Lembram-se de 2004? Durão Barroso decidiu abandonar as funções de primeiro-ministro, para as quais tinha sido eleito, e rumar a Bruxelas para assumir a presidência da Comissão para a qual acaba de ser reeleito, "apontando" Santana Lopes como seu herdeiro. Assolado pelo fervor patriótico do final do Euro 2004, Portugal fazia-se palco de um espectáculo político permanente: Manuela Ferreira Leite falava em "golpe de Estado", Cavaco (não me lembro se na mesma altura ou pouco depois) vituperava o substituto de Barroso com o epíteto de "má moeda", Pacheco Pereira fazia-se arauto indómito da resistência do povo livre e Santana tomava posse numa confusão de papéis, ministérios e secretarias de Estado, com Teresa Caeiro a chegar à cerimónia sem saber o que lhe caberia e Portas a receber de surpresa os Assuntos do Mar, que lhe valeriam, lá para Agosto, o confronto heróico com as mulheres das ondas.
Como muito boa gente, pasmei com a escolha de Barroso. Porquê Santana, se tinha Ferreira Leite? Como muito boa gente, fazia estas contas: Ferreira Leite era ministra das Finanças e número dois do governo; Ferreira Leite era (ou parecia) uma pessoa séria; Ferreira Leite era (ou parecia) da nobreza do PSD; Ferreira Leite era (ou parecia) uma pessoa competente; Ferreira Leite era (ou parecia) o contrário absoluto de Santana Lopes; Ferreira Leite era mulher (esta era a parte, confesso, de que gostava mais).Ferreira Leite era (ou parecia) a escolha óbvia.
O mistério prolongar-se-ia, pelo que me diz respeito, até 2009. Quando Ferreira Leite foi eleita presidente do PSD, a sua vitória sobre Santana, ainda que magra, surgiu como justiça poética. Isto, claro, foi até começar a ouvir Ferreira Leite. As primeiras entrevistas revelaram não só uma pessoa de discurso errático, impreciso, hesitante - o que não sendo uma qualidade nem desejável podia ser fruto de pouco treino mediático (ainda que justificação bizarra em alguém que anda na política e em cargos governativos desde os anos 80) - como com ideias absurdas e contraditórias,ou mesmo sem ideias nenhumas. Mas foi preciso chegarmos à recta final das legislativas para se perceber que nem na sua suposta área de especialização, a da economia e finanças, Ferreira Leite parece saber do que fala. Não se limitou a confundir a taxa máxima do IRS com a do IRC no debate com Jerónimo de Sousa; ontem de manhã na TSF mostrou não saber o que é um projecto PIN (Projecto de Interesse Nacional), ao responder a um ouvinte que "não pode ser o Governo a decidir que empresas salva". Ora até eu, que nãopercebo nem pretendo perceber de economia, sei que os projectos PIN não têm nada a ver com "salvar empresas". Um candidato a PM pode estar a favor ou contra a existência da classificação PIN e do que significa; não pode é nao fazer ideia do que é um PIN e, já agora, convém que não finja que sabe (parece que a isso se chama aldrabar, não?).
Percebo pois agora o dilema de Barroso. A própria MFL, afinal, também o percebe: no mesmo programa da TSF, disse que quando se candidatou à presidência do PSD nunca pensou que poderia vir a concorrer a primeira-ministra. Parece mentira, mas é verdade - verdadinha.
(publicado hoje no dn)
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
