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jugular

Descubra as diferenças (final)

W. Clode, médico contemporâneo de Gentil Martins, publicou na Revista da Ordem dos Médicos (ROM) um artigo onde comparou a homossexualidade ao daltonismo. Reagi assim, na ROM, pedindo responsabilidades à publicação médica - não se tratava de um órgão de comunicação social generalista, Clode não estava a dar uma entrevista de vida, no IPO, Clode não era um decano da medicina nacional. Mais, Clode não era reincidente.

 

Quanto a Gentil Martins, aqui decidi não tomar conhecimento e aqui optei pela ridicularização. Desta vez, porque achei que os dislates clínicos e deontológicos já ultrapassavam o razoável, pelo conjunto de razões que já aqui referi e porque me pareceu que a convicção de impunidade era absoluta e insustentável, mal li a sua entrevista ao Expresso da semana passada pedi a atenção da OM e em especial  do bastonário ("linquei" Miguel Guimarães num post que coloquei num grupo fechado a médicos, no FB). Nada que a OM não tivesse feito recentemente com outros clínicos – aqui e aqui, por exemplo.

 

PS:Já tendo apelado à deontologia de outras classes profissionais, e à sua Ordem, estranho seria não o fazer agora, a bem da minha coerência.

Descubra as diferenças (I)

"Ana", 14 anos, morreu em 2005 por complicações de um aborto provocado sem acompanhamento clínico.

 

"O que é a morte de uma mulher comparada com a morte de 20.000 crianças", comentou Gentil Martins num debate público sobre o Referendo em 2007, enquanto apoiante do "Não".

 

Isto, que é uma barbaridade, é uma opinião - uma opinião bárbara, no meu "barbaritómetro" a maior que o senhor já disse, mas uma opinião. Não lhe pedi justificações deontológicas, não tinha de pedir.

Que triste, que grave.

Que triste é ver um médico que não sabe que uma entidade nosológica se sustenta na semiologia médica, que para definir uma doença (ou perturbação) é necessário existir uma hipótese etiopatogénica, uma clínica, um curso, um prognóstico e uma proposta de abordagem terapêutica, que a Organização Mundial de Saúde tem um instrumento, que revê amiúde, chamado International Classification of Diseases (ICD) que abarca todas as especialidades médicas, nas quais se inclui a Psiquiatria. Que triste é a ignorância, que grave é a ignorância clínica num médico e a sua terrível contribuição para a tão desejável literacia em Saúde.

 

PS1: o português também não é o seu forte, eu ajudo. A frase foi "Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la" (à pessoa, no contexto desta frase).

 

PS2: obrigada pelo cumprimento do formalismo, sendo docente académica não sou doutorada e, portanto, sou professora mas não Professora. Tenha havido pelo menos alguma réstia de honestidade e de verdade em toda a sua prosa, Sr Dr. Luís Carvalho Rodrigues.

"gentilmartinização e preconceito", um texto do Alexandre Camões Barbosa

Certa manhã, Gregor Samsa acordou de sonhos inquietos e deparou-se na sua cama metamorfoseado em Gentil Martins.

 

Há muitos que acham que o Dr. Gentil Martins "apenas" expressou uma opinião, que não reflecte a sua posição enquanto médico.

 

Vejamos, exactamente, qual a declaração:

"Não vou tratar mal uma pessoa porque é homossexual, mas não aceito promovê-la. Se me perguntam se é correto? Acho que não. É uma anomalia, é um desvio da personalidade."

 

Isto trata-se, vá, para efeitos de argumentação, de uma "opinião", proferida por alguém, que é um médico reconhecido, num dos jornais de maior tiragem de Portugal.

 

No entanto, se substituirmos exclusivamente a palavra "homossexual" por "mulher" ou "preto" ou "cigano" ou "católico" ou "judeu", não alterando substancialmente a afirmação, mas apenas o sujeito da apreciação, parece que já temos um crime público, a julgar pela leitura do artigo 240 do Código Penal.

 

Quer dizer, seria crime, não se fosse dita à mesa da taberna, mas expressada por exemplo, vá, num dos jornais de maior tir... ah!

 

Por acaso, aquele mesmo artigo que torna crime a divulgação pública de "opiniões" daqueloutro teor, também consagra a protecção da orientação sexual, ao criminalizar a incitação ao ódio e à violência que a tenha por base.

 

Chegamos a um ponto, parece, em que a mesma afirmação pode ser condenada pelos nossos colegas apologistas do "direito à opinião" se tiver umas palavras, mas não outras, embora à luz da CP isso não seja bem assim.

 

Portanto, parece que a justificação para a não condenação das afirmações públicas do Dr. Gentil Martins se fundamentam, aparentemente, em duas ordens de razões.

 

Primeira, porque é o Dr. Gentil Martins, porque tem 87 anos, porque ganhou estatuto de senioridade, e aparentemente isso torna-o impune aos olhos da lei - portanto, o professor está acima da lei...

 

Segundo, porque se trata da homossexualidade, esse alvo fácil, e a nossa mentalidade colectiva machista ainda não absorveu que a discriminação com base na orientação sexual é tão grave como a discriminação com base na raça, no sexo, na etnia e na religião. E, se este ponto é verdade, então trata-se, verdadeiramente, de um "estupor moral", para usar a própria expressão do professor.

 

Ambos os motivos são, obviamente, inválidos.

 

Por outro lado, do ponto de vista deontológico, o médico não passa a ser "pessoa privada" quando quer, como se tivesse um botão "on-off", quando fala publicamente. O Dr. Gentil Martins foi entrevistado enquanto médico, não enquanto "pessoa privada", apesar da "magnanimidade" que mostrou ao informar que tratou e trata homossexuais "como outra pessoa qualquer".

 

Portanto, quando fala publicamente é reconhecido como médico, e, por isso mesmo, interpretado pelo leitor como médico.

 

Que se saiba, o Dr. Gentil Martins não tem uma metade de cérebro médica e outra metade "privada", ou uma personalidade Dr. Jekyll e outra Mr. Hyde. Por muito que se queira separar as coisas, quando fala, fala pelos dois. E responde pelo dois.

 

Existe um corpo de conhecimento na Medicina, que vai evoluindo ao longo dos séculos e que é independente da nossa opinião.

 

A preocupação relacionada com a correcta aplicação prática desse corpo constitui a Deontologia. É nosso dever deontológico respeitá-lo e veiculá-lo publicamente.

 

Quando o Dr. Gentil Martins faz afirmações contrárias ao estado da Medicina actual, na qual a homossexualidade é entendida como uma variante normal das orientações sexuais, incorre numa falha deontológica, para além de poder incorrer num crime público de incitação ao ódio, como se viu.

 

Pedia-se que, no alto da sua senioridade, o Dr. Gentil Martins já tivesse percebido que quando se manifesta em público devia moderar o que diz e como diz.

 

Pois as consequências estão à vista e bem presentes neste fórum: agitação social, discriminação disfarçada de "opinião" e, esse sim, estupor moral e deontológico.

 

Ah! e uma horda de fariseus que rasgam as vestes pelo "direito à opinião", sem perceberem que estão na verdade a propalar o direito ao crime.

 

Alexandre Camões Barbosa, médico

75 anos de Vel d'Hiv

Quando, em abril deste ano,  Vel d'Hiv entrou na campanha eleitoral para as presidenciais escrevi no meu facebook introduzindo o descurso de Chirac em 95,

 

«Não é preciso ter vivido em França para se ter a noção da forma complicada como a memória coletiva do país lida com a 2ª guerra. Gostam de se imaginar como uma "nação de resistentes" e, por isso mesmo, o Vel d'Hiv é talvez aquilo que mais lhe fratura a narrativa heróica. 

É muito interessante observar a forma como, no discurso polítco, se lidou com os acontecimentos de 16 de julho de 1942. Durante muito tempo não se falou do tema. De Gaulle, mais tarde reforçado por Miterrand, "resolveu" o assunto considerando que era responsabilidade do regime de Vichy e que este não representava verdadeiramente a França. Só em meados da década de 90 e pela mão de Chirac se muda de agulha e se assume que França é responsável (com uma pequena nuance muito interessante, é ao "estado francês" e "a franceses"e não a "França" e "aos franceses" que são imputadas responsabilidades). 
O discurso de Chirac nessa altura é muito interessante, tem tudo aquilo que é mito nacional - a pátria dos direitos humanos, etc, etc, insistindo na ideia de poucos franceses colaboracionistas - mas, pronto, há uma rutura clara com a forma oficial com que se lidava com aquela dolorosa memória (não por acaso, um dos que mais esperneou com isto foi Le Pen pai). Ah! Pormenor não irrelevante, o discurso de Chirac que fez a diferença aconteceu durante a guerra da ex-Jugoslávia.»

 

 

Hoje apetece-me mostrar Miterrand, é o exemplo perfeito de uma certa estratégia - "escapista"? - de lidar com a "memória nacional".E esta estratégia lembra-me tanto acontecimentos recentes em Portugal.

 

Adenda: o testemunho de Arlette Testyler, uma das crianças sobreviventes "On a été arrêtées à 5 heures du matin, on est venu nous chercher comme si on était des criminelles, c’était très bien organisé, très bien orchestré."

 

Adenda 2: Já depois de ter escrito este post Macron falou nas cerimónias do 75º aniversário e acabou de fechar o círculo, é a primeira vez que um presidente fala em "a França". 

Sem Título

 

Gentil Martins cometeu vários e diferentes erros deontológicos graves

Aqui, nesta entrevista.

 

- Como escreveu a Manuela Correia "as suas declarações não são baseadas no conhecimento, revelando mesmo "erros crassos"
1 - À luz do conhecimento actual a homossexualidade não é uma doença psiquiátrica. 
2 - A homossexualidade como "desvio da personalidade" é mais grave. É um erro científico."

 

Não, meu senhores, não estamos só no domínio da opinião a que o sujeito tem direito. Como diz o Tiago Moreira Ramalho "Um médico "reputado" expõe, nessa qualidade e no principal seminário do país, que a homossexualidade é uma "anomalia" e toda a gente tem de aceitar a bojarda como límpida e válida manifestação da sua "liberdade de expressão". Diagnostica, porque é essa a palavra sendo ele médico, como "doente" uma população inteira, que morre ainda em genocídios organizados no ano da graça de 2017, e temos todos de "dialogar" com ele. Aceitá-lo como ele é, porque, calhando, já nasceu assim, ou alguma experiência traumática assim o deixou. Anomalia é isto. Não há credo, nem oração que cure. E eu, ainda que novo, já não tenho idade (nunca ninguém a tem) para acomodar esta corte bárbara."

 

- Afirma, a dado passo, "não aceito promover um homossexual". Este homem foi, seguramente, júri de inúmeros concursos médicos ao longo da vida, este homem foi bastonário. É licito perguntar, depois de uma declaração destas, quantos colegas meus, homossexuais, não terá prejudicado em termos de carreira.

 

Sobre "Relações entre médicos" está escrito no artigo 107º do Código Deontológico "1 — Constitui dever dos médicos, nas suas relações recíprocas, proceder com a maior correção e urbanidade.
2 — Todos os médicos têm direito a ser tratados com respeito e consideração pelos seus colegas, sem discriminação ou perseguição, nomeadamente com base na ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, diferenciação, situação económica, condição social ou orientação sexual.".

 

- Fala especificamente de CR e da sua família, tece considerações sobre a mãe na sua qualidade de médico - escolheu ser entrevistado no IPO e não no recato da sua casa, é significativo -, onde está o dever de sigilo e contenção? A referência ao CR e à sua família configura uma interferência pública num caso específico. Um médico não tem esse direito. E se eu, de repente e enquanto clínica, desatasse a comentar a vida particular e familiar de Gentil Martins? E se eu decidir fazer um diagnóstico clínico público a Gentil Martins? Pois, seria não só uma grande cabra com cometeria um grave erro deontológico. Lá está.

 

Tudo isto é muito, muito grave e é isto que vou expor à OM, pedindo uma tomada de posição formal para além do que já foi referido hoje pelo bastonário.

chronicas da Terra Sancta -3

trump.jpg

Saiba V. S. q estou ha duas semannas en esta terra de iudeos & infieis e q. nam me foy possiuel sayr e seguir en uisita a cidade sancta onde preguou e morreo N.S. porq. me foy dito q. nam he bõa occasiam nē momento pera laa yr aguora por seer tempo en q. os judeos estam en granndes festeios celebrãdo a sua tomada da terra ē q. a filharã aos mouros da terra e q. nom he tempo pacifiquo pera laa yr. E tambē q. la esta agora hũ poderozo Rey estrangeyro cõ q. tem grandes cuydados en seruiço de uigia e cautella e cerran tudo e nam sey se hē aquelle de q. todos fazen suas chacotas per conta de seus cabellos desuayrados ē cõor de laranjas e tonteryas q. diz q. parece bobo e nam sey se he esse ou nam mas nam m parece que tal couza possa seer. Deyxo aqui hũ debuxo pello natural do q. uy nũa parede nam sey o q. signifiqua porq. nam sey leer estas leetras mas pareceome pouco respeitozo e desaguisado poys assi uay o desuaryo do mundo e diguame V.S. se he ou nam he o q. signefiqua.

Não podēdo yr fuy entam uisitar esta cidade na parte mays antigua della q he muy fermosa o porto mays q. outras he este foy de turquos antes ser de christãos mormēte dos ingrezes hereges q. senhorearam tudo por aquy antes dos hebreos o fazeren. He estyue tambē no ceentro nũa praça cõ muyta horden e asseio como conuen e laa tem hũ logar õnde matarom hũ chefe destes iudeos ha huns uynte annos e tudo esta assinelado no chãao honde caiu elle he estauam seus guardas he o homē que ho matou cõ hũ tiro q. era judeo como elle porq. nam querya pazes nē treguas cõ os mouros da terra e chamauase Isac Rabino segũndo laa vy o chefe q. o outro nam sey.

Nesta terra ha grãnde myngua de agoa seguũdo me disseron mas tall nam parece poys a gastam ēn grande cantidade e desperdicyo tãto en iardins pera rega de reluados cõmo em repuxos nas praças q. nam entendo q. entēdimento de orden hee este. E tudo he caro como ja disse a V.S. e a unica couza q. comprey q. o nam foy he hum corta unhas q foy barato he nam entendo a rezom quiça (nom alcanço ouutro entendimēto q. sou homē pratico he nam letrado) que seia taluez que Deos N.S. faça crecer en esta jente endemoninhada grãdes unhacas en seos dedos e mui asinha em jeyto de garras cõmo os do mafarrico pera lembrallos de suas damnações q os aguardan e q assy elles ajam mister de cortalas amiude e per quall rezom sam estes estromētos comũns e baratos. De resto he gente como nos e andam em as ruas como os de Portuguall tanto moços e moças e os de prouecta ydade sēmpre cõ suas uentas e narizes preguados no chão e os olhos ora mirando os piquenos aparelhos ora fallando cõ elles sē olharē pessõa algũa na cara. E os q. guiam as carroagēns grandes en q andey san barbaros como os de Portugal creo q he syna ou malldiçam ou pragua cõ q. naceram aquy como laa e os q. guiam bicicretas tambē o sam igualmēnte andam sem cuydado nē ciuilydade he os outros apitam muyto na rua e quasi ha toda hora posto que nam tamto como na Yndia.

Loguo darey mais noticias a V.S quãndo puder he tyuer inspiraçam posto q. nam me enfado por ēnquãnto irey en breue a terra dos Cruzados S. Joam de Acre que foy a deradeyra q teuerom os Christãaos he q se perdeo en o anno de 1291 pera os Mamelucos.

Desta cydade de Thelauiv, 23 de mayo anno dezessete,

de seu fyel seruidor,

PP

Mau serviço. É grave.

"Tenho aprendido com os meus pacientes que a depressão é sempre uma depressão infantil, na medida em que radica numa dinâmica relacional primária sentida como desvalorizante do próprio na infância.". Começa assim um texto ontem publicado no jornal Público, assinado pela psicóloga e, pelos vistos, psicoterapeuta Catarina Rodrigues.

 
A isto chama-se desinformação e psicologia - e psicoterapia - de cordel. É grave, muito grave, equivale à banha da cobra vendida como "cura para o cancro".
 
A depressão é uma doença. É uma doença polimorfa, isto é, que se apresenta de diferentes maneiras do ponto de vista clínico, e a sua etiologia é multifatorial. E não, a depressão NÃO é "sempre uma depressão infantil".
 
Mais, a depressão não tem masculino nem feminino. A cereja em cima do bolo deste naco de pseudo-ciencía são os exemplos sexistas e primários escolhidos para dar corpo à depressão numa mulher e num homem  Que patetice é esta de exemplificar o adoecer depressivo de uma mulher dizendo que os pais a viam "como uma menina (não como um projecto de mulher)" e que a desvalorização ia de "coisas tão pequenas como a culinária... a coisas tão grandes como o nunca dizerem que eu era bonita.” por oposição ao adoecer depressivo num homem, onde é escrito “os meus pais não apostam muito em mim como futuro homem. Não acham que eu perceba de política, não me vêm como capaz de ganhar a vida por mim mesmo, sem a ajuda deles.”?
 
Repito, a depressão é uma doença: tem um curso, um tratamento - biológico e psicoterapeutico - e um prognóstico. É multideterminada, com contributos biológicos, psicológicos e sociais. Pode surgir em qualquer etapa do ciclo da vida. Tem uma enorme prevalência e incidência. Pode ser grave. Pode matar.
 
A responsabilidade dos técnicos de saúde mental no diagnóstico e tratamento da depressão é enorme. A contribuição que estes técnicos, em particular os médicos e os psicólogos clínicos, têm obrigação de dar para o aumento da literacia em saúde - uma das principais medidas para o diagnóstico precoce da depressão e para o seu correto e eficaz tratamento - não se compadece com falsa e incorreta informação passada através de meios de comunicação social importantes.
 
Nós, os senhores doutores psis, nunca podemos esquecer que não matamos mas deixamos morrer e, por isso, temos de ser responsabilizados pelos erros que cometemos. A desinformação é um desses erros e é um grave exemplo de má práxis.
 
PS: Um pedido aos órgãos de comunicação social: ajudem a informar, não se prestem a este tipo de espatáculo. Hoje lá aconteceu outra vez na RTP. Sobre este outro caso cito o David Marçal "Um trabalho lamentável da RTP, que procurou fazer uma apologia acrítica da agricultura biológica, aparentemente com base em apenas um estudo (estudos há muitos, ó palerma) e que nem sequer é identificado (é mesmo um estudo sério? que métodos foram usados, onde foi publicado?). O convidado para o comentar é Pedro Lobo do Vale, um dos sócios do Celeiro Dieta. Não podia ser apresentado simplesmente como médico, pois é muito relevante conhecer a sua actividade empresarial para enquadrar a sua opinião (imagine-se que na quadratura do círculo não se sabia que Jorge Coelho era do PS). De resto o conteúdo é tão deprimente e absurdo ("alimentos biológicos podem funcionar como vacinas", dichote que aparece sorrateiramente em rodapé sem mais discussão) que me escuso aqui a comentar.". 

amnésia colonial

Há anos, existia um blogue cujo lema era "aqui não se diz mal de Portugal". A recente discussão pública sobre a abolição do tráfico de escravos, desencadeada pelas declarações do Presidente da República no Senegal, corre o risco de resvalar para a tentação de reduzir tudo ao dizer bem ou dizer mal de Portugal, mais especificamente, do passado ultramarino português. É um risco. Mas é importante que se faça, ainda assim, porque a nossa memória coletiva dos contactos com o mundo extraeuropeu permanece um terreno de silêncios, omissões e amnésias, minado por conotações ideológicas e perceções enviesadas das realidades históricas.

Disse "ultramarino"? Bum! Já pisei a primeira mina. As próprias palavras, termos e conceitos utilizados para definir e caracterizar a nossa história colonial queimam dedos e escaldam neurónios. Escrevi "colonial"? Bum! Lá foi outra. As fogueiras em que ardem são de teor diverso, acopladas geralmente - e de forma grosseira - à "direita" ou à "esquerda" e que têm em comum a projeção das preocupações e tensões do presente no passado do império português. Disse "império"? Ai!

O debate sobre o tráfico de escravos e, de um modo geral, sobre a história da expansão portuguesa já foi feito e continua a fazer-se, mas limitado aos círculos estreitos e pouco porosos da academia. Não é esse que é urgente; é outro, o que envolve a opinião pública. E porque é que é importante? Porque nunca foi feito. A principal razão decorre da ausência de uma tradição de divulgação histórica entre nós, com origem no divórcio entre o mundo académico e o público leigo. Isto tem permitido a proliferação de informação deficiente, parcial e simplista, quando não simplesmente errada, que se traduz em evocações mais ou menos confortáveis e comodistas de figuras ou eventos, um disfarce para uma relação traumática, difícil e amnésica com o passado.

As palavras de Marcelo não contêm apenas erros, não são apenas declarações desajeitadas e diplomaticamente inconvenientes. Já seriam razoavelmente graves se proferidas por cá; ditas ali, aproximam-se perigosamente do insulto, quando o tema do tráfico de escravos permanece uma ferida mal sarada no quadro identitário dos povos africanos e um foco de desconforto no relacionamento com os ex-colonizadores. Ninguém esperava - nem tal parece sensato - lamentos ou pedidos de desculpa. Mas um mínimo de respeito obrigava ao reconhecimento de um passado lesivo e doloroso, em vez de um discurso apologético sobre alegados méritos próprios. As suas palavras, curiosamente, são a expressão e a confluência da amnésia nacional sobre o passado além-fronteiras, que oculta os odores desagradáveis dos seus esconsos com um humanismo precoce e uma suavidade cosmopolita típicos da especificidade portuguesa. Espera-se que o debate que desencadeou seja extenso, aberto e frutífero. Sobre a escravatura, sim, mas não só, porque esta não é mais do que a ponta de um enorme icebergue da memória coletiva sobre o nosso passado colonial.

Historiador

(publicado no DN de anteontem)

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