Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Desde os primórdios da humanidade que o homem utiliza as plantas para fins terapêuticos. Muitos medicamentos utilizam princípios activos encontrados em plantas ou deles derivados, como o ácido acetilsalicílico - a aspirina que substituiu o tóxico ácido salícilico em que se transforma no organismo humano a salicilina da casca do salgueiro. Nos últimos tempos, os polifenóis, de que falei brevemente a propósito da «química da felicidade suprema» e do vinho,  têm merecido a atenção do público em geral devido à descoberta das suas propriedades anti-oxidantes - são sequestradores (scavengers) de radicais livres, o que inibe inúmeras doenças mediadas por estas espécias.

 

Alguns destes polifenóis naturais têm mesmo acção terapêutica reconhecida como os flavonóides silibinina, isosilibinina ou silicristina e silidianina do cardo mariano, que agem como estabilizadores das membranas dos hepatócitos, protegendo a célula hepática da influência nociva de substâncias tóxicas endógenas e/ou exógenas. A silimarina, o extracto do cardo que contém os três isómeros, é comercializada como Legalon sendo utilizada como coadjuvante no tratamento de doenças hepáticas crónicas, de lesões hepatotóxicas e ainda para tratar intoxicações pelo cogumelo Amanita phalloides.

 

Há certamente muitas plantas que contêm compostos com inúmeros efeitos benéficos e existirão certamente muitas mais cujo potencial terapêutico não foi ainda descoberto. Mas há igualmente muitas plantas que contam na sua composição compostos tóxicos ou muito tóxicos, incluindo plantas que durante milénios constaram das farmacopeias tradicionais. Por exemplo, e já que falei em cardos, o cardo do visco. Como todos os membros do género Atractylis - de que existe em Portugal também o cardo-coroado (Atractylis cancellata) - contém atractilosídeo e seus derivados que inibem a translocase de nucleotídeo de adenina, uma proteína mitocondrial envolvida na produção do «combustível» celular e são assim extraordinariamente hepatotóxicos. Não obstante a sua elevadissima toxicidade - e os casos fatais de envenenamento que infelizmente ocorrem com alguma frequência-, o cardo Atractylis gummifera continua a figurar em alguma farmacopeia popular como remédio para uma série de maleitas.

 

Tudo isto a propósito de um mail que circula desde o advento do alarmismo sobre a gripe A que reza que «O anis estrelado, amplamente cultivado na China, é o extracto-base (75%), da produção do comprimido Tamiflu, da Roche (empresa do antigo Secretário de Defesa dos EUA Donald Runsfield). Podemos usar o nosso anis mesmo - a erva-doce - pois esta erva possui as mesmas substâncias, ou seja, o mesmo princípio ativo do anis estrelado», continuando com uma exaltação das virtudes curativas da erva-doce, qual panaceia universal de acordo com o mail.

 

Na realidade, o anis estrelado e o «nosso anis mesmo» são plantas completamente diferentes que apresentam apenas em comum o facto de conterem grandes quantidades de anetol, o monoterpeno fenólico que lhes confere as características organolépticas distintivas. Na realidade também, há duas espécies de anis estrelado, o chinês e o japonês, e se o primeiro pode ser utilizado sem problemas o segundo é extraordinariamente tóxico, ou antes, alguns dos compostos naturais que contém, como o anisatin,  são mortais se consumidos em doses não muito elevadas.

 

O fundo de verdade nesta lenda urbana é o facto de o ácido chiquímico, um polifenol abundante no anis estrelado e ausente na erva-doce, ser um precursor do Tamiflu, ou seja, é necessária uma série complexa de passos reaccionais para transformar este polifenol em oseltamivir. Curiosamente, o composto que de facto ambos os anises apresentam em comum, o anetol, também pode ser precursor de outro composto muito conhecido, infelizmente por outras razões: a  para-metoxi-anfetamina (PMA), uma droga da família a que pertence o Ecstasy. Dizer que um cházinho de erva-doce previne ou «cura» a gripe A é assim  completamente idiota e quem receber o referido mail ou suas variantes, por favor, não transmita aos mais incautos desinformação que pode ter consequências graves
13 comentários:
De nuvens de fumo a 7 de Outubro de 2009 às 10:58
O MDMA (Ecstasy) é uma substância classificada recentemente pela lancet como sendo de baixa toxicidade e muito dada a mitologia urbana . ( de uma lista de 20 substâncias aparece em 18º lugar)
Fica a lista da pior para as menos más:

1. Heroin
2. Cocaine
3. Barbiturates
4. Street methadone
5. Alcohol
6. Ketamine
7. Benzodiazepines
8. Amphetamine
9. Tobacco
10. Buprenorphine
11. Cannabis
12. Solvents
13. 4-MTA
14. LSD
15. Methylphenidate
16. Anabolic steroids
17. GHB
--> 18. Ecstasy < --
19. Alkyl nitrates
20. Khat



De Inês Meneses a 7 de Outubro de 2009 às 12:35
Desculpa, esta lista é suposto classificar as substâncias segundo que critério? Fico na dúvida.


De nuvens de fumo a 7 de Outubro de 2009 às 12:46
"...the physical harm to the user, the drug's potential for addiction and the impact on society of drug use. "

Eu por acaso vi a entrevista aos cientistas que realizaram o estudo ,muito interessante mas não sei onde encontrar uma cópia

deixo alguns links
http://www.msnbc.msn.com/id/17760130/
http://news.bbc.co.uk/2/hi/6474053.stm


Interessante pois coloca em causa muito preconceito que por aí há e muito facilitismo principalmente com a coca.

Resumindo, tabaco e alcool são drogas pesadas, quem diria




De Damião Fernandes a 7 de Outubro de 2009 às 21:32
O artigo está disponível online, é só ir a www.lancet.com , registar-se e procurar a referência: Development of a rational scale to assess the harm of drugs of potential misuse. Prof David Nutt FMedSci a , Leslie A King PhD b, William Saulsbury MA c, Prof Colin Blakemore FRS ".
Já agora, ia comentar o facto de ter "treslido" o artigo mas depois percebi que só tinha visto as notícias referentes ao mesmo.
A lista que apresentou está correcta mas as conclusões que tira não (p. ex."tabaco e álcool como drogas pesadas"). Por outro lado, o artigo foi bastante criticado, sobretudo pela colocação do esctasy nos últimos lugares, sendo a maior parte das críticas bastante consistentes (sorry guys ).


De nuvens de fumo a 8 de Outubro de 2009 às 08:48
Não concordo, e o álcool é sem dúvida uma droga dura, tanto que a recuperação de alcoólicos é um desastre assim como o número de mortes por cirrose e doenças relacionadas é elevadíssimo.
Conheço pessoas que tratam toxicodependentes E alcoolicos porque a adição é do mesmo tipo e gravidade.

O caso do tabaco será melhor nem falar, a nicotina afecta profundamente o funcionamento cerebral, e basta ver o ar esgazeado do pessoal à porta do meu trabalho, onde eu tenho de levar logo de manhã com os agarradinhos de serviço a fumar o ar à minha volta e o meu perfume para se perceber que estamos perante uma droga com todas as características de dura:

1) muito viciante ,
2) vai-se necessitando de mais quantidade. A sorte ou azar é que os pulmões pelo caminho vão ficando obstruídos pelo que o aumento de do que se fuma não é proporcional ao aumento da nicotina circulante, mas de qualquer forma o pessoal começa por um cigarrito e acaba no maço.
A desculpa é como em todo o viciado, são os nervos, o stress, éo jantar é isto, é aquilo --> agarradinhos que ficam, o resto é treta justificativa
3) é devastadora para o organismo


O ecstasy só se usa para festas e para dançar, não se toma para mais nada porque não tem sentido, não vicia (pessoas normais mas as outras hão-de arranjar sempre o seu veneno) porque se toma para sociabilizar não sendo uma droga solitária não tem tantos riscos associados, não provoca danos profundos em doses normais e sobretudo não chateia quem está ao lado.

Ao ser uma droga que provoca profunda sensação de bem estar e de empatia tem baixíssimos ´´indices de agressividade, e tirando como disse o preconceito relacionado com psicotrópicos , não vejo nenhum bom motivo para que não seja aberta uma discussão sobre o tema.

As drogas sintéticas tem demonstrado potencialidades de estudo em psiquiatria, o facto de serem proibidas dificulta os estudos.

Mas quem decretou que a luta contra a droga tem sido um fracasso e que os métodos tem de ser revistos não fui eu. O resultado está à vista de quem saia à rua e ande por essa cidade à noite.

A continuar assim , a tentar combater um mal com preconceitos só ganham os mesmo de sempre.

enfim, é triste e parece a mesma lógica da guerra do Afganistão, combater guerrilha com força directa

Curiosamente a produção de papoilas aumentou e continua a inundar os mercados.

Para mim é claríssimo o caminho, mas teremos de esperar muito tempo até se aceitar o inevitável


De jpt a 7 de Outubro de 2009 às 11:38
Palmira:

O ecstazy não é a para-metoxy anfetamina, é o MetilidenoDioxo-N-MetilAnfetamina. Há vários precursores naturais do MDMA (ecstazy), como o isosafrole, mas o anetole não o é. A PMA é uma droga da classe das anfetaminas, que inclui, por exemplo, a mescalina.


De Palmira F. Silva a 7 de Outubro de 2009 às 14:36
Tens razão, claro, vou emendar...


De fernando f a 7 de Outubro de 2009 às 12:30
Post oportuno, elucidativo e presumo que tecnicamente perfeito, e este presumo deve-se á minha "Laicidade".


De stiletto a 7 de Outubro de 2009 às 14:18
É por situações dessas que, de cada vez algum utente me fala de algo que leu na Internet (sou farmacêutica), fico logo com os cabelos em pé. A Internet é um instrumento e uma fonte de informação importante e poderoso no entanto é preciso analisar com algum cuidado aquilo que se lê já que ninguém avalia a veracidade dessas ideias que vão circulando pela rede. Fico muito preocupada porque, muitas vezes, as pessoas parecem mais dispostas a acreditar naquilo que aparece na internet (escrito sabe-se lá por quem) do que na palavra de um profissional que estudou e continua a estudar para se manter actualizado e poder prestar as melhores e mais esclarecidas informações. Posto isto gostei muito do seu texto sobre este assunto tão actual.


De nuvens de fumo a 7 de Outubro de 2009 às 14:45
Espero que não se refira a ao estudo que aludi que foi publicadona Lancet , pareceu-me um trabalho honesto ,e é mesmo pelo menos confirma-se com vários trabalhos que foram sendo publicados ao longo dos anos sobre a matéria.
Como tenho acompanhado com interesse sei o que tem sido publicado e por isso este estudo foi um pouco mais do mesmo.
O que se passa é haver por aí muito preconceito, aceita-se a buba de fim de semana, mas basta haver a referência a droga que parece que se está a falar do MAL.
Já era tempo de haver uma certa capacidade de lidar com um problema milenar, digo eu



De fernando antolin a 7 de Outubro de 2009 às 15:08
Estou na dúvida: um queijito curado com cardo e um anís del Mono,seco,pode ser ?? :-))


De PDuarte a 7 de Outubro de 2009 às 19:38
um post daqueles que me faz ser seu fã.
só falta mesmo escrever-me sobre o chá Borututu, pois desde que o tomei nunca mais fiquei bom do estômago.


De Damião Fernandes a 7 de Outubro de 2009 às 20:34
Os cogumelos hepatotóxicos não se limitam aos do género Amanita , embora estes sejam de longe os mais frequentemente implicados.
A hepatotoxicidade é conferida por uma amatoxina partilhada por cerca de 35 espécies de cogumelos pertencentes a três géneros: Amanita , Galerina e Lepiota .
Quanto à silmarina (legalon), apesar da existência de inúmeros estudos experimentais (em culturas de células, ratos etc..) reveladores de uma aparente eficácia (nem todos) e de alguns estudos clínicos (quase sempre retrospectivos ou não aleatorizados ) favoráveis, permanece não comprovado (em definitivo) o seu benefício nas doenças hepáticas crónicas ou agudas (incluindo em situações de hepatotoxicidade).Contudo, o legalon é considerado um fármaco seguro praticamente sem efeitos adversos) e perante situações dramáticas como são as intoxicações por cogumelos produtores de amatoxina é geralmente usado quase em desespero de causa.
Quanto ao olsetamivir (Tamiflu) os estudos
existentes também são reveladores de algo que parece passar despercebido: a sua eficácia no tratamento da gripe (mesmo admitindo que o vírus é sensível ao fármaco) é muito reduzida, em média, os doentes tratados têm menos um dia de febre (e outros sintomas) quando comparados com doentes não tratados. Na profilaxia de contactos então nem se fala, pois é um assunto quase não estudado. Contudo, à falta de melhor...embora suspeite que quem fique a ganhar seja a Roche .


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Maio 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9

19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30
31


artigos recentes

O que parece é?

têm medo de quê?

pobreza estrutural

Bons exemplos.

Era da era das discotecas...

dia c

10- Ryuichi Sakamoto

Também com prata da casa

É amanhã

(contorne a crise) | Vá à...

Como eu deixei de me preo...

Liliana Porter @Lisboa

9- António Pinho Vargas

MESA REDONDA | JOSEF ALBE...

"Auschwitz? Que se passou...

últimos comentários
claro que é
Lindissimo!
Caríssima, Espero que tenha ficado elucidada acer...
Na necessidade de estarem operacionais/preparados ...
Mraravilhoso. Venham mais 10 : ansiosamente espera...
sim, pedro, é.
Igualdade, liberdade e fraternidade. Hm...
Já agora, curiosamente, hoje é o Dia Internacional...
welcome, you are.
As intenções parecem-me boas e genuínas. A carênci...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds