado namoro respeita). Concluindo: aquilo que a CCPJ cita como provas da "publicidade da relação" ou é nulo ou é falso. O rigor continua na definição do "conflito de interesses". A CCPJ situa-o na "defesa do primeiro-ministro", sem mais. Esquece-se de explicitar por que carga de água dizer que não houve jornalismo de investigação no caso Freeport é "defender o primeiro-ministro". Acha a CCPJ que todos os opinadores que disseram o mesmo são namorados do primeiro-ministro? Ou só quem a CCPJ acha que não tem namoro com o PM pode criticar o jornalismo em Portugal? E, mais bizarro ainda: por que raio haveria conflito de interesse no facto de uma jornalista opinar sobre jornalismo, sejam quem forem as suas relações pessoais?

 

Colher esta visão de uma relação, real ou percepcionada, meramente pessoal (o que é diferente de uma relação hierárquica, económica, etc.) como ferrete de suspeição permanente não é só uma intromissão intolerável na esfera privada e uma menorização obscena da pessoa atingida, da sua capacidade de julgamento e da sua liberdade. É um absurdo que, arvorado em princípio, prescreveria - como aliás faz (sem, aparentemente, se dar conta de incorrer na atitude que no mesmo parecer considerara ilegítima, isto é, a de "retomar" a devassa efectuada por outros) o parecer citado do Conselho Deontológico do Sindicato - a publicação de "declarações de interesses", em actualização permanente, de quem opina (e de todos os jornalistas, por maioria de razão) ao lado das colunas e das notícias, em rodapé nas TV, com listagens de amigos, familiares e amantes (sobretudo, claro, os clandestinos), presentes, passados e futuros, para não falar de quem lhes paga almoços, de quem lhes oferece presentes e, já agora, quando forem jornalistas, de quem lhes passa as notícias. A não ser, claro, que toda esta preocupação só diga respeito à minha pessoa e a CCPJ e o CD queiram, em concorrência com a chamada imprensa "do coração", conhecer, a par e passo, as vicissitudes da minha vida amorosa, mascarando esse voyeurismo com preocupações deontológicas. O que não é só sonso, deplorável, antiético e persecutório: é uma espécie de ilustração perfeita do infeliz estado a que chegou o jornalismo português.

 

(publicado hoje no dn)


Ana Matos Pires

"No nosso país, ocorrem todos os anos, em média, 300 mortes fetais após as 22 semanas de gestação. Em muitos destes casos não é possível encontrar uma explicação. Como o número de grávidas vacinadas com a vacina anti-gripe A está felizmente a aumentar, é natural que os casos como os relatados nestas duas últimas semanas - morte fetal em grávida vacinada - sejam cada vez mais frequentes, sem que isso permita extrair qualquer relação de causa-efeito. 

Relembro também que a gripe A pode ter efeitos mais desastrosos na grávida do que na população em geral, devido às alterações do sistema imunitário que ocorrem na gravidez."

Mário Cordeiro no Público


hoje recebi um livro enviado por alguém que so conheço por sms e uma ou duas conversas telefónicas. perguntei: por que me envia um livro? é verdade que faláramos de livros -- faláramos de pouco mais -- e que tinhamos trocado gostos (roth, mccarthy, mcewan). a resposta foi: porque gostamos de livros e somos poucos (achei essa da irmandade um bocado exagerada, mas pronto).

 

o livro, de um 'novo americano' (novo para o ofertador do livro, acho eu, e para mim certamente, nunca li nada deste homem já entradote) é de rush. chama-se mating.parece que se passa em áfrica, onde o autor viveu muito tempo (talvez viva ainda), na zona do kalahari, o deserto vermelho.

 

mating: ora que nome, como dizer, inesperado, quase hilariante (não me perguntem porquê, eu não saberia sequer começar a explicar -- ou por outra saberia mas seria muito maçador).

 

para a troca quis vender rhys -- e vendi, não sei se com inteiro sucesso --, hardy (o meu favorito, jude the obscure) e, for something completely different (embora talvez não tanto assim), to kill a mocking bird.

 

à harper lee li-a em agosto de 2006, no brasil (em pacote com o everyman e com o l'amour do stendhal, sim, caraças, uma salada russa). foi tudo que eu esperava e mais. comprei logo meia dúzia para oferecer -- ofereço espasmodicamente livros de que gosto muito, como uma evangélica a impingir bíblias.

 

escrevi sobre ele no glória fácil, em novembro de 2006.

 

little things in between

há muito tempo que andava para ler to kill a mockingbird, de harper lee. naquele tipo de coincidências felizes que de tão felizes não nos parecem coincidências (também acontece com as infelizes, hélas), encontrei uma edição da random house, ainda por cima linda, a olhar para mim na fnac quando lá fui comprar a molhada de livros para férias.

é um bom livro para se ler no início da adolescência. não calhou. mas lê-lo agora, bem longe, bem depois -- tão tão depois -- é como entrar numa máquina do tempo. para quando os verões eram infinitos e os pais invencíveis e sempre justos e sempre ali. quando todos os dias inventávamos novas brincadeiras e faziamos de tudo uma aventura e até o frio e o calor eram uma conversa do mundo connosco. quando estava tudo tudo por estrear.

e depois, quer dizer, antes e durante, há a linguagem. contar como uma criança, pensar como uma criança, é uma arte difícil. lee domina-a sem alardes. to kill a mockingbird é uma história de amor pela infância contada por alguém que, como ruy belo, sabe que o verão era a única estação.

é também uma história do amor de um homem invisível por duas crianças, o amor de um estranho que vela pelo rapaz e a rapariga que vivem na casa ao lado. sem esperar nada em troca, apenas a possibilidade de os ver e de os amar e de, um dia, se for preciso, lhes salvar a vida.

'neighbours bring food with death and flowers with sickness and little things in between. boo was our neighbour. he gave us two soap dolls, a broken watch and chain, a pair of good-luck pennies, and our lives.'

às vezes penso que, ao contrário do que é comum dizer-se, as pessoas sem crianças as vêem como um milagre maior que as que as têm. falta de hábito, talvez, ou uma atenção diferente à gramática da infância, um enternecimento não possessivo com esse milagre fugaz.
 
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harper lee ganhou uma série de prémios e depois mais nada: nunca mais escreveu. tinha só este livro perfeito para escrever -- para quê outros? ser capaz assim de saber quando aceitar o silêncio do mundo sem mais quixoterias. little things in between, little things in between. como um livro oferecido por um quase desconhecido, um vizinho invisível que deixa coisas no buraco da árvore.

João Galamba

"(...)Over the past half century, UK bank capital has remained at between 3 per cent and 5 per cent of assets, these assets have risen tenfold, relative to GDP, and returns on equity have averaged 20 per cent. Such high returns, in an established industry, must mean either high barriers to entry or excessive risk-taking. The former are undesirable and the latter terrifying, particularly in view of the huge rise in the state’s exposure to the risks.

We will never have a better opportunity than now to redress the deteriorating terms of trade between the banks and the state. A big part of the solution must be to shift incentives. The more credible are the pre-announced limits on support from government, the more effective will be the changes in incentives inside banks, and vice versa. The less we are able to shift these incentives, the more important it will be to impose heavy regulation. The combination of today’s incentives with today’s safety nets and yesterday’s “light touch” regulation was devastating.

Yet, regardless of the success of reforms of incentives in – and regulation of – the financial sector, it is reasonable to recoup not only the direct fiscal costs of saving banks but even some of the wider fiscal costs of the crisis. The time has come for some carefully judged populism. A one-off windfall tax on bonuses would make the pain ahead for society so very much more bearable. Try it: millions will love it." (Martin Wolf, Tax the windfall banking bonuses)

 

Quando até um dos principais colunistas do Financial Times já defende isto, talvez não fosse má ideia começarmos a discutir o tema.


Quinta-feira, 19.11.09

Hoje, na Sic Notícias, João Duque disse mais ou menos isto: o défice é terrível, não podemos aumentar mais a dívida porque ela está elevadíssima e o PIB está a cair. O que propõe João Duque:

 

1) Diminuir despesa?

2) Aumentar impostos?

3) Aumentar despesa tentando recuperar da crise?

 

Não creio que João Duque defenda reduções de despesa, pois isso agravaria a recessão e implicaria um aumento do desemprego — o que, convenhamos seria um problema não menos grave do que o endividamento público. Não sei se defende uma subida de impostos, pois não falou do tema. Também sabemos que não defende aumentar os gastos: estamos endividados e não podemos gastar mais. O que propõe, então, João Duqye? Nada. Limita-se a dizer que isto está horrível, catastrófico, apocalíptico — e isso basta.

 

A seguir veio António Nogueira Leite, que disse uma coisa muito curiosa: "as agências de rating já tinham alertado que isto estava terrível, mas, curiosamente, os mercados andam distraídos e os spreads face à dívida alemã continuam relativamente baixos". Mistério? Nenhum. Nogueira Leite explica: os mercados ainda não prestaram atenção suficiente ao nosso país, andam distraídos. Há aqui uma coisa que me intriga, sobretudo quando dita por um liberal. O que significa um mercado estar distraído? Não estamos a falar de taxas de juro — que não são totalmente determinadas por forças de mercado —, mas sim de spreads, talvez aquilo que mais se aproxima daqueles preços sábios que os liberais tanto endeusam.
A crise faz coisas estranhas ao conhecimento da economia...


 

Há um ano lastimei-me aqui da pouca participação cívica no Orçamento Participativo da cidade de Lisboa. Assim sendo seria hipócrita da minha parte não fazer o que pudesse para publicitar edição de 2009. Façam o favor de se dirigir ao site da CML, inscrevam-se e participem. Até 29 de Novembro recebem-se as propostas que serão, numa fase posterior, sujeitas a votação.


João Cóias

 

                    ...achei graça.

Há uns anos, 3 acho eu(Rogério corrige-me...), publiquei esta imagem num blog, que na altura "dava cartas". Passaram-se alguns Natais, umas guerras, uns atentados, alguns desastres naturais e vários tipos de eleições...

O que acho mesmo graça, é que ao fim d"esses" anos, uns tipos de NY perguntam-me se podem usar a imagem (que manipulei originalmente para o tal blog) para a Absolut...

Ok... Agora estou "ente alado" com trabalho, um destes dias respondo...

Há coisas engraçadas na web....

Um destes dias volto...

Webraços.


João Galamba

"Temos as cargas fiscais mais elevadas da Europa e a carga fiscal já é progressiva"

 

Telmo Correia em entrevista ao jornal i

 

Mas Telmo Correia está enganado:

 

"Entre 1995 e 2006, o nível de fiscalidade (média aritmética) na zona euro passou de 36,7% para 38,4%, enquanto que em Portugal tal indicador passou de 31,9% para 35,9%" ( Relatório do Grupo para o Estudo da Política Fiscal, pp. 15).

 

Segundo o relatório "Monitoring revenue trends and tax reform" da Comissão Europeia, Portugal é o 12º país (em 27) com carga fiscal mais baixa. Vejamos a repartição por tipo de imposto

 

1)Impostos sobre bens e serviços: PT=14%; UE15=11,8%; UE19=12%

2)Impostos sobre rendimento: PT=9,5%; UE15=13,8%; UE19=12,6%

3)Contribuições Seg Social: PT=11,7%; UE15=11,1%; UE19=11,5% (pp. 64)

 

Cruzando estes dados com o facto de Portugal ser dos países mais desiguais da UE, podemos dizer o seguinte: não só Telmo está enganado em relação à carga fiscal, como há margem para reforçar a progressividade da nossa carga fiscal. Como? Aumentando o peso dos impostos sobre o rendimento e reforçando a sua progressividade. Isto implica rever o regime de deduções (como consta no programa do PS) e, eventualmente, criando um escalão máximo 45%, como defende o Bloco de Esquerda.


João Galamba

"Somente aquilo que não tem história pode ser definido"

 

Nietzsche, Genealogia da Moral

 

Para o Pedro Picoito, contar a história do casamento e fundamentar a sua posição sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo são uma e a mesma coisa - e eu estou inteiramente de acordo. Mas, ao mesmo tempo que faz isto, o Pedro também acha que o casamento é uma instituição estanque, imutável; ou, pior, que apesar do casamento ter tido uma história, hoje já não a tem. Só assim se entende que o Pedro ache que pode recorrer à história para determinar, definir o significado do casamento.

 

É extraordinário que um historiador não seja capaz de perceber a incoerência desta posição. Mais do que ter uma história, o casamento é a sua história - que, enquanto tal, é uma realidade indeterminada, aberta, por contar. Ao contrário do que sugere o Carlos Botelho na sua defesa da posição do Pedro em relação ao casamento, defender a impossibilidade de uma determinação definitiva de fenómenos históricos não implica que se entre no reino da arbitrariedade. Significa apenas que a história não é uma totalidade fechada cujo significado possa ser apreendido de forma definitiva. A história apreende-se de modo narrativo, o que envolve uma relação criativa entre passado, presente e futuro. Contar não se limita a reproduzir uma realidade determinada; também cria, inova. Quem defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo não diz que vale tudo; limita-se a dizer que aquilo que o casamento foi não só não esgota o seu significado como é passível de diferentes interpretações. Quem acha que isto nos leva ao vale tudo não percebe o que significa ter uma consciência histórica da existência humana.  


Maria João Pires

É quase reconfortante sentir que não fui a única com vontade de esganar o homem.

 

O que não é uma questão de gosto é o tom nacionalista trauliteiro com que fomos brindados por um narrador mais preocupado em explicar a geopolítica dos balcãs do que os cortes do Bruno Alves.


Na Rússia, continuação de boas notícias.


 


Por que funciona às vezes tão mal o Estado português? Ora, porque foi organizado para funcionar assim.


Ana Matos Pires


Temos a Direita a reagir a quente a problemas como ao da supervisão por parte do Banco de Portugal com propostas destas.  

Não é possível, não pode ser, reserva de Constituição, blá, blá, blá, mas mais importante: não resolve nada governamentalizar o PR e gosto sobretudo da parte em que se prevê que o Chefe de Estado, assim, sozinho, com toda a discricionariedade, possa, com base numa fórmula vaga,  destituir os presidentes das entidades reguladoras caso considere que "cometeram erros graves no desempenho das respectivas funções".

 

 


Rogério da Costa Pereira

"(...) anúncio do Ministério da Justiça de que vai apresentar um decreto-lei para interromper os prazos processuais dos advogados entre 15 e 31 de Julho. Isto significa na prática que todos os processos que não sejam urgentes param de 15 de Julho até ao fim das férias judiciais, no início de Setembro." [RTP]

 

Não é exactamente a mesma coisa, mas também está bem.


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Lêem-se relatos factuais do sucedido (aqui, aqui, aqui e aqui) e fica-se perplexo... com a realidade, suponho. Se fizerem o obséquio de me explicar de que modo o policiamento (rasteirinho) da vida dos outros e o insulto alheio (desonesto) por se afirmar que se disse o que se não disse tem a ver a identidade do casamento - seja lá isso o que for - eu agradecia. De outro modo, e nada tendo de paradoxal, a coisa não se compreende meeeeeeesmo.


Quarta-feira, 18.11.09

Laranja Mecânica e Stanley Kubrick foram o tema desta conversa entre o crítico cinematográfico William Everson, Anthony Burgess e Malcolm McDowell, filmada, em 1972 por John Musilli.


Maria João Pires

Pelo Peão fiquei a saber que passaram, há 2 dias, 60 anos da morte de António Aleixo. Há coinicidências curiosas. Filha de alentejana, habituei-me, desde múda, a ouvir recordar quadras dele em família mas há anos que não me lembrava da figura, até que ontem, numa caixa de comentários do Arrastão, encontrei o T.MIke a "declamar" uns versos. Por serem tão adequados aos tempos que correm copiei-os para o meu Facebook e agora, à laia de homenagem, faço o mesmo aqui.

 

Ele há gente tão mesquinha
De tão baixa condição…
Censuram a vida minha
Por não ser como eles são !


Ariane Sherine, a organizadora da campanha do autocarro ateu, reuniu num livro contribuições com as sugestões de Natal de 42 celebridades sem religião para constituir outro fundo meritório. Desta vez, todo o dinheiro que renda o livro The Atheist's Guide to Christmas, com contribuições de   Richard Dawkins, Charlie Brooker, Derren Brown, Ben Goldacre, Jenny Colgan, David Baddiel, Simon Singh, AC Grayling, Brian Cox ou Richard Herring, será entregue à Terrence Higgins Trust, uma instituição secular, como tantas outras, que auxilia pessoas infectadas com o HIV.


Terça-feira, 17.11.09

Cavaco metido em Belém comunica por sinais de lanterna!



Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Fernanda Câncio / f.
Gonçalo Pires
Inês Meneses
Irene Pimentel
Isabel Moreira
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão / mj
Maria João Pires
Miguel Vale de Almeida
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Rogério da Costa Pereira
Tiago Julião

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