Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Ontem passei os olhos por aqui e fiquei a saber que o colégio que frequentei entre os 3 e os 14 anos ficou este ano no topo do ranking das escolas. Cada pessoa é um mundo. Cada pessoa tem a sua experiência. Os pais são livres, naturalmente, de escolherem a escola dos seus filhos. Mas nem sempre os filhos, quando são pequenos, bastante pequenos, contam aos pais o que os amedronta. Lembro-me da provocação do C. Hitchens ao perguntar se a religião é abuso de menores. Às vezes é. No Mira Rio onde cresci, nunca ouvi falar de um deus misericordioso, de um deus pai, nunca ouvi falar de amor. A religião foi-me essencialmente incutida por duas vias: a via dogmática, que se traduzia em muito cedo já saber declamar as provas extra-bíblicas da existência de cristo; e a via do medo, esta muito eficaz, porque o pecado, venial e mortal, nas suas consequências, se não sanados, eram ilustrados até à náusea. Insistia-se bastante no limbo, mas, sobretudo, e este é o aspecto fulcral do meu Mira Rio, havia uma atenção doentia, por parte do colégio e do preceptorado, aos pecados da carne. De resto, os sacerdotes do opus dei ajudavam no terror. A primeira aproximação que tive às consequências do fenómeno do desenvolvimento (futuro) do meu corpo e da minha cabeça pecadora foi a explicação de que o dito corpo era o templo do espírito santo. Ora, o templo não pode sentir o que quer que seja. Isto foi terrivelmente explorado ao ponto de ser convocada uma reunião com a directora do colégio no dia em que a mesma entendeu que nós, a minha turma, já teríamos sido visitadas por um acontecimento que inicia fatalmente a inclinação para o pecado da carne, de resto bastante provocado por uma espécie que nos era estranha - os rapazes. Esse acontecimento era a menstruação. Sim, ele foi-nos explicado em associação com o pecado. A tarde estava amena, eu era muito pequena, mais do que as outras, e pela primeira vez na vida percebi a dor da diferença. É que eu ainda não era menstruada. Eu nunca tinha pensado em sexo. Quando a directora desatou a falar no fenómeno sanguinário, no pecado, na gravidez fora do santo matrimónio, na propensão masculina para nos atrair para o pecado, senti-me uma ilha e, claro, comecei, nesse dia, a pensar em sexo. Na confissão, precedida de uma lista de presença pública semanal, recebíamos uma folha com os dez mandamentos e para cada um sugestões de pecados. Assim, o nosso exame de consciência seria induzido e mais completo. No sexto mandamento, o fatídico da castidade, perguntava-se, por exemplo: demoro-me, no banho, a contemplar o meu corpo? Lembro-me de ser muito nova e de pensar demoradamente nesta pergunta. Lembro-me de tomar banho em dois minutos para não pecar. E lembro-me de pensar demoradamente noutras perguntas do mesmo calibre. Tal como na inquisição, a sugestão é tão minuciosa que a criança acaba por acreditar que fez aquilo, mesmo que o não tenha feito, e que se o fez cometeu o tal pecado digno do fogo que a virgem maria fez a graça de mostrar aos três pastorinhos e que a professora nos deu a ver ilustrado num desenho. O sacerdote fez-me perguntas de uma minúcia que nunca vi, como advogada, serem feitas em tribunal. O meu corpo, o corpo de uma criança, foi escrutinado atrás de uns quadradinhos de madeira, o confessionário. Havia também a professora sofia, que depois de uma asneira grande que fiz com 9 anos, vendo-me comungar, me levou para uma sala fechada e explicou-me que eu recebera do corpo de cristo em pecado mortal. Convenceu-me, sem apelo nem agravo, de que estava condenada ao inferno. Passei muitas noites da minha quarta classe a adormecer com medo, com uma ideia da esperança de vida, tendo a minha por inútil, já que fatalmente condenada ao inferno. A professora sofia torturou-me de muitas outras maneiras. O ensino era bom? Sim. Havia professoras boas?  Sim. Havia boas pessoas? Sim. Fiz amigas e apesar de tudo, com elas, recordações felizes? Claro. Mas às vezes a religião é abuso de menores. Este é apenas uma parte do meu relato pessoal. Não é um relato de ensino de sucesso. Aos 14 anos fui para a escola pública. Fiquei em choque durante um mês. Descobri rapazes, pobres,  ateus, conflitos sociais e debate livre de ideias. Ao mesmo tempo, descobri outros católicos. Católicos que me falaram pela primeira vez em amor em vez de pecado, em perdão em vez de castigo, em fazer em vez de apenas rezar. Descobri, com esses católicos, a acção social. Descobri que há um deus de todos que a todos ama e que a todos aceita. Na verdade, um pai, que nunca, por natureza, renega um filho. Foi assim. na escola pública, no meu Rainha Dona Amélia, que não ficou no topo do ranking das escolas, que me deram a dimensão de pessoa.  Mais tarde disse adeus a deus. Mas sem mágoa, porque foi de outro deus que me despedi.


107 comentários:
De José Manuel Vieira a 3 de Novembro de 2009 às 17:32
EXCELENTE ARTIGO,E DENUNCIA.
AGRADEÇO.


De Carlos Marques a 3 de Novembro de 2009 às 17:40
They fuck you up, your mom and dad. They may not mean to, but they do. They fill you with the faults they had. And add some extra, just for you.


De nuvens de fumo a 3 de Novembro de 2009 às 17:54
Eu tive o azar de andar numa escola de freiras, até À 4º classe , altura em que percebi que aquelas senhoras não eram muito normais, aquele deus era mau demais para ser verdadeiro e eu não queria ter de as aturar. Como na altura já tinha uma colecção de cromos sobre animais e sobre o sistema reprodutor e tinha acesso a livros sobre o tema, as perguntas eram para mim pouco lógicas, e faziam as senhoras ficarem pouco à vontade com o meu conhecimento “enciclopédico” do assunto. Resumindo, achei tudo aquilo uma verdadeira estrumeira, as ostias, as missas, e desde cedo recusei confessar-me.

Essa gente é doente, sombria e livrei-me deles o mais depressa que pude.



De Sousa Mendes a 4 de Novembro de 2009 às 18:41
Também passei pelo mesmo. Fugi de um colégio de freiras aos 8 anos, por maus tratos.
A - deus a todos....


De Nuno Palha a 3 de Novembro de 2009 às 18:44
Magnífico!


De João Galamba a 3 de Novembro de 2009 às 19:00
Isabel, este texto está maravilhoso.
(e como ainda não o tinha dito: bem vinda ao grupo)


De Anónimo a 3 de Novembro de 2009 às 19:12
Deveria pedir responsabilidades aos seus pais que lá a colocaram.


De mc a 3 de Novembro de 2009 às 19:17
muito bom.

não estudei em escola católica, logo não me senti tão pressionada. Mas identifico-me com quase tudo o que escreve. Não me despedi de Deus, mas tem custado muito a despedir-me de um cristianismo tão deturpado como o que descreve.


De José Viegas a 3 de Novembro de 2009 às 19:30
Infelizmente já tinha conhecimento de coisas parecidas...
Ui, que isto não tem melhorado nada, com o passar do tempo.

Está de facto muito bom este texto.
Obrigado, também, por mostar a importância das escolas públicas.


De Nuno Gaspar a 3 de Novembro de 2009 às 19:36
Muito bem. Cumprindo o ritual de iniciação, a Isabel logo ao segundo post vem prestar a devida vassalagem ao profeta Hutchens. É, sem dúvida, uma entrada auspiciosa. E promete enriquecer o Jugular com novos temas...


De Irene Pimentel a 3 de Novembro de 2009 às 19:36
Ia comentar que achava este texto maravilhoso. Quem não se revê nele? Quando vi o comentário do João. Mesmo assim aqui fica de novo: texto lindo.


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