Quinta-feira, 23 de Julho de 2009
Tendo instintivamente a acreditar que, quando alguém dotado de um currículo relevante se pronuncia sobre um certo assunto, decerto saberá do que está a falar. Se calhar vou ser obrigado a rever a minha atitude. Venham este extracto da entrevista de Abel Mateus no Jornal de Negócios de hoje.
Os estudos do Governo dizem que o valor negativo do projecto [TGV] é compensado por externalidades: factores ambientais, crescimento adjacente, IRC... Isso torna o projecto sustentável.
Isso é aritmética cosmética. É muito difícil estimar externalidades. Vale mais ser muito cauteloso do que estar a fazer sobreestimativas só para encher o número [sic].
Há dias foi Vítor Bento a afirmar que parte da rentabilidade esperada do TGV depende "de componentes da mais pura e arbitrária subjectividade", como os "benefícios obtidos com a redução do tempo médio de viagem das travessias sobre o Tejo", a "redução dos custos operacionais dos carros que dessa forma se consegue e pelo impacto positivo em termos ambientais" e o "aumento de produtividade".
Agora, é Abel Mateus a contestar que se introduza o cálculo de externalidades na análise custo-benefício. Isto só pode significar que, afinal, eles pura e simplesmente não sabem o que é uma análise custo-benefício.
Não. Abel Mateus é rigoroso. Ele não recusa que se introduzam as externalidades na análise custo-benefício. Ele o que diz é que "é muito difícil estimar externalidades" e que portanto se deve ser "muito cauteloso" ao fazê-lo.
De Pedro Lopes a 23 de Julho de 2009 às 19:44
Se Abel Mateus fosse rigoroso admitia que não sabe do que fala.
De Luís Serpa a 23 de Julho de 2009 às 21:44
Talvez v. pudesse, caro João Pinto e Castro, ter a bondade, a generosidade, a magnanimidade de lhes explicar, a esses pobres ignorantes, o que é e como se faz uma análise custo-benefício.
Ah, e não se esqueça de levar os bonecos, para lhes espetar alfinetes.
Sim, de facto, talvez pudesse, mas sucede que tenho outras ambições na vida.
A minha experiência académica e profissional de mais de vinte anos mostrou-me ser muito ténue, em Portugal, a diferença entre um merceeiro e um Economista, todavia ela existe: um Economista dirá que o custo, para o erário público, do último lanço da C. R. I. L. (Pontinha-Buraca) é exactamente o valor que o Empreiteiro vai facturar.
Já um bom merceeiro que circule todos os dias pela Segunda Circular, em Lisboa, mesmo que não possua a quarta classe, perceberá bem melhor o que custa, no "final de contas", a construção do último troço da C. R. I. L. (sem saber sequer o significado de "externalidades"...)!
Pode é não saber explicar, mas consegue intuir.
Continhas certas dão muuito trabalho, eu sei...
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