Terça-feira, 7 de Julho de 2009
A verdade destes senhores começa na despesa pública e acaba nos défices externos. No caminho acenam com o medo do crowding out e com o do estado. A realidade é toda ela um perigo, uma limitação, não se vislumbrando qualquer tipo de oportunidade. Mas é a verdade, dizem-nos, tentando desqualificar quem pensa de modo diferente.
Comecemos pelo crowding out. É ou não verdade que a poupança privada está a aumentar, retraindo o consumo e o investimento, e que só a intervenção activa do estado — enquanto empreendedor e investidor — pode evitar que a crise se agrave? É
ou não verdade que a razão principal pela qual os privados não investem se deve mais às baixas perspectivas de receita futura do que a questões de liquidez imediata? É ou não verdade que o endividamento só se resolve diminuindo a despesa (o que aumenta necessariamente a recessão) ou aumentando o crescimento através de investimento? É ou não verdade que, não se vislumbrando grandes iniciativas privadas, torna-se necessário que o estado assuma uma posição de liderança?
Outro dos mitos dos senhores do argumentário da verdade é a diabolização das obras públicas. Esta obsessão, dizem, provocará “debilidades competitivas no tecido produtivo nacional”. Eu gostava de saber o que aconteceria se a viagem entre Lisboa e Porto ainda demorasse 6 horas. Eu gostava de saber o que seria de Portougal sem ligações de qualidade à Europa. Eu gostava de saber o que seria se não investíssemos no porto de águas profundas de Sines. Eu gostava de saber o que aconteceria se o estado não investisse nas renováveis e não apostasse no sector da energia como pilar estratégico da economia nacional. Enfim, eu gostava de saber em que medida existe, neste momento, uma alternativa credível ao investimento público que garanta uma maior competitividade à economia Portuguesa. Num cenário de retracção do investimento privado, pelas razões que enunciei acima, é difícil vislumbrar alternativas. É óbvio que podemos questionar a bondade de certas obras. Mas o debate tem de ser feito tendo em consideração não apenas os méritos individuais de cada obra mas também, e sobretudo, sobre como estas se inserem numa visão estratégica de desenvolvimento do país. Há investimentos que o estado se propõe fazer pela simples razão de que nenhum privado seria capaz de assumir essa responsabilidade. E a razão não radica na ausência de rentabilidade desses investimentos ou na falta de liquidez dos privados. É preciso não desvalorizar a dimensão de bem público e as externalidades associadas a certo tipo de investimentos estruturantes. Muitas vezes, sem o impulso do estado não é expectável que os privados decidam investir. No contexto actual, isto parece ainda mais evidente.
É preciso deixar algo bem claro: combate à crise e a dinamização da economia de um país são um bem público e, por isso mesmo, não podem ser deixados exclusivamente aos privados. As propostas políticas que apostam num Portugal menos periférico, com um mix energético menos poluente, etc, têm de ser criticadas no campo das suas intenções e na visão de futuro que antecipam. Se não quiserem este plano, expliquem-nos a alternativa. A tal Verdade é meramente descritiva e não aponta um caminho. E é redutora, pois depende de uma visão limitada daquilo que são os desafios (e as oportunidades) que Portugal enfrenta. Portugal precisa de uma ideia, de um plano, não de uma listagem das nossas debilidades. Para autoflagelação já temos a religião. Ou, como diz o João Pinto e Castro: "O desenvolvimento, meus amigos, não é o prémio da virtude. Se fosse, o caso resolver-se-ia fazendo penitência"
Hummmm, o Rato também já te tá a pagar, aposto ;-)
De Zé Carioca a 7 de Julho de 2009 às 08:55
"...É ou não verdade que o endividamento só se resolve diminuindo a despesa (o que aumenta necessariamente a recessão) ..."
Esta mania de comentar o funcionamento de pequenas economias abertas como se fossem grandes economias fechadas só revela a ignorância do postante.
Não é verdade que a redução de despesa privada agrave a recessão. E muito menos "necessariamente".
Gonçalo Pires é ignorante. Isso em si não é grave. O que é grave é que ele pensa que sabe muito.

De Nuno a 7 de Julho de 2009 às 10:46
Então se é assim caro Zé Carioca, brinde-nos com a sua inteligência e sapiência nestes assuntos e diga qual a alternativa que propõe, já que o Gonçalo Pires é um ignorante que pensa que sabe muito. Diga lá ao que vem e o que propõe? Agradeço-lhe antecipadamente! Cpmts
Caro Zé Carioca,
num cenário de recessão mundial onde, no curto prazo, não se vislumbra um aumento da procura externa a redução de despesa é necessariamente recessiva. Ou acha que Portugal deve fazer free-riding em relação aos outros. Já reparou que se todos quiserem esperar pela retoma da procura externa entramos numa espiral recessiva preocupante? Como vê, essa história da economia aberta tem muito que se lhe diga.
De Zé Carioca a 7 de Julho de 2009 às 13:22
Porque Portugal é uma pequena economia aberta quase todo o expansionismo orçamental se repercute num aumento das importações com pouco impacte na produção nacional.
Porque Portugal é uma pequena economia importadora de bens de capital qualquer expansionismo através do investimento se repercute em endividamento externo.
Porque Portugal tem uma dívida externa elevada, qualquer expansionismo em investimento de baixa rendibilidade (para não dizer de rendibilidade nula ou negativa) simplesmente fará aumentar a diferença entre o PIB e o RNB -- e é este que conta!
Além disso o aumento da dívida pública tem impacte no custo dessa dívida (se a taxa de juro de base não depende de nós, o prémio de risco tornar-se-á ao sair desta crise bem mais relevante que ao entrar nela).
O expansionismo orçamental dos países maiores e -- especialmente menos endividados, ou com uma posição externa líquida positiva -- algum impacte positivo sobre nós terá.
O expansionismo orçamental português é nocivo se não for só inútil e como sempre o seu impacte chegará atrasado. Estime uma data para que as obras do TGV possa ter algum impacte palpável na procura interna e no mercado de trabalho dos residentes. Muito grato fico pela sua estimativa.
O envelhecimento acelerado da população também contribui para concluirmos que todo o aumento da dívida pública nesta "altura do campeonato" é de desaconselhar.

De nuvens de fumo a 7 de Julho de 2009 às 13:49
É o poupadinhos mas honrados, ficamos na berma da Estrada à boleia da recuperação dos outros países. Pressinto no entanto que nos arriscamos a perder a boleia e a ficar ainda mais para trás.
Hoje no jornal de nogócios
“O volume de negócios na indústria em Portugal registou uma queda de 21,8% face ao período homólogo. Destaca-se a queda de 26,9% das exportações com o sector da energia a contribuir mais para a variação negativa do volume de negócios do mercado externo”
A continuar assim acabamos é a comer a estrada….
Atacar de forma linear os grandes projectos é muito fácil, sobretudo quando não se apresenta nenhuma solução.
Interessante seria perceber:
onde se deve ajudar ?
como ? quanto ? para quem ?
soluções soluções soluções
De Zé Carioca a 7 de Julho de 2009 às 17:02
"...Destaca-se a queda de 26,9% das exportações com o sector da energia a contribuir mais para a variação negativa do volume de negócios do mercado externo..."
E logo as nossas exposrtações de energia que sempre foram o nosso forte.
Esta gente não se enxerga? Uma vez mais; o que é grave não é serem burros; o que é grave é pensarem que sabem!
Valha-nos são Januário.

De Sejeiro Velho a 7 de Julho de 2009 às 19:14
Já fiz este comentário, não sei se neste "Blog":
Não percebo nada de economia! Não tenho pois opinião sobre investimentos públicos. Mas parece-me que ninguém percebe mais do que eu! Isto é: há uma série de fulanos que fazem afirmações rotundas sobre a bondade ou maldade dos investimentos públicos e outros tantos a afirmarem exactamente o contrário.
Quando se discutem conceitos abstractos, é natural que haja muitas e contrárias opiniões. Mas agora em economia, que é uma ciência rigorosa, não percebo como pode haver opiniões diametralmente opostas entre especialistas com a mesma formação académica, de posse dos mesmos dados, da mesma informação e do mesmo conhecimento.
Penso sinceramente que só teorisam e o que nós precisamos é de quem faça.
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