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jugular

cristiano ronaldo, o micro da cmtv e nós

não me choca nada o que cristiano ronaldo fez. e porquê? explico.

primeiro, ele não agrediu ninguém. agarrou no símbolo daquela organização criminosa e mandou-o ao rio/lago whatever. o tipo da cmtv não fez nada de especialmente agressivo? é verdade. limitou-se a fazer uma pergunta anódina, por aí não haveria motivo para aquela reacção. e até pode ser óptima pessoa e -- porque os há decerto naquele antro -- jornalista, e bom. mas trabalha para aquela empresa energúmena. e o cristiano ronaldo, como qualquer outra pessoa sistematicamente atacada por aquela cloaca, não tem de saber quem é aquele indivíduo. só tem de conhecer o logo no micro.

há outras formas de lidar com os ataques do cm? deve-se recorrer aos tribunais? sim, sim, claro. mas boa sorte com isso. sendo certo que a organização em causa, e muita gente com ela, reputa o recurso aos tribunais de acto de censura, de mordaça, e de pressão -- um acto inadmissível de violência, em suma. e ai do juiz que dê razão a quem recorre aos tribunais, que o cm lhe fará a folha. pelo que, hoje em dia, haver juízes que dêem razão a alguém contra o cm é altamente improvável. e de caminho quem foi enxovalhado gastou dinheiro em advogado e custas e ainda tem de pagar as do cm (se não sabem, ficam a saber).

fazer isto a um 'jornalista' do cm é 'abrir 1 porta', e a seguir pode-se fazer a outros? news flash: muito pior que isto já sucedeu a jornalistas em portugal, nomeadamente na madeira, e nunca vi grande reacção. mas o essencial que há para dizer sobre essa perspectiva nem é isso; é que somos nós, os jornalistas, que temos a responsabilidade por alguém nos confundir com o cm. somos nós, os jornalistas, que com o nosso silêncio e a ausência de exigência de auto-regulação deixámos que isso sucedesse, pelo que se nos começarem a tratar a todos como se fizéssemos parte da mesma escumalha não nos podemos queixar. deixámos o cm ganhar a guerra; somos terreno conquistado por falta de comparência na batalha. culpa nossa, exclusivamente nossa.

tudo isto conduz a uma conclusão: na ausência de demarcação da classe jornalística, na ausência de reacção do estado de direito, o que resta a quem é perseguido, vilipendiado, invadido, difamado? a santidade? a fuga? o suicídio?

eu prefiro a luta. o cristiano ronaldo também. e, atendendo às circunstâncias, acho que o que ele fez não só é plenamente justificado como teve imensa classe. foi um acto de um simbolismo que não tenho pejo em considerar belíssimo. o logo do cm foi para o seu habitat natural: o lodo.

foi assim que a cidade nos deixou, neste caso: sós contra o mal. cada um por si.

O outro não gostava de ser sequestrado e eu não gosto de demagogias, "chateia-me, pá"*

João Décio Ferreira desenvolveu um trabalho notável enquanto cirurgião plástico e é mais do que merecida a medalha com que foi agraciado pela Sociedade Alemã de Sexologia Clínica, que «atribui a distinção ao "trabalho de uma vida" do médico português devido à sua contribuição "quer a nível de investigação, quer a nível de ensino, para melhorar o conhecimento sexológico e tornar as vidas sexuais mais humanas"».

 

Já a história dos "seis euros à hora" irrita-me tanto hoje como em 2011, por isso repito o que escrevi na altura:

1. O cirurgião plástico João Décio Ferreira não saiu agora do SNS, saiu em 2009, quando se reformou.


2. Depois de reformado foi contratado pelo SNS através de uma empresa de prestação de serviços.

 

3. Em Junho de 2010 é aprovado em Conselho de Ministros o regime especial para a contratação de médicos reformados que prevê a possibilidade de contratação destes médicos pelo SNS por um período de três anos, ficando a receber a reforma por inteiro e um terço do ordenado ou o ordenado por inteiro e um terço de reforma - situação de excepção em relação aos restantes trabalhadores do estados (será preciso lembrar que os trabalhadores do estado não podem, desde Janeiro, acumular reformas e salários?), determinada não pelos lindos olhos dos médicos mas pelas necessidades do sistema.


4. Com as novas regras, se tivesse aceitado e partindo do princípio que Décio Ferreira optava pela primeira hipótese,  receberia a reforma mais um terço do ordenado - caso se tenha reformado como assistente hospitalar, a trabalhar 35h/semanas receberia 2.858,18 euros:3=953euros/mês, cujos divididos pelas 140 horas mensais dariam os referidos 6.81 euros/h, que bem poderiam ter sido explicados (aliás acho bem curioso que até hoje ninguém tenha ficado escandalizado com os 20,43euros/h que um médico assistente hospitalar em exercício ganha no SNS e tantas vezes já tenha ouvido referência aos "fantásticos" ordenados dos médicos hospitalares, mas isto é só um aparte).

5. Décio Ferreira não aceitou a proposta, é um direito que lhe assiste, ponto. Está deste modo explicada a sua ida embora por não renovação contratual (a sua saída do SNS  já tinha ficado explicada pela reforma e aconteceu, recordo, em 2009). Eu percebi isto sem ser preciso a Ministra explicar-me.
 
*

O mistério dos 2.000 desvendado

Contaram-me, eu não vi porque estava a torrar na Avenida, que no Público se noticiava a manifestação de ontem referindo que tinham estado 2000 pessoas. Ao ler o jornal de hoje descobri a chave do mistério, a autora do texto devia estar a falar de outra coisa qualquer, quiçá mesmo de um acontecimento na twilight zone que só ela presenciou. Ora vejamos

 

pub.png

 

Li isto e comecei a duvidar do meu discernimento, é que não me lembrava nada de ter visto nem Jerónimo de Sousa nem Catarina Martins em qualquer um dos dois palcos (no Marquês e no Rossio).  Até perguntei a várias pessoas se estava doida (o sol na moleirinha podia ter-me feito mal ou assim). Resolvi fazer o óbvio, ir procurar registos fotográficos dos palcos (encontrei estes na página de FB do SPGL) e, olhem, bem procurei os wallys e népias. A Catarina Martins é pequenina, ainda podia dar-se o caso de estar tapada por alguém, mas Jerónimo de Sousa tem um tamanho normalíssimo e os palcos não estavam propriamente muito cheios. 

 

palcos.png

 

 

 

 

Relatório Primavera 2016

Foi na terça-feira apresentado ao público o Relatório Primavera 2016, um documento do Observatório Português dos Sistemas de Saúde (OPSS).

 

Focalizando-me nos aspetos relativos à Saúde Mental, e porque o meu amigo Àlvaro de Carvalho - diretor do Programa Nacional para a Saúde Mental - colocou algumas questões durante a sessão de apresentação, gostava de deixar claro dois aspetos.

 

Ao contrário do que foi amplamente referido pela comunicação social, o Relatório não diz que "o suicidio aumentou" porque seria uma conclusão errada e impossível de ser retirada com honestidade. Está, aliás, explicitamente escrito no Relatório que "O Sistema de Informação de Certificados de Óbito (SICO), generalizado em Portugal a partir de 2014, visava, entre outros aspetos, diminuir esta situação [da subnotificação] e melhorar a fiabilidade dos registos e, por essa via, permitir uma leitura mais próxima da realidade. Esta alteração de registos dificulta e desaconselha uma leitura comparativa entre os anos anteriores e o ano de 2014." (sublinhados meus).

 

Um segundo ponto diz respeito à sugestão deixada no Relatório no sentido da legislação nacional relativa à Saúde Mental ser melhorada, eventualmente entendido como uma desvalorização do que existe e que foi reconhecido, por exemplo, pela OMS (cf Joint Action on Mental Health and Wellbeing). É inquestionável que temos um bom Plano Nacional de Saúde Mental, "esticado", e bem, até 2020. É também verdade que a legislação existente nesta matéria tem boa qualidade. Dito isto, não deixa de ser verdade que algumas melhorias seriam bem vindas e importantes, nomeadamente no que diz respeito (1) ao modo de financiamento dos serviços de Saúde Mental, (2) à gestão dos recursos neste área, (3) à revisão da lei de Saúde Mental e (4) à revogação de algum articulado, em particular o Despacho 8320-B/2015, de 29 de Julho - sobre o qual já emiti opinião

 

Fica o esclarecimento público, desde logo porque a equipa que tive a honra de integrar o merece e porque, em relação às sugestões de melhoria legislativa, são coincidentes com os anseios da coordenação do PNSM, como já várias vezes tive oportunidade de ouvir.

putas e santinhos

A história foi-me contada por um velho amigo, há já algum tempo. Um certo senhor chinês emitiu, em contexto social (melhor dizendo, institucional), a sua opinião acerca de Portugal e as diferenças com o seu país natal; mais especificamente, o facto de os portugueses gostarem muito de santinhos. Afirmou, portanto, que “em Portugal, muitos santos, santos, muitos. Na China, não há santos. Na China, só putas”. Perante o súbito silêncio de quem o ouvia, e percebendo que havia ali um mal-entendido, achou por bem repetir que “na China não há santos, só putas”. E como a cara de espanto dos convivas se acentuava, desenvolveu: “Putas, putas, muitas putas. Na China, só putas, não santos”. E fechou os olhos em pose estática, para se fazer compreender melhor. Embaraço geral. Subitamente, alguém mais sensível às diferenças fonéticas entre as línguas percebeu que o senhor queria dizer “budas”. Sim, na China há muitos budas, só budas, não há santos, é um facto.

Isto ocorreu há uns anos. Se fosse hoje, se fosse no domingo passado, o senhor chinês teria provavelmente menos dificuldade em fazer-se entender, porque talvez alguém que o estivesse a ouvir achasse que Portugal também está cheio disso. Até um primeiro-ministro assim, imaginem. Nem buda, nem santo, porém: puta mesmo. Foi isso que os amarelinhos dos colégios, como se viu por alguns dos cartazes que empunharam, queriam chamar a António Costa, mas não o fizeram porque é uma palavra feia e aquela gente, ninguém duvida, é muito respeitadora; sobretudo dos seus privilégios, do sagrado direito à “liberdade de escolha” e de colocarem os filhos em colégios particulares à conta do erário público, mas acredito que também da autoridade e dos preceitos da Santa Madre Igreja, sim, respeitadores de tudo isso. Obviamente, também de linguagem adequada. Nada de asneirices. “Fulano, és uma puta” sairia da boca de um qualquer esquerdalho ou comuna, nunca de gente bem educada como esta. Na verdade, seria uma falácia (“Passos – ou Portas –, és um cabrão” seria bem mais verosímil, como há anos gritavam os estudantes espanhóis, “Maravall, cabrón, viene al balcón!”), mas isso não importa agora.

 

 

breaking news: Vasco da Gama chegou à Índia

Coisas que me dão vontade de rir (muita): hoje a nossa imprensa anuncia com grande pompa, como uma grande novidade, a descoberta de um navio português carregado de moedas de ouro na costa da Namíbia. Leram no Reader's Digest, perdão, na CNN ou na Fox News, uau. De facto, há coisas que precisam de ir primeiro aos States para passarem a notícia. Isto porque os nossos jornais não se leem uns aos outros e os caçadores de furos andam na net de rede em punho à procura de coisas bombásticas. Se lessem o que por cá se publica, saberiam que isto é coisa velha. Ora querem ver?  Na edição de 13 de fevereiro, o Expresso publicou um artigo ("no rasto das moedas de ouro") onde, bom, se pode ler logo no início, que "Luís  Filipe Thomaz chegou ao fim de um dos seus mais ambiciosos projetos. O maior  historiador  português do Oriente tem pronto o catálogo das 2333 moedas de ouro e prata encontradas a 1 de abril de 2008 entre os despojos do "Bom Jesus" (...)". Em fevereiro, o catálogo estava pronto, e a peça anuncia a sua edição para breve, em Windhoek. No Expresso, ok? Não foi no Boletim dos Anais Bolorentos da Academia da Asa da Mosca. É ir lá ver. Está lá  tudo, poupem-nos a este entusiasmo provinciano.

ciências misteriosas

Aterro por acaso numa notícia do DN que diz que foi "Descoberto mistério da "cidade perdida" submersa"; vou ver o que é e afinal, baaaah, não era assim um mistério tão grande, era apenas uma coisa que carecia de esclarecimento. Inicialmente, o que me ficara a matutar foi a questão gramatical, porque sempre achei que os mistérios não se descobrem, explicam-se. Mas pronto, já bastou ter embirrado com a do "descoberta da vida extraterrestre está muito próximo" do mesmo jornal (entretanto retificado). Na imprensa portuguesa, dúvida é "mistério", falta de informação é "mistério", tudo é "mistério". Ná, sou um exagerado, não sou?

Antes de fechar a página espreito para a coluna lateral, a ver que mais destaques há por ali, na secção "Ciência". Coisas interessantes, mas não no sentido que eu esperava. A primeira peça é sobre um "misterioso anel de pedras". Ai, não, isto é uma página de Ciência, não é o Superinteressante. Deixa ver o próximo. Bolas, é sobre portugueses que "desvendam mistério com 80 anos". Eu quero lá saber disto, sou de História e procuro conhecimento, não mistérios. Ah está aqui um sobre coisas egípcias, boa. Suspiro, não acredito, mais outro, "Estará o Egito a esconder provas que desmentem mistério no túmulo de Tutankamón?" (ou seja, um duplo "mistério"). Já desanimado e com pouca esperança, resta-me espreitar o último da lista. Eu sabia, podia ter apostado: "Bióloga portuguesa desvenda mistério com mais de um século".

Na continuidade do post anterior: esta tentação para colocar "mistério" em tudo o que é tema e título não é decerto uma "cagadela de mosca ampliada"; o que é, não sei bem (daria um bom título, portanto).

notazinha descobrideira a Duarte Nuno Braga

Vai não volta, a questão reaparece: o alegado "descobrimento" do Brasil por Duarte Pacheco Pereira, dois antes da viagem de Pedro Álvares Cabral. Desta vez é o primeiro romance de Duarte Nuno Braga ("A Confissão do Navegador"). Não li. Pelo que sei, acaba de ser lançado mas o DN já entrevistou o autor. Pouco tranquilizante, a peça. Assim, sem mais (ou "sem ver", como se costuma dizer), adianto umas coisinhas:

 

1. Raio de mania esta, a de aparecer sempre um qualquer iluminado que pretende (ou a imprensa assim o anuncia) "reescrever a História". A nossa. Há tanta coisa para estudar, tanta coisa mal conhecida, tanta coisa a reavaliar e a compreender, a divulgação histórica é algo tão incipiente e tão mal-amado por cá, por que diabo temos sempre que nos fixar em cagadelas de mosca ampliadas em, ui, "corrigir a História dos Descobrimentos"?

 

2. A possível viagem de Duarte Pacheco Pereira em 1498 é uma coisa debatida há décadas; se ocorreu ou não, é uma curiosidade, um pormenor, uma nota de rodapé. Duarte Leite, Luciano Pereira da Silva e, mais recentemente, Francisco Contente Domingues disseram de sua justiça. Admitindo que ocorreu, há ainda o problema de saber se foi ao Brasil ou à América do Norte. Uma coisa gira, nada mais. Mas é preciso dizer que a nossa obsessão com esta espécie de "síndrome da virgindade" de saber "quem foi o primeiro" (seja ao Brasil ou à Austrália) é uma paloncice neocolonial, típica do tempo já passado em que as potências europeias usavam a História para as disputas hegemónicas entre si. Hoje, na comunidade científica (sim, porque a História tem pretensões dessas, lamento dizê-lo), é apenas tema de conversa nos coffee breaks dos colóquios, nada mais.

 

3. O autor "vem da área das tecnologias, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica", diz a peça. Não quero ser preconceituoso (não conheço o autor nem a obra, fica aqui o disclaimer), mas no dia em que eu decidir escrever um livro sobre circuitos integrados ou software, é bom que me prepare para ter magotes de gente a morder-me as canelas, porque as calinadas serão decerto mais do que muitas. Ah espera, isso são coisas "científicas", para experts, enquanto "História" é aquela banalidade acerca da qual toda a gente pode largar duas postas, pois claro, já me  esquecia. Mas se até o Rodrigues dos Santos escreve barbaridades "históricas" e vende milhões, não é mesmo?

 

4. Por fim, os dados da entrevista. Maus augúrios. Vários tiros, e todos na água. Vejamos:

a) "o manuscrito esmeraldo de situ orbis"; erro: não se conhece "o manuscrito", mas apenas duas cópias tardias e com prováveis erros de transcrição. O original, com desenhos e mapas, foi ainda assinalado por Diogo Barbosa Machado no séc. XVIII mas desapareceu, possivelmente no Terramoto; e que interessa isto? Q.B. Exemplo, numa das passagens há quem leia "posto que seja assaz fora" e quem leia "posto que seja assaz fria" (a tal terra americana onde terá chegado).

b) "dá indicação ao rei D. Manuel I de que fora descoberto o Brasil": não sei onde foi o autor buscar isto. O Esmeraldo é dedicado ao rei (a quem trata por "César Manuel") mas foi escrito entre 1505 e 1508, vários anos depois da viagem de Cabral, portanto. Além disso, Pacheco Pereira diz que foi o próprio rei que o terá  mandado a tais paragens e não menciona o Brasil em lado nenhum.

c) "e com todas as informações geográficas do território": gostava de saber quais são; não preciso de todas, bastar-me-iam algumas. Uma, pelo menos.

d) o documento "esteve escondido quase 400 anos". Ohh já cá faltava o aromazinho de mistério do inevitável "segredo" e da "revelação" da coisa "escondida". Bom, não esteve escondido coisa nenhuma: como disse acima, o manuscrito original era conhecido nos inícios do século XVIII (estava na biblioteca do marquês de Abrantes), depois perdeu-se-lhe o rasto. Conhecem-se duas cópias tardias, sobre as quais foram feitas as edições: a primeira em 1892, outra em 1905 com reimpressão em 1975, outra na década de 60 (Academia Portuguesa de História, se bem me recordo), e uma final pela mão de Joaquim Barradas de Carvalho (a cujo estudo dedicou a vida e a tese de doutoramento). Os motivos pela publicação tardia? Há vários possíveis: Pacheco Pereira caiu em desgraça depois da morte de D. Manuel, chegou a ser preso e pensou em passar-se para Castela (sim, é verdade), o Esmeraldo é, antes de mais, um roteiro da costa africana - novidade em 1505, com interesse a esmorecer rapidamente nas décadas seguintes - , é uma obra inacabada e, finalmente, um manuscrito inédito não é propriamente coisa que cause espanto, pelo a menos a um historiador (já a um engenheiro eletrotécnico não sei).

 

Quem quiser saber mais sobre o Esmeraldoleia-o (aviso já que é um roteiro, logo de leitura a dar para o bocejante), assim como os estudos de Barradas de Carvalho sobre o autor e a obra. Há também um artigo de Teixeira da Mota no Mare Liberum nº 1 muito interessante, assim como uma coisinha de Jean Aubin, para além dos autores indicados acima. Até eu próprio, imaginem, escrevi um artigo sobre o assunto, no longínquo ano de 1988. Mas palpita-me que Duarte Nuno Braga não leu nada. Escreveu um romance, ok, pode ser bom, pode ser excelente literatura. Mas pela amostra da entrevista, parece-me que de História não terá grande coisa.

Tragédia em Ourique: um esclarecimento

Decidi esperar para ver se algo acontecia, como não houve retratação aqui fica o esclarecimento público através de um texto publicado na versão em papel do Diário do Alentejo.

 

Trabalho no Baixo Alentejo, para os baixo-alentejanos, é a eles que em primeira mão devo e quero prestar esclarecimentos. Dizer ainda que optei por frenar a minha intempestividade e só agora falar publicamente pelas características particulares do assunto e porque tive a esperança de uma retratação pública que, passadas que estão mais de duas semanas, não ocorreu. Por último, referir que esta quase carta aberta reproduz no essencial o que tive oportunidade de dizer pessoalmente a José Raul dos Santos em Ourique, onde me desloquei no dia seguinte ao da tragédia.

 

Quando algo de grave acontece em instituições que dirigimos é natural que tentemos perceber o que falhou, e falha sempre alguma coisa quando algo de grave e violento acontece. Já menos legítimo e mais desonesto é prestar informação pública que não corresponde à verdade.

 

Ao contrário do que foi referido no comunicado institucional, não é verdade que o serviço de psiquiatria do hospital de Beja “concedeu altas consecutivas" à senhora que alegadamente matou outra nas instalações do lar da Santa Casa da Misericórdia de Ourique, de cuja instituição José Raul dos Santos é provedor. O serviço de psiquiatria da ULSBA não só não deu “altas consecutivas” como pura e simplesmente não deu alta, mantendo em acompanhamento ambulatório a referida senhora, tendo a última consulta acontecido em março e ficada marcada a subsequente, como consta de documento presente no processo individual do lar. Infelizmente não se irá realizar.

 

Já em relação a internamentos, o serviço de psiquiatria deu uma única alta na sequência do internamento de cerca de um mês a que a senhora foi sujeita em julho de 2015. Quanto a idas à urgência psiquiátrica, como também está documentado, a última aconteceu em setembro de 2015, não tendo a senhora ficado internada no serviço de psiquiatria por não existirem critérios clínicos que justificassem o seu ingresso num serviço de agudos.

 

Se me quisesse comportar com a mesma leviandade poderia ter questionado, pública e imediatamente após o sucedido, a vigilância aos utentes que é feita no lar da Santa Casa da Misericórdia de Ourique onde alguém foi morto violentamente num quarto sem que ninguém se tenha apercebido. Não o fiz nem farei porque em causa está um evento a esclarecer, alegadamente perpetrado por uma doente mental e eu sei bem como os imponderáveis acontecem e como é doloroso o nosso trabalho ser injustamente posto em causa.

 

Que este caso nos faça questionar, a todos mas a mim e a um qualquer provedor de uma Misericórdia em particular por razões mais do que óbvias, a necessidade de se avançar rapidamente para a formalização de estruturas de cuidados continuados integrados de saúde mental, não só entendo como sou solidária com qualquer um deles que o faça. De facto estes doentes necessitam de estruturas de retaguarda de características especiais onde existam técnicos com formação específica - e mesmo assim a probabilidade de ocorrência de eventos graves nunca será igual a zero, há que o assumir.

 

No entretanto o serviço de psiquiatria da ULSBA continuará a articular-se, dentro daquilo que são as suas possibilidades e recursos, com as estruturas da comunidade para tentar responder às necessidades, como o fez na terça-feira, dia 10 de maio, quando se deslocou a Ourique para uma reunião com técnicos do lar e com o provedor, na sequência de uma solicitação que nos foi dirigida pela instituição. Mesmo não havendo na ULSBA uma equipa de intervenção em crise por falta de recursos, o serviço de psiquiatria deu uma resposta imediata ao pedido de ajuda que nos foi endereçado, penalizando naturalmente os doentes que tinham consultas programadas agendadas para esse dia. Assim continuaremos a fazer.

 

Se todos os erros do serviço que dirijo e pelo qual, para o bem e para o mal, sempre responderei publicamente forem estes continuarei a ser, como até aqui tem acontecido na minha vida, uma mulher de sorte.

 

Ana Matos Pires, diretora do Serviço de Psiquiatria da Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (Beja)

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