Quinta-feira, 17 de Setembro de 2009
João Galamba

Quando escrevi "relação de expropriação entre capital e trabalho" limitei-me a constatar algo óbvio: para Marx, o capitalista só pode acumular riqueza porque aqueles que trabalham para ele recebem menos do que aquilo que produzem. Ou seja, existe expropriação porque Marx entende que só o trabalho é produtivo, não o capital. O Nuno pode estar descansado que eu não pretendi introduzir um novo conceito, nem confundi relações de produção, forças de produção e relações de expropriação; limitei-me a dizer que a relação de produção entre trabalho e capital, no capitalismo, favorece o capital à custa do empobrecimento do trabalho. É tudo. Mas o capital não é apenas algo negativo, um mal. (Como estamos em campanha, espero que o Nuno me permita simplificar a coisa). O Capital, na sua relação com o trabalho, também é produtivo, pois permite, por exemplo, o desenvolvimento da consciência de classe, isto é, sem expropriação o proletariado não se reconheceria enquanto tal, nem poderia desempenhar o papel revolucionário que o Marxismo entende ser a sua vocação histórica.   Sem este "reconhecimento", sem uma experiência social que permita o desenvolvimento de uma consciência de classe, não seria possível desenvolver as condições que permitem a superação do capitalismo.

 

A crítica de Marx ao Capitalismo não é uma crítica abstracta, pois este não é rejeitado nem diabolizado; o capitalismo, apesar de todas suas contradições, é necessário, pois é ele que cria as condições para a sua própria superação: aquilo que constitui o sucesso do capitalismo é simultaneamente a causa da sua destruição. O Marxismo é uma escatologia revolucionária que depende de uma circularidade histórica que só pode ser entendida à luz da filosofia dialéctica Hegeliana: alienação fundadora e regresso dessa mesma alienação, através de uma apropriação histórica de uma essência alienada. Para Marx o Capitalismo não é errado, é o erro através do qual a verdade histórica do comunismo pode aparecer — primeiro para Marx, o teórico, depois para o proletariado. Não há luz (comunismo) sem trevas (a história da alienação anterior ao comunismo).

 

Escrevi que "o conceito de luta de classes pressupõe a validade de um conjunto de conceitos e afirmações — relação de expropriação  entre capital e trabalho, taxa decrescente do lucro, empobrecimento do proletariado, etc. — e culmina necessariamente na revolução e na abolição da propriedade privada, isto é, pressupõe que o materialismo dialéctico". O Nuno diz que esta passagem não faz sentido. Vou reformular. Todos os conceitos Marxistas — Capitalismo, alienação, relações de produção, forças de produção, capital, trabalho, emancipação, capitalismo, etc — só fazem sentido na constelação de significados avançados por Marx, isto é, os conceitos Marxistas são interdependentes e não existem independentemente da filosofia de Marx. O Marxismo, e os seus conceitos, constituem uma totalidade que pressupõe uma certa filosofia da história — o trabalho, o capital, etc não são realidades em si, a sua verdade depende de toda a artilharia conceptual que Marx, inspirado, por exemplo, em autores como Hegel, articulou. 

 

O Nuno é profundamente anti-marxista porque tem uma leitura selectiva da história — só regista a falência do neoliberalismo e ignora que o socialismo real foi uma tragédia — e não percebe que não se pode manter o conceito de "luta de classes" sem evocar todos os outros. Se a interpretação Marxista da história já não é válida, os conceitos que Marx usou para interpretar a história têm de mudar, isto é, os conceitos são eles mesmos históricos, não são um método a priori, válido para todo o sempre. Dizer que existem classes não é o mesmo que olhar para o mundo e ver que há ricos e pobres, nem é o mesmo que constatar que há desigualdades inaceitáveis. Classe, no sentido Marxista do termo, não é um termo descritivo; é um conceito normativo que, mais uma vez, so faz sentido no contexto de toda a filosofia Marxista e, sobretudo, no contexto de uma interpretação revolucionária da história. Quando disse que a luta de classes não existe, limitei-me a dizer algo que pensava óbvio: qualquer Marxismo, hoje, tem de incorporar a experiência histórica do último século, isto é, tem de mostrar que aprendeu com os seus erros e, por isso, não se pode limitar a criticar o neoliberalismo. Apenas isto.

 


8 comentários:
De nuno a 17 de Setembro de 2009 às 15:48
sem entrar na discussão duas pequenas correcções.

Expropriação não é exploração. São coisas diferentes.

É "queda tendencial da taxa de lucro"... são identificadas contra-tendências...



De Julian a 17 de Setembro de 2009 às 16:27
Existem classes porque existem níveis diferentes de autoridade, existindo por isso conflitos. Na sociedade pós-capitalista o conflito relaciona-se mais com a questão da autoridade do que com a questão da propriedade- (são grupos sociais a substituírem as classes marxistas). Trata-se de grupos que formam associações coordenadas e que detêm diferentes níveis de poder nas organizações. Nas sociedades modernas a propriedade separa-se da gestão, a consequência deste facto reside nas novas relações de dominação, onde existe agora uma distribuição diferenciada de poder. É o acesso diferencial a posições de autoridade, isto é, ao poder e ao prestigio, que dá origem ao conflito de classes. Enquanto a autoridade estiver distribuída de forma desigual nas posições sociais, as classes sociais serão uma realidade, e os conflitos estarão sempre presentes.


De Zé Carioca a 17 de Setembro de 2009 às 16:50
Galamba,

Desculpa insistir, mas isto é mesmo importante dada a recomendação marxista de tributação fortemente progressiva (talvez mesmo progressivamente progressiva), que aparentemente tu subscreves. E nestas alturas de campanha deve-se esclarecer o eleitor.

A forte progressividade fiscal implica que o salário HORÁRIO após impostos de alguém que se esforça e trabalha muito é inferior ao salário HORÁRIO de alguém da mesma profissão, com as mesmas capacidades, mas indolente, que trabalha poucas horas e logo tem uma salário TOTAL menor.

Se me puderes esclarecer a lógica e sentido de justiça disto, agraceder-te-ia imenso. Mesmo.

(Se não sabes a resposta, não há problema. Basta escrever: "vou pensar nisso", e eu um dia destes volto à carga.)


De nuvens de fumo a 17 de Setembro de 2009 às 17:04
e o exemplo ????


De aorta a 17 de Setembro de 2009 às 18:17
onde isto já anda...
bom, é só para lembrar que, caso queiramos ser filosoficamente rigorosos, não se deve chamar marxismo ao pensamento de marx. pensamento "marxiano" é o mais correcto.

até porque, consta, que no leito de morte marx terá dito: "tudo o que eu sei é que não sou marxista". ele lá sabia.



De C. a 17 de Setembro de 2009 às 22:16
Podemos sempre discutir tudo o que quisermos, mas fará sentido mais de 100 anos depois, continuarmos a reformular conceitos? A História fala por si. Concentremo-nos no presente: a melhor arma que temos para acabar com as desigualdades é dar a todos a hipótese de adquirir conhecimentos. Isto é também para mim ser de esquerda. E a luta de classes, actualmente, é apenas uma produção desses nossos líderes e intelectuais, de origem burguesa, que estão sempre a falar do povo, mas (alguns) nem frequentaram a escola pública e não precisaram de bolsa para andar na faculdade. Por isso não sabem que é (foi) possível, apesar do nosso atraso, que numa geração pessoas com a 4ª classe, conseguissem que todos os seus filhos se licenciassem.
O que é hoje o proletariado?









Concentremo-nos no presente, meus senhores...


De aorta a 17 de Setembro de 2009 às 23:06
"mas fará sentido mais de 100 anos depois, continuarmos a reformular conceitos?"

os melhores conceitos que a humanidade produziu (incluindo a sua problematização) têm mais de 2500 anos. e hoje, a sua reformulação, é mais necessária do que nunca.

mas o galamba tem razão. do ponto de vista do pensamento de marx, não faz sentido falar em luta de classes se se abandonar a concepção materialista e dialéctica da realidade e da história. e classes aqui não são ricos e pobres. o conceito é um bocadinho mais complexo.

mas isto é filosofia, não se preocupe.

o importante é o que você diz: "que numa geração pessoas com a 4ª classe, conseguissem que todos os seus filhos se licenciassem."

é essa a virtude da democracia liberal.



De C. a 18 de Setembro de 2009 às 20:25
Aorta,
Concordo, a filosofia devia ser mais amada. Até já há quem defenda que consultemos filósofos, em vez de médicos.


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