Sábado, 17 de Outubro de 2009

Participei, na semana que agora termina, num colóquio internacional que se realizou em Lisboa, subordinado cá às temáticas mais ou menos esquisitas a que dedico uma boa parte do meu tempo. Durante três dias, a minha rotina diária foi um pouco diferente da habitual, perdido no meio de especialistas e investigadores, uns séniores, outros mais jovens do que eu, todos numa espécie de comunhão de interesses, ideias e projectos de investigação. Para uns, são ocasiões para troca de infomações, novidades e mexericos, para outros, lugares para reencontrar gente e conhecer pessoas pela primeira vez, e para outros ainda, tijolos do curriculum vitae ou oportunidades para actualização de conhecimentos. 

Para mim, são sobretudo momentos de normalidade. Dias fugazes em que deixo de ser uma encarnação de Valentine Michael Smith e me misturo com os meus pares lunáticos que estudam e debatem temas mais ou menos bizarros, que pouco ou nada têm a ver com a crise global, a gripe A, os resultados eleitorais ou o playoff da selecção. No fundo, é um exercício de psicanálise, uma espécie de terapia, onde cada um de nós reencontra os seus semelhantes e procede a uma espécie de expiação partilhada do que faz. Um dia daremos um passo em frente e criaremos um Investigadores Anónimos ou uma Associação de Apoio ao Historiador e faremos campanhas na televisão com figuras públicas e outros famosos.

Sim, porque História sempre foi uma coisa especial. Escrevi há tempos, por aqui, que "é a puta mais deslavada e maltratada de que há memória, de quem toda a gente se serve e que ninguém respeita ". É que nem é ciência, nem letras, nem artes. Um cientista é um cientista, lida com avanços do conhecimento humano, viagens a Marte, curas para o cancro, nanotecnologia e coisas afins, tem uma linguagem superior, um vocabulário esotérico. Um homem de ciência, caramba. Um letrado, bom, um escritor, merece respeito, senão ninguém escreveria romances e basta ir a uma livraria e ver os escaparates cheios de gente que escreve memórias, mexericos, romances históricos, enfim, uma panóplia de pãezinhos quentes. Um artista é um artista, está acima dos mortais que teimam em ver rabiscos ou monos ou coisas esquisitas onde estão linhas, cores, traços, visões, volumes, plasticidades, conceitos, emoções e essências humanas.

Até os especialistas em protozoários ou em processos de nidificação da águia careca americana merecem alguma respeitabilidade, porque a ecologia está na ordem do dia à conta do aquecimento global. E mesmo cá para bandas menos remotas, não vamos brincar, há sociólogos, antropólogos, demógrafos. E a grande moda, top of the pops, os "politólogos", ui. "Paulo Pinto, politólogo", seria o meu sonho de cartão de visita, e depois ir à televisão falar com ar de autoridade, conhecimento e infalibilidade quási-pontifícias, sobre eleições, políticos, ministros, partidos, como se de um Zandinga se tratasse, a interpretar, descodificar e dizer ao povo o que é, o que significa e o que se deve achar. Sim, porque o país está em crise, desemprego, índices e taxas, expectativas e angústias, medos e esperanças. E todos os dias os áugures do nóvel economisticismo lêem as entranhas dos patos sagrados do templo e vaticinam isto e aquilo. Às vezes enganam-se, como o César das Neves ao dizer, há bem pouco, e com aquele ar sapiente, desdenhoso e divinamente iluminado, que isto era apenas uma crise financeira que nunca chegaria à economia real. Mas enfim, é como os astrólogos, quando acertam a gente pasma, quando se espalham ao comprido dizemos que errar é humano.

E quando não há crise, há futebol, há entretenimento televisivo, há tricas e mexericos, há o bruxo do Ronaldo, há o Natal quase a chegar, há muita coisa para a gente se entreter. Agora História? Isso é coisa vetusta do passado, senhores, e a gente está preocupada é com o futuro. A menos que seja um passado recente, aí já é outra coisa, tanto mais que Portugal, toda a gente sabe, é uma alface e não uma palmeira, tem raízes fininhas, pelo que ir ao 25 de Abril ou, máximo dos máximos, à 1ª República, chega e sobra.

"Paulo Pinto, historiador"? Que pretensioso, quem é que este gajo julga que é, sem gravata nem nada, devem estar a gozar comigo. E junto de familiares e amigos, uma espécie de ave rara, um gajo que sabe coisas estranhas e inúteis a quem se pergunta datas e nomes para tirar teimas porque dá menos trabalho do que ir à procura no Google. Há sempre aqueles momentos especiais. Quando uma notícia nos escaparates internacionais faz toda a gente ir vasculhar as enciclopédias ou os motores de busca ou quando, por cá, alguém faz show com filmes sobre o Colombo português ou concursos sobre os grandes portugueses. Nessas ocasiões, enfiam um historiador na jaulinha e libertam-no durante 60 segundos num estúdio para explicar rapidamente os motivos profundos da coisa, de preferência sem entrar em pormenores.

E nesses momentos, as pessoas que nos olham de soslaio por, enfim, não produzirmos nada de útil, não termos horários nine-to-five e, muitas vezes, ficarmos em casa, oh cambada de madraços, e até sorriem e nos perguntam umas coisas, e fazem-nos umas festinhas ao ego para a gente ronronar.

Pois eu digo que cá preparo uma confraria esotérica onde enferrujamos, lenta mas eficazmente, os garfos de três dentes onde lhes iremos um dia arrancar os olhos a todos. No dia em que um Hari Seldon emergirá e levantará hoje de novo, o esplendor da História ou, tão-somente, dará utilidade prática à coisa, entre passado e futuro, no mistério insondável que é o tempo.

 

P.S. - Hoje é o dia do primeiro aniversário do Jugular. Estamos todos de parabéns por um ano de interessante interactividade. É, também, o meu último post durante os próximos meses. Caso os augúrios se confirmem, regressarei. Mas o futuro não me pertence a mim, mas sim a quem a gente sabe.


3 comentários:
De jj.amarante a 17 de Outubro de 2009 às 21:57
Em compensação pode ter uma actividade para uma vida inteira a reinterpretar o que se passou. A intersecção entre o trabalho profissional e o interesse público tem uma área muito pequena, a não ser que se seja político. E olhe que os psicohistoriadores da segunda fundação tentavam manter sempre um low-profile . Acho que, sob esse aspecto, nem o Hari Seldon lhe valia. ou então, se calhar estou a falar com um, que tenta manter secreta a sua verdadeira actividade...


De Nuno Resende a 17 de Outubro de 2009 às 22:09
Excelente post. Concordo, mas devo acrescentar que a culpa maior é dos historiadores. Porque é que toda a gente acha que um historiador é um senhor de idade a contar estorietas em frente a estátuas e palácios, com os braços esticados como se estivesse a fazer aeróbica em câmara lenta? Porque os historiadores não se dão ao respeito. Têm medo de dizer: sou historiador! Aliás, todos são historiadores (médicos, engenheiros, iliteratos, etc), menos os historiadores - estes são, na generalidade, professores ou têm outra profissão (paralela ou distinta da formação académica). E muito embora a profissão esteja devidamente registada, os académicos que investigam e publicam acabam por ser ultrapassados pelos memorialistas locais, monógrafos que enchem as estantes das bibliotecas locais e nacionais com lixo. Se falta algo? Falta; duas coisas, pelo menos: brio e certificação de qualidade. A primeira só se consegue com boa historiografia, consciente do seu papel cívico, a segunda, com uma boa organização, não digo corporativa, mas talvez profissional. Isto porque a Academia Portuguesa de História, a cuja instituição competia a regulação de alguns destes aspectos é apenas um adereço decorativo e político que parece premiar os amigos do regime/governo.


De carlosfreitas a 18 de Outubro de 2009 às 20:25
Sou Historiador. Este seu texto é um dos muitos desabafos que nós, historiadores, vamos publicando na blogoesfera e em outros locais. Compete continuar a trabalhar e porfiar. mas uma boa parte da desqualificação actual da disciplina também começa no contexto dos programas e modelos escolares. Facto que, junto das novas gerações, torna a História algo de boçal e até, porque não dize-lo, uma disciplina ridícula. Até porque sendo já possível traçar historicamente (com cronologia e tudo) avanços e recuos de modelos e de opções do ensino em Portugal ao longo do século XX é uma conclusão fácil de ser retirada desse contexto. Quanto à referência no comentário anterior sobre a Academia Portuguesa de História recordo-me vagamente que as suas funções como instituição nunca fora mais que aquelas que Nuno Resende descreve. Por aí não vale a pena seguir. A sugestão de uma confraria esotérica, apenas, e só, se o uso de avental não for obrigatório. Eu apenas desejaria puder continuar a investigar. Se tal for possível.


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