Quinta-feira, 09.02.12

esse grande especialista em merdia, a grandiosa nova velha antiga tradicional primeva contratação do 31 (até nos erros de escrita, olhem aquela virgulazinha entre o sujeito e o predicado). a bem da nação e da falta de noção.

 


À hora que escrevo (porque nesta matéria o tempo mede-se agora em horas) a Grécia é um país destruído. A questão que ainda se pode discutir é, pois, a da medida da salvação conseguida ou da desgraça maior evitada.

 

Com o agudizar da crise financeira de 2008 e a sua mutação em crise das dívidas soberanas, que perdura, a opinião pública europeia (para não ir mais longe) tem sido confrontada com um cenário maniqueísta, que tem a vantagem de facilitar as manchetes e as análises: há a bancarrota ou há ajuda externa. A primeira é a chegada do Anti-Cristo e um Juízo Final de proporções, evidentemente, bíblicas e a segunda o mal menor, entretanto, estilisticamente discorrido e decomposto em: austeridade, ajustamento, etc. Tudo porque há dívidas e, dê lá por onde der, elas têm que se pagar, independentemente das circunstâncias.

 

Eu gosto de regras. Para vos dizer a verdade eu adoro regras. É por isso que sou jurista, que sou investigador em direito, que sou docente. As duas principais razões pelas quais adoro regras (simplificando) resumem-se a isto: as regras libertam e as regras limitam.

 

A primeira não importa agora para a economia deste texto, mas apela à ideia, muito contrária ao que vou percebendo do espírito luso, de que as regras (boas e bem feitas) simplificam e melhoram a nossa vida, libertando-nos de chatices, de perdas de tempo, e, por isso, dando-nos liberdade para fazer coisas que nos dão prazer e felicidade. Mas é a segunda dimensão que me interessa aqui: as regras limitam. Pessoas que gostam de regras, que gostam verdadeiramente de regras, não se bastam em ter nas regras a sua zona de conforto. Elas gostam de regras porque sabem que as regras traçam a fronteira entre a civilização e a barbárie, entre o conhecido e construído e o desconhecido e por construir, entre a luz e as trevas. Isto, ao contrário do que possa parecer não serve (embora já tenha servido no passado a pessoas sinistras) para defender a obediência cega no direito. Serve, exactamente ao contrário, para nos fazer perceber que as regras só podem servir para o que foram criadas e que não abarcam tudo. O Direito não faz milagres. Há mundo para além das regras e nesse mundo não faz sentido apelarmos para elas. Pelo contrário, é errado, é injusto.

 

Nestes momentos, do fim do direito, do fim das regras por confronto com situações para as quais não há regras, há que ter a coragem de parar e pensar numa solução, de acordo com valores. Como no princípio dos tempos, é sobre valores que as regras se constroem e é, por isso, a eles que temos que regressar quando somos confrontados com situações para as quais as regras que temos não servem. Há aqui qualquer coisa do jovem Wittgenstein, quando separava o mundo entre aquilo que conseguimos pensar e dizer e o que não conseguimos pensar (Tr 5.6). O mesmo com as regras: não faz sentido querer aplicar regras a situações para as quais elas não foram pensadas. Há que primeiro pensar nas novas situações e então criar novas regras.

 

O que tem acontecido na Grécia e pode muito bem vir a acontecer com Portugal, é um problema de regras, assente no maniqueísmo que vivemos: como o cenário de default é tomado como inaceitável e, sobretudo, pior do que a alternativa, ou seja, a austeridade dos pacotes chamados de ajuda. E como as regras são para cumprir e os países se endividaram livremente sabendo as regras que lhes eram aplicáveis, então há que tudo fazer para que possam aplicar-se as regras. Mas tudo isto é uma falácia de proporções colossais. Em que as primeiras vítimas são as próprias regras e as últimas serão as pessoas, como se verá na Grécia se tudo continuar neste caminho.

 

 

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Muito do que se escreve, lê e comenta acerca do Acordo resulta de simples preconceito ou de deficiência de informação; há também teimosia, bairrismo, disparate puro e muito de "protesto" (contra a crise, contra a agitação do presente, sabe-se lá que mais?). Uma boa amostragem pode ser vista na página "ILC contra o acordo ortográfico", sobretudo nos comentários. Apreciei, em especial, a parte respeitante à subscrição que dela fez Ricardo Araújo Pereira, a 13 de janeiro. Os comentários na página do Ricardo, no Facebook, no mesmo dia, são também interessantes. Numa palavra, é uma espécie de bazucada em todas as direções e um "não porque não". Mas, como comecei, reduzo tudo isto a cinco erros principais. 

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Quando, em 1492, Isabel, a Católica, perguntou para que servia a gramática de língua castelhana que Antonio de Nebrija acabara de escrever, alguém lhe respondeu que "después que vuestra Alteza metiesse debajo de su jugo muchos pueblos bárbaros y naciones de peregrinas lenguas, y con el vencimiento aquellos terían necessidad de recebir las leyes: quel vencedor pone al vencido y con ellas nuestra lengua". Do lado português, a primeira gramática, de Fernão de Oliveira, já enunciava, em 1536, que um objetivo era "que a possamos ensinar a muitas outras gentes e sempre seremos delas louvados e amados, porque a semelhança é causa do amor, e mais nas línguas" mas, "agora que é tempo e somos senhores", era chegado o momento de fazer uso da portuguesa, "porque melhor é que ensinemos a Guiné cá, que sejamos ensinados de Roma". Pouco depois, João de Barros completava o raciocínio: as armas e os padrões de pedra que os portugueses deixavam além mar acabariam por ser consumidos pelo tempo, mas não a língua e os costumes de Portugal, "pois é certo que mais pode durar um bom costume e vocábulo, que um padrão"

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Domingos Farinho

Precisamos de grande momentos para as grandes mudanças. Resoluções sem a motivação certa, dão boas histórias e nada mais. Por isso, de tudo o que a troika poderia trazer de bom ao país, creio que a única coisa que desejaria, se fosse um pouco mais inocente, um pouco mais crédulo, seria um modo distinto de agir politicamente. Aproveitar para corrigir velhos maneirismos, maus hábitos. Aproveitar para mudar, ainda que forçados.

 

Claro que nada disto acontecerá, mas não ajuda quando somos nós próprios, nos cafés como na imprensa, que perpetuamos os piores vícios. Por exemplo, suspender a capacidade crítica, desculpar os nossos políticos, com o argumento de que todos os que vieram antes fizeram igual ou pior. Passos é mau, mas também Sócrates era mau ou pior. Cavaco uma desgraça, mas também Sampaio e Soares. E se a coisa estiver mesmo dramática ainda há Salazar, D. Pedro IV e D. Sebastião.

 

Com este argumento, como com outros, consegue-se manter o debate político estéril. Não se discute nada senão nomes, traumas e preconceitos. E, claro, o mais importante, a crítica dos políticos presentes e actuais, como se fossem os únicos que importassem - porque são - fica sempre por fazer. E o país anima-se. Pois já se sabe: se não há pão, convém compensar com o circo. 

 


Acabei de ouvir o ministro Relvas dizer "Não se pode fazer política com coisas tão sérias", com ar carregado, sério, como se estivesse a proferir uma declaração solene, grave e cheia de sentido de estado.  Estes gajos são todos atrasados mentais? A política faz-se com coisas pouco sérias, é? Quem são estas pessoas?! Como é possível que um ministro contribua, desta forma infame, para alimentar o discurso anti-político/a?

 

Adenda: o Serras sobre o mesmo assunto.


Quarta-feira, 08.02.12

O reitor da Universidade Católica quer que se aumentem as propinas das universidades públicas.

 

Adenda bíblica: Deuterónimo 5: 1-21


"Não leia, isto é velho de 75 anos" do Ferreira Fernandes no DN sobre estranhas - ou não tão estranhas assim - repetições do passado.

 

Velhos fantasmas ressuscitados são assustadores, "Greek MP's raise the issue of German war reparations".

 

E, nos clássicos, o Zé Pedro relembra, e bem, o velhinho "Cala-te e mama!" .


(imagem: Cortesia João Silvério)

+ info aqui


Já suspeitava, Portugal está a tornar-se um país insuportavelmente maçador. Apesar da propalada crise (que é sobretudo moral), os portugueses teimam nos seus vícios e maus hábitos enraizados, típicos de uma terra atrasada. O mais preocupante e perigoso de todos é, sem dúvida, o de procurarem uma vida melhor, em especial o de estudar, habilitar-se, mandar os filhos para a universidade. Não sei quem, e ao serviço de que obscuros interesses, terá inventado a triste máxima de que o povo também tem direito à educação. Mas já se sabe: estas coisas crescem como os cancros, e depois de incutidas num qualquer pobre de espírito, propagam-se como a peste. A verdade é que Portugal vai de mal a pior: procura-se uma criada de servir e não se encontra, a preços razoáveis; as que há são estrangeiras, careiras e nunca modestas; tenta-se encontrar um mainato que nos lave a roupa, nos leve a carga e nos trate dos afazeres normais de um normal cavalheiro, e é um problema para conseguir alguém decente, com referências e que nos cobre o preço justo; só há estrangeiros; busca-se uma ama competente para cuidar dos infantes, dotadas do devido recato e respeito, e é só ver mulheres desonestas, impertinentes e a exigir fortunas, acompanhadas por um rol de exigências inadmissíveis. Nem falo de moços de recados, escudeiros ou quem nos trate das mulas: só rapazes emproados e arrogantes, que se pavoneiam pelas ruas e recusam o sadio trabalho braçal como seus pais ou avós. Este país perdeu o respeito. As gentes não sabem colocar-se no seu devido lugar, reconhecer a sua condição e respeitar o escol. Isto é - já cá se sabia - o que se passa nas cidades, onde o povo mergulha na perdição e no pecado, inebriado pelos fumos "sociais" que insidiosamente lhes são inculcados, em nome de uma ilusória e sedutora "modernidade". É só exigir, exigir, emprego, emprego, só direitos e nenhuns deveres, nem sequer os próprios da sua classe.

Mas há pior: imaginem que, vim ontem a saber, este caos socialista já chegou aos nossos campos. Antigamente o bom povo do Portugal genuíno e profundo trabalhava alegre e feliz a nossa terra, povoava as nossas aldeias e alimentava a nação de todos nós; cada um sabia qual a sua função e dever e colocava o seu destino nas mãos da Divina Providência. Havia uma ordem natural das coisas. Bastava-lhe a missa aos domingos e o bodo aos pobres anual. Hoje, infelizmente, está tudo a perder-se e a abastardar-se. D. João Afonso Machado, no insigne Corta-Phitas, dá conta de mais um sinal do descalabro social e moral para que a nossa pobre pátria está a resvalar: neste "país de doutores" (como certeiramente o classifica), não se consegue encontrar, em pleno Ribatejo, um ferrador que trate convenientemente das montadas (nem as de el-Rei, ao que adivinho). Os que há são, também ali, estrangeiros (ainda por cima do Norte, provavelmente herejes) e cobram escandalosos contos de reis. O bom povo campino, enganado e ignorante, continua a mandar os seus filhos para a Universidade, para o turbilhão onde fervilha o desemprego e, pior, o germe da desordem e da revolta, contra as propinas altas e sabe Deus que mais. Onde irá isto parar? 


Terça-feira, 07.02.12
Paulo Pinto

piegas 
(origem obscura) 

adj. 2 g. 2 núm. s. 2 g. 2 núm.
1. [Depreciativo]  Que ou quem é muito sensível ou assustadiço.
2. [Depreciativo]  Que ou quem se prende com pequenas coisas.
"De passagem por Bragança, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, disse hoje que tem o direito à indignação" (26.5.2011)

Segunda-feira, 06.02.12

continuar a ver )

+aqui


 

... e limito-me a trazer para aqui a fotografia que animou o twitter nos últimos minutos. Muitos, e ao mesmo tempo, exclamaram "Parece o Relvas" e depois a Ana acrescentou, acertadamente, "parece o fenómeno dos donos que ficam parecidos com os seus cães".

 

 

cfr. infra (actualizado) )

 


João Pinto e Castro

Sabe-se que Assunção Cristas, tão empenhada no desenvolvimento da agricultura como o meu Bóbi, projeta cancelar os investimentos na distribuição de água que permitiriam concluir o Alqueva. Pode-se lá perder uma oportunidade de contrariar uma promessa do Sócrates?
O Público sai hoje em defesa de Assunção (não deveriam, em coerência, chamar-lhe antes Assumpção?) na sua patusca secção Sobe e desce , lamentando-a pela "pesada herança" do Alqueva que herdou e declarando não se "vislumbrar uma saída airosa do processo".
E insiste no editorial: "O Alqueva tornou-se (...) em mais um símbolo de uma era obreirista, estúpida e irracional". Que provas tem o editorialista do que afirma?
Acaso essa tese encontra sustentação na reportagem que ocupa as páginas dois a quatro e que o jornal destaca com uma chamada intitulada "Dez anos depois, o Alqueva está a falhar a revolução prometida no turismo e na agricultura"?
Como de imediato se depreende, trata-se de uma reportagem com tese. Para a vindicar, os jornalistas recolheram os depoimentos de alguns velhotes e reformados apanhados ao acaso que pintam um retrato invariavelmente negro da situação.
No meio de todo este pitoresco relambório, porém, pode-se ler as seguintes palavras de Sevinate Pinto, ex-ministro da agricultura de Durão Barroso:

"'Graças em grande parte a ela [água do Alqueva] o país atingiu a auto-suficiência na produção de azeite' (...) Sevinate Pinto fala ainda do surgimento de centenas de hectares de pomar, frutos secos e vinha para defender os proveitos daquele que considera ser 'o maior e mais promissor projecto agrícola português das últimas décadas."

E mais adiante, citando a opinião do Presidente da Câmara Municipal de Ferreira, escreve-se:

"No lugar das searas e trigo e de outras culturas de sequeiro (...) cresce o novo olival, a vinha, as culturas do melão, melancia, tomate e outras, que no conjunto já ocupam cerca de 10 mil ha de regadio.

"Se não fosse o Alqueva, 'dificilmente' os agricultores do concelho 'poderiam dispor de 40 milhões de m3 de água, necessários à viabilização da nova agricultura que já tem uma taxa de adesão de 75% na área disponibilizada para rega'.

"´Agora estamos à espera das agro-industriais´, acentua, optimista, sem evitar uma crítica ao anúncio da suspensão das obras feito pela actual ministra da Agricultura, Assunção Cristas."

Fracasso do Alqueva ou fracasso do Público? Vocês decidam.


"FGM is affecting about 140 million girls and women, and more than 3 million girls are at risk every year."

 

Adenda1: A secretária de estado da Igualdade disse hoje que a "primeira abordagem à mutilação genital feminina deve ser "o mais amigável possível"". Porque as palavras são importantes "amigável" não me parece, de todo, uma escolha razoável.

 

Adenda2: Estou com a Shyz, "há muita gente a precisar de olhar para pipis! olhar, mexer, etc...44% "talvez" reconhecesse uma mgf?". Quem eram, ou melhor, o que eram estes "profissionais de saúde? Estou estupefacta.


Fátima Rolo Duarte

 

 

O Pedro lembrou o número certo de anos e eu acrescento-lhe as horas. Que horas são estas horas para o pai quando o pai nos deixou a todos? Num dia vivo, no outro morto. Lembro-me das pessoas que estavam presentes, eram muitas, muitas, muitas. O pai morreu sozinho num hospital. Que horas terão sido aquelas horas? O que sentiu? O que sentiu o pai? Se o pai fosse vivo faria 83 anos. Seria um senhor velho bonito, como tão bonito é nesta imagem que todos recordamos, os que o conheceram. De cada vez que leio notícias sobre velhos que morrem sozinhos nas casas, largados à sorte deles, sinto cada minuto que passa antes e depois e brinco para afastar daqui deste sítio a coisa má. Muito para trás e muito para a frente. Não há notícia sobre velhos, mulheres, crianças que me cansem, que não me façam parar. Por piores que sejam, por notícias que de notícias não têm nada dentro? Têm. Têm a morte. E a morte, a ausência, a perda não é normal. Não é normal a saudade, não é normal perder pessoas, não é normal a vida que contém a morte. Sendo que sentido tem sentir desta forma tão intensa e ir contra tudo o que de mais normal tem a vida? A morte certa. O pai não foi só um homem bonito, foi o pai. Que diria ele ao ver-se aqui? Não gostaria. Seria contra mas tão contra que aproveitando a sua ausência, a filha oportunista o cola aqui porque a morte é violenta e incompreensível. Sentir não tem certo ou errado. Sentir é isto, uma coisa tão pequena e íntima que tira ao pudor um bocadinho do grande pudor que o pai tinha, que o Pedro tem, a mãe, eu tenho. Souberas tu como cada um de nós, a nosso fraco modo, tem a tesoura grande arrumada. Se pudesses ver como nasceu o dia aqui, há neves e sol, os passos das pessoas, o cheiro das neves. Se não tivesses desandado sozinho para o sítio onde ninguém bom quer alguém bom. Que terás sentido naquelas horas que não sei quantas foram? Terão sido minutos? Pensaste em quê? Pensaste em quem? Pensaste no filme da tua vida, digo, o filme dos filmes que vias no cinema? Como foi a partida, sozinho? Devia haver uma lei, universal, que regulasse cada morte com uma notícia. Todas as mortes merecem notícia. Todas. Mesmo que a notícia comece com a palavra nasceu e termine com morreu e nos pareça parva, irrelevante e risível. Para afastar a morte do sítio onde a morte está, por todo o lado, é normal que seja a cabeça a comandar o coração e que tudo fique racionalmente arrumado para que a vida continue, como aqui, neste espaço carregado de tanta coisa e coisa alguma. Que continua, para baixo, para baixo, empurrada, para baixo. Como o papel de jornal onde eu te lia sobre os outros e li sobre ti: nasceu e morreu.

 

 

 


Sugestão final para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Mais uma sugestão para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Outra sugestão para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Sugestão para uma qualquer gala oficial da RTP, no D. Maria II (ou não), com a presença (ou não) do Primeiro Ministro e esposa.


Domingo, 05.02.12
João Pinto e Castro

Imaginem que houve uma mudança de direção na vossa empresa. Há natural expectativa em relação ao que fará o novo presidente. A maioria das pessoas gostava do anterior, mas, ao cabo de tantos anos, reconhece que talvez fosse altura de mudar.
Nos corredores e no espaço onde se encontram para tomar café, especulam sobre o que irá acontecer. Já alguém o viu? Os diretores que falaram com ele contaram alguma coisa? Vai haver mudanças na estrutura? Haverá nomeações na calha?
Ninguém parece saber o que pensa ao certo o novo presidente, mas fala-se muito. Há grandes expectativas quanto ao que poderá acontecer. Cada qual faz propaganda das suas próprias ideias sobre que transformações deveriam ser introduzidas. Mas todos dão por adquirido que o homem traz consigo novas ideias e que não tardará a divulgá-las.
Um belo dia, a ordem chega por email: o senhor presidente mandou apagar o corretor instalado em todos os computadores pessoais e proibiu o uso da nova ortografia em todos os documentos de serviço.
Que impacto supõem que isto terá? Como irão os colaboradores interpretar esta decisão? Que sinal deu o chefe às tropas com esse email?
Todos considerarão que, recém-empossado nas suas novas funções, o que mais preocupa o senhor presidente, a sua máxima prioridade, é valer-se do poder de que agora desfruta ao serviço de numa cruzada pessoal em que os quadros da empresa serão meros joguetes.
O que o entusiasma não é renovar a instituição, animá-la a cumprir a sua missão com um entusiasmo renovado, mobilizar toda a gente para prestar um bom serviço à comunidade. A ortografia está primeiro.
O senhor presidente não passa, todos o compreenderam, de um tiranete caquético e mesquinho. Uma semana depois de entrar ao serviço conseguiu desmoralizar definitiva e irremediavelmente todos os que têm a infelicidade de se encontrar sob a sua pata e persuadi-los de que os próximos anos se contarão entre os mais infelizes e inúteis de toda a sua vida profissional.
Que tristeza.


Paulo Pinto

Sábado, 04.02.12
Ana Matos Pires

Ana Matos Pires

Alguém com responsabilidades e palco político e mediático insistir nesta conversa da treta de "Lisboa vs Norte" parece-me absolutamente cretino. Muito aconselháveis, estas divisões. E depois chora, como na vez dos "sulistas, elitistas e liberais".


Ana Matos Pires

Que eu tenha dado por isso, já é a segunda este ano.


em 1997, joão carreira bom, colunista da revista do espesso, viu a sua colaboração com o jornal abruptamente interrompida por ter ousado criticar o patrão balsemão num texto sobre a programação da sic, que apelidava de 'tele-lixo'. o então director do jornal, o deslumbrante arquitonto, veio aliás asseverar que se tivesse tido conhecimento antecipado da crónica não a teria publicado.

 

apesar de ter chocado muita gente, esta assunção descomplexada da defesa da censura por um director de jornal (para mais com os pergaminhos do espesso) e o despedimento de alguém por delito de opinião não suscitaram nem debates no parlamento nem interpelações e nem sequer uma audiçãozinha na comissão de ética e comunicação social. nadunxa. isto porque, aparentemente, em portugal a censura e as cessações de contrato por delito de opinião só ganham relevo e só indignam se existir qualquer possibilidade de atribuir as causas àquilo a que costuma chamar 'o poder' -- sendo que para a maioria das pessoas que se pronunciam sobre estas coisas 'o poder' é só e apenas 'o poder político'.

 

vem este intróito a propósito daquele a que se deu o nome de 'caso pedro rosa mendes'. tenho poucas dúvidas de que, se ouviu ou teve conhecimento da crónica do pedro, o ministro relvas não terá gostado. acredito também que à própria administração da rtp o conteúdo da mesma não pode ter agradado. e decerto o pedro quando a escreveu não tinha em vista ser simpático para uma e outro. daí que o facto de, a seguir à publicação da crónica, ter sido informado de que a sua colaboração ia terminar, não possa deixar de criar a suspeita de que esse afastamento se deveu ao conteúdo da crónica -- mesmo que não tenha sido esse o caso.

 

a diferença de reacção face aos dois casos -- o de carreira bom e o de rosa mendes (e poderia dar muitos outros exemplos, incluindo um recente ocorrido na bola) --, se frisa o quanto a defesa da liberdade de expressão está geralmente adstrita, em portugal, a critérios de oportunidade da luta política, permite por outro lado perceber o quanto é importante a existência de serviços públicos de informação e de difusão de opinião. é que estes são os únicos em que os critérios editoriais passam necessariamente pelo crivo da sindicância parlamentar e podem ser questionados com efectivas consequências. num mundo em que toda a informação e difusão de opinião é privada, o debate e a interpelação sobre situações em que a liberdade de expressão possa estar em causa fica, como parece amplamente demonstrado no caso de carreira bom, restringida pela ideia do 'direito de quem paga'. a 'deslealdade' ao patrão dos media só está consagrada e só é esperada e incensada, afinal, no serviço público.

 

assim, ao contrário do que se tem sustentado, casos como o chamado 'caso rosa mendes' só reforçam a necessidade de um serviço público de rádio e tv.


 

Esta manhã, quando fui confrontada com notícias que referiam um novo documento da igreja católica portuguesa que tratava de, entre outros temas, exorcismos desatei a rir e só me vinham imagens como a que ilustra este post à cabeça. Curiosa compulsiva como sou fui à procura do dito documento - afinal a fonte das notícias era o CM, logo nunca fiando - e, se bem que a gargalhada tenha continuado, tal é o delírio da coisa (cfr. aqui a partir da página 7), confesso que fiquei preocupada e que me parece fazer sentido que a Ordem dos Médicos seja interpelada já que, como é óbvio pelas palavras do cardeal patriarca, há médicos que são chamados  a participar - e participam! -  na sua condição de médicos em tão inenarráveis cerimónias.


'No que se refere aos chamados "feriados religiosos", julgo que a Igreja lidou mal com o problema, ao situar-se no plano de reivindicação perante o Estado: dois feriados religiosos face a dois civis. No quadro de boas relações mútuas, a Igreja não pode nem deve colocar--se no plano da igualdade com o Estado, pois são ordens diferentes.'

 

(anselmo borges, hoje no dn)


São 11.07 e a SIC Notícias faz um direto para o aeroporto a apanhar o treinador Manuel José, vindo do Egito; magnífico momento de televisão, sempre presente onde a notícia acontece. Lá vem ele, a  jornalista Márcia Torres vai atrás; "não vimos ainda familiares de Manuel José", diz. Ele detém-se e fala. Pede desculpa por não ter respondido a ninguém. Teve um susto, recebeu condolências, foi um dia complicado. "O que é que me apetece dizer?". Que aquilo parece ter sido organizado. Fala dos "nossos adeptos" e depois diz que o árbitro que devia ter suspendido o jogo. E que "ninguém mexeu um dedo". Afirma ter uma "relação estranha com o povo egípcio" e que o Egipto tem uma história de "turismo cultural com 5000 e tal anos". A jornalista está interessada em saber se ele está preocupado com a passagem dos distúrbios para a rua. Pelos vistos, o Manuel José é o único que conhece o Egito e que a sua chegada a Portugal priva a imprensa portuguesa da única voz que conhece o terreno. E lá voltam as perguntas. "Nós perdemos o jogo porque o árbitro estava completamente condicionado". Depois, uma incursão na política: "Os cristãos querem mais direitos ainda dos que os que têm". "E quando foi para o jogo ia descansado?", pergunta uma perspicaz profissional. "Pode-se extrair alguma lição deste episódio?", pergunta outro ainda (é sempre bom querer saber a moral da história). A conversa volta à rivalidade entre adeptos de clubes e o entrevistado assegura que nunca houve problemas. A mesma jornalista insiste e quer saber se "ia descansado para o jogo" (coisa importantíssima, de facto, nem sei como é que não ocorreu perguntar-lhe o que tinha ele comido ao pequeno-almoço). Depois o treinador vai-se embora. A jornalista faz um sumário das declarações e termina dizendo que "vai diretamente para Espinho, para casa do filho" e que "vai continuar a ser treinador idolatrado no clube egípcio". São 11.22. 15 minutos de direto televisivo. Morreram mais de 70 pessoas, mas isso não foi mencionado (nem parece interessar muito), e para sabê-lo tenho que procurar noutro lado. Estrodinário.


João Galamba

We, on the contrary, believe that if Greece Germany, far from making the slightest effort to carry out the MOU treaty of peace, has always tried to escape her obligations, it is because until now she has not been convinced that she is living above her means and needs to control her public finances and regain competitiveness of her defeat...We are also certain that Greece Germany, as a nation, resigns herself to keep her pledged word only under the impact of necessity

 

Angela Merkel, 2012 Poincaré, Primeiro Ministro francês, 1923

 

 



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