Sexta-feira, 3 de Julho de 2009
João Pinto e Castro

Texto escrito por Luís Rosendo, consultor de comunicação e Director da Generator:

 

Devo começar por dizer que sempre votei PS e continuarei a votar, a menos que surja uma boa alternativa – o que, perante o cenário parece pouco provável -, porque é no PS que me consigo identificar politicamente, o que quer que isso signifique.

Feita esta declaração de interesses, confesso que me sinto desolado. É triste ver o nosso clube perder. Já basta o Benfica. Sim, porque também sou benfiquista. Mas, tal como em relação ao PS, também não sou sócio.

Olho com tristeza para a performance de Sócrates. No princípio conseguiu convencer-nos que era ele quem iria trazer a esperança. Ouvi muita gente, de direita sobretudo, a dizer que iria votar Sócrates nas próximas eleições. Pena que tenham passado 4 anos. Ou pior. Pena que tenham passado estes últimos 10 ou 12 meses, não sei bem.
Olho agora para Sócrates e para o seu governo, como olho para os jogos da selecção portuguesa. Jogamos bem, trocamos bem a bola, encostamos o adversário às cordas, mas… mas, não conseguimos marcar. É um jogo fátuo. Depois, o adversário corre um bocado, apanha-nos em contra pé e... pimba. Sofremos um golo. Esta é a sensação com que fico depois das últimas europeias. E a vontade é a de despedir o treinador.
Acontece que, vendo em volta, não vejo alternativa. Aliás, não é de agora. E por muito que a minha tendência possa ser sectária, ou clubista, a verdade é que não consigo ver em ninguém do PSD com capacidade para fazer melhor. Do resto dos partidos, não faço comentários porque nenhum tem um projecto de governo.
E Sócrates perdeu uma excelente oportunidade. Uma oportunidade para fazer melhor. Para gerir melhor. Para saber conhecer as pessoas – ou os eleitores, como queiram. Para ler melhor a realidade que o rodeava, ou que o rodeia. Azar. Não conseguiu. Fará isso dele o protagonista da chicotada psicológica?
A pergunta é relevante porque quem perde uma oportunidade como a que Sócrates perdeu é porque não sabe gerir. Na prática, não sabe ler os sinais e perante a primeira adversidade assusta-se e foge à essência da questão. Esta análise prova-se em dois momentos recentes e com duas declarações altamente comprometedoras. A primeira, no caso Freeport ao dizer que “não me lembro”. A segunda, no caso PT/TVI ao dizer que “desconheço o negócio”.
Um primeiro-ministro, ou melhor, um líder não pode dizer estas coisas. Por muito que sejam verdade. Não é isso que está em causa. O que está em causa são as pessoas, a maioria que votou nele e a outra maioria que, no princípio e até meio do mandato, acreditou nele. É claro que estas duas declarações são feitas em momentos muito diferentes. Mas dizem muito sobre os erros de Sócrates. Aliás, há um erro entre estes dois que Sócrates também comete. Foi o de não avisar a malta que havia uma crise internacional. Esqueceu-se que não vale a pena tentar tapar o sol com a peneira. Eu percebo o drama que Sócrates teve. Só esta crise internacional lhe estragava o plano. Ainda por cima, agora está aí o H1N1...!
Acontece que ao cometer estes erros, Sócrates esqueceu-se de reagir. Reagir, pensando estrategicamente. Nele, no PS e no país. E ao não fazer isso, estragou tudo. Estragou, sobretudo, a oportunidade de as pessoas verem nele a esperança necessária para sairmos da nossa habitual mesquinhez.
E agora, perante os infelizes comportamentos de uma equipa sem rumo porque o próprio timoneiro está de cabeça perdida, diria, até, quase desesperado, o destino parece inevitável. A oportunidade perdeu-se. Portugal perdeu uma oportunidade porque, mais uma vez acreditou em alguém que não soube aproveitar essa confiança.
Sócrates esqueceu-se da velha máxima. Não se ganham eleições. Perdem-se. E o pior é que não foi só ele que se esqueceu disso. Foram também os seus ministros, os seus assessores e mais toda a panóplia de consultores, incluindo os de imagem. Mas a culpa não é deles. Eles são apenas o reflexo daquilo que é Sócrates. Afinal, daquilo que somos. Incapazes de vencer nos momentos difíceis, entregando a vitória de bandeja ao adversário.
E, por isso, Sócrates vai perder. Talvez não perca em score puro. Mas perde a maioria. Aquilo que faz a diferença em qualquer modelo de governação.
Portugal precisa, como o capitão Kirk, de warp speed. Não para passar depressa pela crise internacional. Mas para passar depressa os próximos tempos. Talvez apareça no destino um outro qualquer português que consiga inverter o fado da nossa história.
A ver vamos.

15 comentários:
De l.rodrigues a 3 de Julho de 2009 às 16:09
Ok... aceito eu passar por geek... é Sulo e não Zulu.


De l.rodrigues a 3 de Julho de 2009 às 16:51
Ok... não passei apenas por geek... é Sulu.
Mas juro que foi só dislexia.


De Bjorn Pal a 3 de Julho de 2009 às 17:09
Sulo, mr Sulo!!!
;oD
Como sempre revela uma grande lucidez.



De M. Abrantes a 3 de Julho de 2009 às 17:48
Se as únicas argoladas de Sócrates fossem o freeport e o caso pt/tvi, não só votaria nele em Setembro, como não duvido que o PS teria uma maioria absoluta ainda mais convincente que a primeira.

O problema do PS é que uma boa parte dos socialistas ainda não percebeu por que é que perdeu as europeias. Nem caminha para vir a perceber.


De nuvens de fumo a 3 de Julho de 2009 às 18:15
Já agora , foi porque ?
Eu ainda estou a tentar perceber.


De l.rodrigues a 3 de Julho de 2009 às 19:05
Eu suspeito que uma pista para a coisa, está no nome do partido. E não é a palavra que começa por P.


De João Pinto e Castro a 3 de Julho de 2009 às 19:37
Finalmente, alguém vai um pouco além da discussão sobre se é Zulu ou Solu.


De Carlos Lopes a 3 de Julho de 2009 às 21:32
O que pensa o português médio? Somente à lais de exemplo: O que pensará o idoso que viu aumentar a sua renda com o CSI? A mãe que sabe aonde o filho está enquanto trabalha com a escola a tempo inteiro? O utente que agora tem um médico de família com as USF's ? O trabalhador que viu alguém reconhecer (o estado) as suas competências? O empreendedor que cria uma empresa em poucas horas? O condutor que tem apenas um documento em vez de três? A família que pode optar por dar aos filhos para além de escolaridade uma profissão com o ensino profissional de dupla certificação? A oposição parlamentar que tem mais direitos para se opor? O sujeito fiscal passivo que envia, trata, consulta pela internet? O desempregado que para requerer subsídio de desemprego já não tem que se deslocar a três sítios diferentes mas apenas a um, ao Centro de Emprego? A grávida que tem um cheque para tratar dos dentes? Os país que viram aumentado o abono de família? O jovem recém-qualificado que tem o INOV-JOVEM , o VASCO DA GAMA, o INOVARTE , o PEPAL ? As famílias que ganharam a possibilidade de se info-incluir com o Magalhães, o E-escolinha e o E-escola ? Os professores que ficam por três anos? Os pais que não têm que correr a comprar manuais escolares todos os anos? O futuro com o Inglês obrigatório? As famílias com estudantes que têm os AEC's ? Os sinistrados com as ambulâncias apetrechadas com suporte de vida? Os portugueses com a sustentabilidade da segurança social? Os impetrantes que viram diminuir as pendências nos tribunais?etc,etc , etc. Não faltam realizações. O que falta em muitos casos, é o bom senso. Espero que não falte à generalidade dos portugueses, que, anos a fio, viram tantos prometer algumas destas coisas.


De fernando antolin a 4 de Julho de 2009 às 11:10
Pois é, malandros dos portugueses que não reconhecem tão maravilhosas realizações do iluminado ser e do seu governo.Gente má.Ingratos.Carlos Lopes, pode passar lá pela sede, estão a dever-lhe uma festinha e um beijinho.


De Shyznogud a 4 de Julho de 2009 às 14:54
A pedido do comentador Nachteldar apaguei o seu anterior comentário, q é substituído por este:

Caro JPC :

Fez uma correcta retrospectiva crítica desta cessante legislatura, mas permita-me alguns apontamentos:

1. Era já visível em 2006 que a política do PS, mesmo sem o advento da crise financeira, iria conduzir a um relativo esvaziamento da classe média.
A hesitação e a mudança para uma linguagem menos arrogante após a derrota nas eleições europeias era desnecessária e, em termos de estratégia política, é contra-producente .
Acresce que, ao contrário do que se afirma, o PS não perdeu o debate, mesmo tendo em conta o gesto de Manuel Pinho. Não insistindo na falta de qualidade de argumentação, que é transversal ao espectro político, a prestação do PSD indicou indubitavelmente o porquê de serem uma oposição débil e, consequentemente, uma alternativa de poder totalmente inviável.

2. Está coberto de razão quando afirma que não vê ninguém no PSD capacitado para fazer melhor. Esta afirmação peca por defeito: nos últimos 34 anos, apenas em 1975, com o PCP e em 1991 a 1995, com o PSD (a última e infame legislatura de Cavaco Silva) esteve o país a resvalar para o autoritarismo, além de que o PSD, quando no poder, é brutalmente incompetente.

3. Ainda sobre a demissão do ex-ministro Manuel Pinho, acho interessante que:
i) ninguém queira saber do comentário jocoso proferido por Bernardino Soares, envolvendo a entrega de um cheque ao clube de futebol de Aljustrel. Não olvidemos que Bernardino Soares considera a Coreia do Norte uma democracia...
ii) o Presidente da República seja tão lesto a condenar, mas apenas neste caso, pois relativamente às ofensas proferidas contra Candal e aos dislates do Ditador da Madeira (que devia estar preso há anos), foi, respectivamente, omisso e conivente.

Nachteldar


De G_L a 4 de Julho de 2009 às 17:00
Assino esse texto.

- -

Os problemas dos governos PS são sempre de comunicação. Para quando aprendem? Quando estão no poder acovardam-se perante a comunicação social. parece que o poder pertence de direito ao PSD e que o PS está ali por licença.

Mais um governante PS que é detonado pela comunicação social e que não consegue comunicar o seu maravilhosos governo, na minha opinião, o melhor dos últimos 20 anos, levando em consideração as diversas conjunturas.

A 3 meses da eleição é que a PT quer comprar a TVI? INCOMPETÊNCIA.
- -

Pagarão os portugueses. Mais uma vez porão o PSD no poder. Mais uma vez serão enganados com o "Falar mentira". 3 meses depois estão arrependidos. Já vimos este filme, já cansa.


De fernando antolin a 4 de Julho de 2009 às 20:26
" ...quando estão no poder acovardam-se perante a comunicação social..." "...mais um governante PS...e que não consegue comunicar o seu maravilhoso governo..."

G_L , para si,lá na sede, além de uma festinha e um beijinho,também há um retrato autografado do querido líder deste maravilhoso governo.


De G_L a 5 de Julho de 2009 às 12:29
Porque é que se alguém elogia o governo tem que ser do PS, ou aparelhista? Meu caro, pare de ser autista. Eu não sou do PS, não trabalho e nem nunca trabalhei para o governo ou para o PS. Sou um eleitor.


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