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Ainda não vi o relatório do Observatório Português do Sistema de Saúde a que hoje se faz referência na comunicação social mas os resultados encontrados na Unidade Local de Saúde do Alto Minho, onde se verificou, «de 2011 para 2012, um acréscimo no diagnóstico de depressão de 30% para os homens e 31% para as mulheres. Já relativamente aos registos de tentativas de suicídio, e no mesmo período, verificou-se um acréscimo de 35% para os homens e 47% para as mulheres”» não podem ser extrapolados para o todo nacional, há que ter cuidado com o lançar avulso de números para a praça pública. Esta outra notícia parece-me bem mais conseguida, aqui fica:
Os professores fizeram greve? está mal, porque isso prejudica os alunos. Os estivadores? pior, porque isso prejudica a economia. Os médicos? muito mau para os utentes. Idem para os enfermeiros. E os trabalhadores do setor dos transportes? infernizam a vida a milhares de pessoas. Os pilotos, os controladores de tráfego aéreo? colocam a TAP à beira do abismo. Os bancários, os contabilistas, os funcionários administrativos? prejudicam gravemente o país. Os técnicos municipais, os jardineiros, os que fazem recolha do lixo? afetam a rotina diária de muita gente. As greves gerais? paralisam a economia, causam milhões de prejuízo, fazem Portugal andar para trás.
Dizem que a greve é um direito porque consta na Constituição. Ora, o problema não está na Constituição em si (que é sagrada), está nos resquícios do PREC que ainda lá restam. Bastariam umas pequenas atualizações. No art. 57, onde diz "1. é garantido o direito à greve", deveria ser acrescentado "desde que não cause danos a terceiros ou prejuízos aos altos interesses da Nação". De seguida, onde se lê "2. Compete aos trabalhadores definir o âmbito de interesses a defender através da greve, não podendo a lei limitar esse âmbito", bastaria uma quase impercetível correção: "Compete ao governo em funções definir o âmbito de interesses a defender através da greve, não podendo os trabalhadores alterar esse âmbito". E estava resolvido. Não percebo a razão para tanto chinfrim. Quem quisesse fazer uso do seu legítimo e democrático direito à greve, constitucionalmente salvaguardado, não esqueçamos, podia fazê-lo ao domingo, ou no seu período de férias. Porque é que ninguém faz greve em agosto? As Greves Gerais seriam no dia de Natal; as manifestações, na Páscoa e no Corpus Christi, desde que acompanhassem as procissões. Atenção, não sou contra a greve. Ninguém é. Até o Senhor Presidente da República, Senhor Professor Doutor Aníbal Cavacuo Silva, Chefe de Estado e símbolo máximo da Nação, é a favor. Mas abusos, não. O ideal seria que os grevistas se limitassem a usar uma braçadeira negra no trabalho. Mostravam a sua revolta mas não prejudicavam ninguém. A televisão ia lá, filmava tudo e as pessoas, em casa, compreendiam como os trabalhadores estavam muito zangados e como a sua luta era justa. E se estivessem mesmo, mas mesmo muito arreliados com alguma coisa incorreta que o Senhor Ministro tivesse feito, que o ignorassem mesmo, mesmo, de forma dura, com maldade, seguindo este exemplo, apre.
E como sou simpática faço aqui um link directo para o João Távora, seguramente não quererá deixar o Abel Matos Santos sem esta informação depois de ter escrito isto, desta vez sem plagiar - de caminho sugira-lhe que pergunte ao Marinho Pinto se uma das funções de uma Ordem profissional não é a emissão de pareceres, disseram-me que estava equivocado em relação a isso. Aqui segue o texto do Jorge Gato, Psicólogo, Doutorado em Psicologia pela Universidade do Porto:
O debate a que temos assistido sobre a lei da co-adopção tem sido caracterizado por uma troca de argumentos por vezes ruidosa, que em nada contribui para o esclarecimento do assunto em questão. Pelo menos do ponto de vista da Psicologia. Tendo realizado um doutoramento na área da homoparentalidade, entendo que posso dar um contributo menos "inflamado" e informativo para esta discussão. Sou, aliás, a tal obrigado pelo Código Deontológico que rege a minha profissão, de acordo com o qual: "Os investigadores não fabricam resultados, incluindo invenção, manipulação ou apresentação selectiva de resultados e corrigem publicamente erros encontrados" (Ordem dos Psicólogos Portugueses, 2011, p. 29.). Sendo assim:
Foi hoje homologado o novo programa de matemática. Que tenha havido um consenso na crítica* fora da esfera cratista não interessa nada. E que, como referiu há bocado o Pedro Sales no twitter, tal tenha acontecido a "a 3 meses do inicio das aulas, sem ser previamente testado em escolas piloto, sem formação professores e sem manuais" também é absolutamente irrelevante.
Outra irrelevância: o antigo programa - juntamente com outras coisas, claro - estava a produzir bons bons frutos, como se prova pelos resultados do TIMSS divulgados há meses (sobre este tema recomendo a leitura - ou releitura - deste post do Hugo )
* vide, a título de exemplo, esta notícia sobre a Associação dos Professores de Matemática e este parecer da ESE.
Na edição de 1 de junho deste jornal, sete casais adotantes posicionaram-se contra a coadoção em casais do mesmo sexo, referindo-se à investigação científica que contraria a sua posição, nos seguintes termos: “Os poucos estudos que dizem o contrário [isto é, que uma boa família não é obrigatoriamente constituída por uma mãe e por um pai] são duvidosos, apesar de darem muito jeito a alguns”. Não posso deixar de partir do princípio que os autores do texto consultaram e reviram atentamente os estudos a que se referem. Contudo, ao longo dos últimos anos, dediquei-me a essa mesma tarefa no âmbito do meu doutoramento, chegando a uma conclusão diametralmente oposta. Ou será antes que a utilização das expressões “duvidosos” e “darem muito jeito” corresponde apenas a uma certa imodéstia na utilização dos adjetivos, compreensível no contexto emocional do referido texto? Sendo esse o caso, entendo que, em nome do direito à informação, os leitores do Expresso merecem mais.
Não escrevam estas coisas "Pedro Magalhães estava deprimido e não conseguia aceitar a separação de Mónica", só desajuda em termos preventivos. De uma vez por todas: ninguém mata por estar deprimido.
Adenda a 17/6: Ferreira Fernandes no DN sobre o mesmo assunto
A indigência cognitiva é daquelas coisas que nunca irão deixar de me surpreender. Li a (felizmente) curta entrevista que o líder da Juventude Centrista deu ao i e... coitadito. Gostei muito daquela brilhante resposta à pergunta "Mas discorda ou não que os casais do mesmo sexo que já têm filhos possam ter acesso à co-adopção?", vai ele e diz "Discordo do debate que se tem feito em Portugal, em torno das associações de gays e lésbicas. O que eles gostavam era que Portugal se transformasse num imenso arco-íris de uma ponta à outra, em que tudo fosse possível a estas associações. Isto não é possível. Isto nunca aconteceu e espero que nunca aconteça em Portugal.".
Alguém faça a caridade de explicar ao rapaz, pelo menos, que a discussão da co-adopção não diz respeito apenas a "eles (os homossexuais)" - é assim uma coisa das crianças, o menino 'tá a ver? Olhe, estudasse.
anteontem à noite, quando já sabiamos que ias morrer, fizemos-te uma espécie de velório de jugas, no nosso mail. de como te tinhamos conhecido, do melhor que e do que melhor lembrávamos de ti (a irene contou esta história fantástica que diz da tua coragem serena, a mesma com que enfrentaste este pavor que te levou), e da falta que ias -- a nós e não só a nós -- fazer. de como te vimos esta segunda-feira, eu, a shyz e o joão (galamba), a contar as tuas histórias de hospital e a fazer-nos rir com elas, da conta de twitter que pensaste criar de propósito -- tinhas um nome e tudo, e eu esqueci-me, era enfermaria, não era? de como pareceste contente por nos ver e de como ficámos contentes de te ver contente, a ponto de acreditar que te veriamos mais vezes, que não era a última.
de como parecia irreal que pudesse ser assim, sem recurso, sem argumentação possível (nós, que achamos que podemos ganhar qualquer coisa argumentando). que tu, o nosso mais velho -- foste-o durante muito tempo, até que a irene se juntou a nós -- desde o 5 dias, não continuasses a olhar-nos com a ironia leniente, às vezes cáustica, mas sempre carinhosa, de quem vê miúdos um pouco tontos, frequentemente ignorantes e armados ao pingarelho, em algazarra permanente, a comprar todas as guerras, a ir a todas as brigas, mesmo as que claramente não valiam nem nunca valerão a pena ou sequer a energia. (e de como tantas vezes rompias o silêncio para nos certificar que estavas a ver, e que podiamos contar contigo do nosso lado, por mais parvos que achasses que tinhamos sido em nos metermos ao barulho).
de como era óbvio que te divertiamos (a tua cara no primeiro jantar do 5 dias em que estivemos todos, em 2008, e os comentários que fizeste nos mails a seguir, esperto que nem um rato, com as nossas fotografias tão bem tiradas, tão bem anotadas, tão certas) e que sabias que te respeitávamos e que quando nos levantavas a voz (metaforicamente) isso nos deixava inquietos, incertos das nossas razões.
de como não te teriamos mais no twitter a dizer a coisa definitiva sobre isto ou aquilo, com a brutal secura do teu insuperável sentido de humor, ou para fazer saber da tua total falta de paciência para bullshit (mesmo que fosse nossa, e tantas vezes foi).
de como gostávamos de ti -- e posso, falando por mim, dizer que me surpreendeu perceber o quanto gosto de ti, não porque achasse que não gostava, mas porque me habituei tanto a ter-te por seguro, constante, ali, que nunca tinha pensado nisso -- e da gina, de como o vosso amor um pelo outro nos comovia e inspirava, nos comove e inspira, redimindo de toda a incredulidade.
sei, joão, que pensarias 'ah, lá estão eles, de cada vez que morre alguém é isto, era perfeito, era maravilhoso, era extraordinário'. também penso como tu, e confesso que me chateia pensar que se morrer amanhã posso ter toda a bloga e tuitosfera a fazer-me elogios fúnebres desse tipo, ou daquele 'não concordávamos sempre mas respeitava-o muito', 'era um senhor', etc.
não, joão. tu eras mesmo espantoso, e foi uma honra conhecer-te, ler-te, ouvir-te (e decorar aquele gesto de puxar os óculos para cima enquanto falavas, aquele sacudir de ombros de quem sacode a estupidez do mundo, a inteligência do teu olhar, o teu sorriso quase imperceptível quando gozavas o prato de uma calinada ou de uma história engraçada, a vivacidade das tuas gargalhadas) escrever nos mesmos blogues que tu, sair de um para criar outro contigo. e saber que gostavas um bocadinho de mim, o suficiente para, um dia, me teres enviado um mail a dizer qualquer coisa como 'conta comigo'. não sei o que te respondi na altura, talvez tenha só dito obrigada (também posso ser lacónica, sabes?). mas era um obrigada mesmo a sério, daqueles que dizem 'fico-te obrigada'.
Sua mulher Maria Regina Lourenço Ferreira, seus filhos André Ferreira e Castro e Inês Ferreira de Castro, sua mãe Maria Alice Torres Pinto de Castro, sua irmã Maria Leonor Pinto e Castro e demais família, participam o falecimento do seu ente querido na sequência de doença prolongada.
O velório realiza-se no sábado 15 de Junho, a partir das 17:30h, na Igreja de São João de Deus à Praça de Londres, em Lisboa. No domingo 16 de Junho, às 12:30h será celebrada Missa de Corpo Presente na Igreja de São João de Deus, seguida, às 13:00h do funeral para o cemitério do Alto de São João.
João, aqui no «Jugular», eramos os mais velhos, de outra geração. Tu tinhas a minha idade, eras até um pouco mais novo. O que eu gostava de te ler, da tua inteligência, da tua ironia e do teu maravilhoso sentido de humor, bem como do teu sentido de previsão (quase profético). Acabei de ler um texto teu de 2003, sobre o euro, estava lá tudo. Gostava de estar contigo, seguir o teu pensamento brilhante, original, acutilante e criativo. Os teus textos na imprensa e os teus posts, não só os “económicos” (como diz a Shyz), eram maravilhosamente bem escritos. Eu também tinha predilecção por aqueles, curtos, sintéticos e cáusticos, indo directos ao alvo e, como já alguém hoje disse, completamente compreensíveis.
Contigo, tenho uma história que vou contar agora. Conheço-te desde “miúda”. Eramos crianças, quando nos encontrávamo-nos nos aniversários de amigos comuns, e brincámos juntos. Depois, nunca mais te vi, até uma noite, em 1973, ou início de 1974, antes daquela madrugada clara e luminosa, que ambos tanto gostamos – não sou ainda capaz de utilizar o verbo no passado -, de 25 de Abril. Eu vinha de Queluz, de um encontro político clandestino, a conduzir um «Morris» e, pelo retrovisor – olhávamos naqueles tempos sempre à nossa volta -, comecei a ver um automóvel sempre atrás de mim. Pensei, como todos pensávamos então, que se tratava da PIDE e comecei a pensar que jamais poderia chegar a minha casa, em Lisboa, com aquela viatura atrás. Como sabíamos, em caso de prisão, o que se fazia era fazer barulho para que eventualmente alguém ouvisse e avisasse que nos tinham apanhado e estávamos nas mãos da polícia política. Ora, era noite, e às tantas cheguei à Avenida Fontes Pereira de Melo, perto do Marquês de Pombal muito próximo de minha casa, quando vi a solução.
O semáforo estava vermelho, olhei para o automóvel do lado e vi-te, a ti, aquele miúdo que eu conhecia de pequena e que tinha perdido de vista. Pensei que podia confiar em ti e pedi-te ajuda. Parada no semáforo, saí do carro em plena Fontes Pereira de Melo e dirigi-me a ti. Estavas ao volante. Não sei o que te disse, porque à época não se falava expressamente, muito menos da PIDE/DGS, mas contei-te que pensava estar a ser perseguida e pedi-te para ires atrás de mim até minha casa, dando-te a morada. Assim fizeste e o certo é que a viatura que me seguia desde Queluz, viu o que estava a acontecer e despareceu. Nunca soube se se tratava da PIDE, ou de outro perseguidor qualquer, mas sei que me “salvaste”. Depois, ria-me a pensar o que terias tu achado de mim: se eu era louca ou paranóica?
E o mais curioso – soube muitos anos depois, quando de novo te reencontrei e fizemos parte dos mesmos blogues – que também tu estavas organizado num partido clandestino contra o regime ditatorial e a guerra colonial, o que te fizera correr então um risco muito maior do que eu pensava. Pertencíamos a duas organizações políticas clandestinas da esquerda radical, parecidas mas diferentes, em tempos de sectarismo e de todas as “certezas”. Nunca esqueci a ajuda que então me prestaste. Tinha esta história para te contar e ver se te lembravas dela, mas, nos nossos numerosos encontros, nunca te falei dela.
Agora já não te poderei contar o episódio, mas vou contar à Gina, na qual penso neste momento. E nos teus filhos, Inês e André. João, que bonita história de amor a tua e a da Gina. Saudades.
Foi no seu blog pessoal que soube que esta era uma das canções preferidas do João Pinto e Castro. Foi nesse blog que o descobri há 10 anos e se transformou num dos meus bloggers preferidos. Foi, anos depois, num outro blog - militante, na altura do referendo do aborto - que escrevi pela primeira vez no mesmo espaço que ele. Até Fevereiro de 2007 nunca tinha visto o João, apesar de me encantar com os seus escritos e lembro-me muito bem do nosso primeiro encontro e da descrição que dele fiz ao Paulo Pinto, e que provocou risos, "É um senhor, mesmo com ar de senhor e tudo". Quando "conhecemos" alguém online acabamos por criar uma imagem da pessoa, e a vivacidade e sentido de humor (cáustico, como gosto) do João fizeram com que imaginasse alguém mais jovem e menos... hum, composto, vá.
Pela mão da Fernanda, uns meses depois havia de me voltar a encontrar num blog com o João e ele passou a fazer parte do meu quotidiano. Até hoje...o João morreu esta madrugada.
Em Lisboa é prática corrente há muito: as paragens nos semáforos são momentos em que os automobilistas são convidados a comprar pensos, revistas, bordas d'água ou outro artigo qualquer. Por esse país fora, outra prática também se tornou banal: a GNR faz emboscadas aos aceleras, geralmente camuflada (e assim mostrada pelos media) de "campanha de sensibilização". O fim é o mesmo: sacar dinheiro. No primeiro caso, fazendo apelo ao espírito caritativo, no segundo, como punição. A gente sabe que, se comprar a revists Cais, está "a ajudar" e, se levarmos uma trancada de 120 € por excesso de velocidade, é porque passámos das marcas e pensámos que ninguém estava a ver. E, claro, também estamos a "ajudar" a tornar a dívida sustentável, a amortizar um qualquer swap ou, mais cristãmente, a pagar a reforma da velhinha que vive lá na nossa rua.
Cuidado. Pelas bandas saloias onde vivo, há uma prática que se está a tornar comum. De cada vez que deparo com ela, dou largas ao meu vernáculo, passando, evidentemente, por bruto, malcriado, insensível, snob, sei lá que mais. Ainda há meia hora. E o que mais me irrita não é o apelo em si: deparo com ele a toda a hora, sob tantas formas, nas compras, nas campanhas, nos supermercados, enfim. O que me incomoda é a nova modalidade, digamos, "caritativo-compulsiva" que parece estar a generalizar-se.
O que é? Simples: um grupinho de cobradores militantes coloca-se numa rotunda, se possível (como foi o caso) à saída de uma via rápida, para não haver escapatória. E bloqueia todos os acessos, cada um à vez, metendo-se à frente dos carros e "convidando-os" a parar. Interpelam o condutor com palavras simpáticas e fazem a devida chantagem emocional. Há um ano ou dois vi uma associação de ajuda a deficientes visuais (se não era a ACAPO era parecida) a fazer isto, agora, vai não volta, são os bombeiros. Não percebe esta gente que este "convite" é contraproducente, que as pessoas se sentem "portajadas". E ilegal, evidentemente, mal estaríamos - ou se calhar, já toda a gente acha normal - que qualquer um monte uma barraquinha no meio da estrada e condicione a circulação por uma qualquer motivo pessoal. Temo as consequências, se isto se vulgarizar. Já imagino coincidências e antevejo ter um pesadelo, uma destas noites: a GNR a montar cerco, a mandar parar o trânsito e todo um regimento de coletividades, cobradores, mendigos, fiscais, gente da ZON e da MEO, funcionários das Finanças e vendedores de rifas a assaltar o automobilista.
(Foi um interregno. a "ilha de Cristo" regressa mais logo).
Assisti há pouco ao "Linha da Frente" na RTP-1, que me surpreendeu pela temática: "A ilha de Cristo". Trata-se de uma reportagem realizada, penso, na última Páscoa, quando outros jornalistas produziram peças idênticas (como esta, no Público). A temática é já bem conhecida por cá, desde a normalização das relações entre Portugal e a Indonésia: as celebrações católicas - particularmente a Semana Santa - na ilha das Flores, Indonésia. É uma reportagem muito interessante, passe alguns percalços menores, como chamar a Larantuka "capital das Flores", coisa que não é; é, sim, capital de uma "regência", ou seja, uma região administrativa - Flores Oriental - que engloba a ponta leste da ilha, Adonara e Solor. Um dos aspetos mais interessantes é que, como em tantos outros casos no cinema ou na televisão, revela mais de quem a produz do que do objeto sobre o qual incide.
As procissões da Semana Santa em Larantuka podiam ser filmadas há 20 ou 30 anos, que as diferenças visuais não seriam significativas. Mas o olhar de quem filma e interroga essa realidade é que mudou radicalmente: há várias décadas, o jornalista procuraria certamente os "vestígios" da presença portuguesa, talvez como forma de causar admiração e espanto sobre a fé religiosa que move aquelas pessoas e o modo como idolatram tudo o que é (ou tomado por) portugis. Possivelmente, iria tentar provar que os portugueses não tinham preconceitos raciais para se misturarem daquela forma e que o catolicismo dos missionários portugueses era tão intenso e verdadeiro, que subsiste até hoje. Posteriormente, digamos que entre 1975 e 1999, o jornalista diria que fora autorizado a filmar sem pactuar com as autoridades indonésias, que conseguira manter a sua independência e que tudo o que recolheu foi obtido sem a vigilância da polícia política de Suharto; e não deixaria de traçar paralelos com a situação de Timor, talvez arriscando dizer que, ao contrário da opressão sobre os católicos timorenses, ali havia liberdade religiosa e as pessoas iam à igreja de forma rotineira e não como arma de resistência a um invasor.
Hoje, o jornalista dirige um outro olhar: a comunidade católica, maioritária na região (mas imersa num mar muçulmano, o tal "maior país muçulmano do mundo"), convive pacificamente com a minoria islâmica. E não apenas convive, como colabora: a segurança das festividades é deixada aos muçulmanos que, por sua vez, concedem também um espaço de participaçao aos católicos nas suas próprias festas. Mostram, até, o caso de um católico que casou com uma ex-muçulmana convertida, após alguma relutância da família (mas que acabou por aceitar e por participar na cerimónia). Isto, na terra, parece banal e solidamente enraizado; mas por cá, bombardeados que estamos de notícias, filmes, ficção, cinema, medo e ignorância acerca do Islão, invariavelmente associado a barbudos, terroristas, bombas, assassinatos, mutilação genital e intolerância, a coisa causa admiração - e o documentário está direcionado para isso mesmo. Serão mouros bonzinhos, estes, ao contrário dos outros, maus como as cobras? Ou, de uma vez por todas, começaremos a entender que, como dizia Shakespeare, "há mais coisas no céu e na Terra do que a nossa filosofia pode imaginar"?
"O ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, afirmou hoje que o próximo ano "irá marcar o fim da crise" e permitirá a Portugal retomar o crescimento da economia", lê-se no Expresso. Um bravo, este Álvaro Santos Pereira. De facto, garantir tal coisa com toda a gente a prever recessão requer coragem, otimismo e confiança. Ou, pensando melhor, nem tanto. Sobretudo se se reparar que estas afirmações não são de hoje, mas de 14 de novembro de 2011. O "próximo ano" era 2012 que, como todos sabemos, marcou o fim da crise e, como o certeiro ministro tão acertadamente vaticinou, "o ano da retoma para o crescimento de 2013 e 2014". Ora bem. Sobrou alguma medalha do 10 de junho para dar ao ministro da Economia? ah!?
Foi há 20 anos. Era eu um jovem aluno de mestrado e tinha acabado de ver publicado um pequeno artigo para um catálogo de uma exposição. E pago, que era coisa que ainda se usava. Por quem? Pela inefável Comissão dos Descobrimentos, recentemente criada e dirigida, à época, por aquele modelo de humildade e competência chamado Vasco Graça Moura. Não sei se os contratos blindados que enfeitaram a encomenda de uma ópera a Philip Glass, e que custaram um milhão e meio contos deitados para o lixo, já tinham sido elaborados. Sei, sim, que os vinte contos, ou lá o que foi, que me eram devidos demoraram a pagar. Após as demoras burocráticas habituais, lá me disseram finalmente que podia "ir receber". Mas só às terças de manhã ou quintas à tarde (se não foi isto, foi parecido), que eram os dias em que se "pagava aos autores", e contra recibo, evidentemente. Lá fui, cantando e rindo e já esquecido dos meses de espera e das dúvidas sobre se pagavam ou não. Entrei orgulhoso e de peito inchado na Casa dos Bicos. Afinal, era um "autor" que tinha produzido "obra científica" sobre Descobrimentos e ia ser pago pela Comissão que, pensava eu na ingenuidade da juventude, existia para isso mesmo. Em cinco minutos, tudo se esvaiu. Começou com a funcionária a olhar para mim com ar incomodado como se eu fosse um cobrador de dívidas. E prosseguiu no ato do pagamento, algures no primeiro andar, num gabinete sem identificação. Esperei no corredor minúsculo, acompanhado de mais uns quantos caloiros nestas andanças, todos em pé - que cadeiras eram luxos exclusivos de altas individualidades - e com ar comprometido de quem ia mendigar uns trocos. Finalmente, lá chegou a minha vez. Bati e entrei a medo num gabinete com ar solene, onde um senhor com ar severo e enfadado me olhou de cima a baixo e perguntou "o que é que o senhor quer?". "Ah, vem receber, entre lá". E lá me passou um cheque, que me entregou no momento. Chatice, ter que pagar aos autores; e vêm todos ao mesmo. Olhou para mim como se o dinheiro fosse dele e o ar antipático deixava transparecer um "juizinho, aproveita que hoje estou bem disposto". Soube, mais tarde, que era militar e chefe da tesouraria da Comissão, de apelido igual a um catedrático da Faculdade de Letras que eu conhecia. Saí, enfim, aliviado, com os vinte contos na mão, mas com um travo amargo, como se tivesse acabado de espoliar os contribuintes.
A notícia do dia não difere muito disto. Não pagam porque não há dinheiro, afinal há mas falta a lei, afinal há dinheiro e lei, mas logo se verá, se calhar já não vai a tempo. Há quem diga que é simples desnorte governativo. Eu acho que é uma encenação propositada e intencional. Primeiro alguém diz que não se paga porque não há dinheiro, para que as pessoas se arrepiem com o fantasma da falência do Estado - e, claro, mandem tudo para as costas do Sócrates -. Ontem já era um problema de legislação; culpem os madraços dos deputados da oposição e outras "forças de bloqueio". Hoje, afinal, é uma questão de contradição entre o Orçamento de Estado aprovado e as decisões do Tribunal Constitucional. Não pagam, não pagam, quem sabe se pagam, ah se calhar pagam. Pois pagarão, claro que pagarão. Foi só para o susto. Com ar de grande esforço e incómodo, como se o dinheiro saísse do bolso do Rosalino ou do Passos Coelho, que têm que andar a sustentar chupistas, e apesar da cambada de inúteis que não deixa o governo governar e salvar o país, professores e funcionários públicos e outras abéculas incluídas que vão fazer greve e tudo. Tomem lá o vosso subsídio, chulos de merda mal-agradecidos, enforquem-se com ele, nem vale a pena avisar para não gastarem tudo em putas e vinho verde. Por esta escaparam, mas ficam já avisados para a próxima.
Contou-me hoje uma colega. Sem grandes desenvolvimentos para não incorrer em quebra de sigilo. M. tem um trabalho que se prende com emergências médicas, é o único elemento do seu agregado familiar que ainda tem emprego, apresenta um quadro de depressão grave e está de "baixa" há quatro meses por indicação médica. Vai a uma junta médica - julgo que a segunda. Veredicto "percebemos que não está em condições de ir para uma ambulância mas temos de lhe dar alta, se quiser pode ficar de "baixa", até percebemos... mas sem receber". Numa altura em que tanto se fala nas averiguações (necessárias) das fraudes nas "baixas médicas" era bom que se averiguassem também as fraudes nas "altas médicas". Vou ser ruim, só espero que não seja um qualquer familiar destes senhores a precisar ser reanimado por M. num qualquer dia em que o seu desempenho possa ser alterado pelas incapacidades temporárias para o pleno desempenho da actividade laboral em virtude da sua situação clínica.
Não podia estar mais de acordo com Miguel Esteves Cardoso (hoje no Público) quando diz:
«Viva Edward Snowden! Que não seja nunca apanhado e viva uma vida secreta e feliz. É animadora a coragem dele, de mostrar que estamos a ser vigiados e que todas as companhias que usamos "de graça" (Facebook, Google), a que pagamos pouco (Skype) ou muito (Microsoft, Apple) estão a trair-nos e a divulgar os nossos dados, grátis, aos poderes políticos que as solicitam.
(....).
Fica mal a Obama ceder ao velhíssimo complexo militar-industrial e colaborar na diabolização de quem o denunciou».
A Amnistia Internacional tem estado a acompanhar a situação na Turquia e pede que se assine e divulgue esta petição.
O investigador para o país já está a analisar as ocorrências e o escritório da Amnistia em Istambul chegou mesmo a ter de ser usado como “hospital”. Recordamos que tudo começou a 28 de maio, quando várias pessoas se manifestaram contra a destruição do Parque Gezi. A polícia tem desde então usado força excessiva sobre os manifestantes, o que inclui o uso de jatos de água e de grandes quantidades de gás lacrimogéneo (por vezes em espaços confinados).
Vale a pena ouvir o investigador da Amnistia, no vídeo que explica o que já está a ser feito para tentar evitar mais mortos e feridos e ler a notícia publicada recentemente.
Assine a petição que pede proteção para os manifestantes e divulgue. É urgente atuar!
Vou dedicar-me aqui a um exercício “politicamente incorrectíssimo”, que é raro em Portugal. Criticar directamente a recensão de um livro, sem o fazer atrás das costas ou utilizando um meio típico – o silenciamento. Vem isto a propósito da recensão muito crítica publicada por António Araújo do livro, Os últimos Presos do Estado Novo, de Joana Pereira Bastos (Oficina do Livro, 2013). Não fazia tenção de eu própria fazer uma recensão crítica deste último livro, apesar dos erros factuais e de o considerar frágil no que se refere à investigação e com lacunas relativamente às fontes e à bibliografia, aliás como refere – e bem - António Araújo.
Devo esclarecer que já tive ocasião de escrever à autora, dizendo-lhe o que pensava da promoção do referido livro, numa notícia da Lusa, segundo a qual a própria dizia que em Portugal a Historiografia – e presume-se o jornalismo – não tinha até hoje dado importância à acção das oposições civis ao regime ditatorial (já agora, passe a publicidade, tenho no prelo precisamente um livro sobre esse tema, que aborda as oposições aos regimes ditatoriais – militar e civil – em Portugal, entre 1926 e 1945). Como eu escrevi à autora, existe uma vastíssima bibliografia historiográfica e jornalística sobre o tema, muitas obras de testemunhos da autoria das próprias pessoas que viveram os acontecimentos e antologias de testemunhos. Para só dar um exemplo, refiro a obra importantíssima do meu amigo, já desaparecido, Miguel Medina, Esboços, Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo (2 vols.,1999 e 2001), aliás referida por António Araújo. No entanto, acima de tudo, embora deixando claro que o livro de Joana Pereira Bastos, muito longe disso, não é o primeiro (nem o último, felizmente) sobre o tema, quero afirmar que considero a sua publicação muito bem-vinda. Que mil livros sobre o tema, e todos os outros, «floresçam», mesmo se passíveis de crítica! E outra coisa, ninguém é dono de um tema, que será sempre abordado e interpretado de forma diferente por cada um e à medida que o tempo passa. E ainda bem.
Ora vejo agora uma recensão crítica de António Araújo sobre o livro, com a qual em parte concordo, mas que me deixou verdadeiramente abismada por, de novo, ao referir bibliografia sobre o tema, não mencionar, entre muitos outros, o meu livro, História da Pide (2007) e o da minha colega Dalila Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial (2004), ambos com origem em duas teses de doutoramento. Claro que o autor da recensão poderá dizer que não mencionou o primeiro, porque o livro recenseado recorre ao ele. Mas o que eu achei verdadeiramente extraordinário é o recenseador citar os livros de Zita Seabra, Foi assim, e Tempos de Transição, coord. M. Braga da Cruz e Rui Ramos, para referir que houve um «agravamento na tortura no marcelismo».
Acha António Araújo que estes autores concluíram por eles, ou recorreram também eles a bibliografia, dado que não investigaram o tema? Para não falar do meu trabalho, onde de facto concluí isso, já agora convinha dizer que já muito antes esse facto tinha sido percepcionado: para só dar um exemplo, Mário Soares, di-lo no Portugal Amordaçado, livro escrito, como se sabe ainda em pleno “marcelismo”. E já agora, gostaria de esclarecer que a tortura do sono em Portugal começou a ser praticada pela PIDE muito, muito antes de 1959. Quanto à influência da CIA, cujo Manual Kubark é de 1963, há que dizer que houve troca de experiências entre essa agência norte-americana e a PIDE, a partir de 1956/57, mas já antes disso a tortura do sono era utilizada sobre os presos políticos portugueses.
O grande problema em Portugal é que parece que estamos permanentemente a viver um eterno presente. Ou seja, pensamos sempre que antes de nós nada houve, nada aconteceu e que não houve nenhum trabalho e nenhuma investigação. Depois, é frequente, como é o caso em apreço, um procedimento selectivo dos que são citados em detrimento dos autores que se opta por silenciar, e por isso parecem deixar de existir. Penso que tudo isto é de facto um mau, péssimo «serviço prestado ao conhecimento da nossa História recente» e «o que, é mais grave, um mau serviço à própria memória das vítimas da ditadura» (António Araujo, «Ípsilon», Público, 7/6/2013, p. 29). Já agora, aproveito para publicitar mais um livro sobre o tema, recém editado - Joaquim Monteiro Matias, Memória da Tortura e da Resistência (Círculo de Leitores, Maio de 2013), ontem apresentado na Fundação Mário Soares.
O sentimento dos mercados não precisa de muito para mudar, já o sabemos. Numa Europa em recessão, presa por uma ortodoxia transformada em lei pelo pacto orçamental, era mais do que óbvio que alguma coisa tem de mudar para que o estado de bovinidade visto nos mercados de dívida soberana tivesse alguma sustentabilidade. Ou seja, os analgésicos do BCE (LTRO, OMT) funcionam, aliviam, mas não resolvem. Aliás, no caso europeu tendem a ser perversos, ao diminuírem a urgência das alterações estruturais na União (mutualização, reforço das capacidades do BCE, entre outras), essenciais à sua sobrevivência.
Hoje Draghi, ao mesmo tempo que se comprometia a manter políticas monetárias convencionais acomodatícias pelo tempo que for necessário (com muito pouca utilidade nesta fase), surpreendeu ao criticar abertamente a posição da comissão europeia em flexibilizar as metas de défice orçamental de vários países. Ora, isto mostra que, mesmo depois dos falhanços sucessivos de um foco exclusivo nas políticas orçamentais restritivas, continuamos a não entender nem as causas desta crise, nem os efeitos nocivos da resposta que tivemos até agora.
Curiosamente, a esperança reside nos mercados financeiros. Confrontados com uma Europa que insiste em não perceber que está a condenar a dívida soberana de vários dos seus membros a uma insustentabilidade certa, começam a acordar para os riscos que aí vêm.
Dado que o sofrimento das populações não é especialmente interessante (sendo até motivo de orgulho para governantes como o nosso primeiro-ministro), pode ser que uma desvalorização nos mercados de dívida soberana (até pelo impactos que gerará no sistema financeiro) faça acordar os líderes europeus deste pesadelo a que insistem em condenar-nos. Venha a chuva.
Pronto, o Filipe Nunes Vicente já foi "lóbytomizado", lá está o Abel a ser caluniado e atingido no seu bom nome pessoal e profissional outra vez.
PS1: alguém que seja simpático e informe o Abel Matos Santos que a adopção por famílias "monossexuais" não está em discussão, a adopção singular já existe.
PS2: mais sobre o assunto.
... não há nenhum divórcio entre o que se diz no espaço público e o sentimento dos portugueses. Lisboa prestou-lhe homenagem devida para marcar os 2 anos da sua governação.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
É pôr na Constituição que a greve sectária não é p...
Ora cá está a solução que agrada a muitos (pelos c...
injustamente e lendo o seu comentário estive para ...
Casa onde não há pão todos ralham e ninguém tem ra...
ahahahahahahahahahahahahhahahahahahahahhahahahahah...