Domingo, 26 de Julho de 2009
Como era de esperar, começaram a chover os mails e os comentários (no meu correio e no meu blog pessoal) com ódio e insultos. Tudo bem. Tudo bem, não fosse o que eles revelam sobre o mal-estar da democracia em Portugal. Há dois temas que atravessam esses mails e comentários: o tema da "coerência" e o tema do "tacho". Em ambos os casos a acusação é de crime moral: "perdeu a coerência", "vendeu-se por um tacho". Nestes anos todos de comentário e intervenção política não me lembro de ter usado a coerência e o tacho como argumentos. Há mais gente assim. E, pelos vistos, outra gente que não. Talvez tenhamos aqui um divisor de águas - e ele não separa a direita da esquerda, mas sim a lucidez da paranoia, a seriedade da arruaça.
A primeira vontade é de responder a esses mails e comentários com argumentos racionais. Começar, por exemplo, por explicar factos: entrei para o Bloco em 1998 através da Política XXI, o seu sector mais moderado. Dentro do Bloco assumi sempre as minhas dúvidas em relação a posições que via como mais extremadas (uma vez disse uma frase irónica que ficou conhecida: "sou da ala direita do Bloco, o que não significa de todo não ser de esquerda"). Há 3 anos atrás saí do Bloco, por razões sobretudo relacionadas com a vontade de intervir sem os limites que naturalmente pertencer a um partido acarreta. E estes 3 anos sem ligação partidária permitiram-me pensar sobre política e intervir sobre questões sociais com liberdade acrescida.
Nestes 3 anos critiquei ferozmente o PS em várias circunstâncias (dois exemplos: a reforma universitária e o casamento entre pessoas do mesmo sexo). Critiquei atitudes, discursos, políticas, sobretudo em torno da universidade ou em torno das questões LGBT e outras. (Como critiquei - mas essas críticas esquecem-nas os citadores compulsivos - os pressupostos, crenças e tiques de muito pensamento e acção da esquerda à esquerda da social-democracia). Mantenho essas críticas, como se mantem o contexto em que foram feitas. Fi-las por achar que o PS deve ser mais explicitamente de esquerda e rever os erros da terceira via e da cedência a uma suposta inevitabilidade neo-liberal no mundo de hoje. Fiz essas críticas ao mesmo tempo que fui afirmando a minha opção política por uma social-democracia a sério e o meu desejo de que a ruptura histórica entre a área do PS e a área do BE fosse (seja) ultrapassada graças ao contributo daqueles e daquelas que se revêm numa esquerda social-democrata. Continuarei a fazer críticas com estes pressupostos.
Mas muitas pessoas, e às vezes jornalistas, parecem ter congelado no tempo: há quem pense que transitei directamente do BE para o PS. Duplamente falso, não só por ter saído do BE há 3 anos, como por entrar nas listas do PS como independente. Entra aqui o "argumento" do "tacho". Valerá a pena responder dizendo que, no meu caso pessoal, poder vir a ser deputado não constitui tacho nenhum? Duvido. Ou que não tenho qualquer intenção de um dia assumir cargos executivos, mas sim vontade de participar no Parlamento e contribuir um pouquinho que seja para a sua abertura à "sociedade civil"? Duvido que isto seja ouvido. Ou que acho que o grupo parlamentar do PS, na sua pluralidade e contradições (com sensibilidades ideológicas diferentes, comportamentos éticos diferentes, retóricas diferentes) é um espaço vasto onde julgo poder intervir e influenciar e não um pacote monolítico? Duvido também. Ou que um deputado, e sobretudo um independente, é um indivíduo e que age (pode agir; e deve agir) como tal e representando a cidadania e não somente um partido? Uma vez mais duvido.
Mails e comentários e colunas de opinião baseados numa ideia a-histórica e descontextualizada de "coerência", ou na demagogia populista do "tacho" precisam, para se aguentarem, de pensar o mundo e as pessoas em caixinhas herméticas. É verdade que às vezes a realidade parece confirmar os piores receios - e tal acontece mais, como seria de esperar (pela proximidade ao poder), nos partidos da governação. Essa realidade pode e deve ser tranformada, nomeadamente com a nossa participação na política, para que ela não fique nas mãos apenas dos jogos de interesse. Mas quando aqueles receios são aplicados em automático a tudo o que de novo surja (como o foi a minha candidatura) revelam uma triste, muito triste visão das pessoas e do mundo. (originalmente postado no SIMplex)
De Ibn Erriq a 26 de Julho de 2009 às 13:50
"Mas quando aqueles receios são aplicados em automático a tudo o que de novo surja (como o foi a minha candidatura) revelam uma triste, muito triste visão das pessoas e do mundo"
E se não foram em automático? Se foram ponderados?
Será que revelam que os "críticos" são menos "lorpas" do que aquilo que o Miguel julga?
Independente, LOL, o que é isso? Vai votar contra o PS quando for imposta disciplina de voto?
Será que o Miguel não vê o que o PS de Sócrates pretende com estas pessoas nas listas? Ou será que percebe e serve esses objetivos? Olhe, a Joana Amaral Dias percebeu, Ou então não se rende ao tacho como o Miguel nos quer fazer crer que é também o seu caso.
Mais, as palavras leva-as o vento, mas os actos ficam colados a quem os pratica.
Terá, assim espero, 4 anos mas mostrar a sua coerência, no entanto, "reze" para que o PS não ganhe as eleições, pois caso, contrario lá terá que atirar a coerência janela fora. Mas se o PS não ganhar, aí não terá grandes problemas. Assim sendo, desejo-lhe sorte, que neste caso não sei bem o que será!
De Manuel Santos a 26 de Julho de 2009 às 13:54
" Há 3 anos atrás saí do Bloco, por razões sobretudo relacionadas com a vontade de intervir sem os limites que naturalmente pertencer a um partido acarreta."
Ao que parece estava farto desse liberdade de intervir sem limites. A não ser que o lugarzito de deputado compense a perda ...
De viana a 26 de Julho de 2009 às 16:31
A coerência demonstra-se, não se proclama. Até agora Miguel Vale de Almeida ainda não justificou abertamente porque vota PS, e não BE, o que suponho terá feito várias vezes no passado. O que é que exactamente o fez mudar de posição? Foi porque as políticas preconizadas pelo BE tornaram-se para si menos apelativas? Quais? Foi porque as políticas do PS se tornaram para si mais apelativas? Quais? Ou foi por mera táctica política: ter mais proximidade ao Poder para assim melhor conseguir implementar algumas das posições que defende? Quais? Um texto a explicar tudo isto, logicamente, e coerentemente é a única maneira de demonstrar coerência, frontalidade e honestidade perante os eleitores que pretende que votem em si.
E já agora, ainda não respondeu à pergunta que lhe deixei anteriormente num comentário: coloca a hipótese de apoiar directa ou indirectamente (pela abstenção) qualquer governo que inclua o PSD, em particular um governo de coligação PS+PSD? Ou é uma pergunta "difícil" de responder para alguém que inúmeras vezes afirmou que é preciso derrotar o PSD? Julgaria que não.... mas pelo jeito estou enganado. Parece-me uma pergunta assaz pertinente, pois eu votando no BE tenho a certeza que os deputados que me representarão em nenhuma situação apoiarão um governo que inclua o PSD. Manuel Alegre já disse, nunca! Nunca apoiaria um governo PS+PSD, e em parte por isso, por saber que tal é uma forte possibilidade, optou por não concorrer a deputado. Parece que os "velhos deputados" ainda têm muito que ensinar aos aspirantes ao lugar, em termos de honestidade, frontalidade e coerência.
De Fernando a 26 de Julho de 2009 às 17:06
Aceitou o convite do PS depois de três anos a castigar o mesmo PS. Com a Ana Maria Gomes aconteceu o mesmo. Passou os últimos anos a castigar o Sócrates e com isso garantiu continuar no Parlamento Europeu. Não é por isso que irei deixar de votar neste PS de Sócrates. Mas esta política do quanto mais me bates mais possibilidade tens de ser deputado, parece-me não ser boa estratégia. Não para quem bate mas para quem é batido.
De ana a 26 de Julho de 2009 às 17:30
Miguel, não se rale com os comentários depreciativos. A ignorância e inveja dessa gente é incomensurável. Tacho? Sabem lá eles o que ganha um deputado. Digo eu que muito pouco, que não sou deputada. Por isso também se nota uma falta de qualidade na maioria dos deputados. E falta de coerência? Qual falta de coerência? Lutar contra o sistema é dentro do sistema, não é mandar bocas de fora. O único cargo político que exerci foi autarca nma freguesia, remunerada com senhas de presença. E, à minha escala, tb fui alvo de bocas...credo! Mas estive lá. É serviço cívico, acreditem. Boa sorte Miguel, eu cidadã agradeço o seu altruísmo´, e se precisar apoio, mande m mail ;).
De Ibn Erri a 26 de Julho de 2009 às 20:36
"Lutar contra o sistema é dentro do sistema, não é mandar bocas de fora."@ ana
Pois isso é verdade, que dizer que vamos ter o Miguel a torpedear o PS por dentro? LOOOOOOOOOL
Criticar é ter inveja? Ok então eu sou invejoso. Claro que o ideal da ana era viver num pais de unanimismos, azar o seu!
De Ibn Erriq a 26 de Julho de 2009 às 20:49
Pois se calhar eles sabem quanto ganha um deputado. Sabem que é pouco, mas, mesmo assim, é muito mais que a média portuguesa.
De ds a 26 de Julho de 2009 às 17:37
Tem piada... O MVA critica a ideia de coerência «a-histórica e descontextualizada», mas diz-nos ao mesmo tempo que o contexto em que verificaram as suas criticas ao PS se mantém. Ora, se se mantém, o que seria de esperar de alguém com uma coerência «histórica» e «contextualizada» é que não passasse a ser aliado daqueles que constroem esse tal contexto. Porque nada mudou...
Diz-nos também que entende que o PS deve ser mais de esquerda e que deve corrigir os seus desvios neoliberiais e de terceira-via! Bem, alguém com uma consciência «histórica» e «contextualizada» tinha a obrigação de saber que o PS a que se aliou é um reflexo do contexto neoliberal e de terceira-via dominantes, e realmente só alguém muito ingénuo pensará que será com o Pinto de Sousa (que mais não é do que uma cópia foleira do já morto Blair) que se darão essas correcções. Pensará o «independente» MVA que a sua presença na AR vai levar o Pinto de Sousa a rever o código laboral que aprovou?! A mim o que me parece é que o MVA já tem o seu destino traçado: nas próximas eleições estará fora das listas, como ficaram aqueles deputados do PS que votaram contra o código laboral. Mas para já serve os propósitos da campanha eleitoral do Pinto de Sousa, que precisa de parecer de esquerda. Vá-se lá saber porquê, não é? E se o MVA não se apercebeu de mais este golpe publicitário da equipa que é especialista em fazer anúncios e em vender a banha da cobra, é porque tem a sua consciência demasiado focada ou contextualizada no seu próprio umbigo (como mostram os exemplos que deu). Para mim não se trata portanto do MVA andar à procura de um tacho, mas sim de aceitar fazer o papel do «queijo limiano» versão 2.0, agora num contexto de campanha eleitoral.
Por isso deixemo-nos de tretas: ao aliar-se ao Pinto de Sousa e à sua equipa a única coisa que está em jogo são mesmos interesses particulares: os da sua consciência reduzida aos contextos homossexual e universitário, e os do Pinto de Sousa, que apenas pretende garantir o poder para continuar a implementar o seu projecto da «esquerda» moderna. Mas o que será ser «moderno» num contexto de neoliberalismo dominante? È não ser reaccionário e conservador como a extrema-esquerda, diz-nos o próprio Pinto de Sousa... e já nos dizia antes a cassete neoliberal. Há assim uma mudança de paradigma ou contexto e que se traduz no PS ter adoptado e feito seu o, desde sempre, caracteristico discurso da direita neoliberal. Quem tem uma consciência histórica e contextualizada não tem dificuldades em perceber isso.
De
PGFV a 27 de Julho de 2009 às 12:18
Entre várias coisas, e não estou a pensar nas razões que poderão ter levado o PS a convida-lo para integrar a sua lista, o que é facto é que muitas pessoas, (nas quais me incluo) e que não votariam jamais no PS, mesmo sabendo que o Bloco, não é uma alternativa governativa, começam no momento a rever a sua tomada de posição. A outra: Se resolver a minha dissonância cognitiva e me decidir votar PS, estou a votar contra com o que muitos dos portugueses se queixam: votar numa listas que não é mais que uma cambada de aparelhistas do partido, pessoas que nem sequer conhecemos, nem o que defendem para além do partido.
O 7º lugal é elegível, a não ser que haja uma hecatombe total (deixe-me bater na madeira). Confio em si para melhorar a qualidade da prestação democrática dos nossos parlamentares.
E quu sai o programa, que eu tenho que resolver rapidamente a minha dissonância cognitiva.
O Miguel Vale de Almeida, sei o que publicamente defende. Talvez mais que qualquer um dos outros deputados que se têm sentado na AR nestes últimos anos.
De Pedro a 27 de Julho de 2009 às 22:28
Peço-lhe imensa desculpa por ser um bacoco troglodita triste e incoerente, um palhaço em "automático" e um descontextualizado.
Peço-lhe sobretudo desculpa por ter acreditado em si.
(Penso que não lhe vou pedir desculpa por ter moderado este tipo pateta, patético e inculto de comentários)
De Isabel a 28 de Julho de 2009 às 18:04
Falam, falam e não dizem nada até porque também não querem ouvir. Tanto ódio, inveja, maldade. Vivam e deixem viver!
Obrigada, Miguel Vale de Almeida por ser tão claro na sua posição a qual não deixa margem para dúvidas de que o povo português irá ter em si um bom deputado.
Bem haja!
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