Quarta-feira, 21 de Outubro de 2009

Tenho-me divertido a apreciar a dualidade de critérios dos que denunciam estridente e histericamente as últimas «heresias» de Saramago. São especialmente divertidas as reacções de membros de um sector que tanto e tão alto se insurgiu com a suposta asfixia democrática que, segundo eles, «silenciou» um ror de pessoas. Esquecidos das ululações de há dias, agora querem calar Saramago ou pelo menos que este não «envergonhe» os portugueses - ou seja, que renuncie à nacionalidade.

 

Saramago não disse nada que aqueles que leêm o Antigo Testamento sem os óculos-cor-de-rosa da fé não pensem. Simplesmente não o debitam  para não enfurecer ainda mais os crentes que, num paradoxo que sempre me intrigou, normalmente têm uma pele muito fina no que respeita a supostos insultos - e alguém afirmar-se ateu é normalmente considerado um insulto inadmíssivel-  mas exibem uma casca bem grossa nos mimos que destinam aos não crentes.

 

Reportando-me aos últimos dias apenas, poderia, por exemplo,  falar dos ataques desferidos contra a página da associação ateísta australiana e da convenção global ateísta, à qual o governo australiano, tão pródigo no caso de iniciativas cristãs, não se dignou conceder qualquer apoio, embora os ateus constituam cerca de 30% da população deste país. Ou no divertimento que tem sido acompanhar o frenesim dos crentes no Twitter por o tema «No God»,  ironicamente lançado por um prelado que queria enfatizar a violência inerente aos incréus, se ter transformado num trending topic.

 

Mas gostaria de me focar em algo que preocupa todas as associações humanistas europeias, incluindo a lusa ARL, Associação República e Laicidade, e, por outros motivos, outros grupos de cidadãos europeus. Estou a falar do lobby que pretende ver Tony Blair como presidente do Conselho Europeu - depois de a República Checa cumprir a promessa e assinar o tratado de Lisboa.

 

Como refere a documentação reunida pelos humanistas europeus, Tony Blair tem deixado claro que considera as mundividências não religiosas como inferiores às religiosas.
O mês passado, afirmou que a ausência de religião até pode ser perigosa: «os assuntos humanos, e o processo humano de raciocínio, estão sempre limitados, a menos que sejam impregnados de fé. Por vezes até podem ser perigosos ».

 

Mais recentemente, num discurso na Universidade de Georgetown (Washington), comparou os que «desdenham de Deus» aos que «que fazem a violência em nome de Deus», e aludiu a um «agressivo ataque laico». Em Agosto, aludira igualmente ao «laicismo agressivo» num discurso em Itália, e frisara as palavras do Papa sobre um «humanismo esvaziado de fé» ser um «humanismo desumano».

 

Estou certa que os crentes vão ulular muito estridentemente a «intolerância» manifesta na posição das associações humanistas, assim como ulularam há 5 anos «perseguição» laica a Rocco Buttiglione. Por outras palavras, todo o mundo (crente) parece considerar normal que Blair pense e diga dos ateus o que Maomé não disse do toucinho e considera um ataque à religião que haja quem não o queira ver em posições em que possa actuar em conformidade. 

 

Por outro lado, embora algumas vozes ateias se tenham apressado a condenar Saramago - que não «insultou» pessoas mas... um livro!!! -, nunca, mas mesmo nunca, vi alguém das hostes crentes condenar as inúmeras e constantes depreciações agora não de livros mas de pessoas, os ateus, algumas bem piores que as do ilustre fundador da Tony Blair Faith Foundation que, em muitas das enormidades que debita, se limita a parafrasear o Papa. Aliás, seria fastidioso procurar nas nossas caixas de comentários exactamente o contrário, isto é, as centenas de rasgares de vestes e acusações sortidas que merecem aos crentes os posts em que se criticam os dislates da fé.

 

Parece assim que demasiados consideram que a liberdade de expressão e de crítica está reservada a uns eleitos, crentes obviamente, e que é um inadmíssivel abuso ateu os não crentes abrirem a boca para dizerem o que lhes passa pela cabeça. Mesmo quando os não crentes já atingiram uma idade em que se estão profundamente nas tintas para as reacções que sabem que o que lhes vai na cabeça irá provocar.

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35 comentários:
De José Viegas a 21 de Outubro de 2009 às 13:28
Concordo.


De pedro Só a 23 de Outubro de 2009 às 23:12
A Igreja, reagiu mal e em simultâneo reagiu bem! Há alguns pontos a favor da Igreja. De facto, casos de que eu tenha conhecimento directo a Bíblia nunca matou ninguém. Nós temos duas bíblias em casa e nunca tivemos problemas. No entanto pode haver algum perigo: As Bíblias mais perigosas, são as que têm cerca de 600 páginas e caracteres de maior dimensão. As bíblias impressas em caracteres miudinhos são mais leves e portanto menos perigosas. De uma forma geral, e apenas de uma forma empírica eu diria que uma Bíblia não é mais perigosa do que um dicionário com aproximadamente o mesmo volume.
Outra questão são os Donos da Bíblias. Esses sim podem ser verdadeiramente perigosos.
Os judeus foram os primeiros donos da Bíblia. Por causa disso passaram séculos a tirar os olhos e os dentes uns aos outros. (ainda passam o tempo nisso) Depois foi a Roma dos Cristãos que se apoderou da Bíblia. Roma tem sido dona da Bíblia desde há dois mil anos, e desde aí, além de tirar olhos e dentes passou também a queimar bruxas e outros que também queria ser donos da Bíblia e a passar a fio de espada (homens, mulheres crianças e cães) porque um senhor sem dúvida muito simpático resolveu acrescentar mais uns livros á Bíblia de Roma e suas ramificações. Os Muçulmanos também são donos da Bíblia. Para disfarçar, mudaram-lhe o nome, mas também arrancam olhos e dentes, cortam mãos, passam á espada tudo o que seja homem, mulher, criança e cão afiliado aos de Roma, e para além disso arrebentam-se a eles e aos outros!
Acho que o Saramago não devia chatear esses tipos todos. Parecem-me perigosos!


De José Viegas a 21 de Outubro de 2009 às 13:32
E para que conste, acho o Rogério da Costa Pereira, por ex., intelctualmente bastante fraco.

Peço-lhe, que não censure este comentário.


De Rogério da Costa Pereira a 21 de Outubro de 2009 às 15:00
Um comentário tão enquadrado no post...
Não sei o que o levou a pensar que seria censurado.


De José Viegas a 21 de Outubro de 2009 às 15:11
Coitadinho, está melindrado por haver leitor que não tem consideração intelectual por si?


De Nuno Palha a 21 de Outubro de 2009 às 13:43
Toda esta histeria colectiva só ajuda a ilustra bem o seguinte:

- A liberdade de expressão parece ser uma coisa relativa consoante o tipo de opiniões expressas. Ao ponto de um euro-deputado do PSD sugerir a Saramago renunciar à sua nacionalidade. Há quem não se enxergue, de facto. De lembrar a polémica dos cartoons dinamarqueses. Criticar outras religiões é liberdade de expressão. Criticar a "nossa" é blasfémia.


Eu sou ateu. Nunca mais me esquecerei de ao assistir a uma missa católica pela morte da minha avó, à qual fui por respeito à sua fé, ter de ouvir uma velha besta no seu púlpito a debitar horrores sobre a morte dos primogénitos do Egipto e outros tantos crimes, supostamente encomendados por Deus. Foi mais de meia hora de leitura do Antigo Testamento. Estar magoado pela morte de um ente querido e ter de ouvir aquelas barbaridades só mesmo por alguém que amamos muito. Pouco me importa que ofenda quem ofender, mas está no meu direito achar que algumas daquelas passagens do Antigo Testamento não são nada, não orientam ninguém, nem transmitem valores saudáveis. São tenebrosas. É a minha opinião. Tenho direito a ela tal como Saramago tem direito à sua. E se estiver a dizer disparates também tenho direito a eles.


De xico a 21 de Outubro de 2009 às 14:34
Duvido que numa missa de funeral se lessem essas passagens, tenebrosas como diz, e eu sou católico aceito o que diz. Mas nem isso se costuma ler em funerais nem leva meia-hora. Essas leituras são lidas em conjunto com outras e são criticadas e criticáveis na exegese que o celebrante deve fazer. Mas não faz da Bíblia um livro de horrores. Não basta pegar nos códigos judicias de há 3000 anos atrás e fingir-se horrorizado, ou sobre os conceitos que se tinha sobre o direito à vingança e que é o que trata a leitura de que fala. Todos os códigos civis dessa altura o eram. Os gregos não faziam melhor.
Lembro-lhe que vamos celebrar o centenário da república. Quererá esconder os horrores que foram esses anos pós 5 de Outubro, ao contar a história dos factos?


De nuvens de fumo a 21 de Outubro de 2009 às 15:10
A vantagem é que os códigos civis não foram soprados pelo supremo, os gregos decidiam mais ou menos democraticamente.

Isso sim , uma grande invenção, a democracia e a filosofia.


De Nuno Palha a 21 de Outubro de 2009 às 15:46
Não foi uma missa de funeral, mas sim de 7ª dia. Pois pode muito bem duvidar do que eu disse, mas eu lá estava e bem a ouvi.

Eu bem sei que aqueles textos já nã são interpretados literalmente, nem sequer pela maior parte do crentes e, se calhar também por isso, faz-me confusão a crucificação do Saramago que alguns fazem por manifestar a sua opinião.

Quanto aos horrores da 1ª República tem havido várias pessoas na blogosfera, na televisão, na imprensa escrita e em livros a dar a sua opinião sobre o assunto. Nada deve ser silenciado e toda a gente tem direito a opinar sobre qualquer assunto. Haverá claro um limite, pelo menos para mim, que seria o direito de qualquer pessoa viva a não ser difamada. Crenças, opiniões, religiões e teorias não cabem nesta definição. A própria sugestão de criminalizar a blasfémia me mete medo. Ainda ninguém a sugeriu, mas como já foi sugerida e votada na irlanda, essa nação muito católica, tenho receio que o mesmo se venha a passar cá.


De Alexandra Vieira a 21 de Outubro de 2009 às 14:00
A conferência de imprensa de Saramago é um documento absolutamente notável. E ressalvo que não sou uma daquelas grandes fãs do escritor. (eu ouvi a conferência toda e não apenas os trechos que foram emitidos na comunicação social).


De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 14:06
concordo.


De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 14:05
muito bom, como sempre.

"Saramago não disse nada que aqueles que leêm o Antigo Testamento sem os óculos-cor-de-rosa da fé não pensem. Simplesmente não o debitam para não enfurecer ainda mais os crentes"

os crentes e os ateus que não gostam que se diga mal da bíblia, e que saem ao ataque de quem tiver a ousadia do saramago.

ele há tantos por aí...


De nuvens de fumo a 21 de Outubro de 2009 às 14:15
A ICAR sabe muito bem o poder dos livros, por isso tem o seu índex e por isso continua a censurar de forma activa.
é uma tolice de primeira esta defesa do antigo testamento , uma tralha que ninguém leu e que só se pode defender por esse motivo, ignorância.

Mas deixo mais umas passagens para se atestar da qualidade da coisa, claro que sou muito linear e não tenho a chave da interpretação que recicla este lixo e o transforma em belíssimas passagens , para mim o que está escrito é sagrado,


17 Quem matar a alguém, certamente será morto;

18 e quem matar um animal, fará restituição por ele, vida por vida.

19 Se alguém desfigurar o seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito:

20 quebradura por quebradura, olho por olho, dente por dente; como ele tiver desfigurado algum homem, assim lhe será feito.

21 Quem, pois, matar um animal, fará restituição por ele; mas quem matar um homem, será morto.

22 uma mesma lei tereis, tanto para o estrangeiro como para o natural; pois eu sou o Senhor vosso Deus.

23 Então falou Moisés aos filhos de Israel. Depois eles levaram para fora do arraial aquele que tinha

blasfemado e o apedrejaram. Fizeram, pois, os filhos de Israel como o Senhor ordenara a Moisés.



Nada como a justiça do AT.

Haja pachorra, que leitura pode ser feita desta coisa ?
é que é mesmo literal, e pretende ser uma lei e ainda por cima divina.

Por favor...que seca


De xico a 21 de Outubro de 2009 às 14:24
Esta polémica faz-me lembrar um romance de Irving Wallace, onde um dos personagens pretendia que se retirasse determinado livro de circulação por conter matéria ofensiva, sem nunca o ter lido. O advogado leu certas passagens da Bíblia (as de Onan) e a mesma personagem entendeu que um livro que dizia aquilo também devia sair de circulação, sem saber que era a Bíblia.
Saramago está como esta personagem. Não é o facto de a Bíblia conter passagens indecorosas e horrorosas (qualquer livro sobre a humanidade as tem) que o faz um mau livro. Isso é que é criticável num prémio nobel. Não o facto de contestar determinadas assumpções do que está escrito na Bíblia. Muitos escritores o têm feito. Saramago disse que não o deviam ler às crianças. Isso chama-se censura.
Palmira,
Não ouvi ninguém da Igreja criticar Saramago por contestar o que está escrito na Bíblia ou por dizer que esta não era divina. Sendo ele ateu será normal que o diga. Criticou-se não o ateu mas o intelectual que ele diz ser, revelando enorme ignorância. Só um ignorante poderia por exemplo criticar e proibir o Capital, por causa do estalinismo. Outra coisa é argumentar contra as teses do capital. Saramago não argumenta, insulta.


De Luís a 21 de Outubro de 2009 às 15:31
Diz o xico :
"Não é o facto de a Bíblia conter passagens indecorosas e horrorosas (qualquer livro sobre a humanidade as tem)..."

Acontece que este livro não é um livro qualquer, é a bíblia, um livro suposto ter sido escrito, embora indirectamente, por Deus, o tal misericordioso.


De Za a 21 de Outubro de 2009 às 15:15
Gostava de ter escrito este seu texto.

Infinitamente misericordiosos somos nós os ateus que levamos a torto e a direito como se fosse normal a nós não ser devido respeito.


De J Moedas Duarte a 21 de Outubro de 2009 às 15:20
Concordo no essencial.
No particular acho que Saramago já há uns anos prossegue uma táctica comercial agressiva com vista a vender livros. Aquele "Ensaio sobre a lucidez" foi uma coisa deveras patética. Depois entrou pela blogosfera com a bela ajuda da D. Pilar e já tem um livro ou dois a compilar os pensamentos que o assaltam todos os dias.
Agarrou bem a ideia da Viagem do Eelefante mas agora voltou a recair. Não o censuro, Camilo teve o mesmo problema, o pãozinho custa a ganhar.

Portanto, uma polémica à volta de Caim e da Bíblia é um bom ganho de produtividade.

Consigo ainda admirar-me com as reacções das pessoas, da Igreja ou outras, que falam de desrespeito pela Bíblia.
Esquecem-se, talvez, do tempo em que a Bíblia estava vedada aos crentes porque não havia traduções, era tudo em latim. Só os padres a liam e interpretavam conforme lhes parecia melhor.

O movimento da Reforma nos países nórdicos democratizou o acesso à Bíblia, e até por isso o povo era encorajado a aprender a ler. Ao contrário do Portugal freirático e clerical que receava a instrução pública das massas, as quais entraram pelo século XX com mais de 70% de analfabetos.

Ontem ouvi um ilustre teólogo especialista em estudos bíblicos a condenar Saramago porque este não sabia interpretar a Bíblia. Haja pachorras para estes doutores do sagrado. Leia-se uma versão da Bíblia católica e pasme-se com as interpretações que lá vêm! Que só eles percebem, à luz duma fé que só serve para quem a tem.

A bíblia é um livro fabuloso, sim! Mas que se leia à luz da História, do contexto histórico em que foi sendo construída, tal como se lê a epopeia de Gil Gamesh.

O que Saramago critica, acho eu, é a apropriação desses documentos por uma religião que faz deles matéria de fé para seu uso exclusivo.O que ele critica, tal como às outras religiões, é o fanatismo e o proselitismo bélico, que as transformam em campo de lutas assassinas, prolongando de alguma forma a História dos Hebreus, povo semi-nómada à procura de espaço, em luta com os vizinhos e apoiando-se num hipotético Deus que os protegia e guiava.

Mesmo a actual tolerância da ICAR em Portugal deve-se a uma luta de décadas, corajosa e persistente, por parte dos que agora são chamados de jacobinos, ateus, et.
Não esqueçamos que há 100 anos era impossível em muitas povoações do Norte alguém dizer que não queria ir à Missa ou confessar-se. Havia o "Rol dos Confessados", em que os padres controlavam as práticas religiosas.

Felizmente que hoje há tolerância, pese embora o clericalismo ainda presente na vida de muitas comunidades católicas, como o Padre Oliveira, da Lixa, não se cansa de denunciar...

Mas quem sou eu para estar aqui a perorar? Foi um desabafo.


De aires bustorff a 21 de Outubro de 2009 às 15:42
excelentes comentarios num excelente post!

no minimo,

Saramago pôs ao nivel da inteligencia

aquilo que se quer fazer impôr

pela irracionalidade, medo de se discutir

e ele, Saramago,

nem falou das cruzadas, da santa inquisição...

todas as mortes, assassinios, destas

também estão descontextualizados? mal interpretados?

abraços compagnons..


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