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Nos vinte anos da queda do muro, revelações dos arquivos da Stasi

 

Vinte anos após a queda do muro de Berlim, os arquivos da polícia política da ex-República Democrática Alemã (RDA), Stasi (Ministerium für Staatssicherheit), continuam a revelar segredos. Entre 1950 e 1989, essa polícia empregou um total de 274.000 pessoas. Quando foi extinta, tinha 91.015 funcionários, além de 173.081 “colaboradores não-oficiais” (inoffizielle Mitarbeiter), dos quais 1.553 informadores identificados actuavam na República Federal Alemã (RFA). Dada a destruição dos arquivos da Stasi em Berlim, é difícil saber ao certo quantos informadores tinha essa polícia, embora se pense que possam ter chegado ao meio milhão (1950-1989). Ou seja, informadores incluídos, a Stasi terá tido um espião por cada 66 cidadãos da RDA
Após a queda do muro, os homens da Stasi dedicaram-se a destruir documentação nas trituradoras de papel ou a rasgar à mão os documentos mais comprometedores, queimando-os de seguida. No entanto, em 15 de Janeiro de 1990, as instalações dessa polícia foram tomadas de assalto por centenas de cidadãos, que conseguiram recuperar mais de 16.000 sacos com pedaços de papel rasgados, correspondendo a cerca de 45 milhões de páginas. Depois da reunificação, houve um intenso debate sobre o que se deveria fazer com esses arquivos, acabando por ser o destino destes decidido no início dos anos 90.
Em 1992, foram abertos à consulta daqueles a quem os arquivos se referiam e, três anos depois, de forma lenta, os documentos destruídos começaram a ser reunidos e tratados. No entanto, até 2007, só uma pequena parte desses documentos tinham sido reconstituídos manualmente, estimando-se que para reunir quase 600 milhões de fragmentos seriam necessárias 30 pessoas a trabalhar a tempo inteiro durante 600 a 800 anos. Até que foi criado por uma equipa, dirigida por Bertram Nickolay, responsável pelo departamento de Segurança do Instituto Fraunhofer, um software que permite resolver o puzzle, para reunindo e tratando os «confettis da Stasi».

Trata-se do projecto «Electron», através do qual o conteúdo dos cerca de 16.000 sacos poderá ser reconstituído em cerca de 12 anos (até 2011). A equipa ergueu um programa que analisa os fragmentos “scanados” em função da sua forma, textura, cor e presença de carimbos oficiais, entre outros factores descritivos, para reunir e tratar as peças de papel rasgadas à mão. Só depois o programa será afinado para reconstituir as tiras destruídas pelas trituradoras de papel.
Embora os participantes no projecto sejam obrigados a guardar segredo, tem-se vindo a fazer descobertas incríveis. Foram, por exemplo, encontrados relatórios de informadores da Stasi, vindos de Berlim ocidental, que “visitavam” familiares ou amigos, para se inteirarem sobre possíveis planos de evasão através do muro, que iam depois parara à Stasi. Ou relatórios de informadores que iam cumprir a sua “tarefa” durante um tempo a Berlim Oeste e, no regresso à RDA, davam conferências de imprensa a denunciar a «actividade neo-nazi» que reclamavam ter testemunhado na RFA.
Em 1981, um informador conseguiu transferir para os seus chefes da Stasi os arquivos pessoais de 35.000 funcionários do Senado e da Defesa da Constituição (Verfassungsschutz, polícia criminal e de intelligence da RFA) de Berlim ocidental. Houve também um senhor chamado William Born, colaborador da Stasi que conseguiu tornar-se presidente do governo local de Berlim (Landesvorsitzende) nos anos 60, cujos discursos mais importantes terão sido escritos pelo chefe da Stasi, Markus Wolf. W. Born era particularmente crítico relativamente à Ostpolitik de Willy Brandt e Helmut Schmidt, que tentava atenuar as tensões com o bloco comunista. Num dos seus discursos, considerou que tal política resultaria na reunificação dos dois Estados alemães, o que representaria uma ameaçar a paz.
Recentemente, soube-se do caso Karl-Heinz Kurras, o oficial da polícia da RFA que, em 2 de Junho de 1967, matou a tiro, durante uma manifestação estudantil contra a visita do Shah do Irão à Alemanha, o manifestante Benno Ohnesorg. Foi esta morte que radicalizou todo o movimento estudantil da Alemanha ocidental, levando inclusive à constituição do grupo terrorista Rote Armee Fraction (RAF), de Baader-Meinhof. Na realidade, Kurras era “Otto Bohl”, um informador da Stasi que conseguiu penetrar na polícia oeste-alemã.
Mais importante ainda foi a recente descoberta do «Dia X», programado para “libertar” Berlim Oeste, através de uma invasão militar conjunta da URSS e da RDA. Para cada distrito de Berlim Ocidental, a Stasi tinha preparado núcleos de oficiais à frente de grupos de 40 subordinados que, mal os tanques entrassem, procederiam a detenções e interrogatórios.
Outro dossier explosivo é o referente ao assassinato pela Stasi de três dissidentes leste-alemães, os escritores Jürgen Fuchs e Rudolf Bahro, bem como o guitarrista de rock Gerulf Pannach, da mais famosa banda da RDA - o Klaus Renft Combo. Após terem sido encarcerados no mesmo período na mesma prisão, foram libertados nos anos 70 e trocados mediante grande quantia de dinheiro com a RFA, mas morreram com um cancro muito raro, quase em simultâneo. Ora, os arquivos revelam que, no decurso dos interrogatórios, foram submetidos a radiações, cujos aparelhos foram aliás encontrados nas salas de «tortura» da Stasi.
            Para saber mais, ver ainda, aqui, uma crítica de Timothy Garton Ash sobre o filme «A vida dos outros» (New York Review of Books) e, aqui, uma descrição do projecto «Electron»
 

 


 

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