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jugular

Entrada de leão - texto de Tiago Antunes

Todos sabemos bem como este Governo, que transpira incompetência, é no entanto um mestre da novilíngua, demonstrando altíssima criatividade e performance na manipulação vocabular. “Irrevogável” passou a ser irrelevante. “Alívio fiscal” passou a ser mais do mesmo. Pois bem, entre ontem e hoje, “vinculativo” passou a ser indicativo e “sucesso” passou a ser derrota. Senão, vejamos.

 

Ontem, Passos Coelho chegou ao Conselho Europeu, de peito feito, a ameaçar que vetaria as conclusões, em matéria de política climática e energética, se elas não contemplassem metas vinculativas quanto às interconexões elétricas entre a Península Ibérica e o resto da Europa. A verdade, porém, é que as conclusões acabaram por não contemplar tais metas vinculativas. E, contudo, Portugal não vetou. Apesar disso, revelando que não há limites para o descaramento, hoje o Primeiro-Ministro veio cantar vitória.

 

Vale a pena seguir os acontecimentos através do próprio site do Governo. Nem sequer é preciso ir mais longe para constatar a contradição. Anteontem dizia-se aí o seguinte:

 

«Portugal não subscreverá conclusões do Conselho Europeu sobre as políticas de energia que ignorem a questão das interconexões europeias, afirmou o Primeiro-Ministro na véspera do Conselho Europeu que tem este assunto em agenda, durante uma visita oficial ao Luxemburgo. Numa conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo após uma reunião de trabalho, Pedro Passos Coelho disse que tinha transmitido ao Primeiro-Ministro Xavier Bettel «as particulares preocupações que Portugal tem quanto à fixação de objetivos vinculativos relativamente às interconexões sobretudo na área da eletricidade e do gás» (realce nosso)

 

Hoje, depois de acordo final NÃO ter contemplado metas vinculativas quanto às interligações elétricas, o site do Governo afirma:

 

«Portugal obteve um excelente resultado» no pacote sobre clima e energia «que se pretendia ambicioso, incluindo a questão das interligações», e que «foi também um excelente desfecho para a União Europeia», afirmou o Primeiro-Ministro na conferência de imprensa no final do Conselho Europeu, em Bruxelas»

 

Portanto, um “excelente resultado” é, afinal de contas, um recuo em toda a linha. Sendo que muitos jornalistas foram atrás deste embuste, propalando o acordo alcançado como um grande feito quando, em bom rigor, o Governo não conseguiu aquilo que queria: que as metas relativas às interligações fossem vinculativas. Pior: não só o Governo não conseguiu o que pretendia, como “meteu a viola no saco” e não utilizou o poder de veto que tinha ameaçado usar.

 

Em suma, uma vez mais o Governo fez figura triste em Bruxelas. É certo que o acordo fala em interligações e até refere metas (10% em 2020 e 15% em 2030). Isto é, para sermos totalmente honestos, positivo para Portugal e deve-se à insistência que o Ministro Jorge Moreira da Silva tem colocado nesta questão. Mas a verdade é que o Governo recuou em toda a linha quanto à vinculatividade das metas – tudo uma “discussão semântica”, como lhe chamou Durão Barroso, para disfarçar, provavelmente inspirado pela proficiência governamental na inovação linguística – e não pode agora branquear esse recuo, apresentando um fracasso (numa questão tão sensível que Portugal tinha até ameaçado usar o poder de veto) como se de uma vitória plena se tratasse.

 

Quem teve grandes vitórias, sim, foi a Polónia e outros Estados-Membros de leste, que obtiveram a possibilidade de continuar a atribuir licenças de emissão gratuitas às suas centrais elétricas até 2030, quando o Direito Europeu prevê claramente que tal tratamento de exceção deveria terminar em 2020. Já Portugal ficou a meio caminho quanto às suas pretensões, não conseguindo fazer vingar o cariz vinculativo das interligações.

 

Por mais que gritem bem alto que foi um sucesso, a verdade é que Portugal voltou para casa com menos do que pretendia. E expôs-se ao ridículo, ameaçando sacar da pistola, mas mantendo-a bem apertada no coldre. Passos Coelho pode até armar-se em rebelde e, para consumo interno, dizer que vai bater o pé; mas, quando chega a Bruxelas, será sempre o menino bem comportado que não levanta a voz, nem faz ondas. Ora, não precisamos de um capacho em Bruxelas, precisamos de alguém que seja consequente e determinado na defesa dos nossos interesses.

Phishing - atualização

avast.jpg

Disto. Novo email igual, mas desta vez tive paciência para ir calçar luvas e mexer no bicho sem ser mordido por ele. Funciona assim: clicando na imagem, o incauto contribuinte descarrega um ficheiro (1237897sd897as.zip). Depois, frustrado por não conseguir aceder à tal "fatura eletrónica" dos  2410 € alegadamente por pagar, clicará nele, instalando who-knows-what programa infetado com um vírus. Neste caso (mas nunca se sabe se é o mesmo noutros) trata-se aparentemente de uma variante, provavelmente aguçada e afinada, do banker.kwt (um "cavalo de tróia") que, como se pode ver aqui, tem muitos manos e manas.

Portanto, nunca é demais relembrar, nada de clicar diretamente em emails destes, ou seja, para aceder a quaisquer questões que envolvam o fisco, entrar sempre na respetiva conta pelo site das Finanças. E mesmo que alguém descarregue inadvertidamente o tal zip, é ainda possível evitar a infeção: se o ficheiro for apagado e não for "executado", no problem. Portanto, é preciso alguma boa vontade e ingenuidade para ser apanhado numa destas. Mas, sabendo como são as coisas, não me admiro que não sejam poucos os que, mesmo assim, se sintam aliviados ao perceber que a tal "fatura" de 2410 € era mentira e que se tratava "só" de um virus.

Nota final: quem sabe se alertada por este blog, a AT divulgou uma nota de aviso acerca destes emails, que a imprensa reproduziu. Seria bom que, em ocasiões futuras, reproduzissem o seu teor, mostrassem o seu aspeto e dissessem exatamente do que se trata, em vez de informação vaga de que "está a circular uma mensagem fraudulenta" e pouco mais. É que acredito que não seja fácil explicar aos contribuintes a carga fiscal elevedíssima que sobre eles pesa. Mas um vírus, senhores, não custava nada meter lá um boneco para as pessoas identificarem. Podem meter o meu, que não pagam imposto por isso.

Façam o favor de ouvir o Pedro Adão e Silva no Fórum da TSF de hoje

 

A intervenção do Pedro não precisa de comentários adicionais, ele explica tu-di-nho e deixa às claras, se preciso fosse, o grau de impreparação, ignorância e perigosidade de quem dirige o Ministério da Segurança Social (e Finanças?) em Portugal. 

Ainda o oportunismo eleitoral não estrutural, agora em imagens

pobreza.jpg

 

 

(Fonte: SILVA, Pedro Adão*, SOUSA, Sílvia e PEREIRA, Mariana Trigo, "Maturação e convergência:a evolução da proteção social", in A Economia Portuguesa na União Europeia 1986-2010)

 

* péssimo dia para se terem estes apelidos, eheheh

Do oportunismo eleitoral - texto de Mariana Trigo Pereira

"Para o Partido Socialista o importante é aumentar o Complemento Social para Idosos (CSI)...claro que é importante! Mas é preciso lembrar o seguinte: o CSI abrange 200.000 pessoas, as pensões mínimas abrangem 1 milhão e 100 mil pessoas, ponto 1."

 

"Por outro lado, é preciso lembrar que as pensões mínimas são algo estrutural, há um sistema das pensões mínimas. E o CSI? Uma medida oportunista em termos eleitorais (...) nasceu na campanha eleitoral de 2005".

 

Deputado Adão Silva (PSD) hoje na audição parlamentar do Ministro da Solidariedade Emprego e Segurança Social

 

1) O CSI já não abrange 200.000 pessoas - basta consultar o site da segurança social para rapidamente constatar que em Agosto o universo de beneficiários era de 172.856. Por opção deliberada deste Governo o número de beneficiários tem vindo a reduzir-se e a afastar-se dos tais 200.000 de que falava hoje o deputado, em contra-ciclo com o aumento das necessidades e das carências económicas dos idosos e das suas famílias. O Vítor Junqueira explica porquê aqui;

 

2) Toda a gente sabe que oportunismo eleitoral é apoiar um universo de beneficiários mais reduzido (CSI) em detrimento de um mais vasto, por exemplo, aumentando pensões mínimas que abrangem 1 milhão e 100 mil idosos;

 

3) Só o oportunismo eleitoral é que poderá explicar que se procure focalizar recursos escassos em quem mais precisa, se avaliem as condições específicas do indivíduo (as suas várias fontes de rendimento) e do agregado em que se insere (temos pena, Senhora Ministra das Finanças,  já alguém pensou nisso antes...), seleccionando apenas os idosos em situação de maior vulnerabilidade económica; 

 

4) É, de facto, puro oportunismo apostar-se numa medida que efectivamente é eficaz na redução no combate à pobreza entre os idosos, mesmo que as estatísticas da pobreza, com o seu desfasamento temporal habitual, só venham revelar, anos mais tarde, o sucesso desta opção.

 

O OE2015 aumenta, em média, 2 euros/mês as pensões mínimas (com menos de 15 anos de descontos), sociais e rurais. Mas os oportunistas são os outros.

 

P.S. de minha autoria (shyznogud): Depois de ter visto as miseráveis e ignorantes declarações de Adão Silva na AR há bocado, perguntei à Mariana Trigo Pereira se não queria reagir a elas. Simpaticamente acedeu ao meu desafio com este texto.

 

Um monumento à ignorância

 

Fica para os anais quer da ignorância quer da falta de vergonha na cara (obrigada, David). E volto a sugerir "A grande falácia das pensões mínimas", de Mariana Trigo Pereira.

 

Adenda: "O CSI constava do programa eleitoral do PS de 2005 e foi criado em 2006. Era uma prioridade no combate à pobreza dos idosos, foi concretizada, e resultou: tx de pobreza baixou de 26.5 (2005) para 22.8 (2007) e 20.1% (2008)." João Galamba no Facebook há minutos

carta aberta a Paula Carqueja

Desculpe não a tratar por Dra., Engª. ou outro epíteto académico qualquer. Eu sou também só Pinto, Paulo Pinto. Não sou professor de carreira, apenas investigador e, para o que interessa aqui, sou autor de trabalhos académicos e já participei em muitas "jornadas" (internacionais ou não). Sabe, eu tenho consciência de que fez o que achou que lhe competia, enquanto presidente da Associação Nacional de Professores, e que ninguém a censura por isso. No fundo, a honra da associação e dos professores  que representa não pode ficar manchada pelos atos de um seu ex-presidente e ex-secretário de Estado. Mas o espírito corporativo tem limites e portanto, estivesse eu no seu lugar, lamentaria o incidente, poderia elogiar as qualidades da pessoa em causa, no desempenho da sua função, mas não seria conivente e cúmplice do plágio que cometeu, e muito menos tentaria arranjar desculpas esfarrapadas - para  não dizer algo bem menos simpático - para o efeito.

Em Portugal, o crime compensa. Ser-se espertalhaço também. Há uma cultura de desculpabilização para com quem foge ao fisco, quem passa à frente na fila, quem não cumpre o código da estrada, quem não respeita o trabalho alheio. Ninguém se rala com plágios. Uns fogachos na imprensa e ninguém se lembra disso dois dias depois. Afinal, há tanto caso por aí, todos os dias, da mais pura vigarice, embuste, logro, mentira, envolvendo política e finança, que um plágio acaba por ser um pecadilho minúsculo, insignificante e ridículo. 

A Paula assinou um comunicado onde diz que lamenta a demissão do ex-Secretário de Estado porque "a denúncia feita é um vil ataque pessoal, com fins inconfessáveis". Deduzo, portanto, que o que lhe importa é a motivação de quem denunciou, de quem soprou os documentos à imprensa. Lamenta que a verdade tenha sido descoberta, certo? Se eu amanhã matar alguém e daqui a 10 anos tiver responsabilidades governativas, a Paula não condenará o crime, mas sim a vileza de quem me denunciar para impedir que eu seja ministro. Ah um plágio não é tão grave como um assassinato? Decerto que não. Mas a ANP também não é um clube de jogadores de bisca; representa professores, os mesmos que têm que se confrontar, com crescente incidência, com a praga do plágio nos trabalhos escolares. Não haverá por aí um qualquer puto que amanhã, ao ser confrontado pelo professor com o trabalho aldrabado que entregou, lhe atire em cara que o ex-presidente da Associação Nacional de Professores fez o mesmo e recebeu louvores desta?

Plágio é batota, sabia? O ex-presidente fez batota. Fez. Os documentos divulgados pelo Público só deixam dúvidas a quem não quer ver ou a quem o quer esconder. Não insulte a minha inteligência. A nossa, a dos leitores, do público e dos professores, alegando que a acusação de plágio não tem fundamento porque "a intervenção do Dr. João Grancho, enquanto presidente da Associação Nacional de Professores, no referido evento, traduz a política pensada, à altura, para a referida temática". A "intervenção" "traduz"? Desculpe? Um participante numas jornadas que apresenta uma comunicação não é o seu autor, não responde por ela? Está lá no documento, logo na folha de rosto: Jornadas Europeas Sobre Convivencia Escolar - Murcia, 27 de Abril de 2007 - “Dimensión moral de la profession docente. un compromisso europeu” - João Henrique C. D. Grancho - Associação Nacional de Professores - Portugal. Quem quer que alguma vez tenha feito uma comunicação num colóquio, num congresso, num workshop, sabe bem que - e nisto os anglo-saxónicos são imbatíveis, com o seu «quote... end of quote» - ideias alheias, trabalho de terceiros é sempre, sempre referido. Aliás, a comunicação cita autores, obras, datas; tem até excertos transcritos, devidamente assinalados. Porque o fez nuns casos e não noutros, nos tais em que parafraseou parágrafos inteiros sem indicar a origem? Só ele o sabe, mas não o diz. O meu palpite é que achou que autores estrangeiros são para respeitar, já os portugueses, não. Ou então, alguém cozinhou-lhe aquilo  à pressa com um copy/paste, que vida de presidente da ANP deve ser atarefada e não dá para preparar e conferir minudências destas.

O ex-secretário de Estado declarou que se trata de "um mero documento de trabalho, não académico nem de autor". É falso. Um presidente da ANP não apresenta "meros documentos de trabalho" em jornadas internacionais (se o fez, é um embaraço ainda maior para a Associação); se não é académico, por que razão tem o texto bibliografia, referências, citações e aspas? Se não é "de autor", por que está identificado enquanto tal? Depois demitiu-se. A Paula e a direção que representa acharam por bem envernizar a mancha de encardido dizendo que o não é: que é arte. Fica-lhes mal. Eu só digo: não sou professor de carreira, mas se o fosse, e eventualmente, associado da ANP, garanto-lhe que já me tinha desvinculado, porque não suporto varridelas para debaixo do tapete em nome do corporativismo profissional.

Uma filha de 16 anos e uma mãe de 47

Já foram mortas este ano, que se saiba, 26 mulheres. Hoje foi uma mãe e uma filha, para já - a mais nova, de 13 anos, ficou ferida com gravidade.

antes que venham aí os campeões da amnésia

Vamos puxar pela memória, antes mesmo de as televisões começarem a fazer reportagens (com aquele indicador infalível de "recolher opiniões no meio da rua") sobre as altas temperaturas previstas para estes dias. Fenómeno? Um tempo anormal? Já não há estações? Verão tardio? Culpa do ministro? Quem se lembra de um outubro assim? Ninguém, ninguém, estou mesmo a prever, daqui a uns 3 dias, um depoimento de alguém a dizer para as câmaras algo como "nunca vi uma coisa destas". Bom. Há 7 anos, fui à praia no primeiro domingo de novembro. Nem falo de 2003. Mas não é preciso ir tão longe. Há 3 (três) anos, em 2011, o outubro foi este petisco.

Leitura muito recomendável

«Aqui há uns meses assinei a petição "Direito a saber como votam as pessoas eleitas que nos representam" que apelava à Assembleia da República para que cumprisse um requisito que deveria ser básico a qualquer câmara parlamentar: o de informar os cidadãos dos sentidos de voto dos seus membros eleitos nos diversos diplomas submetidos a voto em plenário ou em sede de comissão. Isto é, a Assembleia República deveria possibilitar que na página de cada deputado fosse possível verificar se este tinha aprovado, rejeitado ou se abstido numa determinada votação. Actualmente apenas permite verificar se esteve presente(...)» 

 

continua aqui