Quarta-feira, 16 de Setembro de 2009
O Nuno Ramos de Almeida ficou escandalizado por eu ter dito que a luta de classes e as nacionalizações não servem os interesses da esquerda. Não sei se o Nuno sabe, mas o conceito de luta de classes pressupõe a validade de um conjunto de conceitos e afirmações — relação de expropriação entre capital e trabalho, taxa decrescente do lucro, empobrecimento do proletariado, etc. — e culmina necessariamente na revolução e na abolição da propriedade privada, isto é, pressupõe que o materialismo dialéctico, apesar da história dos últimos 150 anos, continua de boa saúde. Está enganado, e os autores que o Nuno tanto admira — Zizek, Badiou, Ranciere — explicam porquê. Por alguma razão, num certo momento da história tornou-se necessário complementar Marx com Freud e Lacan,. Por alguma razão, autores como Derrida e Foucault viraram-se para filósofos como Nietzsche e Heidegger. A razão é simples: as coordenadas revolucionárias definidas por Marx perderam actualidade. A partir do momento em que "a superação do capitalismo" deixa de fazer sentido — eu acho que deixou, o Nuno parece que não — o conceito de luta de classes tem de ser revisto, senão mesmo abandonado.
A esquerda com a qual me identifico acha que uma economia de mercado — se devidamente regulada, com uma forte progressividade fiscal e investimento em serviços públicos de qualidade — permite responder a grande parte das aspirações da esquerda. O Nuno acha que eu endoideci. No fundo, o Nuno ficou escandalizado por alguém se dizer de esquerda não rever naquilo que o Nuno entende dever ser a Esquerda — ontem, hoje, amanhã, sempre. Não me surpreende. Há quem não aprenda. Há quem se recuse terminantemente a não aprender. Em nome do ideal, dizem-nos. Se o Nuno fosse verdadeiramente Marxista, perceberia facilmente que qualquer filosofia da história não pode olhar ignorar o século XX. Um Marxista, hoje, tem a obrigação de conferir um sentido à experiência do socialismo real e perceber o que correu mal e porquê. O Nuno recusa este caminho, olha para a história de forma selectiva e só vislumbra o fim do neoliberalismo. E é por isso que ele se tornou num utópico, no sentido pejorativo que Marx deu a esse termo. Entretanto, entrega-se à actividade de desqualificar todos aqueles que se afastam da pureza do seu ideal. O Marxismo do Nuno é um Marxismo não dialectico, isto é, é um Marxismo idealista, religioso — um oximoro. A posição do Nuno já foi criticada pelo próprio Marx, num livrinho intitulado A Ideologia Alemã. A todos aqueles que se dizem de esquerda — da Esquerda a sério — recomendo a leitura deste clássico.
nota: tinha escrito Idealismo Alemão e não Ideologia Alemã. Fica a correcção.
"Não sei se o Nuno sabe, mas o conceito de luta de classes pressupõe a validade de um conjunto de conceitos e afirmações — relação de expropriação entre capital e trabalho, taxa decrescente do lucro, empobrecimento do proletariado, etc. — e culmina necessariamente na revolução e na abolição da propriedade privada, "
não vejo porquê - é perfeitamente possivel acreditar que as diferentes classes sociais têm interesses opostos (i.e., na "luta de classes") sem acreditar em nenhuma dessas coisas.
De Anónimo a 16 de Setembro de 2009 às 15:01
Camarada, não está a insinuar que os partidos da esquerda radical, revolucionários, estão ultrapassados, pois não? Não, não está a insinuar, está mesmo a dizer!
Incrível, que se vivam tempos de uma forte crise que se pensa resolver com "apenas" mais regulação. "Para a próxima".
Socializam-se os prejuízos das empresas e dos bancos, na Europa como nos EUA a conversa deixa de ser o mercado livre para ser o Estado a orientar e recuperar uma economia capitalista arrasada desde o fim da última onda do pós-guerra. Destrói-se riqueza real em instantes.
Trata de ler prestigiados autores, como Mandel ou até mesmo o nosso Louçã, que perceberão ligeiramente mais de economia do que tu. Para que não afirmes com toda a certeza que a razão está do teu lado.
De Nuno a 16 de Setembro de 2009 às 18:32
É isso mesmo camarada anónimo! Podiamos mesmo replicar as experiências bem sucedidas do leste europeu, autênticos casos de estrondoso sucesso! Não sei como é que ninguém pensou nisso!
De Anónimo a 17 de Setembro de 2009 às 15:08
É um argumento inválido. Não estamos a discutir se o socialismo funciona, estamos a provar que existem lutas de classe.
De amfcf@yahoo.co.uk a 16 de Setembro de 2009 às 15:17
Joãozão:
Quem acha que tu endoideceste fui eu, António Figueira - o Nuno limitou-se a achar risível a tua frase. Mas eu acho que a loucura não explica tudo, que a ignorância é mais forte que o resto: por exemplo: que sentido faz a referência ao materialismo dialéctico na sexta linha do teu post? Deixa-me que te diga: nenhum (e não contes comigo para sugestões de leitura sobre o assunto).
Sempre na boa, AF
De Jose Alves Antunes a 16 de Setembro de 2009 às 15:45
"mas o conceito de luta de classes pressupõe a validade de um conjunto de conceitos e afirmações — relação de expropriação entre capital e trabalho, taxa decrescente do lucro, empobrecimento do proletariado, etc."
Não, não pressupõe nada: segundo Marx havia luta de classes em Roma ou durante o feudalismo.
E eu nem sou marxista...
De toni a 16 de Setembro de 2009 às 15:47
E eu recomendo-te que tenhas juízo! Ou pelo menos vergonha! Dizes idiotices desse tamanho e ainda por cima orgulhas-te disso e pensas que és "intelectual". Espero que a "defunta" luta de classes te expluda na cara e que, acidentalmente, sejas o primeiro a levar porrada das "forças repressivas do Estado".
De
algarviu a 16 de Setembro de 2009 às 15:52
uma coisa é certa: o João Galamba não irá passar ao lado de uma grande carreira.
Grande post!
Eu não li nem preciso de ler muitos autores para saber que uma economia ou sociedade,
"devidamente regulada, com uma forte progressividade fiscal e investimento em serviços públicos de qualidade"
não é atingível sem, essencialmente, tirar a uns para dar a outros.
O conflito (de interesses) é inevitável. Não quer dizer que haja sangue ou violência, mas alguém tem que ceder poder. Os que têm aos que não têm. Pode não querer chamar-lhe luta de classes, e chamar-lhe debate, conversa, diálogo, troca de impressões, negociação de classes... fica tudo com um ar mais civilizado e século 21.
Mas depois, os que têm, ainda vão inventar que já não há luta de classes nem isso faz sentido... temos é todos que trabalhar muito para depois haver mais para todos. No futuro.
Depois. Sempre depois.
De toni a 16 de Setembro de 2009 às 17:46
tenham juízo
O livro chama-se «A ideologia alemã» (em alemão, «Die Deutsche Ideologie»).
É lamentável que opte por recomendar um livro cujo título desconhece e que, a julgar pelos seus comentários, também não lhe mereceu uma leitura muito demorada. De resto, só o primeiro capítulo está publicado em Portugal.
Caro João, respire fundo e deixe-se disso. Não tarda nada está a insultar alguém.
Os limites do pensamento de Marx são um horizonte demasiado ambicioso para um post de campanha. Há quem passe a vida inteira nisso sem chegar a conclusões tão definitivas como as suas. Convide a Carolina para um café e aproveite para falar-lhe dos «Fragmentos de um discurso amoroso». Vai ver que ela gostará.
Depois, passem as novas fronteiras a salto e sejam felizes. É o mínimo que podem fazer.
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