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jugular

A ver se eu percebo

Decreta-se a requisição civil para defender o interesse público e setores vitais da economia nacional... e ao mesmo tempo vai privatizar-se a empresa que tudo isto assegura. É isto, não é? Faz todo o sentido, claaaaaro. 

quiz

Palavras de uma figura brilhante da intelectualidade portuguesa, algures na década de 1980. Cria-as exclusivas daquele tempo. Eu julgo-as premonitórias e de uma atualidade desarmante, passadas mais de duas décadas. Alguém adivinha a autoria?

"Nunca, como hoje, entre nós, tanto se falou de cultura, e nunca como hoje tanto se espezinharam e desprezaram a cultura e a inteligência. Pela degradação de tudo (os sítios, as instituições de cultura, o sistema educativo, a total ausência de sistema de investigação científica, o abandono das letras clássicas, a prostituição voluntária da língua portuguesa, a exaltação da tecnologia pela tecnologia, o apagamento da reflexão filosófica, a promoção da trafulhice mental marginalizando a seriedade e o rigor) tem-se impedido a complexa formação da memória da nação, que não é um dado imutável mas algo que está constantemente a refazer-se. Memória que só o é quando ligada à tensão inovadora a visar o porvir, mas que não apaga, não desbarata o passado, conquanto não pretenda revivê-lo anacronicamente.

Esse legado que as nossas mãos amassam para elaborarmos o que queremos fazer, inspira-se no, molda-se pelo espírito científico, que só por grave engano da mentalidade «pragmática» se confunde com a soma dos conhecimentos adquiridos, com a multiplicação dos «bancos de dados». (...) Por isso o nosso sistema educativo, se não quiser rebaixar-se (como parece pretender-se) a miserável escola oficinal e formação pseudotécnica, supostamente com saídas profissionais imediatas e seguras, subordinada a tacanha «lógica de mercado livre» (um dos mitos que obnubilam o nosso tempo), tem que organizar-se em função dos vetores que apontámos. É a base cultural que cada vez mais garante o êxito da formação tecnológica e da organização económica, desde as empresas aos macrossistemas. (...)".

É amanhã | MARIA CAPAZ

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quinze dias depois do primeiro

Deste. A vida continua. Lá vai indo. Neste meio tempo, duas chamadas para a FCT a pedir informações. Na primeira fiquei a saber que a culpa pelo atraso é dos avaliadores. Que estão com muito trabalho. E que os funcionários da FCT também. Não fico comovido. É que eu - comento - idem, pena é que seja por apenas mais 15 dias. Depois, quem sabe. Fiquei também a saber que estes atrasos são comuns no painel de História. A razão, ignoro (e não pareço ser o único). Há minutos foi-me comunicado que "esperam dar uma resposta no decorrer desta semana". Presumo que os avaliadores, que receberam toda a documentação em junho, deixaram tudo para a semana que antecede o Natal, depois de despacharem os seus outros múltiplos afazeres. Os bolseiros da FCT são umas carraças incómodas, uns parasitas que sugam o sangue e fazem comichão a quem tem tanto trabalho (e mais o que fazer). Uns chatos impacientes. Feliz Natal.

Do nojo. Isto (ainda) acontece (aqui).

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A Sara Vasconcelos, agredida por um taxista, no Porto, depois de se ter despedido de uma amiga com um beijo na boca. “Acho que foi por causa do beijo, não tenho outra explicação para o que aconteceu” (...) “Foi surreal. Ele não dizia uma palavra. Só se ria enquanto me agredia.”

ihihihihih

O G, de 10 anos, a gozar com o "controlo parental": "Não me deixam ter FB por causa dos [gesto de aspas] perigos da internet. Está-se mesmo a ver que ia marcar um encontro com um desconhecido que me ia oferecer um saco cheio de doces, pff" e continuou "Como se eu fosse aceitar o pedido de amizade de um tipo com o nick não-pervertido 04".

Perplexidades

Hoje o Expresso publica um texto de opinião (« "Em nome do povo?" Bloody Babs e José Sócrates») assinado por Luísa Gusmão que, sabemos ao ler o que acompanha o asterisco, é "Pseudónimo da magistrada devidamente reconhecida pelo Expresso". Fiquei perplexa quando dei com isto, e estou a tentar perceber o que levou 1. o Expresso a aceitar a publicação sob pseudónimo; 2. a necessidade que a dita magistrada teve em usá-lo.  Perante um texto que não viola de forma alguma o segredo de justiça e sem nada de bombástico, e mesmo considerando a existência de um dever de reserva a que estão obrigados os magistrados, não consigo perceber o anonimato. No mínimo merece ser discutido. 

 

um saloio às voltas

Portugal é um país extraordinário. Não é? Ai é, é. Uma das características desta extraordinarice é a forma como não se consegue resolver um problema simples, nem sequer chegar a quem nos informe sobre como fazê-lo. Não estou a falar do défice, do desemprego, do buraco do BES, do OE. Não. Isso são problemas enormes e profundos que ocupam as mentes da casta  superior que nos governa. Estou a falar de coisas mais pequenas. Tão pequenas que parecem insignificantes. Por exemplo, as ambientais. A forma como envenenamos os nossos solos, os nossos lençóis de água e os nossos recursos hídricos, sempre de sorriso nos lábios e a dizer que Portugal é lindo lindo e um paraíso para turistas, reformados alemães e milionários chineses. Sim, todos nós. Coisas pequenas? Se até vão criar taxas "verdes" e tudo? Estou a brincar, não?

Não, não estou. Problema concreto, comum: qualquer pessoa (por exemplo, eu) pode envernizar uma cadeira, um portão, uma janela, pintar um gradeamento, um móvel, um qualquer objeto. Muito bem. Até há programas televisivos fofinhos sobre o tema e tudo. E no momento em que esses produtos deixam de ser usados? Tintas, vernizes, diluentes? Porque secam, porque se estragam, porque deixam de ter utilidade? Que fazer? Lixo, né? É. Mete-se no caixotinho e lá vai ele, Deus o acompanhe e lhe dê fim feliz, desde que longe da minha vista e da minha casa. E se alguém (eu, por exemplo) pensar duas vezes e decidir que não, que se trata de produtos poluentes que contaminam solos e envenenam águas? Bem, nesse caso, é melhor mesmo rezar. Ou, pelo menos, ter fé. Muita.

Primeiro, liga-se para os serviços  do município. Se há  destinos a dar a lâmpadas, papel, vidro, aparelhos eletrónicos, metal, plástico, porque não a coisas destas que são muito mais perigosas? Ninguém sabe. De lá (ou seja, do SMAS, que acabaram-se os gabinetes de ambiente e as linhas diretas, essas mordomias "do Estado" que consomem os impostos dos contribuintes), parecem supreendidos, esses produtos não constam da "lista". Deixo contacto e aguardo que alguém me ligue para esclarecer o assunto, Pelos vistos, é coisa inédita, os sintrenses - e, presumo, todos os outros - despacham tudo para o lixo ou deixam assim à beirinha dos contentores para "eles" levarem. No dia seguinte, sou contactado. Nada feito, os serviços não estão autorizados a recolher esses resíduos porque "são perigosos". É uma resposta magnífica. E eu, estarei autorizado a fazer o quê? Bom, que fazer, então? Sou aconselhado a consultar o site da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), que "eles têm lá uma lista de empresas onde pode entregar os produtos". Portanto, estamos falados: como são "produtos perigosos" e a Câmara não está autorizada a recolhê-los, cada um livra-se deles à socapa ou, se estiver armado em merdas (eu, por exemplo), que procure onde quiser e, se tiver sucesso, que pegue neles e vá entregá-los lá onde for. Presumo que deva agradecer no fim à tal empresa que faz o frete. Para finalizar a conversa, dizem-me que até a recolha de óleos alimentares usados deixou de ser feita pelos serviços municipalizados, e que agora isso é lá com os hipermercados. Que bela parceria público-privada. Devíamos votar na eleição do chairman do Pingo Doce ou do Continente, concluo. Avancemos.

O site da APA é uma maravilha de informação útil para o cidadão, como se adivinha, cheia de portarias bonitas e siglas fixes (SIAIA, INTERSIG, SILIAMB, SILOGR, SIRAPA, SNIAMB, etc). Ignoro o que sejam, mas fico a saber, por exemplo, isto: "Os utilizadores com enquadramento exclusivamente MIRR deixam de poder usar o SIRAPA". Como não sei sei sou uma coisa ou outra, ligo para lá (3ªs e 5ªs de manhã exclusivamente). Estou mais de meia hora à espera, ninguém atende. Provavelmente precisavam de uma equipa de atendimento e só devem ter um funcionário que tem que fazer tudo mas, como toda a gente sabe, o funcionalismo público tem gente a mais e não produz um sapato que seja para aumentar as nossas exportações e minorar os danos do "viver acima das nossas possibilidades". Já em desespero de causa, ligo para a delegação seguinte, nas Caldas da Rainha. Explico tudo. A senhora que me atende parece surpreendida. Ou nem tanto. Diz que tudo isto compete aos municípios. Pede um momento para "perguntar a um colega". Por fim, vem a resposta: eu que procure no dito site da APA, em "resíduos" ou, melhor ainda, que contacte a "agência de resíduos" X, cujo contacto se preparava para me comunicar, quando protesto a dizer que estou farto de ser chutado de sítio para sítio por uma coisa tão banal e perigosa de cuja responsabilidade toda a gente, desde o cidadão comum às instituições competentes, se descarta. Por fim, o desabafo em jeito de veredito sem apelo nem agravo: "mande um email". É o que farei, com a estranha sensação de "recurso final ao Tribunal Constitucional". Mas, pelo sim, pelo não, vou sentar-me. E rezar para que não se me acabe a paciência e que as latinhas, ali a olhar para mim ao canto enfiadas num saco, não tenham o mesmo fim das suas irmãs por esse país fora.

As torturas da PIDE. A propósito do relatório sobre as torturas da CIA

Ao chegar à Presidência do Conselho de Ministros, em 1932, António de Oliveira Salazar considerou desde logo os «inimigos do Estado Novo» como «inimigos da Nação», contra os quais e ao serviço da qual – «isto é: a ordem, do interesse comum e da justiça para todos» – se podia e devia «usar a força, que realizava, neste caso, a legítima defesa da Pátria». (sublinhado do próprio texto do «Decálogo do Estado Novo»). Ao então jornalista António Ferro, que, nesse mesmo ano, o entrevistou, interrogando-o acerca do que se dizia sobre os maus-tratos exercidos pela polícia política do novo regime, Salazar declarou que se chegara «à conclusão que as pessoas maltratadas eram sempre, ou quase sempre temíveis bombistas, que se recusavam a confessar, apesar de todas as habilidades da Polícia, onde tinham escondido as suas armas criminosas e mortais». Ora, segundo disse o chefe do Estado Novo, «só depois de (a polícia) empregar esses meios violentos, é que eles se decid(iam) a dizer a verdade», pelo que Salazar perguntou ao seu interlocutor, «se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras ...» (Ferro: 1982, 54).

Nesta frase está contido todo um programa, que a Central Intelligence Agency (CIA) também tem utilizado para justificar o injustificável: que a utilização da tortura permite salvar vidas humanas, ao possibilitar captar informações sobre atentados que se iriam reazlizar. Tendo em conta que o Portugal de Salazar e de Caetano era uma ditadura, sem qualquer comparação com regimes democráticos, o que chama desde logo a atenção é o facto de muitas torturas usadas pela PIDE/DGS também o terem sido utilizadas pela CIA recentemente. Por isso, convém revisitar um pouco da nossa história recente. O que aqui apresento foi retirado de dois livros meus, de 2007, A História da PIDE Vítimas de Salazar (co-autoria).

 

A tortura da PVDE/PIDE/DGS

Álvaro Cunhal contou que, da primeira vez em que foi preso, nos anos trinta do século XX, o colocaram, algemado, no meio de uma roda de agentes, onde foi espancado a murro, pontapé, cavalo-marinho e com umas grossas tábuas. Depois, deixaram-no cair, imobilizaram-no no solo, descalçaram-lhe os sapatos e meias e deram-lhe violentas pancadas nas plantas dos pés. Quando o levantaram, obrigaram-no a marchar sobre os pés feridos e inchados, ao mesmo tempo que voltaram a espancá-lo. Isto repetiu-se por numerosas vezes, durante largo tempo, até que perdeu os sentidos, ficando cinco dias sem praticamente dar acordo de si (Arquivo da PIDE/DGS, pr. 15786 SR, Álvaro Cunhal).

 

 

"As Toupeiras" | 25 de Abril de 2014

"AS TOUPEIRAS" - Filme de Claúdia Varejão from AS TOUPEIRAS on Vimeo.