Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

V. Bento afirma no seu livro “Perceber a Crise...” que a origem das nossas presentes dificuldades remonta à entrada na União Económica e Monetária. Não creio que seja precisamente essa a origem, mas concedo que foi um momento crucial.
O argumento de V. Bento é conhecido. Concretizada a adesão à UEM, mais tarde confirmada com a adopção do euro, o país ficou privado de política monetária e cambial autónoma. Por conseguinte, não mais pode recorrer à desvalorização da moeda para compensar insuficiências internas.
Acresce que: 1) essa transformação coincidiu com um período de afirmação internacional das economias da China, da Índia e do leste europeu; 2) a simples introdução do euro implicou a imediata eliminação ou deslocalização para fora do país de muitas actividades de serviços, designadamente comerciais. Do primeiro factor, devidamente acentuado por V. Bento, resultou uma pressão competitiva muito agravada sobre as nossas empresas exportadoras; do segundo, que não refere, a súbita liquidação de muito emprego qualificado.
A convergência nominal arrastou a queda das taxas de juro. Como seria de esperar, disparou o endividamento das empresas, das famílias e também do Estado. (Aqui convém recordar que, à data, muitos académicos previram que isso não aconteceria, visto que, segundo as suas teorias, a ilusão monetária não existe, logo só as taxas de juro reais importam.)
Se tudo isso era previsível, como é que os partidários da adesão ao euro se permitiram ignorá-lo? É aqui que entramos num terreno decisivo.
Para V. Bento e para os economistas que pensam como ele, era tudo muito fácil. Bastaria que o governo português tivessa imposto flexibilidade adicional ao funcionamento dos mercados de trabalho e de produtos e que reduzisse as despesas públicas tanto quanto fosse necessário para contrariar o aumento do endividamento privado.
Esta recomendação é uma variante do “faz força, que eu gemo”. Certos economistas empurraram o país para uma camisa de onze varas e, depois de ele lá estar enfiado, exortam-no a desenrascar-se.
Por outras palavras, eles congeminam uma política muito certinha no papel, mas não cuidam de ponderar as condições políticas e sociais indispensáveis à sua consecução. É, aliás, em boa medida nesta despreocupação que consiste a alegada “pureza científica” desta forma de conceber a teoria económica. Eles dizem como é; quanto ao resto, os políticos, os empresários e os trabalhadores que resolvam.
Ora, há algumas perguntas que, até hoje, eu ainda não vi serem respondidas.
Por exemplo, como seria possível um país com as graves carências sociais que Portugal exibia cortar drasticamente a sua despesa pública? Qual é a ideia: cortar na educação e na saúde, visto ser aí que se concentra a grande fatia de funcionários? Ou antes cortar no investimento público - e exactamente em quê?
Mais: qual deveria ser a dimensão do excedente das contas públicas necessário para contrariar o inevitável acréscimo do endividamento privado, dado que o país não controla a taxa de juro? E qual a dimensão da recessão que resultaria dessa loucura?
Usualmente, evade-se essas questões alegando que, se a Espanha e a Irlanda conseguiram equilibrar as suas contas públicas e ainda assim crescerem mais que nós, também nós poderíamos tê-lo feito.
Este argumento inverte o sentido de causalidade: como esses países continuaram a crescer, não lhes foi difícil reduzir ou eliminar o défice em proporção do produto. Tanto isto é verdade que, mal o seu crescimento estancou, logo se revelaram neles desequilíbrios orçamentais bem maiores do que o nosso.
A minha conclusão, por conseguinte, é que a adesão ao euro foi imposta ao país sem sentido de responsabilidade e a pretexto de ilusórias vantagens que, de facto, jamais se concretizaram. Foi o nosso Grande Salto em Frente doméstico, promovido por políticos e economistas sem mundo nem cultura a quem a ideologia toldou o juízo.
Agora, que não podemos sair nem podemos ficar, a dimensão do erro é manifesta para todos. Mas nem assim os que nos atiraram para aqui são capazes de fazer mea culpa. Eles estavam e estão certos, o país de incapazes e mandriões que nós somos é que está errado.
(Continua)
De Nuno Gaspar a 10 de Julho de 2009 às 00:37
Nem tudo é mau na crise. Um país que consegue produzir um debate em que, por exemplo, na blogosfera, no mesmo dia, de lados diferentes da barricada, surgem textos com a categoria deste ou como o de João Miranda no Blasfémias, ainda não atirou a toalha ao chão.
De Zé Carioca a 10 de Julho de 2009 às 08:57
A abertura da China e da Europa de leste ao comércio mundial teve muito mais impacte na crise portuguesa que a entrada no euro; em todo o caso o problema não foram os chinocas e os tipos de leste, mas a nossa incapacidade de neos prepararmos para essa situação. Para lutar contra isso, as desvalorizações de nada servem, a não ser que o objetivo seja ter salários ao nível dos chinos como o Pinho parecia pretender.
O euro não criou crise alguma. Pelo contrário, ajudou a aliviar dores e uma crise dramática neste momento (olhai para Budapeste e Riga). Esse aliviar até evitou que se tomassem medidas corretas. Mas a culpa não é do euro é nossa.
"...muitos académicos previram que isso não aconteceria, visto que, segundo as suas teorias, a ilusão monetária não existe, logo só as taxas de juro reais importam..."
Pinto e Castro tenta mostrar aqui uma erudição que não possui. O problema não é o nível de dívida mas o esforço do serviço de dívida. E além disso, a entrada no euro levou a uma queda duradoura nas taxas de juro nominais E reais.
"Mais: qual deveria ser a dimensão do excedente das contas públicas...." Então agora aqui já não funcuiona o efeito multiplicador?
"Qual é a ideia: cortar na educação e na saúde..." dado que Portugal é o maior gastador na educação (os profs primários em fim de carreira tem os maiores salárion NOMINAIS (!) da Europa); podia começar-se por aí.

1) O João Pinto e Castro chama aqui, corretamente, a atenção para o facto de que a adesão ao euro, em 1998-2000, coincidiu com a deslocalização para Madrid de muitos postos de trabalho qualificados no setor do marketing. O setor do marketing de empresas multinacionais praticamente desapareceu de Portugal.
2) É um erro dizer que a taxa de juro desceu devido à adesão ao euro. Veja-se o que aconteceu na Hungria e Letónia, por exemplo: os cidadãos desses países contraíram empréstimos em euros a baixa taxa de juro. Ou seja, a taxa de juro teria descido de qualquer forma, mesmo que Portugal tivesse mantido o escudo. Os portuguese teriam contraído empréstimos em euros, tal e qual os húngaros e letões o fizeram.
3) O impacto da China foi muitíssimo superior ao impacto da adesão ao euro. Nenhuma desvalorização deslizante do escudo, nenhuma política monetária e cambial poderia alguma vez ter absorvido tal impacto. Esse impacto foi sentido em muitos outros países (México, Turquia, etc) que nada têm a ver com a adesão ao euro. A destruição industrial causada no estrangeiro pelos têxteis chineses foi universal. Dizer que a culpa foi do euro é errar totalmente o alvo.
Agradeça o João Pinto e Castro ao euro o facto de ainda aqui estarmos, com uma descida no PIB de apenas 4,5%. Sem o euro estaríamos na mendicidade. Pior do que a Irlanda.
De
LA-C a 10 de Julho de 2009 às 10:14
"Ou seja, a taxa de juro teria descido de qualquer forma, mesmo que Portugal tivesse mantido o escudo. Os portugueses teriam contraído empréstimos em euros, tal e qual os húngaros e letões o fizeram."
Luís, repare que nesse caso, à taxa de juro nominal teria de adicionar a expectativa de desvalorização da moeda. Se Portugal não estivesse no Euro, o Luís Lavoura podia pedir empréstimos em Euros, mas quando fosse pagar o empréstimo teria de comprar Euros dando escudos à troca. Se entretanto o escudo se tivesse desvalorizado, o custo do empréstimo (medido em escudos) seria os juros mais a desvalorização da moeda.
Luís A C,
claro. Mas o empréstimo teria sido contraído na mesma, e o país teria ficado bué de endividado à mesma.
As pessoas quando contraem o empréstimo acreditam sempre que tudo permanecerá no melhor dos mundos, que as taxas de câmbio permanecerão estáveis e que as taxas de juro permanecerão baixas. Foi por os húngaros acreditarem que a taxa de câmbio permaneceria estável que contraíram empréstimos em euros. Foi por os portugueses acreditarem que a taxa de juro permaneceria baixa que contraíram empréstimos com juro flutuante indexado à Euribor.
Finalmente, estamos de acordo nalguma coisa. Acho que vou abrir uma garrafa de champanhe.
Mais especificamente, concordamos quanto a 1. e 3. Eu também não acho que a culpa foi do euro, e indico isso logo no princípio do post. Apenas afirmo que nos privámos de instrumentos essenciais de gestão macroeconómico nas piores circunstâncias, mas esse é um ponto que desenvolverei mais a seguir.
Para que fique claro, não defendo que saiamos do euro agora. Mas não faz sentido dizer-se que estariamos pior se tivessemos fora, entre outras coisas porque o BCE está a apoiar mais os países fora do euro do que os dentro do euro.
O BCE está a apoiar mais os países fora da Zona Euro apenas porque são eles que mais precisam. O BCE não apoia Portugal porque, felizmente, Portugal (ainda) não está na situação da Hungria, Irlanda ou Letónia. E não está nessa situação porque aderiu ao Euro. Ainda bem que aderiu, caso contrário estaria a ter que mendigar ajuda ao BCE.
Quanto a sair do Euro, considero esse pensamento, ainda para mais no momento atual, totalmente ridículo, Estamos num momento em que quem está fora do Euro gostaria de estar dentro, e não o inverso.
De Zé Carioca a 10 de Julho de 2009 às 13:07
"O BCE está a apoiar mais os países fora da Zona Euro ...."
Manda-se isto assim para o ar e depois discute-se.
Mas porventura o BCE está sequer a apoiar os países fora da área do Euro?
O FMI talvez.
A Comissão Europeia certamente.
Agora o BCE.
Isto está mesmo ao nível do taxista.

O BCE fez recentemente um avultado empréstimo (de curto prazo) ao Banco Central da Suécia (a qual está fora da zona euro) com o objetivo de o ajudar a segurar bancos suecos muito expostos a dívidas nos países bálticos.
De Zé Carioca a 10 de Julho de 2009 às 17:14
1- Não se trata de um empréstimo mas de um swap... ainda que cada um dos braços do swap seja efetivamente um empréstimo. (O BCE também recebe um empréstimo dos suecos -- em coroas -- e ainda não ouvi niguém dizer que os suecos andavam a ajudar o BCE).
2- A sua frase era "O BCE está a apoiar mais os países fora da Zona Euro ...." Que eu saiba as condições dadas aos suecos não são melhores que as condições dadas aos banco europeus.
3-Um swap entre o BCE e o Banco do Constâncio, no caso em que ainda houvesse escudo deveria ter um custo final enorme, dadas as perspetivas de depreciação que a crise tornaria inevitável (e que alguns acham que seria bom.....).

De Zé Carioca a 10 de Julho de 2009 às 12:13
"....apenas afirmo que nos privámos de instrumentos essenciais de gestão macroeconómico nas piores circunstâncias...."
Falta saber com utilizaríamos esse instrumento essencial e em que é que isso nos melhoraria a vida.
"...Para que fique claro, não defendo que saiamos do euro agora...."
Não termos o tal instrumento essencial de "essencial de gestão macroeconómica" é mau, mas votar a tê-lo não parece ser melhor. Oh homem, decida-se!
"... não faz sentido dizer-se que estariamos pior se tivessemos fora, entre outras coisas porque o BCE está a apoiar mais os países fora do euro do que os dentro do euro...."
Portanto os que estão a passar pela crise e querem entrar no euro -- Islândias, Letónia e Hungrias -- devem ser parvos. Já pensou em ir para lá como consultor?

Esqueceu-se outra vez de tomar o remédio.
De nuvens de fumo a 10 de Julho de 2009 às 12:53
Não convém contrariar, diga que sim....
De Zé Carioca a 10 de Julho de 2009 às 13:09
Havia um remédio a tomar?
Escapa-me a substância desta resposta, talvez não a tenha.
Ligou o taxímetro?

Os meus parabéns. Assim vale a pena perder tempo a ler "blogues"...
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