Sábado, 31 de Outubro de 2009
Palmira F. Silva

Num dos posts sobre a controvérsia Saramago que a Fernanda tão bem resumiu, uma das nossas leitoras interpelava-me sobre «a lógica de celebrar datas cujo fundo seja, mais ou menos veladamente, religioso», pensando, erradamente, que a maioria das celebrações de solstícios, equinócios, colheitas, etc.,  que se celebram um pouco por todo o mundo são propriedade da Igreja.

 

O último número do l'Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano, talvez seja a melhor ilustração de que isso não é verdade, ou seja, de que boa parte das festas inscritas no calendário «santo» não passam, como inúmeras outras coisas, de apropriação pela igreja de celebrações muito anteriores, fortemente enraizadas nas tradições populares e difíceis de erradicar.

 

De facto, a crescente popularidade do dia das bruxas em Itália assusta a Igreja que tem medo de perder a exclusividade do calendário festivo, que tanto trabalho deu a estabelecer. Aliás, já Bento XVI tinha denunciado os horrores seculares da passagem de ano, mais uns execrados «ritos mundanos, marcados principalmente pela diversão» não inscritos no calendário sacro e, como tal, a converter ou eliminar.

 

Assim, depois de durante anos a sua divisão anti-oculto (?) ter alertado em vão contra os perigos da celebração profana e de ter falhado o boicote à «perigosa celebração do horror e do macabro» a que apelou no Avvenire, o Vaticano volta à carga no «Halloween's Dangerous Messages».  O artigo, assente numa linha recorrente - tudo o que não é católico é necessariamente anti-católico -, descreve o Halloween como uma festa «absolutamente anticristã» e propõe como alternativa as Holywins já cristamente celebradas por outras paragens. Mas não acredito que desta vez, por falta de instrumentos apropriados, sei lá, a Inquisição e quejandos, a Igreja consiga reinvidicar como suas festas alheias.

 

Embora estas denúnicas vaticânicas de uma festa que escapa ao seu controle sejam absolutamente ridículas, empalidecem face a outros desvarios cristãos sobre o Halloween. Tendo-me dedicado por várias vezes à extenuante tarefa de esvaziar abóboras de dimensões que deviam ser proibidas e preparar saquinhos com treats sortidos para os tricksters que nos batiam à porta, fiquei de queixo caído por nunca ter dado pela conspiração demoníaca da coisa que para alguns alucinados envolve actividades tão improváveis como sexo com demónios e necromancia. Mas o que me maçou mesmo foi não ter participado nas tais «revel nights» que, pelo enquadramento, deveriam ser de arromba!

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6 comentários:
De cautopates a 31 de Outubro de 2009 às 15:58
Palmirinha,

não seja por isso: se quiser participar em festas pagãs porreiras, visite a quinta daquele patusco coleccionador de armas alemão, ali a Belas, pela altura dos solstícios e equinócios e divirta-se com a performance. Terá oportunidade de se entreter aí com jovenzinhos trajados no estilo celta/freak (não encontrará cabecinhas rapadas; o género é mais tipo barbichas, cabeleiras e túnicas), a partilharem interessantíssimas prelecções sobre a superioridade luminosa celta/ariana, o culto da natureza e o combate contra a longa noite "fâchista" romano-cristã...julgo que esta noite andarão por lá. apresse-se.


De S a 31 de Outubro de 2009 às 17:13
Não é sobre o Halloween, mas enquadra-se no tema;

Harry Potter is the Devil!
http://www.youtube.com/watch?v=RSwZJ55g80Q&feature=related

Clip do excelente e assustador documentário nomeado para um Óscar Jesus Camp. Aborda a indoctrinação de crianças por fundamentalistas evangélicos.
Pode ser visto na íntegra no Youtube.
Be afraid, be very afraid...

P.S.; Lembrei-me ao ler o post do capítulo n'O Memorial do Convento que se passa durante o Entrudo. Delicioso.


De Jonas a 31 de Outubro de 2009 às 19:20
Os Happy Tree Friends decidiram fazer algo especial este dia das bruxas :) (http://pararir.com/especial-dia-das-bruxas-happy-tree-friends/)


De S a 31 de Outubro de 2009 às 23:56
So, so good... :)


De fr a 31 de Outubro de 2009 às 20:46
Difícil de erradicar é a corrupção em que pantanamos.
Deve a senhora ter algum ressentimento profundo e passe o pleonasmo, pessoal, perdoe-me se estou errado, face à igreja católica.



De fernando antolin a 1 de Novembro de 2009 às 09:33
Palmira, tanta dedicação à causa qualquer dia ainda a beatificam...


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