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jugular

Memórias, perceções e factos

Sem Título

A afirmação é de Paulo Portas, já na altura só quem fosse destituído de cérebro acreditaria nela, mas ler isto hoje, um dia depois de ter sido divulgado o estudo da FFMS sobre a desigualdade que teve e tem eco em todos os OCS, acaba por lhe dar ainda mais sabor, e muito amargo. 

«Portugal 2009/2014. Portugal antes e depois do pico da austeridade. Portugal com mais desigualdade e mais pobreza. Tinha de ser, foi a crise? Não: as políticas adotadas não atenuaram, antes agravaram, quer a pobreza, quer a desigualdade. A austeridade silenciosa sobre os pobres arrombou mais do que a que foi gritada pela classe média e pelos mais ricos. É um facto.(...) 

Salvar as finanças de um país não pode ser um salve-se quem puder. Mas foi.

Isto revela a cegueira social da política da troika, que teve consequências ao contrário dos efeitos anunciados. E revela uma posição ideológica falhada (ou, hipótese pior, que teve sucesso). Porque, naquela altura, o discurso político do PSD afirmava ou supunha que os apoios sociais eram em si mesmos negativos porque subsidiavam quem preferia não trabalhar, tornando-se um fardo social financiado pelos impostos dos que trabalhavam. Reduzir os apoios sociais não resultou apenas da menor disponibilidade orçamental, mas também do que os economistas chamam de estímulos e do que nos cafés se chama "vai mas é trabalhar".

Mas como ir trabalhar se trabalho não havia? Mais do que o aumento de desemprego, a diminuição do emprego tornou-se então uma das estatísticas mais brutais da economia.

O custo foi a seletividade social, entre os que pagaram muito mais impostos mas se mantiveram com patamares de rendimento acima da pobreza e dos que os dela desceram. Toda a gente sofreu. Quem sofre mais foram os mais frágeis. A austeridade não foi só bruta, foi à bruta.(..)»

O excerto acima é de Pedro Santos Guerreiro, num texto publicado ontem no Expresso. É de aconselhável leitura e só me merece reparos a parte em que afirma que havia a perceção que era a classe média a mais afetada, falta a parte de auto-crítica, as perceções enganam e todos os dados apontavam, desde sempre, para o efeito brutal das políticas do governo PAF na população mais pobre e desprotegida. 

Um bocadinho de rigor precisa-se e exige-se

Sem Título

A imagem acima foi tirada da última página do Expresso de hoje. Qualquer pessoa que não saiba mais nada sobre o tema tira dali que Moscovci deseja que Portgal tenha os Fundos Estruturais (ou parte deles, vá) suspensos,  e o mais depressa possível. Vai-se ver o que o homem disse e, afinal, não é bem, ou de too, assim.

"Nous souhaitons que le dialogue structuré prévu avec le Parlement Européen intervienne le plus rapidement possible. Nous n'avons pas de temps à perdre.", ou seja quer que o processo seja o mais célere possível, mas nada indica que defenda uma suspensão dos Fundos (eu diria que as declarações recentes indiciam mesmo o contrário). 

Não tenho um prazer especial em ser chata, mas isto irrita e é, chamemos os bois pelos nomes, desinformação (o efeito é esse, ponto, podendo ou não ser o pretendido).Desinformação essa que tem reinado em matéria de política europeia neste último ano, diga-se. 

"Não transformem os direitos humanos em língua de pau" - José Pedro Monteiro

Este texto do André Freire e da Liliana Reis tem várias coisas que me incomodam. Mas fico-me por esta parte. 
A forma como o problema dos direitos humanos é tratado de forma a-histórica e a-política contamina o resto do debate.

 

Sem título

 


Há várias coisas que são problemáticas, desde logo a ideia de que os direitos humanos decorrem das duas revoluções liberais "naturalmente". Há demasiada gente que já mostrou como essa teleologia é falaciosa: basta atentar na forma como os direitos inaugurados por essas duas revoluções foram aplicados de forma restritiva por mais de um século. Mais, como no seu imediato decurso (das revoluções) houve a necessidade de clarificar e delimitar a quem os direitos políticos e civis se aplicavam. Os direitos humanos como os conhecemos, isto é, verdadeiramente universais e passíveis de serem invocados apesar do Estado, são filhos do século XX e da sua história particular (havendo vários debates sobre o momento da sua fundação dentro desse século). São filhos das duas guerras mundiais (ainda que essa maternidade decorra de forma diferenciada), do descontentamento generalizado com o direito de protecção de minorias do entre-guerras, de vários movimentos de protesto de base racial ou de género, pela universalização normativa do estado-nação como resultado dos processos de descolonização. Basta atentar na frequência do uso comum, e mesmo académico e político, da expressão por comparação com tempos mais recuados. Direitos naturais, direitos de cidadania, direitos do homem são conceitos diferentes e usados em contextos substancialmente diferentes. Veja-se o que têm escrito Samuel Moyn e uma série de outros autores no blog da revista Humanity. Mais poderia dizer-se sobre uma essência ocidental dos direitos humanos. Não só é difícil pensar a sua história sem a constante participação de actores de outras geografias (tanto enquanto objectos como sujeitos deste debate) como a afirmação, podendo servir para nos encher de orgulho, é a estocada final na desejada universalidade de uma linguagem dos direitos humanos. 

 

O segundo problema, que decorre deste, e que também não é pacífico, é esta distinção entre direitos individuais e colectivos. A necessidade permanente de criar antinomias sem atentar nas suas origens históricas. As dicotomias entre individual e colectivo, entre direito positivo e negativo, a aparente incompatibilidade e jogo de soma nula entre igualdade e liberdade não são naturais, são também elas construídas sobre um terreno histórico e político específico. Neste caso em particular, alimentadas (não criadas) intensamente pelo maniqueísmo da guerra-fria.  Mas basta olhar para a declaração para perceber que esta distinção entre liberalismo e marxismo colectivista é absurda. A própria carta mistura direitos colectivos e individuais: por exemplo, a carta diz que "a vontade do povo é o fundamento das autoridades públicas". Será isto um direito individual? Ou o direito a segurança social? E que dizer do convénio de 1966 sobre direitos económicos, sociais e culturais que ainda hoje vigora, não obstante a derrocada da União Soviética? O direito à auto-determinação é um direito humano ou não? Nenhuma destas respostas é pacífica, nem no presente nem no passado. Basta ver a quantidade de historiadores que ainda hoje debate se a época dos direitos humanos começou em 1948 ou nos anos 70, com fortes argumentos de ambos os lados.

 

O problema aqui é que esta passagem é uma investida retórica que pretende rasurar a natureza conflitual de um programa dos direitos humanos. Por ser um programa "mínimo" a que muitos aspiramos, e daí a sua força, como qualquer lista de direitos, é sujeito a opções, debates e liças que não podem ser subjugados a uma “razão” universal (aliás, como sempre sucedeu desde 1948). É vítima de processos de integração ou exclusão de sujeitos ou prioridades. Os autores podem achar que o direito da mulher não ser subjugado é mais relevante que o direito à liberdade religiosa (e, acrescentaria, ao direito de uma pessoa se vestir como quiser). Mas é disso que se trata, da sua opinião dentro de um espaço conflitual onde quem acha o contrário não está a negar o valor dos direitos humanos. E eles próprios acabam por o admitir. Bastante mais problemático, parece-me, é como alguém que pretende defender direitos "individuais" pode achar que a vontade expressa de alguém pode ser derrogada por uma interpretação (De quem? Por quem? Com que limites?) das grandes forças sociais que determinam o seu comportamento. Se fosse mauzinho, diria que isso, sim, é bastante soviético.

 

 José Pedro Monteiro (escriba convidado)

inclusão e exclusão simultâneas

Sempre tive uma vaga sensação de que, à medida que eliminamos barreiras e preconceitos, encontramos sempre novas formas de criar linhas de demarcação ou de reinventar formas de discriminação. As motivações é que diferem. Estou a falar em termos sociais e, mais concretamente, no quotidiano do espaço público. Ontem deparei-me com um exemplo interessante.

A Praia das Maçãs é uma localidade, mas também, e naturamente, uma praia. Estreita. Noutros tempos, havia espetáculo dia-sim-dia-não com pessoas que não respeitavam a cor da bandeira (invariavelmente amarela, à cautela) e faziam ouvidos moucos - por negligência pura ou por bravata - aos avisos dos nadadores-salvadores e que se embrenhavam demasiado nas águas revoltas do Atlântico, nadando para "fora de pé". Depois não conseguiam regressar e era sempre um drama. Lembro-me de vários episódios, alguns com desfecho trágico. Nessa altura, os ditos nadadores-salvadores (que eram então sempre tratados pelo nome arcaico de "banheiros") desdobravam-se em cautelas para minimizar problemas: havia uma "zona de banhos" (as placas que lá estão ainda são as mesmas), no centro da praia, e duas "zonas perigosas", nas margens, para evitar arrastamentos para as rochas. E quando a maré subia ou havia alteração da ondulação, lá vinha o apito de aviso. Ou vários, porque gente teimosa e negligente sempre houve. De maneira que sempre me habituei a reagir com alarme ao "apito". Era sinal de perigo potencial para alguém.

Os tempos mudam. Ontem à tarde, os "banheiros" apitaram muitas vezes. Mas não era sinal de perigo. Pelo menos, do perigo que eu imaginava. Era outra coisa: sensivelmente metade da praia (logo, "metade do mar") está reservado ou indicado como de "prática de surf", demarcado com umas bandeiras verdes ("SolFun", uma empresa de surf local). Logo, e como eram 5 da tarde e hora de aula, era preciso arranjar espaço para a dita. Consequentemente, apitou-se furiosamente para desviar os banhistas para a direita, que ficaram acantonados numa estreita faixa de mar. As velhas placas de "zona de banhos" não distavam entre si mais de uns 20 m. O resto é "zona de surf". Numa Praia Grande há espaço para todos. Ali, é constrangedor. Valeu o facto de ser sábado, estar vento e o número de banhistas ser relativamente reduzido. Escusado será dizer que o pouco espaço livre e sobrante do areal estava devidamente ocupado por futebolistas de ocasião, porque essa é uma praga velha a que ninguém liga e que a ninguém parece incomodar (exceto a mim, e há muito tempo).

Provavelmente a escola de surf paga para fazer tal uso e usufruir de tal exclusividade, comparticipa nas despesas de manutenção ou limpeza da praia ou sustenta os salários dos "banheiros", à semelhança do concessionário. Sem ela, possivelmente, a praia não disporia das boas condições que possui hoje, entre acessos, higiene e duches. Não sei. Sei é que, em simultâneo, está anunciado que se trata de uma "Praia Acessível" (como a da Adraga), ou seja, dispõe de acessos e de equipamentos para pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida. Pessoas que há 30 anos não tinham tal possibilidade. A praia da Praia das Maçãs é hoje, portanto, e simultaneamente, uma praia mais igualitária e mais discriminatória, mais pública e mais privada, mais inclusiva e mais exclusiva.

P.S. e fui novamente ao Alto da Vigia espreitar o templo romano e o ribat. Não fiquei nada tranquilo, pela quantidade de gente que por lá andava a tirar selfies  no meio das ruínas e com o oceano como pano de fundo. Não sei o que está previsto fazer para proteção do local, mas temo o pior num futuro não muito distante.

entusiasmos juvenis

Conheço a Praia das Maçãs desde os 10 anos. Passei lá praticamente todas as férias durante um quarto de século. Vivi num local a poucos metros (sim, poucos, para não dizer "mesmo ao lado") de uma "coisa" que então ninguém por ali sabia o que era ("um cemitério medieval" era a versão mais comum) e que é uma necrópole pré-histórica, com vários horizontes (o mais antigo pode remontar aos inícios do 4º milénio a.C.). Mas algo mais misterioso despertou a minha atenção mais recentemente (digamos, há uns 20 anos), ao ler "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa", de Francisco de Holanda: conta o autor que o infante D. Luís (irmão de D. João III) mandou-o chamar a Lisboa e ambos visitaram a serra de Sintra, tendo chegado a um "pequeno outeiro" "junto à foz do rio de Colares", onde estava "um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado". E junta um desenho. Nas notas da edição que li (Liv. Horizonte, 1984) estão transcritas impressões de Jorge Segurado, de 1970, que transcreve registos posteriores e dão conta de nada existir no local (pp. 90-92).

Andei, durante muito tempo, a congeminar ideias sobre a incógnita: localização errada e imaginação fértil do autor eram as mais comuns. Foi-me sugerida a hipótese de o terramoto de 1755 ter causado danos na região ou alterado a configuração da costa por ali. A imagem do círculo com 12 cepos pode ser vista em gravuras de Sintra do século XIX, "tiradas do natural", que faziam certamente eco difuso daquela imagem. Uma visita ao Museu de Odrinhas, há uns 10 anos, aquando de uma sessão de "reconstituição histórica" avivou-me o interesse, mas as conversas que tive com funcionários foram inconclusivas: havia vestígios e suspeitas, mas nada de concreto se sabia.

Subitamente, há uma semana, deparei com isto. Fui lá de imediato, na sexta feira passada, no final de uma tarde de praia. Lá está ele. Felizmente que o acesso pela praia não é muito fácil, porque tremo de pensar no que aconteceria se o fosse.

Fotografia0955.jpg

Depois, verifiquei que já fora noticiado na imprensa, há quase 2 anos, e que os trabalhos arqueológicos iniciaram-se há 8, depois de cinco séculos de esquecimento. E que há informação disponível na página do mesmo museu e, até, na Wikipedia. Como se pode viver tanto tempo na ignorância, dispondo de internet e de informação abundante que nos cai em catadupa a toda a hora, não é?

Trata-se de um templo romano do séc. II, com utilização islâmica posterior. Senti um entusiasmo juvenil, ampliado por várias informações complementares. Não era um templo qualquer, mas algo reservado a altas figuras do império romano, o que comprova a importância do local em termos ideológicos e, por consequência, materiais: era o local destinado a celebrar a união da terra (a Serra de Sintra) com o oceano, o Sol e a Lua, ligando, portanto, os cultos locais com a divindade do imperador e o equilíbrio do império. Mais, deduzo que as informações reproduzidas pelos autores clássicos sobre os cultos lunares, o "monte da Lua" e o extremo ocidental da Europa não se referem ao Cabo da Roca (que se vê dali), mas a este promontório, que os romanos reaproveitaram e integraram no seu próprio culto imperial. O responsável pelas escavações, Cardim Ribeiro, afirma que o corpo principal do templo ainda não foi escavado e deverá estar localizado nas imediações. Isto faz-me imaginar o que estará ainda por descobrir. E a importância este local terá tido ao longo de séculos. E aguardo, com expectativa, os desenvolvimentos, esperando cinicamente que o futuro lhe reserve uma sorte diversa da necrópole ao lado da qual vivi durante décadas, onde cheguei a ver motas aos saltos e que hoje está afogada em vivendas geminadas de uso turístico e sazonal. É que, se é para sorte equivalente, melhor será remeter-se ao esquecimento durante mais meio milénio. 

15 de agosto

Pergunta singela: alguém sabe a razão por que é hoje feriado? Ou, ao menos, que feriado é? Eu relembro: 15 de agosto, Assunção de Nossa Senhora. Gostava de, um dia, ter estatísticas não-vale-olhar-para-o-calendário. Apesar do fortíssimo - para não dizer invencível - conservadorismo nacional sobre tudo o que envolve "feriados" (fazendo convergir Igreja, PCP, esquerda, direita, funcionários públicos, católicos, ateus, sindicalistas e simples "homem da rua"), acredito que não serão muitos os que saberão exatamente do que se trata. A razão do feriado. Não interessa muito, pois não?

Interessa, sim. Não é um feriado religioso qualquer. Não envolve os fundamentos do cristianismo (como o nascimento, a paixão ou a ressurreição de Cristo) , é apenas uma festa religiosa baseada numa tradição apócrifa, sem base bíblica, segundo a qual Maria ascendeu aos céus após a sua morte. E é feriado porquê? Porque, em 1950, o papa Pio XII transformou-a em dogma da Igreja Católica, tornando-a, assim, indiscutível, segundo os preceitos da infalibilidade papal decretada pelo Concílio Vaticano I (em 1870). E o que dizem estes? Que o papa, quando emite juízos ex cathedra (ou seja, "na cadeira" de S. Pedro), está isento de erro, porque é guiado diretamente pelo Espírito Santo. Infalível, portanto. Isto não pode ser discutido: é um dogma. Sabem quantas vezes foi invocada a infalibilidade papal, desde essa data (excluindo processos de canonização)? Uma. Exato, essa. 

Não tenho preconceitos anti-católicos que me levem a não aceitar um feriado de base religiosa. Mas já os tenho quando a única coisa que o justifica é um dogma suportado por outro dogma.

Esta caiu-me hoje no regaço porque estou a ler uma obra de um teólogo católico, de seu nome Hans Kung, que apelou recentemente ao atual papa para rever o dogma da infalibilidade e que personifica o ecumenismo e o diálogo entre religiões (e civilizações), talvez a última esperança de renovação de uma Igreja bloqueada. E sim, a obra é "Islão - Passado, Presente e Futuro", que deveria ser de leitura obrígatória para fazer uma barrela  à ignorância das tantas centenas de pseudoespecialistas em islão que todos os dias mandam bitaites de bancada sobre o assunto na imprensa portuguesa. Este, por exemplo.

bom, enough is enough: a maria joão marques, colunista do observador e blogger do insurgente, está a mentir. e é doida varrida

repetindo-me

a pessoa que em 2008 escreveu que um perfil feito por mim do então novo ministro da cultura josé antónio pinto ribeiro, fundado em opiniões - laudatórias, é certo -- de socráticos tão notórios como antónio barreto, francisco teixeira da mota, luisa schmidt e nuno artur silva fora encomendado pelo gabinete do então primeiro ministro;

 

a pessoa que, por mim publicamente avisada sobre a existência de legislação sobre difamação, ameaçou revelar factos da minha intimidade para me demover de uma possível acção;

 

a pessoa que a seguir, ante o público e generalizado repúdio (que incluiu até várias pessoas da sua área política, como antónio nogueira leite) que a sua conduta suscitou, retirou a primeira afirmação e pediu desculpas públicas pela ameaça;

 

a pessoa que tentou assarapantadamente apagar a evidência de tudo isso

 

veio agora insinuar que lhe tentei pôr um processo e depois desisti -- insinuar, porque não se atreve sequer a afirmá-lo, escaldada que está com a possibilidade de ser chamada à responsabilidade pelas afirmações que faz. aliás, nem o meu nome teve coragem de colocar no post onde tal insinua (diz para adivinharem quem foi o autor da queixa) e 'não se lembra' do motivo da dita. 

 

essa pessoa, de nome maria joão marques, colunista do observador e blogger do insurgente, está obviamente nisto como em tudo o resto antes elencado a mentir. custa a perceber porque insiste em fazê-lo quando as provas de que mente estão tão disponíveis, pelo que parece evidente estar-se perante um caso clínico. o que, não diminuindo o nojo, dá uns resquícios de pena. oxalá alguém possa ajudá-la, se não a tornar-se uma pessoa decente, pelo menos a evitar dar espectáculo público e renitente da sua mitomania em último grau e demais deficiências de carácter. 

 

apre.

 

 

 

 

post it higiénico

a criatura colunista do observador citada no post abaixo resolveu hoje, no blogue onde escreve e no meio do habitual chorrilho de elevações, negar um episódio público e publicado, chegando mesmo ao ponto de escrever (perdoem-me não lincar, é que infecta) que na sequência do mesmo teria sido eu a 'sair de fininho.'

percebo -- e antecipava, de resto -- o gesto desesperado. sabendo que há muita gente que se lembra do caso, aposta no desconhecimento dos que nunca dele ouviram falar e tenta limpar-se ante as suas tropas, prontas a acreditar em todas as aleivosidades do 'outro campo' e na pureza sem mácula dos 'seus'. mas sendo certo que escreveu o arrazoado após tentar livrar-se das provas (posts e comentários apagados à stalin, etc -- chato que a web não perdoa e guarda tudo) no seu então blogue, azar,  ficou o seu pedido de desculpas aqui no jugular (que reproduzo abaixo) mais uns 81 comentários a debater o assunto. 

como era já então mais que óbvio, pediu desculpas por aflição, conselho jurídico e medo, não por realmente reconhecer aquilo que lhe é de todo impossível pela absoluta deficiência de carácter. aplaude-se pois que exiba passados oito anos o esplendor de sonsice e cobardia com que então se quis fazer perdoar, mais a desfaçatez na mentira.

 

enfim. nem 20 mil idas a fátima limpam toda esta porcaria.

 

aqui fica, para a posteridade e para quem não tem paciência para abrir links:

Maria Marques 09.02.2008 22:57

 

Cara Fernanda, Hoje a meio da tarde (só escrevo agora por dificuldades operativas) passou-me a irritação de ontem e caí em mim e percebi o feio que foram estas minhas palavras de ameaça de revelar "coisas" sobre a FC. Peço-lhe desculpa e pode acreditar que estou profundamente envergonhada comigo por me ter saltado a tampa desta forma. Nunca fiz alusões à sua vida privada (de coisas soltas que a P. de vez em quando comenta quando falamos de vizinhos) e não o farei agora. Caso haja processo, serão levantadas as questões pertinentes à minha defesa nas instâncias próprias e não no Farmácia ou na comunicação social.

nota: a pessoa que em 2008 escreveu que um perfil feito por mim do então novo ministro da cultura josé antónio pinto ribeiro, fundado em opiniões - laudatórias, é certo -- de socráticos tão notórios como antónio barreto, francisco teixeira da mota, luisa schmidt e nuno artur silva fora encomendado pelo gabinete do então primeiro ministro; a pessoa que, por mim publicameente avisada sobre a existência de legislação sobre difamação, ameaçou revelar factos da minha intimidade para me demover de uma possível acção; a pessoa que a seguir, ante o público e generalizado repúdio que a sua conduta suscitou, retirou a primeira afirmação e pediu desculpas públicas pela ameaça; a pessoa que tentou assarapantadamente apagar a evidência de tudo isso, veio agora insinuar que lhe tentei pôr um processo e depois desisti -- insinuar, porque não se atreve sequer a afirmá-lo, escaldada que está com a possibilidade de ser chamada à responsabilidade pelas afirmações que faz.

creio ser evidente que se está perante um caso clínico, o que, não diminuindo o nojo, dá uns resquícios de pena.  

 

as marias joões marques, o daesh, o padre degolado, a esquerda e a minha culpa

desde que a pessoa que dá pelo nome de maria joão marques ameaçou revelar pormenores da minha vida privada que lhe teriam chegado por uma vizinha minha que decidira, num acto de pura higiene, nunca mais tomar conhecimento da existência da dita, por mais que esta, demonstrando uma renitente fixação em mim, me mencionasse nos seus prolixos escritos, agora difundidos no observador.

mas hoje fizeram-me chegar um seu texto no dito jornal digital em que a criatura escreve isto:

'Já Fernanda Câncio, que funciona como uma espécie de definidora de tendências da esquerda socialista (por quem é absolutamente reverenciada, talvez pela sua destemida defesa das mais absurdas e ruinosas políticas socráticas), reagiu. Dizendo no twitter que uma notícia, dando conta do reconhecimento de que os atacantes de Rouen eram tropa do ISIS, era ‘fazer a propaganda do Daesh’. Como se trata de uma jornalista – pelo que se pode presumir que vê como um bem as populações estarem informadas do que de relevante se passa no país e no mundo – que, tanto quanto sei, não sugeriu a sonegação de informações sobre os atentados de Orlando, Nice, Paris ou Bruxelas, ficamos desconfiados que o desconforto repentino com as notícias da brutalidade do ISIS se deve à qualidade de religioso católico do degolado e não à seita de assassinos islâmicos.'

dou de barato que a capacidade neuronal da autora não lhe permita perceber que o intuito do daesh é apresentar-se como omnipresente e omnipotente inimigo global usando o sistema mediático das sociedades ocidentais e a respectiva histeria noticiosa como veículo de propaganda -- no que está a ser, como terá previsto, incrivelmente bem sucedido. e que a supracitada debilidade aliada à ignorância e sobretudo ao intuito demagógico a impeçam de reflectir sobre a forma como a propagação acéfala do poderio do daesh está a contribuir para esse mesmo poderio e para contaminar cada vez mais gente e alimentar cada vez mais imitações dos actos de terror. e decerto não vou perder tempo com a caracterização que é feita sobre mim. 

mas escrever, num texto intitulado '(des)culpa ateia', 'que, tanto quanto sei, [fernanda câncio] não sugeriu a sonegação de informações sobre os atentados de Orlando, Nice, Paris ou Bruxelas, ficamos desconfiados que o desconforto repentino com as notícias da brutalidade do ISIS se deve à qualidade de religioso católico do degolado e não à seita de assassinos islâmicos' ultrapassa aquilo que estou preparada para aturar em silêncio. esta imputação de que eu estaria 'desconfortável' com o facto de ser noticiado que um padre foi degolado pelo daesh e que seria esse desconforto a levar-me a reflectir sobre o modo como se tem reagido no ocidente aos ataques é tão repelentemente abjecta que não pode passar em claro.

desde logo, o que não surpreende dados os antecedentes da pessoa, maria joão marques mente. basta procurar, e nem sequer muito, no meu twitter -- que é público e portanto de acesso universal -- para encontrar tuites anteriores sobre as minhas reservas à atribuição instantânea de actos de terror ao daesh (o que, obviamente, não é o mesmo que 'sonegar informações'). e não dá trabalho nenhum, é só chegar ao twitter e fazer busca por 'fcancio+daesh'. acresce um pormenor delicioso, que aliás explica que maria joão marques não tenha querido lincar o tuite que refere: trata-se de um retuite meu de uma notícia sobre o discurso de hollande, ou seja, de uma crítica minha, aliás não a primeira, à forma como o presidente francês, que recordo aos distraídos ser do partido socialista, tem mordido o anzol em matéria de ataques de terror.

a maria joão marques, naturalmente, não lhe interessam minimamente  estes 'pormenores', ou o que seja a verdade (aliás, em eco de pilatos, perguntará: 'o que raio é a verdade e de que é que isso me serve?'); só uma coisa a anima neste texto como na generalidade do que escreve: ódio. 

para maria joão marques, como para tanta gente como ela, os actos de terror que se têm sucedido e este acto em particular, por ter um padre como vítima e uma igreja católica como palco, são oportunidades para atacar aquilo a que ela chama 'a esquerda', 'os ateus', 'os jacobinos' e, como se constata, esta vossa criada que tanto lhe inflama as meninges. a ideia é simples e nada original (é ver a linha trump-le pen): usar o daesh e o medo como trampolins para avançar nos seus propósitos políticos, tentando apresentar 'a esquerda' como culpada/cúmplice/comprometida/amedrontada do e com o terrorismo dito islâmico e apontando qualquer apelo à reflexão e à moderação das simplificações como 'pusilânime' e 'tentativa de escamotear a gravidade da ameaça'.

tudo isto seria apenas tristemente cómico não fosse dar-se o caso de estarmos a falar da morte de pessoas, e de uma organização que claramente visa provocar nem mais nem menos que estas reacções; se não fosse este discurso odiento, que encontramos por exemplo, et pour cause, na retórica de um breivik, que melhor se adequa aos propósitos de daeshs e al qaedas. 

em vez de olhar para a morte deste padre como uma evidência, face à identidade de todas as outras vítimas reivindicadas pelo daesh, de que toda a gente -- incluindo muçulmanos, de longe o grupo com maior número de mortos e feridos causados pelos ataques da organização -- é alvo, as marias joões marques gritam estridentes 'olha um padre morto e a esquerda não diz nada.' 

como todos os que dizem e escrevem o que ela diz e escreve, e que saltam a qualquer notícia sobre ataques violentos com o daesh na boca, maria joão marques faz, com indisfarçável orgulho, parte da primeira linha de propaganda do auto-denominado estado islâmico -- os idiotas mais idiotas da utilidade mais tenebrosa. a utilidade que começa por fazer das pessoas 'tipos' e 'categorias', que é o mesmo que fazer delas coisas. que, como no texto de maria joão marques, nega ao homem assassinado até o seu nome, para o reduzir a uma função simbólica, a de servir de munição para atacar 'a esquerda'.

a pessoa que foi assassinada em rouen tem nome: jacques hamel. as notícias e perfis dizem que era um homem de paz, e que se interessava por promover o diálogo - entre religiões, nomeadamente com a islâmica, e entre as pessoas em geral. estou em crer que ficaria muito triste se soubesse que a sua morte é usada em discursos de ódio como o da auto-denominada cristã maria joão marques, instrumento simbólico na sua pena como o foi na faca dos seus matadores. 

mas isto sou eu, ateia de esquerda, a dizer. se calhar sou culpada de ter como único sagrado as pessoas e a vida e de me meter muito asco a instrumentalização do terror e da morte para atacar adversários políticos. 

 

 

 

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