Sexta-feira, 7 de Agosto de 2009
As estimativas da evolução das necessidades energéticas globais e da fatia assegurada pelos combustíveis fósseis mais conservadoras deveriam ser suficientes para que todos percebessemos que as energias renováveis serão as próximas indústrias globais, ultrapassando muito provavelmente as tecnologias da informação daqui a alguns (poucos) anos. Ou seja, se não existem ainda respostas absolutas sobre o que será o novo paradigma energético, há a certeza que o actual, assente nos combustíveis fósseis, não chega para as encomendas.
Por todas estas razões e mais aquelas que o Gonçalo aponta, os países que mais investirem agora em fontes energéticas alternativas beneficiarão de uma vantagem estratégica no futuro próximo, facto a que os nossos dirigentes políticos deveriam estar muito sensíveis (e não há uma linha sobre energia nas políticas de «Verdade»...)
Mas se não esperava que o factor económico fosse apelativo para os nossos ambientalistas, devo confessar que fiquei surpreendida com as considerações ambientais debitadas ao Público por Joanaz de Melo, autor de um estudo muito crítico do projecto que pretende aumentar a nossa produção hídrica de energia com a construção de 12 novas barragens. Ou antes, a surpresa não foi total, porque há uns tempos moderei um debate no Técnico sobre energia nuclear em que o presidente da Geota foi um dos intervenientes e percebi que, para além da nuclear, se opõe a toda e qualquer expansão da capacidade de produção de energia e advoga, exclusivamente, uma utilização mais eficiente dos recursos energéticos que já temos.
Mas achei no mínimo bizarro o título escolhido para a prosa, «Barragens e nova ponte sobre o Tejo obrigam o país a consumir mais energia». Não me pronuncio sobre a ponte, que o Geota reconhece ter «méritos claros» na componente ferroviária, mas deixa-me perplexa que se desdenhe como ambientalmente irrelevantes as novas barragens, que correspondem a cerca de 20% da nossa potência termoeléctrica instalada. E que se considere, supostamente apoiado em contas, que produzir mais energia hidroeléctrica vai «obrigar» o país a consumir mais energia e não que irá fazer baixar a nossa dependência de combustíveis fósseis importados. De facto, os últimos dados disponíveis, referentes a 2007, indicam que Portugal importa mais de 80% da energia que consome, em particular fontes primárias de energia como o petróleo, carvão ou o gás natural que alimentam as centrais termoeléctricas.
Concordo que, a muito curto prazo, é necessária uma alteração dos nossos hábitos de consumo de energia, em particular a nível dos transportes, que consomem 36.5% dos nossos recursos energéticos. Suponho que não o sensibilize que a outra grande parcela, cerca de 30%, seja devida à mesma indústria nacional que poucos têm dúvidas ser necessário revitalizar. Mas, em particular se não nos restringirmos ao nosso cantinho ou mesmo aos países ditos desenvolvidos e pensarmos globalmente, aumentar a eficiência energética é claramente insuficiente e insustentável em termos ambientais.
De facto, «Pensar globalmente, agir localmente» é especialmente apropriado às questões ambientais. Porque, por muito que reduzamos, nós, os chamados países da economia ocidental, a factura energética, não há quaisquer dúvidas de que o consumo de energia vai crescer, e muito, noutras economias. E com ele os problemas ambientais que nos afectam a todos se não diversificarmos as fontes de energia e oferecermos a essas economias alternativas que possam suportar.
Aliás, no mesmo dia do debate que moderei, a EIA divulgou as suas previsões da evolução do consumo mundial de energia, que indica, até 2030, um aumento de 44%, sendo a grande fatia deste aumento, cerca de 2/3, assegurada pelos países em desenvolvimento. Assim, não faz muito sentido falar em simultâneo em energia e ambiente e pensar apenas em termos locais. Pensar global em energia significa também acautelar recursos para as economias emergentes e, especialmente, para o 3º mundo, em que se espera que a população melhore as condições de vida - o que é indissociável de um aumento do consumo de energia.
Infelizmente, as formas de energia mais baratas e acessíveis nestes países são as mais caras em termos de poluição - e as mais devastadoras em termos ambientais. Construir uma barragem, mesmo nos países em que isso é possível, é, para além de caro, um investimento a médio prazo. O gás natural e os derivados de petróleo não serão utilizados se os seus preços forem proibitivos. Mas é muito rápido, mais fácil e mais barato queimar o carvão que abunda por todo o planeta. A China e a Índia, por exemplo, têm extensas reservas deste combustível muito poluente, cuja queima e extracção intensiva atirará para a atmosfera enormes quantidades de poeiras, dióxido de enxofre e óxidos de azoto
Este estudo da Geota, que parece ignorar nas suas recomendações que há no Mundo muitos que não podem aumentar a eficiência do que não têm, recordou-me aquele que é considerado o primeiro tratado ambientalista da História, o Fumifugium de John Evelyn. Tentando resolver a poluição londrina causada pela queima do carvão dos pobres, o seacole «Which doth our Lungs and Spiritts choake» - cuja utilização se tentava banir desde o decreto de 1306 de Eduardo I -, Evelyn recomendava que se queimasse em alternativa madeiras aromáticas e rosas. Mas fico na dúvida qual é mais irrealista ...
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De nuvens de fumo a 7 de Agosto de 2009 às 11:22
Se não levarmos a sério as alterações climáticas produzidas pelas emissões de CO2 o resultado vai ser muito desagradável para as gerações vindouras. Os últimos estudos do Max Planck Institute reviu em alta a subida de temperatura relativamente ao IPCC4.
Se pensarmos que 80% da água potável do oriente ( China + Índia incluídos ) é de origem glaciar, pode-se imaginar o impacto de uma grande seca.
Mudar de hábitos, agir rápido e sem medos. Porque medo é ficar >à espera que a temperatura suba 5 ºC. só para se ter uma ideia, por cada 1ºC de subida nos pólos , a amplificação polar traduz-se em 12º , mais coisa menos coisa. O tempo de agir é agora, as alterações climáticas tem inércia longa e far-se-ão sentir por séculos.
Como de costume assistimos aos mesmo de sempre a fazer pressão. Aconselho um excelente artigo sobre negacionismo climático :
1) Este sobre Watts , um alucinado que inventa números contra o aquecimento global, tendo acabado por tentar impedir a publicação deste artigo , alegando….direitos de autor. De facto , sobre o conteúdo nada a dizer.
http://climateprogress.org/2009/08/02/anthony-watts-wattsupwiththat-inanity-defense-censor-peter-sinclair-video/
2) Este é também obrigatório:
http://climateprogress.org/2009/08/05/anthony-watts-peter-sinclair-alan-carlin-crock-of-the-week-video/
Espero que gostem
De nuvens de fumo a 7 de Agosto de 2009 às 11:29
~correcção: 1º no equador e não nos polos. 
De António Parente a 7 de Agosto de 2009 às 11:39
Há algumas linhas sobre energia nas "políticas de verdade". Aqui:
http://www.politicadeverdade.com/?idc=306
De nuvens de fumo a 7 de Agosto de 2009 às 11:59
A inclusão de Pacheco Pereira é má notícia. JPP é um céptico em relação às alterações climáticas, tem demonstrado esse cepticismo ao longo do tempo que alias estava alinhado com a administração Bush. Parece que as armas de destruição eram mais concretas que o trabalho de décadas de cientistas de carreira. Seja como for, não imagino MFL a ter uma ideia que seja sobre o problema energético, é de outro tempo, ela pertence á geração que destrui a maior parte dos recursos sem ter ideia do que estava a fazer, e para quem ambientalismo ainda é sinónimo de radicalismo.
Não confundam a senhora, vá. 
A mim nas hidroeléctricas preocupam-me casos como o do rio Sabor. Ao que sei, um dos ultimos rios "selvagens" da Europa. Quanto vale um ecossistema intocado, hoje em dia?
"Quanto vale um ecossistema intocado, hoje em dia?"
O valor e quase incalculavel e a resposta.
O problema da sua pergunta esta, nao naquilo que aborda mas naquilo que NAO aborda. Num contexto de alteracoes climaticas globais ja em curso, com que bases e que pode afirmar que o exossistema do Sabor nao vai ser/nao esta ja a ser "tocado" pela actividade humana?
O que nos leva a uma outra pergunta, essa sim pertinente: o que e que vai causar mais custos ambientais a este (e outros) ecossistemas? As alteracoes climaticas ou a inundacao do vale devido a barragem?
De nuvens de fumo a 7 de Agosto de 2009 às 12:54
Pode-se sempre fazer barragens noutros rios. Mas de certeza que há estudos técnicos para fundamentar essas escolhas. Aposto que quem decide prefere ter poucos aborrecimentos.
De NH a 7 de Agosto de 2009 às 14:24
Os meus comentários remetem-se aos dois primeiros parágrafos desta posta. O gráfico aqui apresentado
é pouco rigoroso, já que não se percebe bem quais as reservas petrolíferas que está considerar e provavelmente não incorpora os avanços tecnológicos que serão induzidos pelo aumento do preço do petróleo.
Mas mais grave que isso é pensar-se que plantar moinhos pelas serranias do Oeste nos pode dar alguma vantagem competitiva nas energias renováveis - não dá. No caso específico do Oeste, que conheço bem, a vantagem competitiva é toda da Gamesa, uma empresa, se não estou em erro, espanhola, que domina a tecnologia dos aerogeradores. Nós, no Oeste, limitamo-nos a subsidiar com "impostos" o desenvovlimento tecnológico e a criação de vantagens competitivas em Espanha, numa medida de profundo alcance estratégico.
De
jcd a 7 de Agosto de 2009 às 14:28
Alguém ainda não percebeu que a procura é igual à oferta. O que ajusta é o preço. A linha de "demand" que subitamente descola da oferta, é uma invenção para justificar uma qualquer teoria.
JCD. E os efeitos desse ajuste de preco?
Para por em contexto, o teu comentario e tao util como dizer que numa sala hermeticamente fechada com uma quantidade fixa de oxigenio renovado por hora em que vamos adicionando roteiramente uma pessoa, o consumo de oxigenio nunca ultrapassara a capacidade de renovacao do oxigenio, o que ajusta e o numero de pessoas vivas dentro da sala.
De
jcd a 7 de Agosto de 2009 às 16:05
Exacto. Algumas pessoas abandonariam a sala por não estarem dispostas a "pagar o preço". O mesmo aconteceu quando a gasolina disparou em Junho de 2008. A Brisa perdeu 15% dos seus commuters nesses dias.
Não percebo é para que é que serve um gráfico que mostra a procura e a oferta a seguirem caminhos diferentes.
Pois... isso presume que:
- As pessoas podem sair da sala
- Podem sair instantaneamente
- Tem a capacidade de reconhecer o perigo antes de ser tarde de mais
- Nao tem um incentivo tao forte para estar na sala que leve a conflitos sobre quem deve ou nao sair, que podem, inclusivamente levar a mortes.
Ja agora o termo que procura e utentes. E ja que gosta tanto de estrangeirismos, um ditado em ingles:
"Never assume, it will make an ass of you and me."
Ou posto de outra forma:
O JCD e que se calhar nao percebeu que esse nao e o fulcro da discussao.
O que e compreensivel, so tem um desenho e nao e animado.
De
jcd a 7 de Agosto de 2009 às 16:06
Claro, falta a animação. Mas como é a cores, achei que valia a pena comentar.
Naturalmente, mas fica a licao para o futuro: talvez mais importante que reconhecer cores, feito muito meritorio para menores de 3 anos em abono da verdade, e perceber o cerne dos temas em discussao.
De nuvens de fumo a 7 de Agosto de 2009 às 15:31
Sim sim, aliás quando for zero a procura acaba , certo ? errado.
É que se há produto que apresenta um certa rigidez , há quem diga ser o petróleo. Lembro-me dessa ideia nas já há muito tempo tidas aulas de macro economia.

De
jcd a 7 de Agosto de 2009 às 16:08
Só poderá chegará a zero se os preços forem regulados para baixo dos valores de equilíbrio.
De nuvens de fumo a 7 de Agosto de 2009 às 16:18
?
sendo um bem finito, chega a zero quando acabar.
Ao ritmo actual de extracção não dura muito mais que uma centena de anos.
Qual a dúvida ? Aliás mesmo que o preçoa aumente, as lamas de petróleo existentes no canadá podem passar a ser lucrativas.
E necessitamos do Petróleo para algo muito mais importante que a energia: indústria química. Sem gasolina podemos viver, menos bem mas podemos, sem a indústria química seria divertido. 
"os países que mais investirem agora em fontes energéticas alternativas beneficiarão de uma vantagem estratégica no futuro próximo"
Depende de se ter investido na fonte energética alternativa correta ou errada, com a tecnologia correta ou a errada.
As fontes energéticas alternativas não são todas equivalentes, e as formas de captar essa energia não são todas igualmente eficientes e igualmente baratas.
Aqui como em todos os outros campos, um qualquer investimento nunca será automaticamente bom. Dará vantagem investir no certo, e desvantagem investir no errado.
OS dirigentes dos agrupamentos ecologistas deviam ser obrigados a divulgar a sua declaração de rendimentos, sobretudo quem é que paga as suas avenças de consultadoria.
Assim podiamos saber, quando um ecologista fala, onde acaba a ecologia e onde começa o trabalho de avençado para uma empresa de energías ditas renováveis.
Até ´lá estou como o Dr. Goebbels - "Quando ouço falar um ecologista, apetece-me sacar logo de uma metralhadora"
Tenho grande admiração pela Palmira F. Silva e subscrevo que as demandas energéticas deverão aumentar com os anos, sobretudo se não quisermos travar a evolução tecnológica e as pesquisas científicas. Mas a destruição imposta pelo Plano Nacional de Barragens que apesar de megalómano só aumenta em 3% a produção energética do País é simplesmente imoral.
Eu moro no vale do Tâmega que vai ser seriamente afectado por este logro, sobretudo feito nas costas das pessoas e a vender ilusões de emprego e desenvolvimento. É irritante e desesperante a arrogância do Estado e sobretudo da EDP e Iberdrola que foram dotadas de carta branca por este governo para expropriações rápidas e desumanas. Mais. Num debate in loco, a EDP externalizou para as câmaras, sem capacidade financeira, o problema da poluição da albufeira, que vai ser certo uma vez que o Rio Tâmega para além de poluído de espanha tem no seu vale características favoráveis para a eutrofização.
Sinceramente, por muitas visão que Sócrates têm a mais que Ferreira Leite, isto muito seguramente ninguém lhe vai perdoar por aqui. Eu pelo menos, não lho vou perdoar.
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