E eu tenho o direito de dizer que Saramago fez uma leitura superficial da Bíblia, o que fica bem demonstrado pela assertividade, à laia de revelação, da sentença, "Caim nunca existiu" - há alguém com dois dedos de testa que diga o contrário? (eu disse: com dois dedos de testa). Eu tenho o direito de achar uma tontaria aquela do "Sem a Bíblia seríamos outras pessoas - provavelmente melhores". Wishful thinking, no mínimo. Não fosse a Bíblia, seria outra coisa qualquer a tornar-nos maus. E cá estaria Saramago a escrever sobre uma inevitabilidade alternativa. O homem não é a Bíblia, a Bíblia é que é o homem - a não ser que acreditemos que o livro nos caiu dos céus aos trambolhões. Eu tenho ainda o direito de achar que uma leitura correcta da Bíblia pode ser um bom instrumento pedagógico - omitir a Bíblia, isso sim, é impróprio para crianças. Como, de resto, é impróprio omitir-lhes (às crianças) a existência do que quer que seja. Saramago acha Caim - o seu - divertidíssimo. Eu achei-o uma estopada, um tiro na água e uma oportunidade perdida para se parodiar o antigo testamento. E muito gostaria de ter achado o contrário, o que quereria dizer que tinha passado umas horas mais divertidas do que as que me foram proporcionadas. Já agora, divertidíssima (nalgumas partes) é a Bíblia. Por último, tenho o direito de continuar a gostar de Saramago, de o achar um escritor de excelência (mesmo Caim, longe dum Memorial, está bem escrito, o problema ali não é formal). Venha o próximo, que cá estarei para o ler, como fiz com este - ao contrário de muitos saramaguianos de primeira hora (mas de Sábado passado, quando lhes nasceu um deus).
PS - Já me esquecia, aquele david não-sei-das-quantas, o do Parlamento Europeu, parece querer instituir o direito de se poder pedir a alguém que renuncie à nacionalidade. Existisse tal direito de petição e, no que me toca, já teria destinatário. O autor do Memorial do Convento não me envergonha (como poderia?), pelo contrário. Envergonham-me, isso sim, os laras e os davides da vida.
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De aorta a 21 de Outubro de 2009 às 18:38
ponto 1 a 5 - estamos de acordo.
"E eu tenho o direito de dizer que Saramago fez uma leitura superficial da Bíblia"
claro que tem.
"Eu tenho o direito de achar uma tontaria aquela do "Sem a Bíblia seríamos outras pessoas - provavelmente melhores""
ninguém põe isso em causa.
"Eu tenho ainda o direito de achar que uma leitura correcta da Bíblia pode ser um bom instrumento pedagógico"
sim, tem.
"Por último, tenho o direito de continuar a gostar de Saramago"
até tem o direito de gostar do hitler ou do diabo. tem o direito a gostar de quem você quiser.
mas nada disto é o ponto da discussão.
o ponto da discussão está em deturparem as afirmações do saramago. ELE NÃO DISSE que se devia esconder a bíblia das crianças. O QUE ELE DISSE FOI que a bíblia era imprópria para crianças, e agora digo eu, como milhares de outras coisas e de outros livros o são.
que tal ensinar o "sexus" ou a "filosofia da alcova" ou mesmo a "lolita" ou a "morte em veneza" ou mesmo o "império dos sentidos" a crianças da primária tipo catequese? parece-lhe bem?
"Não fosse a Bíblia, seria outra coisa qualquer a tornar-nos maus."
exacto, se não é do cu é das calças. é como ir ao médico e ele dizer-nos. ó homem, deixe lá. se não morrer desta gripe há-de morrer de um cancro qualquer. para quê tratar, né?
por último, só uma pergunta. gostou ou não do livro?
primeiro diz que é uma estopada. depois diz que está muito bem escrito. o defeito pode ser meu, mas para mim as coisas bem escritas nunca são estopadas.
De A. Dias a 22 de Outubro de 2009 às 13:08
É isso.
RCP tem o direito de dizer o que diz, incluindo que "uma leitura correcta da Bíblia pode ser um bom instrumento pedagógico"; gostaria de dizer que talvez RCP não tenha feito uma "leitura correcta do que disse Saramago", seja o que for "uma leitura correcta da Biblia". Se a leitura da Biblia necessita de exegése e esta escolhe o que é simbólico, desdenha a "anedota", explica que as malfeitorias e as enormidades atribuídas pela Biblia a Deus querem dizer uma coisa absolutamente diferente, então...batatas. Lá se foi a liberdade de ler a Biblia "em língua comum" que o protestantismo conseguiu:
E porque não uma exegése do Mein Kampf ou do Mário David?
De joseph a 21 de Outubro de 2009 às 18:51
Eu acho que em relação ao antigo testamento, Saramago tem razão. É um Deus rancoroso e os genocídios por Ele causados, cansam de tantos que são.
"..., a Bíblia é que é o homem": nalgumas partes o homem inteligente, mas na maioria o mesquinho, tacanho.
Eu penso que em determinadas fases da História da Humanidade, a existência da Bíblia foi prejudicial e talvez as coisas tivessem sido diferentes pela positiva se ela não existisse. Mas sim, estou a especular, nao sei...
De S a 21 de Outubro de 2009 às 19:19
"Já agora, divertidíssima (nalgumas partes) é a Bíblia."
Sem provocação; quais? :S
Por exemplo esta:
Ezekiel 4:1-17
http://por.scripturetext.com/ezekiel/4.htm
[...]
9 E tu toma trigo, e cevada, e favas, e lentilhas, e milho miúdo, e espelta, e mete-os numa só vasilha, e deles faze pão. Conforme o número dos dias que te deitares sobre o teu lado, trezentos e noventa dias, comerás disso.
10 E a tua comida, que hás de comer, será por peso, vinte siclos cada dia; de tempo em tempo a comerás.
11 Também beberás a água por medida, a sexta parte dum him; de tempo em tempo beberás.
12 Tu a comerás como bolos de cevada, e à vista deles a assarás sobre o excremento humano.
[...]
Digna de um sketch dos Monty Python ou do Gato Fedorento.
Existe até um vídeo no Youtube que parodia esta passagem bíblica:
http://www.youtube.com/watch?v=4CFbwqyZQF0
Os restantes vídeos deste autor são hilariantes, todos acerca das absurdidades bíblicas.
De S a 22 de Outubro de 2009 às 00:15
Ah pronto, por um momento ainda pensava que estava a falar a sério. Humor, mas involuntário.
Obrigado por partilhar. :)
De S a 22 de Outubro de 2009 às 00:17
Gostei deste;
What Would Jesus NOT Do?
http://www.youtube.com/watch?v=zOfjkl-3SNE&feature=channel
Mas o que sempre me faz rir mesmo é a «genética» de Genesis 30: ~37-39 :))))
37 Então tomou Jacó varas verdes de estoraque, de amendoeira e de plátano e, descascando nelas riscas brancas, descobriu o branco que nelas havia; 38 e as varas que descascara pôs em frente dos rebanhos, nos cochos, isto é, nos bebedouros, onde os rebanhos bebiam; e conceberam quando vinham beber. 39 Os rebanhos concebiam diante das varas, e as ovelhas davam crias listradas, salpicadas e malhadas.
De aorta a 22 de Outubro de 2009 às 01:57
ao ler isto, ocorreu-me a imagem de cavaco silva a falar das vacas e da ordenha mecânica. :-)
De S a 22 de Outubro de 2009 às 13:37
"as vacas deliciadas..." XD
De S a 22 de Outubro de 2009 às 04:44
eheh faz-me lembrar as teorias malucas da geração espontânea do Sócrates.
Deixa ver, a parte fecal em Juizes 3:21-25 tb é hilariante; a apetência por prepúcios em Reis 18:25-27 bizarra mas mesmo divertido é o mooning «divino» em Éxodo 33:23 :))
De Jairo Entrecosto a 22 de Outubro de 2009 às 02:14
Um bocadinho doentia, essa sua obsessão por tais temas, não Palmira?
Mas sempre pode ir ler o Ensaio sobre a Cegueira. O médico oftamologista tem uma cena na casa de banho muito mais gráfica do que qualquer outra que encontre na bíblia.
Também encontrará por lá uma célebre cena de violação, com pormenores arrepiantes.
Claro, como é Saramago, não se tratam de ensinar maus costumes, mas apenas de carpidação excelsa pela condição humana.
Em termos de histórias da carochinha, em Levantado do Chão também é narrado o episódio de duas lebres que morreram especadas a olhar uma para a outra( se não me falha a memória).
Claro, como é Saramago, não é rídiculo, é simbólico.
Mau, caro Jairo, isto é preso por ter cão e preso por não ter;
se não se lê q.b a bíblia não se pode criticar; se se lê então é-se doentiamente obcecado... decida-se :)
De Jairo Entrecosto a 22 de Outubro de 2009 às 14:18
Quando é que alguma vez eu a critiquei por não ler a bíblia, ou disse que alguém que a leia é doentiamente obcecado?
Palmira, Palmira, não deturpe...
De nuvens de fumo a 22 de Outubro de 2009 às 10:13
Ó homem mas não é sagrado entende? não são livros para serem dados às crianças como códigos morais, tenha paciência na má fé argumentativa
De Manuel Loureiro a 21 de Outubro de 2009 às 19:36
Se há pessoas com dois dedos de testa que acreditam que Deus existe, porque não hão-de de acreditar que Caim existiu? Eu não acredito, mas eles mesmo com os tais dois dedos acreditam. E já agora uma sugestão, leia o livro em voz alta. Vai ver que gosta.
De
rui david a 21 de Outubro de 2009 às 21:41
cuidado com as críticas aos davides que somos gente séria e não gramamos golias/gorilas.
fora com os caimcains, isso sim...
sinto-me obrigado a defender o deputado europeu david.
1-o homem exprimiu-se.
2-aquilo passa-lhe.
Aconselho Vertente do Dirk Nieuport (não sei se é bem assim que se escreve) par acompanhar a discussão.
e eu tenho o direito de dizer que você fez uma leitura superficial do Caim, senão ter-se-ia apercebido que o tal registo humorístico que tanto o desapontou desaparece a páginas trinta (o episódio de lilith, por exemplo, não tem nada de engraçado; bem pelo contrário, mostra um saramago erótico que nunca antes tinha aparecido).
mas vc não apenas se limitou a mentir sobre ter lido o livro do Saramago, como ainda fez um introito a desculpar-se da sua falta de competência para a crítica literária. Falta que fica mais que provada, porque qualquer crítico sabe que não pode fazer afirmações peremptórias sobre um livro que apenas leu o princípio.
Embora isso aconteça inúmeras vezes, o truque não está em ler o livro de fio a pavio obviamente, mas em evitar afirmações categóricas (ai, ai, ai)
a pergunta que eu faço é, com todo o respeito, e quase com pudor bíblico: se vc aldraba nestas coisas comezinhas, como será com as sérias?
para se penitenciar vá lá ler o Caim antes de responder.
Essa do Saramago erótico diz tudo sobre a sua leitura. Imagino que as escravas de Lilith a esgalharem o pessegueiro a Caim ou Lilith a cavalgar Caim - parte do seu Saramago erótico - se afaste do que eu disse. De resto, o próprio Saramago o pretende "um livro divertidíssimo".
"Espécie de tentativa débil e gorada de reductio ad absurdum, cheia de dichotes a armar ao engraçado, dei por mim num livro que se consubstancia numa espécie de paródia mal parida àquela parte do antigo testamento. Não vou, como é óbvio, entrar em pormenores, mas não deixarei de referir que me chocou a forma como, partindo de uma interpretação literal do antigo testamento - propositada é certo -, Saramago tentou o humor fácil, quase brejeiro, aquele tipo de coisa insossa que não se espera do autor do Memorial do Convento. "
Uma paródia mal parida, portanto. Quando me quiser chamar novamente aldrabão, faça o favor de o fazer na minha cara.
De Anónimo a 22 de Outubro de 2009 às 16:23
Bom, não sei onde está a sua cara, nem você a minha. mas longe de mim ofendê-lo. não foi a minha intenção.
de resto, terá eventualmente lido um Caim diferente do meu - uma edição de autor, talvez - porque eu não vi nenhuma "interpretação literal" do Antigo testamento. Ou então, deve ser isso, lemos um antigo testamento diferente.
Agora há de dizer-me onde na obra de Saramago anterior aparece alguém a esgalhar o pessegueiro a outrem e então perceberei onde está o inusitado da minha referência.
De nuvens de fumo a 22 de Outubro de 2009 às 09:58
Caro Rogério da Costa Pereira
Gostaria que , tendo disponibilidade e sem dúvida gastando do seu precioso tempo , me indicasse uma passagem com piada da bíblia. Eu que até tive alguma paciência na leitura daquele amontoado de manuscritos díspares e juntos de forma mais ou menos arbitrária, não consigo, mas pode ter sido algo que me tenha escapado entre os finos entrefolhos de papel bíblia.
Agradecido e cheio de esperança ,
Um nuvem com impurezas 
2) uma passagem da bíblia que exorte o riso, a alegria no sentido mais báquico , o fruir dos prazes terrenos e não a estopada d
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