No meio de toda a indignação que as palavras de Saramago causaram - e muito justamente, embora alguns insistam em confundir alhos com bugalhos -, resolvi ir ler o livro. Em nada movido pela polémica - apenas fiz o que faço com todos os livros escritos por Saramago: leio-os.
Então não é que o livro é bem capaz de ser a pior coisinha que Saramago algum dia escreveu? Espécie de tentativa débil e gorada de reductio ad absurdum, cheia de dichotes a armar ao engraçado, dei por mim num livro que se consubstancia numa espécie de paródia mal parida àquela parte do antigo testamento. Não vou, como é óbvio, entrar em pormenores, mas não deixarei de referir que me chocou a forma como, partindo de uma interpretação literal do antigo testamento - propositada é certo -, Saramago tentou o humor fácil, quase brejeiro, aquele tipo de coisa insossa que não se espera do autor do Memorial do Convento.
É o que me parece. Posso, concedo, ter lido tudo mal, ter entendido tudo ao contrário. Nada como comprar e ler.
Uma última referência ao facto de que jamais moldaria assim esta crítica (mesmo porque se há coisa que não almejo, nem tenho competência para tal, é ser critico literário), caso não tivesse Saramago como um dos nossos maiores. É, portanto, com o todo o devido e merecido respeito.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 11:59
o rogério faz (má) critica literária para fazer crítica à crítica religiosa do saramago.
o raciocínio é mais ou menos assim: o livro não vale nada, logo as críticas de saramago são infundadas e a bíblia deve ser ensinada às criancinhas.
que coisa mais fratricida.
Exacto, aorta. Você topou-me bem.
Mais uma coisa: você consegue criticar o que eu digo sem ao menos ler o livro, o que é bem revelador da forma como está em jogo.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 12:25
mas o que está em causa não é o livro dosaramago. o que está em causa é a afirmação que "a Bíblia é um manual de maus costumes".
ora diga-me lá, porque é que eu preciso de ler o livro para concordar com ele.
o livro que eu precisava de ler, a bíblia, já o li e até já o estudei. e posso dizer-lhe que o saramago tem razão.
o antigo testamento é tão mau, tão mau, mas tão mau, que foi preciso escrever um novo.
quanto à sua estratégia, você está apenas a tentar desviar o assunto para outro lado e a tentar que as pessoas digam mal do livro do saramago, como ele diz da bíblia.
o que você não percebe é que o livro de saramago será sempre do saramago. ao contrário da bíblia que é o livro de um ser que não existe nem nunca existiu.
resumindo, tudo aquilo que está na bíblia é bullshit comparado com qualquer manual de ética.
O que está em causa é o livro do Saramago. Neste post é isso que esta em causa, ora essa.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 12:29
arranje uma estratégia melhor. você é capaz.
Ouça, em termos religiosos, devo tanto à Bíblia como ela me deve a mim. Zero. Com excepção de umas secas bem apanhadas nalgumas missas às quais ia forçado.
Veja se atira os seus preconceitos para um lado e consegue ver que o que eu tinha a dizer sobre as declarações de Saramago já o disse noutro post. Este post é sobre o livro. Abri-o com expectativa, saíram-me goradas. Aqui fica o registo.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 12:49
"Ouça, em termos religiosos, devo tanto à Bíblia como ela me deve a mim. Zero. Com excepção de umas secas bem apanhadas nalgumas missas às quais ia forçado."
então qual é o seu problema relativamente às criticas do saramago?
você parece o freitas do amaral quando criticou os cartonistas dinamarqueses por caricaturarem o profeta. a ele só lhe faltou dizer, e seguindo a sua estratégia, que as ilustrações eram muito más e que o profeta estava mal desenhado. pfff...
continue a tentar, rogério, continue a tentar...
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 12:50
só mais uma coisa. como crítico literário (e com todo o respeito e a devida vénia) você é uma merda.
Não pretendo fazer carreira disso.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 12:55
deus existe! :-)))
De aires bustorff a 21 de Outubro de 2009 às 12:45
Muito bem Aorta!
parabens por este e outros comentarios que tenho lido por aqui
abraço e obrigado!
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 16:06
não tem nada que agradecer. sempre que estiver em causa a liberdade de criticar qualquer tipo de poder (político, religioso ou de outra natureza qualquer) pode contar comigo.
cumprimentos ateístas.
De aires bustorff a 21 de Outubro de 2009 às 16:48
espantosa sua resposta simples e directa!!!
são estes pedaços de solidariedade em coisas concretas que me emocinam nestas leituras
abraço
De S a 21 de Outubro de 2009 às 12:51
Ó aorta, o livro pode ser uma merda. Já o leu? As possíveis más críticas não são necessariamente ataques anti-saramago.
Ele não precisa, para ele a conversa sempre será outra.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 12:56
eu até respondia ao S, mas não estou aqui para as curvas.
De Álvaro a 21 de Outubro de 2009 às 21:07
Fugir é sempre mais fácil. Eu dei cabo de 17 euros. Vai para uns bons anos que acho o senhor saramago uum dactilografo, mas fui suficientemente masoquista para lhe dar o beneficio da dúvida. Chegado ao 3 capítulo, vi que os 17 euros foram um enorme desperdício.
De Ana Afonseca a 11 de Agosto de 2010 às 14:59
Saramago é um genio. E o Caim foi mais um fantastico livro que ele nos deu o prazer de ler.
De nuvens de fumo a 21 de Outubro de 2009 às 12:17
interpretação literal do antigo testamento </b>
E há outra ? E se há quem nos interpreta aquela quantidade de imbecilidades ?
Com que critérios ? E se assim é não teria mais sentido ume entidade divina ter escrito algo mais fácil de ler ?
O Génesis é um cortejo de disparates, não merece sequer um livro 
De A. Dias a 21 de Outubro de 2009 às 12:31
Mas o que é que deu, de repente, a toda a gente?
De repente, está tudo muito tolerante, muito contra o Saramago, muito incomodado porque, afinal, a biblia é só um texto que não deve ser tomado à letra e, afinal, dizer que a biblia é um repositório de obscenidade, ódios e intolerância é incrível, afinal, o que o Saramago quer é fazer publicidade ao livro.
Mas não é verdade tudo o que Saramago diz da coisa? Não é o deus do Livro uma entidade grotesca, vingativa, cruel, racista e injusta?
Não são as igrejas e religiões que nele se fundam o maior fautor de guerras, de misérias, de intolerância e de crimes que a História conhece?
Poupem-me.
Ainda não li a Caim; não sei mesmo se o vou fazer uma vez que o autor não me entusiasma nem me é simpático. Mas, por favor, caiam na real, como diria a Maitê.
De Álvaro a 21 de Outubro de 2009 às 21:10
Escolher a Maitê como exemplo é logo um mau inicio.
A mim não incomoda minimamente que o saramago diga mal, o que incomoda é o facto de querer passar por um tipo sabedor, esclarecido e bom escritor. Mais por passar a imagem de que não teme nada nem ninguém. Que tem princípios.
Para barbaridades e atropelos já nos basta o governo
De sxzoeyjbrhg a 21 de Outubro de 2009 às 12:34
Em resposta à acusação de D. Manuel Clemente sobre a sua "ingenuidade confrangedora" sobre a Bíblia respondeu: "Abençoada ingenuidade que me permitiu ler o que lá está e não qualquer operação de prestidigitação, dessas em que a exegese é pródiga, forçando as palavras a dizerem apenas o que interessa à Igreja. Leio e falo sobre o que leio. Para mistificações não contem comigo."
http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1395576&seccao=Livros#
De Álvaro a 21 de Outubro de 2009 às 21:24
Pretensão e água benta, neste caso deve ser choca, Saramago toma a que quer.
De fernando antolin a 21 de Outubro de 2009 às 12:55
Obrigado pela sua opinião,Rogério,poupa-me o trabalho de comprar ou "bibliotecar" o livro.Tomo a sua opinião por boa,não concordo é com o Saramago ser um dos nossos maiores,serão traumas do PREC,admito.E creia que me entristece ver uma pessoa que,já no ocaso da vida,parece definitivamente não se reconciliar com ela,há ali uma amargura e raiva para com algum passado que,definitivamente,nunca será resolvida.A passagem que Saramago dedica à sua terra natal no "Viagem a Portugal" é algo significativa. Não entendo a razão de tal polémica,sobre o livro, estamos a dramatizar uma situação que já teve antecedentes noutras obras do autor e que não me parece valer tanto.
Obrigado por aturar a minha opinião. Um abraço
De
via a 21 de Outubro de 2009 às 13:02
tentei ler três livros do Saramago, nenhum acabei. uma questão de gosto, só, reconheço muito valor ao uso que faz da língua portuguesa e esse testemunho é insubstituível.Caim aguçou-me terrivelmente a curiosidade, o tema e um certo escárnio pelo cristianismo talvez pudessem inventar uma outra religião, e era mesmo preciso. a esquerda não soube encontrar os absolutos orientadores que precisava. mas agora a sua crítica amoleceu-me.
De Zé da Burra o Alentejano a 21 de Outubro de 2009 às 15:21
Eu acredito em Copérnico, Galileu Galilei, Charles Darwin, Kepler, Einstein, Carl Sagan e, obviamente, em Saramago. Todos eles (e muitos outros) provaram como a Bíblia estava errada: É claro que o Universo e o Homem não foram feitos em 6 dias, a terra não é o centro do Universo e o Homem (e a mulher) não tiveram origem em Adão e Eva, isto só para começar uma qualquer abordagem. Depois, mais adiante, no livro mais lido do mundo, várias vezes se refere à mulher como sendo inferior ao homem (dada até a sua origem e razão porque foi criada). Mais adiante, também se dão conselhos de como tratar um escravo???
É claro que toda a gente com alguma formação científica (pouca) até sabe que a Bíblia está errada, mas daí a escrevê-lo e afrontar de uma vez só o livro que serve de referência a várias grandes religiões do mundo, é preciso ter coragem!
De Cristiano a 21 de Outubro de 2009 às 15:41
Coragem???
Com a moda que existe actualmente, dentro da suposta superioridade de esquerda e a sua insuportável tendência para o politicamente correcto, é preciso coragem para criticar um alvo tão fácil e óbvio como a Biblia???
O Saramago tem todo o direito de escrever um livro a criticar a Biblia, mesmo que eu não concorde com ele, não será, obviamente, devido a isso que ele deixará de ser um grande escritor.
Tenho a minha opinião sobre a Biblia e sobre as influências (boas e más) da religião católica na nossa sociedade, é com certeza algo que nos levaria a uma discussão mutissimo longa (e muito interessante). Só gostaria de referir o seguinte o valor que mais prezo, acima de qualquer um, é o da liberdade, nunca achei, nos dias de hoje, que a religião católica me diminuisse a minha liberdade, antes pelo contrário. Dicordo de muitas coisas que o Saramago disse, mas obviamente ele tem todo o direito de o dizer e tem um talento extraordinário para emitir a suas opiniões por escrito. Simplesmente não consigo, por muito que tente, ver nisso nenhum acto de coragem...
De Álvaro a 21 de Outubro de 2009 às 21:29
Não se trata de ter opinião, trata-se de ser tão primário como aquilo que critica.
Gosto pouco de gente que diz ser racional e prova o contrário.
Deve ser a proximidade da morte e não lidar bem com isso.
É triste.
De aires bustorff a 21 de Outubro de 2009 às 15:47
maravilha Zé da Burra...
abraço
De Pedro a 21 de Outubro de 2009 às 23:04
Mas alguém acredita que o Universo foi criado em 6 dias?! Eu sou católico e não acredito. O Antigo Testamento exprime o modo como os seus escritores viam os acontecimentos. Na altura não era raro considerar-se Deus ou outros deuses como seres vingativos, que intervinham para derrotar inimigos e punir os infiéis. Há que saber ler isso. E para isso há que saber História. Por isso Jesus veio trazer uma nova "lei" a quem a quiser escutar: acumulai tesouros que a traça não corroi; amai os vosso inimigos; não façais aos outros o que não quereis que vos façam a vós; etc, etc, etc.
Apenas me choca a falta de tolerância por vezes demonstrada de parte a parte, mais de uma das partes, infelizmente. A Inquisição foi algo abominável, mas hoje parece que a intolerância passou para o outro campo... Procura-se passar um atestado de estupidez a quem tem fé?! E o mundo não se fez em 6 dias.
o aorta leu alguma vez a Bíblia, de fio a pavio? duvida-se. o zé da burra já ouviu falar de metáforas, parábolas? mais se duvida. saramago é deus. ámen.
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 16:54
miguel marujo. o senhor, não o Senhor, deveria saber que há livros que não se lêem de fio a pavio.
pelo seu comentário percebe-se que você não é propriamente um leitor nem da bíblia nem de livro nenhum.
claro que não, aorta, peço desculpa... são todos burros, excepto sua excelência aórtica!
De Zé da Burra a 21 de Outubro de 2009 às 17:13
Já ouvi falar de metáforas, parábolas e até de LENDAS e FÁBULAS! Se a bíblia não é para ser lida à letra então que o declarem as religiões que a têm como fundamento sua fé e ficaremos todos mais de acordo.
Bom, a Bíblia é um livro dos cristãos - não das "religiões". O Antigo Testamento, de outro nome, é também o livro dos judeus. E o Zé da Burra não percebe que dizer "metáforas e parábolas" não é o mesmo que dizer que são mentiras. Aprenda português, depois podemos conversar.
De Zé da Burra O Alentejano a 22 de Outubro de 2009 às 15:30
Há muito que a religião religião cristã romana se dividiu noutras, como: ortodóxa (várias), anglicana, presbiteriana, evangélica, Adventista, Testemunhas de Jeová e muitas outras que agora não sou capaz de inumerar.
Mas é realmente verdade que só o Antigo Testamento é aceite pelos Judeus, porque aqueles não vêem Jesus como sendo Deus que veio à terra. O argumento é válido, pois se Jesus era realmente Deus, então porque é que na cruz terá pedido perdão para os seus carrascos, dizendo: "Pai perdoa-lhes porque não sabem o que fazem"?
De nuvens de fumo a 22 de Outubro de 2009 às 15:45
Ai onde se foi meter,
deus pai filho e espírito santo , são três em um , como alguns produtos de cosmética, shampo, amaciador e qualquer outra coisa como anti caspa. é o fantástico mistério da santíssima trindade que como não se pode compreender tem logo o título sugestivo de mistério.
Aliás a ICAR muito nos ajuda a perceber o que não devemos questionar,
omistério da cruz, da trindade , da óstia vulgo transubstanciação , etc
O filho e o pai são o mesmo, unidos pelo ES.
Por isso é alegórico o sentido do grito de JC na cruz, já na versão de M Python , quem aparece é uma esqudrão suicida, sem efeitos práticos, mas castiço.
Enfim, no fundo não é mesmo para perceber. Eu não percebo e considero-me razoavelmente inteligente
Que se considera razoavelmente inteligente, não tenho dúvidas.Mostra-o minuto a minuto. Que essa convicção seja compartilhada por outros humanos já é um poucochinho mais duvidoso. 
De nuvens de fumo a 21 de Outubro de 2009 às 17:20
E quem decide o que é literal e o que é parábola ?
a exegese, como em qualquer livro...
De ana a 21 de Outubro de 2009 às 17:18
Eu li partes do Velho Testamento na Faculdade. Para uma cadeira que se chamava História Pré Clássica. Era aquilo que se chama uma fonte para o conhecimento dos povos da antiguidade pré clássica. E pronto, sempre li mais uma ou outra passagem pelos motivos mais diversos. Umas são bonitas, outras são horríveis, mas ser escrito por inspiração divina, nunca achei. É demasiado humano, de uma forma muito "datada". Quanto à questão das metáforas, também não percebo porque cargas de água umas coisas são metáforas e outras não. E quem decide isso, e porquê. A bíblia é um livro, não como outro qualquer, porque tem um valor especial, assim como muitos outros têm um valor especial. Mas nunca um valor "sagrado".
De nuvens de fumo a 21 de Outubro de 2009 às 17:42
é sagrado , porque só pode ser percebido e entendido se explicado , revelado por quem sabe 
Aliás é a mesma treta com o corão, este só pode ser percebido no original, porque o sagrado não permite traduções.
E aprender árabe ? já tentou ? é um horror , não me admira nada que aquela gente seja ignorante por não saber ler e quando aprende não fica boa da cabeça 
De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 17:43
que azar o seu. eu tive mais sorte. estudei filosofia da religião com o professor manuel da costa freitas, um franciscano catedrático da católica (e agora jubilado), que deu aulas a convite na faculdade de letras.
dizia eu que tive sorte, porque com ele só estudamos os malditos: feuerbach, marx, nietzsche, freud, sartre... dizia ele que era necessário conhecermos o pensamento dos críticos para o podermos desmontar.
estava certo. e muito lhe agradeço ter-me poupado ao estudo dos santos e padres da igreja. teria sido enfadonho.
De mimi a 21 de Outubro de 2009 às 22:45
Eu tive muito mais azar, levei com a Patrística toda, leccionada por um ex-padre que posteriormente se casou. Teve que expiar o pecado da carne o resto da vida e os alunos é que pagaram a penitência.
A turma ao lado, que tinha como professor um padre, foi uma sortuda, aprendeu a ver a Idade Média com olhos muito mais argutos.
De Álvaro de Sousa Holstein a 21 de Outubro de 2009 às 21:03
Já vou no 3 capítulo e realmente o livro é de ir às lágrimas de tão pobre.
Interessante seria ele fazer um assim tendo o Corão como inspiração.
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