Sábado, 31 de Outubro de 2009
Hoje é lançado, em Lisboa, o livro Caim. É o que diz o convite, aliás bonito, que a Caminho enviou aos media. "A sessão terá presença do autor e a entrada é livre", esclarece. Bom, confesso que julgava que o livro já tinha sido mais que lançado, tanto que tenho ouvido falar dele. Apesar da tomada de posse de um novo Governo, do início da vacinação da gripe A e daquelas coisas todas (desemprego, dívida externa, crise económica, défice) que são sempre alegadas como os únicos assuntos aceitáveis quando alguém fala por exemplo de casamento das pessoas do mesmo sexo - embora, por acaso, sejam exactamente os que passam a vida a dizer que esse assunto não devia "consumir energias" aqueles que mais energia gastam, da deles e da dos outros, a clamar contra ele -, Saramago parece ter sido o grande tema da última semana e meia.
Chego, pois, atrasada à discussão e sem grande vontade de me meter nela. Porque é recorrente, porque é repetida (já tinha sucedido até com Saramago) e porque é desinteressante. Saramago leu a Bíblia ou partes dela e caracterizou-a como horrível, disparatada e perigosa. E escreveu-o. E publicou-o. E chamou uns nomes ao deus da Bíblia. E depois? Depois apareceu uma série de gente ofendidíssima, como é costume de cada vez que alguém faz críticas aos chamados "livros sagrados", às divindades (ou melhor, à ideia da sua existência ou à representação das mesmas nos livros e nos discursos, já que só quem acredita em divindades as critica) ou aos "profetas". Até aqui tudo normal - milagre será o dia em que "autoridades religiosas" assistam com serenidade a opiniões diferentes das suas e que crentes mais tresloucados não apelem à guerra santa, seja sob a forma de pena de morte, como sucedeu com Rushdie, ou de "desnacionalização", como ocorreu a um eurodeputado de nome David.
Mas desta vez apareceu também gente que, não sendo religiosa, verberou Saramago pela sua "leitura literal" , por "defender a censura" e até, pasme-se, pela sua parca escolaridade. Se calhar é altura de dizer que não sou admiradora nem da personalidade nem da obra de Saramago e que ser ateia não me coloca sempre em concordância com outros ateus, tal como ser católico ou islâmico não implica concordar com todos os católicos ou islâmicos (óbvio, não?). Mas não vejo o problema. A Bíblia é um conjunto de textos escritos ao longo de mil anos? É. Não é para ser lida literalmente? Por amor de deus, não. Se calhar é mesmo isso que Saramago está a dizer quando a ridiculariza - só pode estar a dizer isso, porque, é sabido, Saramago não crê.
É que das duas uma: ou vemos aquilo como "a palavra de Deus" e portanto pode ser interpretado e decomposto por Saramago como lhe aprouver (só o tal deus sabe o que queria dizer) ou vemos aquilo como um conjunto de textos escritos por gentes diversas e Saramago pode interpretar e decompor como lhe apetecer (só quem escreveu sabe o que queria dizer e já cá não está para explicar). Alegar autoridade, eclesiástica ou académica, a propósito das opiniões de um escritor sobre textos escritos por pastores, pedreiros e soldados que têm sido apresentados durante séculos como ventríloquos de divindade é que é uma coisa um bocadinho disparatada. Ou não?
(publicado ontem no dn)
De Sejeiro Velho a 31 de Outubro de 2009 às 11:28
...como ventríloquos de divindade...
ouviu a anedota que a Maria João Seixas contou Domingo passado na rádio, sobre Abraão e seu filho Isaque?
De fernando antolin a 31 de Outubro de 2009 às 11:54
Ainda não se cansaram de santinhos, está visto...
De
Valupi a 31 de Outubro de 2009 às 12:19
Estupendo equívoco: ninguém quer impedir o Saramago de pensar e se expressar livremente. Queremos é fazer o que ele faz.
E se há textos de pastores, pedreiros e soldados que persistem em ser adorados como ventríloquos da divindade durante séculos, e muitos séculos, isso é o fundamento mesmo da sua autoridade: o tempo.
De cautopates a 31 de Outubro de 2009 às 12:36
"Alegar autoridade, eclesiástica ou académica, a propósito das opiniões de um escritor sobre textos escritos por pastores, pedreiros e soldados que têm sido apresentados durante séculos como ventríloquos de divindade é que é uma coisa um bocadinho disparatada"
Ex. de contra-alegação de autoridade: o escritor vs. uns pastores/pedreiros/soldados
De Fernando a 31 de Outubro de 2009 às 12:46
Gostei muito desta crónica. Ainda bem que é Saramago que "insulta" o deus da Bíblia. Perigoso seria que o deus da Bíblia nos "insultasse". Quanto ao Caim: nim.
De aorta a 31 de Outubro de 2009 às 13:05
"Não é para ser lida literalmente? Por amor de deus, não."
ai não? e porquê? foi alguém que lhe disse ou a f descobriu por si própria? e já agora, a f. refere-se à bíblia toda ou só as partes que não interessa?
isto não é para ser levado à letra?
"Com homem não te deitarás, como se fosse mulher, é abominação" (Levítico 18:22)
e isto? também não?
"Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles" (Levítico 20:13)
ou isto?
"Se uma mulher conceber e tiver um menino, será imunda sete dias; como nos dias da sua menstruação, será imunda" (Levítico 11:2)
Levítico 12:3 "E, no oitavo dia, se circuncidará ao menino a carne do seu prepúcio"
que a bíblia não pode ser lida literalmente é apenas mais uma mentira que tende a ser transformada, por ateus de má consciência, numa verdade absoluta.
De Sejeiro Velho a 1 de Novembro de 2009 às 18:10
1 Coríntios 6:10 - Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores, herdarão o Reino de Deus.
De sumiati a 31 de Outubro de 2009 às 13:48
independentemente de cain e gostar ou não da obra a coisa mais nojenta para mim é virem falar de graus académicos para escarnecerem... o que me conforta é que essa gente que vive desses metiers não passam disso mesmo uns biscateiros do saber enquanto saramago é uma figura incontornável da literatura mundial
De aorta a 1 de Novembro de 2009 às 11:03
foi um alcoólatra incorrigível que disse isso. não ligue.
De Anónimo a 31 de Outubro de 2009 às 18:58
God must be a boogie man.
De Sejeiro Velho a 1 de Novembro de 2009 às 18:22
Não é para levar à letra...
O que diz apenas reflete a mentalidade da época...
Está escrito para a compreensão do homem neolítico...
Que Diabo! (Abrenúncio!) então a moral de Deus também tem épocas? O Seu pensamento também evolui?
De S a 1 de Novembro de 2009 às 19:06
Sim, e os Seus representantes oficiais têm a bondade de nos manter a par.

De g_l a 1 de Novembro de 2009 às 20:36
Um artista resolve fazer arte a partir de uma obra literária. E depois.
Ele que escreva o que lhe apetecer.
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Os detratores de Saramago viram aí uma oportunidade de aparecer para o rebanho, só isso.
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