Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

a pedido de várias famílias (nomeadamente daquelas muito disfuncionais) republico aqui o primeiro tomo de uma série que ainda há-de ser uma coisa muito elaborada, se deus quiser (sim, tou a ver se consigo imitar o maradona, sem grande sucesso por dar-se o caso de ele ser inimitável, acto em que estou em contínuo a fazer as pazes com ele porque já chega de estar zangada), e que se deus também quiser há-de ser a minha fortuna -- alguma coisa, se deus quiser, há-de ser a minha fortuna e depressinha, que não vou para nova e até agora népias.

 

ora aqui vai a coisa, repescada daqui:

 

sempre me fez muita confusão que para chamar um nome a alguém — no caso, para dizer que alguém não presta — se optasse por qualificar a respectiva mãe. ora não só me parece de manifesto mau gosto partir do princípio de que uma pessoa é má rês por alguma coisa que a mãe fez ou deixou de fazer, como não me é minimamente óbvio que o trabalho sexual deva ser associado à geração de más índoles. mas o mais curioso de tudo será a espécie de desculpabilização do facínora implícita na designação. como quem diz que o problema não é bem dele, é da mãe.

 

 

se me estivesse a dar um acesso de feminismo diria que é a velha mania, pelo menos tão velha quanto o livro do génesis, de atribuir a culpa de tudo às mulheres. como, pensando bem, se calhar não há momento nenhum em que não tenha acessos de feminismo, vou mais longe: fazer coincidir o epíteto ‘filho da puta’ com uma pessoa sem princípios é também dizer (entrando no subtexto da coisa, naturalmente) que é alguém sem pai conhecido, ou seja, fazendo um pouco de arqueologia cultural (sem grande esforço, basta mergulhar nas caixas de comentários dos blogues), alguém ’sem figura da autoridade’, assim a modos que sem ninguém que lhe explicasse o certo e o errado (coisa para a qual, como é sabido, as mulheres em geral não servem e as putas ainda menos).

 

aqui temos pois o filho da puta como vítima do destino, como mau por afinidade: tadinho, não podia fazer diferente, não podia ser diferente. never had a chance.

 

ora parece-me tal coisa uma insuportável afronta ao verdadeiro filho da puta, o escroque de primeira, que não se esconde atrás de ninguém nem pede desculpa de nada. o gajo que faz mal por gosto, por desfastio. um gajo que se pode respeitar, até. o contrário do sonso — ai, o que eu odeio sonsos e sonsices.

 

está pois na hora de arranjar umas palavras velhas para substituir esta desprimorosa, inexacta e facilitadora expressão. sobretudo porque estamos sempre a precisar dela, quando e onde menos se espera.

nos próximos capítulos da série, debruçar-me-ei sobre as expressões ‘vai para o caralho’, ‘vai-te foder’ e quejandas, numa aprofundada reflexão sobre o paradoxo de a linguagem venal fazer coincidir o que parece ser o desejo de (quase) toda a gente (ter sexo/foder) com o pior dos impropérios.

 

isto, claro, se amanhã quando acordar ainda me apetecer.

 

(a ver se me apetece, pois)

 

8 comentários:
De NAP a 21 de Outubro de 2008 às 18:09
Fernanda: a propósito do filho da puta ainda havia tanto a dizer. Deixo aqui algumas sugestões para (se assim o entender) rever e aumentar a posta.

1.ª O filho da puta no norte e no resto do país - uma espécie de estudo filológico-geográfico da coisa. Eu,como espécime de entre douro e minho , ando sempre com o filho da puta na ponta da língua (salvo seja). A funcionalidade e flexibilidade da expressão não cessa de me espantar: "És um filho da puta , pá" (aqui há carinho); "O gajo é um filho da puta de primeira" (aqui há reconhecimento e admiração); "Ó meu filho da puta , vou-te... "(aqui a gente já sabe como acaba) etc...

2.ª A subtil, mas muito importante diferença, entre o filho da puta e o filho de puta . A incomensurável carga de desprezo e virulência deste "de", é o suficiente para fazer deflagrar uma guera civil.

Não deixe, por favor, de abordar a expressão "caralho" - essa sim, digna, não de uma posta mas de um ou dois tomos da mais refinada erudição académica.





De GL a 21 de Outubro de 2008 às 18:54
Ah, como é bom encher a boca e voltar a falar dos Filhos da Puta . É que são tantos! Obrigado por relançar o assunto. Vou ler mais comentários antes de me voltar a pronunciar.


De Activia a 21 de Outubro de 2008 às 18:55
E se for:

Ah, meu filho da filha..


De Dinis a 21 de Outubro de 2008 às 19:15
Não é fácil explanar o tema. Discorrer sobre ele através da escrita. É que o problema (issue) está na sonoridade das expressões e é muito difícil, através de palavras escritas, texto, fazer transparecer e demonstrar a diferença abissal que pode registar-se entre um: "vai pró caralho pá" e um "vai pró caralho, pá".
Ou num: "filho da puta" e num "filho da puta" ou ainda num "filha da puta" (dirigido a um homem) Aliás, só esta pequena variante de "filha da puta" e não "filho da puta" quando o interlocutor é do género masculinio, dava tese.
Em suma, as expressões são onamatopaicas.(é a MINHA tese) O seu significado está no som e não na escrita.
Boa sorte, portanto, para a empreitada.


De claudia c. a 21 de Outubro de 2008 às 21:58
na minha terra usa-se muito o filho d'um cabrão, ou mesmo, filho d'um real cabrão. cá me parece que continuamos orientados para considerações sobre o comportamento materno... gosto de insultos assim rasteirinhos e desleais. 8)


De joaolsd a 21 de Outubro de 2008 às 23:30
Fuck off, diria Lenny Bruce, despendindo-se elogiosamente dos presentes


De De Puta Madre a 22 de Outubro de 2008 às 03:45
á sempre para perguntar: Y tu? És Filho De Quem??
(Entoação ao gosto de cada um y ao sabor da circunstâcia).


De M. Abrantes a 22 de Outubro de 2008 às 14:02
É má ideia sobrevalorizar o pai ou mãe na expressão "filho da puta". É como sobrevalorizar o piolho em "vai-te catar", ou a caca em "és um merdas", ou a madeira em "és um cepo". Estas expressões estão num patamar intermédio entre a palavra e a agressão física. Em regra a sua carga semântica pouco difere da de um murro (excepção a casos como os que foram, bem a propósito, apontados pelo Nap).


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