Terça-feira, 3 de Novembro de 2009
Vi isso suceder em filmes, geralmente com um médico a levantar-se da mesa mais próxima para controlar a situação e o pedaço de comida a voar em sinal de triunfo. Mas com esse desfecho, só numa série, Sete Palmos de Terra, que era sobre uma família de cangalheiros e começava sempre com uma morte. No caso, era uma mulher que vivia só e durante um almoço se ficou assim. Mas há uma semana soube de uma pessoa, das verdadeiras, que se engasgou enquanto jantava num restaurante. Ainda esteve uns dias em coma, mas já nada havia a fazer. No restaurante, ninguém agiu a tempo e da forma certa para o evitar.

Chama-se a isto uma morte estúpida. É em si uma expressão estúpida, já que não há mortes inteligentes. Mas convenhamos que é possível encontrar saídas mais dignas. E, sobretudo, parece impossível alguém morrer assim, de uma forma tão evitável e aflitiva e no meio de tanta gente, quando bastaria, em princípio, que alguém lhe tivesse feito uma manobra de heimlich (assim nomeada devido ao médico que a descreveu pela primeira vez) para que fosse salvo. Que uma das pessoas que estavam naquele restaurante soubesse que só tinha de se posicionar atrás do engasgado, fechar o punho e colocá-lo com o polegar para dentro entre o umbigo e o osso esterno (a meio entre os dois, presume-se) e com a outra mão fazer um movimento brusco para cima e na sua direcção (para dentro, portanto), repetindo o movimento várias vezes, com vigor, para forçar o ar dos pulmões a sair e a desbloquear a traqueia. Não é evidente, decerto, mas é fácil – devíamos aprender isto na escola até sermos capazes de o fazer de olhos fechados. Como respiração boca a boca e massagem cardíaca, coisa que a maioria das pessoas sabe vagamente como se faz (por ver na TV) mas nunca treinou.

Não sabermos nem querermos saber destas formas eficientes e acessíveis de salvar vidas significa que não nos imaginamos numa situação em que seja preciso sermos nós a erguer-nos para fazer a diferença entre a vida e a morte. Não somos médicos nem enfermeiros, pensamos. Isso não é connosco, não é o nosso papel – o que não deriva só do facto de termos muita dificuldade em pensar-nos como mortais, máquinas milagrosas porém pavorosamente falíveis, mas também do de recusarmos sentir-nos responsáveis pelos outros. Há, é claro, um reverso muito desagradável disso – os outros também podem não se sentir responsáveis por nós. 

Há uns anos, ia a descer a Avenida da Liberdade a pé e vi duas raparigas serem atropeladas por um táxi, à minha frente. Passaram fora da passadeira, como tantas vezes fazemos, e foram colhidas a grande velocidade. Ficaram a vários metros uma da outra, no alcatrão, imóveis. Uma delas parecia muito ferida, numa poça de sangue. Não tive, confesso, sequer ânimo para a ver de perto. Mas a outra estava ali, a dois passos de mim, um ombro deslocado num ângulo horrível, a olhar para o céu e a tentar erguer-se como alguém que não percebe o que lhe sucedeu. Retenho das aulas de socorrismo no liceu muito pouca coisa, mas uma nunca esqueci: quando sofrem um acidente grave, as pessoas, mesmo se não estiverem muito feridas, podem entrar em choque se deixadas sós. Nem sei se isto é verdade. Mas faz-me sentido. Faz-me ainda mais sentido que não se deixe alguém morrer só, sem sequer um rosto onde se fixar, como talvez tenha acontecido à outra rapariga de quem ninguém, nem os vários polícias que passavam por ela a controlar o trânsito, se abeirou.  

Fiquei com a outra até chegar a ambulância. Não sabia muito bem o que lhe dizer – só que não se mexesse e que estava tudo bem e se queria que ligasse para alguém – porque não sei o que se deve dizer. Só sei que se fosse eu a estar ali, no alcatrão, de ossos partidos a olhar para o céu, ia querer que alguém me dissesse alguma coisa. Alguém que me dissesse “estou aqui, não te deixo morrer.”

(publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 24 de outubro)
 

 
 

29 comentários:
De Ana Vidigal a 3 de Novembro de 2009 às 20:29
willkommen, liebe nandinha!
kleine kusse
Hanna ;)
(Manobra de Heimlich, já fui salva por ela)


De Romeu a 3 de Novembro de 2009 às 20:33
Está aqui! É esta a crónica fantástica que li na Notícias Magazine e que me deixou tão abalado... Obrigado, Fernanda, por a publicar! Não sabe o quanto falei nela, e o quanto esperei que a pusesse aqui!


De Fernando a 3 de Novembro de 2009 às 21:50
Presumo que já deva estar farta de elogios, mas a verdade é que não ficava de bem comigo se não lhe dissesse que gostei muito deste sermão.


De Antonio Bento a 3 de Novembro de 2009 às 21:57
Para sua informação alguns de nós aprendemos a fazer a manobra na escola, assim como a fazê-la nós próprios.


De Marco a 3 de Novembro de 2009 às 22:24
Também se aprende a ler na escola; retirar as ideias essenciais do texto é que é mais complicado, não é verdade?...

Falhou completamente o ponto fulcral do (como é habitual, excelente) artigo...


De Anabela Oliveira a 3 de Novembro de 2009 às 22:01
A reflexão é de extrema Humanidade, faz-nos pensar na recente morte em campo do basquetebolista. Um caso "estúpido" que originou um movimento que apela à colocação de desfibrilhadores em locais públicos. Eis a petição que pode ser assinada aqui:

http://www.peticaopublica.com/?pi=salvevid


De Raul a 3 de Novembro de 2009 às 22:46
Cara Anabela

Caso não saiba os desfibrilhadores, como qualquer outro artigo médico só deve ser manuseado por pessoas com formação especifica na área da saude. Colocar estes aparelhos em locais publicos tudo bem, mas qualquer um usar sem saber o que está a fazer isso não concordo e por isso desculpe não assino a petição nos termos em que está escrita.


De Anabela Oliveira a 4 de Novembro de 2009 às 11:27
Se mais gente além dos médicos pode salvar vidas porquê este raciocínio? Não entendo.
Obviamente ninguém nasce ensinado, mas pode aprender.


De carlos mata a 3 de Novembro de 2009 às 23:58
obrigado fernanda, este texto é um bom exemplo de cidadania.
na minha experiencia pessoal, depois de ver o tal episodio dos "sete palmos de terra" passei a semana seguinte a jantar em centros comerciais...na esperança de que alguem me pudesse ajudar se tal infortunio me sucedesse.
tal como a manobra de heimlich, todos nos deveriamos treinar o suporte basico de vida (SBV) - esta provado que isso salva vidas. e depois é uma questao estatistica, quantas mais pessoas souberem faze-lo maior é a nossa hipotese de sobrevivermos até chegar ajuda especializada (INEM) e tomarem medidas mais avançadas.
a opiniao do Raul é retrograda, atrasada e na minha opiniao inaceitável sobre a questão dos desfibrilhadores. digo assim, deste modo, directo e sem rodeios, porque sao estes receios que temos de combater e porque sao estas opinioes que nos tem atrasado nesta área.
mais uma vez volto ao exemplo do reino unido, onde todos podem constatar a existencia "abundante" dos ditos aparelhos por exemplo nos diversos aeroportos londrinos. mas ha mais paises europeus onde eles se encontram disponiveis.
os desfibrilhadores automaticos externos (DAE) dependem muito pouco dos conhecimentos dos seus operadores. aplicam o choque electrico no momento "adequado" sem intervençao externa, ou seja do operador.
é perfeitamente aceitavel, para mim existirem os ditos dispositivos disponiveis em locais onde existem muitas pessoas (aeroportos, supermercados, centos comerciais,...) e que existam equipas locais de pessoal treinado em SBV e utilizaçao de DAE.
Isso nao exclui que cada um de nós, nao possa de imediato chamar ajuda, iniciar o SBV e aplicar o DAE.
Aliás o que eu gostaria de ver implementado no nosso pais era um programa de ensino em massa para toda a populaçao em que todos estivessem "à vontade" para iniciarem um SBV.
esta também provado que esse nosso conhecimento vai beneficiar alguém que nos é muito querido e que está bem perto de nós...


De S a 4 de Novembro de 2009 às 04:43
"os desfibrilhadores automaticos externos (DAE) dependem muito pouco dos conhecimentos dos seus operadores. aplicam o choque electrico no momento "adequado" sem intervençao externa, ou seja do operador."

Precisamente. Ia responder ao Raúl mas o Carlos adiantou-se.
Acrescento apenas que as técnicas de suporte básico da vida, mesmo no caso de profissionais de saúde, perdem muita qualidade após 6 meses sem prática.

Por isso, o mero ensino em 2 ou três aulas (poucas mais tive no curso de medicina em que ando) não é suficiente. Lendo o texto da f. percebo que já é altura de fazer, no mínimo, uma revisão teórica.


De Shyznogud a 4 de Novembro de 2009 às 00:07
Uma pequena informação a propósito do teu post: há pelo menos uma escola em Lisboa (esta http://www.dpedrov.edu.pt/ ) q no ano lectivo passado tinha socorrismo como disciplina obrigatória para os anos do ensino básico. Não sei se este ano mantêm a boa prática.


De carlos mata a 4 de Novembro de 2009 às 00:14
m joao, sao iniciativas muito validas, mas infelizmente muito limitadas. sao de apoiar e incentivar, mas precisamos de um programa de educação que englobe o maior numero de pessoas.
acredito que seja possivel,... foi possivel a introduçao do ingles nas escolas de modo mais universal, foi possivel o programa das novas oportunidades para qualificaçao de adultos, foi possivel o acesso massificado as tecnologias de informaçao nas escolas.


De Shyznogud a 4 de Novembro de 2009 às 00:17
Obviamente. Dei aquele exemplo - que conheço - como "prova" de que é possível fazer qqr coisa neste campo.


De Daniel Rodrigues a 4 de Novembro de 2009 às 00:33
Este artigo toca numa das feridas que urge cicatrizar em Portugal. A falta de conhecimentos da população, em termos de apoio ao Sistema Integrado de Emergência Médica é enorme. À muito que se fala da Desfibrilhação Automática Externa em locais públicos, esta não é difícil de implementar e apenas carece de esforço político e derrota de alguns lobbies que provém principalmente dos profissionais de saúde.
sublinho que a implantação de DAE's em locais públicos não implica, como muitos entendem, que estes sejam usados por qualquer pessoa; apesar de serem desfibrilhadores automáticos a sua utilização obriga a procedimentos correctos e atempados, daí ser necessária uma formação base que sustente a operacionalização dos DAE's. Contudo e para terminar, podemos facilmente seleccionar o público-alvo dessa formação em locais de grande afluência de massas, por exemplo, centros comerciais - seguranças privados; discotecas - staff; entre outros.

O artigo está fantástico!

Cumprimentos



De g_L a 4 de Novembro de 2009 às 00:44
Escreve muito bem. Vamos te ler por muitos e muitos anos.


De N. a 4 de Novembro de 2009 às 02:10
Curiosamente, a personagem que fala do Six Feet Under morre sozinha, em sua casa, e só é encontrada dias mais tarde pelos vizinhos que notaram o cheiro.


De Luís Lavoura a 4 de Novembro de 2009 às 09:36
Pois, mas mesmo nesses casos há uma manobra a fazer. A pessoa engasgada deve colocar-se junto de uma mesa ou móvel similar e, com toda a força que puder, lançar o seu estômago contra a borda dessa mesa. O que se pretende é forçar o estômago a contrair-se bruscamente e a pessoa a vomitar, expulsando o pedaço de comida que a engasga.


De Dorean Paxorales a 4 de Novembro de 2009 às 11:08
Caro Luís Lavoura,

como já alguém aqui mencionou antes, com a manobra de heimlich serve para levantar o diafragma e contrair os pulmões, provocando a tosse e a expiração forçada por forma a mover e expelir o objecto de obstrução das vias aéreas.
se tudo correr bem, não há vómito que venha a complicar ainda mais a situação.


De Nuno Ribeiro Ferreira a 4 de Novembro de 2009 às 12:46

Luis Lavoura, a manobra que descreveu é uma "modificação" à manobra original de heimlich, para quando a pessoa se engasgar e estiver sozinha. Nisso tem razão. Mas o objectivo é que com a contracção abdominal se crie pressão torácica para expulsar o objecto. Ele, o objecto, está na traqueia e não no tubo digestivo! Vomitar não serve de nada. Mas ok, não é sua obrigação saber isto. É só para esclarecer. Bom texto Fernanda, as always.


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