Depois de umas semanas em que fizeram notícia, entre outros descalabros, o turismo sexual do ministro da Cultura, o nepotismo presidencial e julgamentos de políticos proeminentes, Nicolas Sarkozy resolveu trazer o foco mediático para o que, segundo ele, é mesmo prioritário e urgente: descobrir o que afinal de contas é ser francês. Sarkozy parece ainda querer ligar a identidade nacional com a "ligação singular dos franceses à terra", lembrando o lema "a terra não mente" do general Pétain. Assim, com esta manobra, o item principal no programa que elegeu Sarkozy em 2007, quando pretendia ser o grande paladino dos valores tradicionais do verdadeiro ser francês, ocupou de novo o espaço político e mediático francês.
De facto, o truque lançado pelo ministro da Imigração Eric Besson, embora completamente transparente, pegou. Toda a imprensa francesa discute a identidade nacional mesmo que seja para comentar o "Desvio petainista", como o fez "L'Humanité", que recusa o próprio conceito de identidade nacional, "que remete para o mais recôndito da direita mais reaccionária".
Mas pegou também no público em geral, mais à direita que à esquerda, e pegou também na classe política, embora não tenha enganado todos. Por exemplo, Ségolène Royal, embora afirmando que o debate se pode voltar contra o governo, considera que é necessário «reconquistar os símbolos da Nação» recordando que durante os seus encontros se cantava "la Marseillaise", ou seja, que foi a primeira a falar da questão identidade nacional. Max Gallo, por seu lado, defendeu a campanha patriota de Sarkozy apontando que, face ao impacto crescente da imigração de fora da Europa, importa manter um certo número de elementos que são decisivos para a identidade francesa.
Parece assim que o debate, que se inicia amanhã, se vai mesmo manter e vai entreter os franceses em jogos patriotas até 28 de Fevereiro de 2010.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
