Quarta-feira, 15 de Julho de 2009

Miguel,

 

Só uma nota. Quando dizes que "esta parte da caridade na verdade incomoda o João. Mas não o incomoda ao ponto de fazer perceber que este detalhe que ele, o João, amputa ao resto, é a estrela e a bússola de todo o texto.", esqueces-te que eu disse que a visão proposta por Bento XVI é fundamentada numa ontologia, ou seja, eu não amputei nada. Concordo com o Papa quando este diz que uma estratégia de desenvolvimento não pode ignorar debates ontológicos, isto é,  não pode deixar de pensar em termos de uma ecologia integral do humano. A minha discordância reside no conteúdo específico da ontologia proposta por Bento XVI, designadamente com a dimensão pré-moderna e dogmática (no sentido Kantiano do termo) que este defende. O Catolicismo (com os protestantes a história é diferente) ainda não parece ter reconhecido plenamente a liberdade dos modernos e não abdica de uma concepção da natureza que me parece ser filosoficamente insustentável. Não me refiro à liberdade negativa que os liberais sacralizam - aí estou inteiramente com o papa: a liberdade negativa corresponde a um entendimento redutor desse conceito. Falo de um entendimento da liberdade como aquele que foi proposto por Hegel e desenvolvido por pensadores católicos como Charles Taylor. Taylor, para dar apenas um exemplo escreveu abundantemente sobre a liberdade  e reconhecimento. Num livrinho intitulado "A Catholic Modernity" Taylor reconhece o valor  e a dimensão hermeneutica do pluralismo e defende o ecumenismo de uma forma que me parece impossível encontrar em Bento XVI. A hierarquia da igreja pode não estar disposta a abdicar do seu dogmatismo autoritário e profundamente reaccionário, mas não faltam pensadores que se identificam com a tradição católica e que rejeitam o seu reaccionarismo. É com esses que a esquerda pode debater - e aprender.


24 comentários:
De nuvens de fumo a 15 de Julho de 2009 às 14:45
João Galambra

Como se pode esperar da igreja qualquer tipo de aceitação da liberdade individual se existe um caminho para a salvação e só ela igreja o determina ?
isso foi estabelecido num dos concílios, e é dogma. Quem quer aceita , quem não quer, como eu, nem liga.

Por isso , essa tal palavra tão repetida, o ecumenismo , na prática acaba sempre por se reduzir à máxima: Fora da igreja não há salvação.







De João Galamba a 15 de Julho de 2009 às 14:57
Mas reconhece que há muita gente dentro da Igreja (Charles Taylor, que referi no post, é um destacado pensador católico) que tenta que esta abandone alguma das suas posições mais reaccionárias, ou não? Essa da Igreja não muda é historicamente falsa. A igreja não mudou o suficiente, mas mudou muito. A Igreja é feita por homens e a lei de Deus não fala sem homens que a interpretem. Infelizmente o papa actual representa a facção mais ortodoxa, mas não há nada escrito nas estrelas que exija que tal aconteça. O futuro aos homens pertence.


De nuvens de fumo a 15 de Julho de 2009 às 15:25
Talvez, sempre existiram homens e mulheres de pensamento avançado dentro da igreja. Desconfio é daquela gente que vive do conservadorismo, é o equivalente cá aos aparelhos partidários. : )) quanto mais imóvel aquilo for melhor.

Pessoalmente apenas critico o facto de tentarem impor aos outros as suas ideias medievais, mas admito que será necessário diálogo com alguns sectores menos atávicos de forma a dinamizar a própria reflexão interna.
Quem sabe ? talvez avancem qualquer coisa. Mas não será para breve certamente.


De Nuno Gaspar a 15 de Julho de 2009 às 15:20
"E que tal estudar um pouco o que é o ecumenismo?
Essas afirmação de que fora da Igreja não há salvação demonstra uma profunda ignorância sobre o tema.

é como um pessoa que nunca estudou séries matemáticas por-se a opinar sobre o assunto. Há que primeiro fazer um pequeno trabalho de casa que ultrapasse um pouco o conhecimento de propaganda.

É o meu conselho"


De A. Santos a 15 de Julho de 2009 às 15:45
J. Galamba!
A Igreja parte da premissa da Verdade e não de um "dado" contingente. Densifica através de elementos normativos axiologicos "o" dever ser.
Como entende que a Igreja poderia, pura e simplesmente, abandonar a premissa da "verdade" e a concepção ética da pessoa humana?? Entende que a Igreja é uma instituição contingente?
Como é que quer que a Igreja se desnude da ortodoxia se a ortodoxia é a institucionalização da Igreja? Porque espera que a Igreja passe a ter, quanto à noção antropologica de pecado, uma reacção recognitiva?
O comentário do núvem de fumo parece-me, neste tocante, mais cordial.

P.S. - Galamba V. é intrigante


De João Galamba a 15 de Julho de 2009 às 16:00
A. Santos,

Há diferentes concepções de verdade. Taylor, por exemplo, rejeita a verdade absoluta e dogmática que a sua igreja tende a defender. Por outro lado, eu nunca disse que a Igreja devia abandonar a concepção ética da pessoa humana; apenas considero que há outras éticas - referi a ética de reoonhecimento de Hegel, reinterpretada por Taylor - e que a escolha não é emtre o dogma católico e o vale tudo ou o relativismo.

Há um autor que escreveu abundantemente sobre o pecado e o mal dando-lhes uma interpretação radicalmente diferente da de bento xvi: Paul Ricoeur. É certo que Ricoeur não é Católico - é protestante -, mas os seus escritos mostram como nem todo o cristianismo tem uma dimensão repressiva e de amesquinhamento da vida.

cumps


De CN a 15 de Julho de 2009 às 15:56
A ICAR será a única organização internacional com características universais, supra-nacional, electiva, de adesão voluntária e sustentada voluntariamente, com larga obra de ajuda na educação, saúde, terceira-idade, pobreza e missões em zonas problemáticas.

Além disso, os protestantes tendem a ser muito mais puritanos: A lei seca nos EUA é tipicamente uma inspiração protestantes. O usufruto da arte (pintura, música) e das coisas boas sempre fez parte do catolicismo. Comparar como os tiques de ascéticos protestantes.

Toda essa mania sobre o reaccionarismo deve-se a uns quantos pormenores que nunca mudarão, porque se mudarem é porque o catolicismo morreu:

- o aborto
- casamento homossexual

E pouco mais.


De A. Santos a 15 de Julho de 2009 às 16:55
J. Galamba!
Honestamente...o meu Universo é Kantiano!
Não sou conhecedor de Taylor, mas como leigo, jamais poderia rejeitar "a" verdade, que, sim, será "absoluta", rejeitará algumas aproximações às verdades contingentes que a Instituição criou ao longo da sua existencia. A Hermeneutica permite adaptar, actualizando, o elemento histórico na sua interpretação...Convenhamos que jámais permitiria a negação do advento e à noção de salvação.
No entanto também me parece que o Galamba tem uma visão retorçida da Mundividencia Cristã e a sua noção de convivencia e tolerancia que não é de modo nenhum um Convento Franciscano, nem comunica por autos inquisitoriais.
O ponto será: O que pretende o Galamba da Igreja? Se não pretender nada será mero diletantismo falar sobre a mesma.


De MRC a 16 de Julho de 2009 às 05:18
Caro João,
Com todo o respeito, em vez de ler só os autores que criticam a Igreja, aconselhava-o a ler primeiro os documentos oficiais da Igreja.
No caso do ecumenismo, recomendo a encíclica Ut Unum Sint que fala necessariamente da possibilidade de salvação fora da Igreja. A questão da salvação fora da Igreja não ser possível aplica-se mais aos casos das pessoas que sabem bem que a Igreja é a salvação e que ainda assim a rejeitam. Não se aplica aos homens de boa vontade ou de outras religiões que, por motivos de circunstância, não foram educados na fé católica.
Por outro lado, rejeito em absoluto a intepretação do João e da Palmira segundo a qual dentro da Igreja Católica não há liberdade. Dentro da Igreja Católica há muita liberdade. Inclusive, de acordo com a sua doutrina se nós estamos como estamos (guerras, fome, mortes, crises económicas) é porque Deus levou tão a sério a nossa liberdade que permite que a usemos para fazer o mal.
E mesmo dentro da via da salvação, dentro da Igreja, existem multiplas formas de aceder à salvação para todos os gostos. Basta ver as centenas de instituições e movimentos aprovados pela Igreja que vivem de forma diferente o acesso à salvação.
Agora, não peçam é a ICAR para alterar o decálogo. Isso já não se chama liberdade.


De nuvens de fumo a 16 de Julho de 2009 às 10:14
MRC
"A questão da salvação fora da Igreja não ser possível aplica-se mais aos casos das pessoas que sabem bem que a Igreja é a salvação e que ainda assim a rejeitam."

Aplica-se mais ? tipo o , depois de ouvires a nova obedeces ou será consumido no fogo eterno: )
Ainda se usa as imagens do inferno para meter medo aos meninos ? estou faz tanto tempo afastado da mitologia católica que já não sei.

“Agora, não peçam é a ICAR para alterar o decálogo. Isso já não se chama liberdade.”
Depois de rebolar um bom pedaço a rir, parei. Estava quase a sofocar.
Resumindo, é como o Pinto e os casamentos gay. Eu tenho a liberdade de fazer exactamente como exigem que eu faça? Já vi maneiras mais subtis de chamar pouco inteligente às outras pessoas. Por isso , e para mim felizmente, nos países civilizados há cada vez menos praticantes.



De aorta a 16 de Julho de 2009 às 10:46
o destino de toda e qualquer religião é acabar. é uma tolice. não faz sentido.

o problema é que as pessoas reduzem a espiritualidade à religião. nada mais errado. há espiritualidade bastante na arte e na ciência, por exemplo. porque em ambos os domínios se trabalha com o desconhecido e com o mistério da existência humana.

para viver essa espiritualidade, não preciso de acreditar no céu e no inferno, em milagres ou em santas que engravidam por obra e graça do espírito santo e que aparecem em oliveiras, a criancinhas, aos dias 13 de cada mês.



De nuvens de fumo a 16 de Julho de 2009 às 10:55
Concordo inteiramente, a espiritualidade do ser humano é muito mais ampla que a crendice em seres superiores


De aorta a 16 de Julho de 2009 às 13:01
nem mais. ;-)


De Inês Meneses a 16 de Julho de 2009 às 13:28
ora bem


De António Parente a 16 de Julho de 2009 às 10:49
Presumo que o nuvens de fumo considere que roubar, matar, não respeitar pai e mãe sejam coisas civilizadas com as quais concorda inteiramente.


De nuvens de fumo a 16 de Julho de 2009 às 11:07
A. Parente

A minha ética não depende do que está escrito em livros com milhares de anos, nada universalistas e sem nenhuma actualidade. São livros de onde emana uma intolerância , um suposto conhecimento de uma verdade revelada por uma entidade superior, enfim, é algo que para mim não serve pela total ausência de sentido lógico.

E não tenho como sendo linear que matar seja sempre sinónimo de falta de civilização, roubar idem, e quanto a pais e mães depende mais um vez das situações.
É essa falta de relativismo cultural que torna as religiões problemas imensos.

Mas como digo, esta ausência de sentido é minha, antes houve quem adorasse Zeus, e as divindades Sumérias com o mesmo fervor que hoje assistimos temo noutroscultos.
Para mim esta é a prova absoluta de que tudo o que é religioso é de criação humana. Tudo o resto é fé, esperança que não acabemos no fim, etc etc.

Mas continua a dizer, desde que não imponham aos outros os vossos ideias e comportamentos, quero lá saber.


De António Parente a 16 de Julho de 2009 às 11:55
Bendita falta de relativismo cultural.


De nuvens de fumo a 16 de Julho de 2009 às 13:51
O relativismo cultural não é uma questão de crença, resulta de existirem diferentes formas de ver o mesmo problema dependendo das circunstancia de cada povo, da sua história etc


De António Parente a 16 de Julho de 2009 às 18:41
Eu sei o que é o relativismo cultural e gostaria de ver o Nuvens defendê-lo diante de um canibal que lhe quisesse cortar um bocado da coxa para a grelhar e comer ao jantar.


De nuvens de fumo a 17 de Julho de 2009 às 14:50
As suas imagens são uma janela para a sua alma. Quando fala em relativismo cultural aparece-lhe o canibal a tentar comer uma perna, é triste. Eu não vejo assim, imagino outras formas de ver a vida, outras literaturas, outras comidas. Aprecio outros odores, outros prazeres.
Tenho pena que para si o relativismo fique restrito a uma canibal agarrado à minha perna, que imaginação...



De Paula R. a 16 de Julho de 2009 às 12:04
Caro MRC,

Já agora nessa sua cruzada ... podia-nos explicar como é possível conciliar DOGMAS com LIBERDADE..

É dificil aceitar que vimos do pó e que ao pó vamos voltar não é ? ;)


De MRC a 16 de Julho de 2009 às 19:36
Cara Paula R.
Já foquei este ponto várias vezes neste blogue. Na encíclica Veritatis splendor, JP II, chama-lhe Teonomia participada, isto é, o cristão assume com total liberdade e autonomia o seu próprio caminho de salvação sendo convidado a, nas suas circunstâncias próprias, percorrer o caminho que Deus lhe propõe.
É como ser convidado a fazer uma cópia, sendo que a cópia terá necessariamente traços originais e autênticos em face da versão original em si.
Stº Agostinho resume esta dicotomia com a famosa expressão "Deus que te criou sem ti, nunca te salvará sem ti"


De Paula R. a 16 de Julho de 2009 às 12:59
Caro MRC,

Nessa sua cruzada ... bem que nos podia esclarecer de como convivem os dogmas com a liberdade

É dificil aceitar que do pó viémos e em pó nos vamos transformar ... heim? ;)


De jornalista a 16 de Julho de 2009 às 10:59
PARA: ANA MATOS PIRES

Bom dia,

Tenho lido alguns dos artigos da Ana Matos Pires, que se intitula psiquiatra ou psicóloga.

Fiz um comentário ontem há noite, o qual não publicou, será medo duma realidade?

Portugal continua a viver uma democracia hipócrita e disfarçada, dando apenas espaço a uma ditadura psicológica.

Quando publicamos artigos e assumimos as nossas palavras, não deveriamos ter medo de mostrar ao mundo aquilo que somos, ou a opinião dos outros.

Espero que tenha a coragem e dignidade de publicar o comentário, que de nada tem ofensivo ou pessoal, apenas relato a minha opinião perante os seus artigos e a forma como se expõe.

Jornalista.2009


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


artigos recentes

o piegas coelho

"Sit Ubo Sit!.Good dog!!!...

joão duque,

Populus in res publica su...

Os Cinco Pecados Mortais ...

Os Cinco Pecados Mortais ...

AT/DT

Todos os dias há uma nova

Hum, como falar do assunt...

Leituras: History Will Te...

João Fernandes no Reina S...

O tempora! O mores!

...

Antoni Tàpies (1923- 2012...

A bem da minha úlcera vou...

últimos comentários
Carlos.Portanto, você já leu uma "montanha de espe...
Dona Fernanda,pode explicar-me, por favor, o que s...
Dois extensos lençóis desfiando argumentos puramen...
Que tema apaixonante! Nunca tinha visto tamanhos "...
Muito bem ! Argumentar contra o conformismo é sem...
Bom, falta acrescentar que, do ponto de vista dos ...
f. <-> 31 - amor de perdição!
"O Acordo não só não constitui qualquer ameaça à l...
Tem a certeza? Acha que o editorial do "Jornal de ...
Excelente texto. Muitos parabens de um também juri...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds