Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

"A ideia de um mundo sem desenvolvimento exprime falta de confiança no homem e em Deus. Por conseguinte, é um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem está constitutivamente inclinado para « ser mais ». Absolutizar ideologicamente o progresso técnico ou então afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado originário da natureza são dois modos opostos de separar o progresso da sua apreciação moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade."

 

Papa Bento XVI, encíclica Caritas in Veritate

 

O Humanismo do papa recusa qualquer tipo de pessimismo antropológico, bem como se afasta daquele tipo de cinismo tão do agrado de alguma direita. Por outro lado, a visão de progresso defendida por Bento XVI rejeita - e bem - a absolutização do progresso técnico da humanidade. Isto só ofende aquela esquerda que olha para a ciência e para o progresso técnico como uma nova religião. Como escrevi num post anterior, o humanismo da igreja depende de uma ontologia ética que rejeito. Mas convém não deitar fora o bebé com a água do banho.


13 comentários:
De Ricardo Alves a 13 de Julho de 2009 às 16:39
«aquela esquerda que olha para a ciência e para o progresso técnico como uma nova religião»

Refere-se, concretamente, a quem?


De aorta a 15 de Julho de 2009 às 12:23
"Isto só ofende aquela esquerda que olha para a ciência e para o progresso técnico como uma nova religião."

pelo menos a ciência é uma religião que salva. salva-nos de morrermos de forma mais rápida, por exemplo. basta ir a um hospital e ver a quantidade de crentes que foram salvos por essa tal religião e outros tantos que gostariam de o ser.

agora, pertencer a uma esquerda bacoca que, sabe-se lá porquê, descobriu ao fim de 2000 anos que a religião é uma coisa boa e que merece ser respeitada (o marx deve estar a dar saltos no túmulo) é que nunca.

antigamente a esquerda era ateísta. agora senta-se à mesa com o poder religioso e comem todos da mesma gamela.

ora, foda-se!


De Ricardo Alves a 15 de Julho de 2009 às 18:59
«Aorta»,
não poderia estar mais de acordo com os seus comentários, tanto aquele a que respondo como os que faço mais abaixo. Realmente, não há pachorra para uma certa esquerda que acha que resolveu revalorizar a religião e transigir com o integrismo (nomeadamente, islâmico).

E continuo sem saber qual é a definição de religião do João Galamba, ou como ele a estica para incluir a ciência...


De aorta a 16 de Julho de 2009 às 10:36
é o que dá reler hegel, gadamers e outros autores de merda. gajos que produziram quilos de páginas onde falam de coisas que não existem e que ninguém percebe (porque não há nada para perceber), com o único objectivo contribuir para a mistificação da realidade.

a esquerda (comunista e socialista) anda perdida, não tem rumo, porque deixou de fazer sentido. agora só lhe resta rezar aos santos para ver se se safa. é a chamada conversão da rússia.

tenho um profundo desprezo intelectual por esta gente. porque não são sérios nem são honestos (intelectualmente falando, obviamente).





De Ricardo Alves a 16 de Julho de 2009 às 12:43
O Pós-modernismo, no fundo, é um novo obscurantismo.


De aorta a 13 de Julho de 2009 às 17:23
"O Humanismo do papa recusa qualquer tipo de pessimismo antropológico"

não é o humanismo do papa, é todo o humanismo e pensamento cristão.

se os homens foram criados por Deus, como pode haver lugar a pessimismos? isso seria admitir que a criação é imperfeita. mais seria ignorar a conquista de céu, como sentido da vida.

como é que alguém que vai ganhar o céu se pode sentir pessimista.

resumindo: no humanismo cristão não há, nem pode haver, lugar a pessimismos...



De aorta a 14 de Julho de 2009 às 11:48
ó joão, o que é uma "ontologia ética"?


De João Galamba a 14 de Julho de 2009 às 12:53
É uma ontologia que reconhece uma dependência constitutiva entre os seres humanos. A ontologia atomista liberal não é ética. A ontologia católica e a depensadores como Hegel ou Gadamer são profundamente éticas, pois "ser" é "ser-com-outros".



De aorta a 14 de Julho de 2009 às 14:47
não sei se concordo... uma ontologia ética (raio de coisa!) deveria estar no domínio do "dever ser" e não no domínio do "ser com". a isso eu chamaria uma ontologia política.

"ser-com-outros" é um conceito demasiado heideggeriano e marxista (essência do homem é o conjunto das relações sociais), para poder ser lavada a sério. até porque é há uma coisa que se chama subjectividade, que gira em torno de um "eu" que, aposto, já ouviu falar.

mesmo assim, o joão esquece-se que, no caso do heidegger, aquilo que diferencia o homem é ele ser o "aí-do-ser", o lugar onde a questão ontológica se coloca. ora, esta experiência é individual e não colectiva, embora possa ser partilhada através da linguagem, entendida como a casa do ser (talvez a questão do what's in a name? não seja tão despropositada assim deste ponto de vista)

do mesmo modo tenho dúvidas que a ontologia católica seja uma ontologia do "ser-com". só se for uma ontologia de "ser com-Deus", quando muito.

o joão esquece-se que a "graça divina" é um dom atribuído individualmente, só para dar um exemplo. o mesmo acontece com a salvação. sou sempre eu, ser individual, que me apresento perante Deus e me salvo . e para isso não preciso dos outros para nada.





De João Galamba a 14 de Julho de 2009 às 15:45
eu rejeito a dicotomia do "ser/dever ser" - há toda uma metafísica por trás disso. A terminologia de "Ser-com-outros" é de Heidegger, mas aquilo que ela expreime não. ALiás, eu acho que Hegel foi muito mais consistente na irredutibilidade do "com outros" do que Heidegger, que acaba num voluntarismo individualista, perdendo a dimensão ética da coisa. Por isso o meu pensador de referência é Hegel, e não Heidegger, pois, na minha opinião, a sua noção de espírito capta a "essência" da relação ética que Heidegger com a sua obsessão pela inautenticidade/autenticidade perdeu. Só Hegel (Gadamer, Ricoeur e Charles Taylor também). São estes últimos autores que reinterpretam a dimensão ética do cristianismo sem a metafísica pré-moderna de bento xvi


De aorta a 14 de Julho de 2009 às 19:35
"eu rejeito a dicotomia do "ser/dever ser" - há toda uma metafísica por trás disso."

por acaso gostava de conhecer a sua argumentação, mas compreendo que aqui não haja tempo nem seja o lugar.

quanto ao hegel, deixe-me que lhe diga, aquilo não é filosofia nem é nada. essa treta do "espírito absoluto" dá-me logo volta ao estômago. primeiro por ser espírito. depois por ser absoluto. como se uma desgraça não pudesse vir só.

é verdade que com hegel não caímos num voluntarismo individualista, mas somos transformados em palhaços da história, responsáveis por conduzir (no caso dos eleitos) a carneirada até ao fim daquela, saltitando entre a tese, anti-tese e síntese.

ora, que a realidade é dialéctica já sabiamos desde heraclito. que a dialéctica é um meio para chegar ao conhecimento, já sabiamos desde que platão escreveu a républica. a novidade do hegel foi ter misturado isto com o linguarejar da religião cristã.

tenho para mim a filosofia de hegel não passa de uma alucinação, escrita propositadamente para não ser entendida, e à volta da qual meia-dúzia de maluquinhos perdem tempo a falar de coisas que não só não entendem como não existem.

isto para lhe dizer que odeio hegel e todo o pensamento românico em geral, responsável por todo o tipo de totalitarismo e ditadores alucinados que achavam que deviam conduzir os povos "à salvação". foi o que se viu.

infelizmente não conheço Gadamer, Ricoeur ou Charles Taylor o suficiente, para poder argumentar consigo. mas gostava de saber como é que eles conseguem reinterpretam a "dimensão ética do cristianismo sem a metafísica pré-moderna" seja ela do bento xvi ou de outra pessoa qualquer. a menos que tenham criado uma metafísica pós-moderna

deixo-lhe um conselho. desista da filosofia continental. a filosofia anglo-saxónica é bem mais interessante. :-))))


De aorta a 14 de Julho de 2009 às 11:53
"Mas convém não deitar fora o bebé com a água do banho."

cristianismo à la carte? isso não existe.


De aorta a 14 de Julho de 2009 às 12:14
joão, deixo-lhe aqui o link do programa do partido Nazi, que também era socialista e dos trabalhadores. vai ver que encontra muitos pontos em comum com o seu pensamento.

sabe que não convém "deitar fora o bebé com a água do banho."

http://pt.wikipedia.org/wiki/Nazismo



Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


artigos recentes

o piegas coelho

"Sit Ubo Sit!.Good dog!!!...

joão duque,

Populus in res publica su...

Os Cinco Pecados Mortais ...

Os Cinco Pecados Mortais ...

AT/DT

Todos os dias há uma nova

Hum, como falar do assunt...

Leituras: History Will Te...

João Fernandes no Reina S...

O tempora! O mores!

...

Antoni Tàpies (1923- 2012...

A bem da minha úlcera vou...

últimos comentários
De acordo quanto à pieguice, porque é dela que der...
Eu não sou contra ESTE acordo ortográfico. Sou con...
Merdia - contracção entre a palavra merda e media,...
Carlos.Portanto, você já leu uma "montanha de espe...
Dona Fernanda,pode explicar-me, por favor, o que s...
Dois extensos lençóis desfiando argumentos puramen...
Que tema apaixonante! Nunca tinha visto tamanhos "...
Muito bem ! Argumentar contra o conformismo é sem...
Bom, falta acrescentar que, do ponto de vista dos ...
f. <-> 31 - amor de perdição!
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds