Sábado, 7 de Novembro de 2009

Florian e Linde podiam ser um poster. "O casal misto". Ele historiador, 38 anos, professor na Universidade de Humdboldt, na parte leste da cidade, nasceu na Alemanha ocidental, na Baviera. Ela, enfermeira, 34 anos, nasceu em Berlim Leste. A mãe dele atravessou um rio em Novembro, aos 20 anos, para fugir para o lado ocidental. O pai fugiu uns anos antes, quando as fronteiras ainda não tinham sido fechadas: queria estudar biologia e como era filho de um músico de uma igreja isso em princípio não lhe seria permitido; a mãe era filha de um pastor luterano, tinha os mesmo problemas. Durante anos, não pôde falar com a família e chegou a receber cartas a dizer que a mãe (a avó de Florian) tinha morrido para a convencer a regressar. Florian sorri, abana a cabeça: "Eles faziam estas coisas. É incrível, não é?"

 

É, é incrível. Falamos disto, vemos os vestígios materiais - as pedras, as fotos, os museus, os relatos - e pessoais (histórias como esta) e continuamos a não acreditar, a não integrar esta ideia extraordinária de uma cidade cortada ao meio, de um país cortado ao meio aqui mesmo no meio da Europa (há outros muros, outros países divididos, claro, mas são longe, como de outro mundo), de gente que se empoleirava em bancos e em ombros para saudar a família e os amigos que tinham ficado do outro lado, de gente que assistia a casamentos e participava na festa separada por um muro. De gente que saltava de terceiros andares, que passava a correr entre balas e se aventurava num rio gélido para poder escolher outra vida.

 

Como a mãe de Florian Waldow. "Ela só conseguiu ver os pais passados 12 anos, quando houve uma espécie de amnistia. Lembro-me de irmos de comboio e de como a minha mãe e toda a gente ficava tão tensa quando passávamos na fronteira e os polícias armados com cães entravam por ali dentro. Uma vez levámos um cãozinho minúsculo e à ida o soldado disse-nos que não poderíamos passar com ele sem açaimo. E o outro soldado disse que era proibido sair da Alemanha de Leste com artigos de cabedal. Então a minha mãe tricotou um açaimo de lã cor de rosa. Era preciso ter visto o ar ridículo do cão com aquilo no focinho. É tão simbólico de todas aquelas regras dementes." Linde Trenkel, ao lado, sorri. Pelo menos tão simbólico como a existência de uma empresa, a Genex, sediada em Copenhaga mas na verdade alemã de leste, que vendia produtos aos alemães ocidentais para estes os oferecerem aos alemães de leste. Existia um catálogo, que era proibido na Alemanha de leste, e no qual se podia comprar tudo, de chocolates a carros. Em vez de esperar 15 anos por um Trabant (o famoso carrito kitsch alemão de leste), um alemão de leste podia tê-lo imediatamente, se um familiarocidental lho encomendasse. "Era tudo muito mais caro. Muito mais do que nas lojas", comenta Florian, perante a surpresa de Linde: "Nunca ouvi falar disso, nós não tínhamos família no Ocidente".

Ora aqui está: ao fim de anos juntos e de tantas conversas sobre as suas histórias cruzadas, Linde e Florian nunca tinham falado da Genex e da curiosa forma como a Alemanha de Leste capitalizava (ou canibalizava?) o capitalismo. Aliás da família de Linde nunca se tinha passado da fronteira até dia 9 de Novembro de 1989, o dia em que o muro caiu. "O meu pai pediu para viajar - tinha de se pedir um ano antes e a resposta vinha sempre no dia anterior ao da viagem. E a resposta dele veio a 8 de Novembro. Assim, a 9, eu e o meu irmão estávamos sós - os meus pais tinham ido a Berlim Ocidental. Fui para a escola e calhava no dia da semana em que tínhamos de ir visitar uma fábrica, para ver como era o trabalho. Tínhamos uma professora muito comunista que fingia que nada se passava, e quando percebeu que estávamos a combinar ir até ao muro, fechou a porta à chave. Ainda tentámos sair pela janela mas não dava, era o terceiro andar. Depois, à tarde, lá conseguimos escapulir-nos. Fomos à ponte sobre o rio. Estava um dia muito cinzento emuito frio. Estivemos horas para passar e lá conseguimos entrar em Kreuzberg [um bairro na altura sobretudo de imigrantes turcos, e que entretanto se transformou num lugar cheio de bares e cafés, muito "na moda"]. E era uma coisa cinzenta, não se passava nada. Demos uma volta e viemos embora muito desiludidas".

 

No dia seguinte, Linde voltou à carga. "Metemo-nos, eu e umas amigas, num eléctrico cujo percurso habitual era dar a volta quando chegava ao muro. E o condutor disse, quando lá chegou 'Bom, parece-me que hoje ninguém quer virar aqui'. Saiu, mudou o carril e fomos em frente." Direitas ao banco para receber os 100 marcos por cabeça que a Alemanha Federal prometia a todos os que atravessavam a fronteira, o "dinheiro das boas vindas". "Fomos às lojas, mas nem pensávamos gastar, aquilo era um tesouro. Fomos ver as coisas. Tudo tão diferente. O pão de repente muito caro e as roupas muito baratas." Ficou "muito irritada", diz, "porque era muito confuso".

 

Ainda é, para muita gente: desemprego para quem nem sabia o que isso era, pagar água, luz, saúde. O fim de uma certa segurança, de um casulo. Linde abana a cabeça. "Não conheço estatísticas, mas acho que não há muita gente a querer tudo de volta, da forma como era. Só querem as coisas boas." Florian sorri. "Sim, às vezes parece que a Alemanha de Leste era um pequeno país amoroso. Mas a Linde foi ver o dossier da mãe, que era tradutora, na Stasi [a polícia do Estado ou polícia política] e uma vizinha tinha 'informado' sobre ela. Não disse nada de mal, mas essa ideia de ser vigiado pelos vizinhos... E pelos amigos: há pessoas que leram coisas nos ficheiros que só amigos muito próximos poderiam ter dito. É tenebroso." Filmes como Adeus Lenine fazem comédia dessa tragédia sombria. Florian assente. "Mas há muitas maneiras de o fazer. Esse filme até é engraçado. A minha mãe por exemplo fica passada é com outras coisas, como quando uma antiga estrela de patinagem no gelo aparece com o uniforme azul da Alemanha de Leste e a bandeira. Ou quando antigos oficiais da Stasi aparecem a dizer 'Nós não fizemos nada'. Os alemães de Leste passam a vida a dizer que a vida era diferente, que havia muita amizade e entreajuda. Mas tinha de se desconfiar de toda a gente".

 

Uma desconfiança que se deslocou agora para o espaço entre os dois "tipos" de alemães e que se extrema no confronto. " Às vezes juntamo-nos num sítio à lareira a falar destas coisas e se sou o único alemão de Ocidente dou por mim a defender a Alemanha Federal de modo muito entusiástico, logo eu, que nunca fui propriamente um súbdito muito satisfeito. Énessas alturas que consciencializo que para mim e para as pessoas que viviam na Baviera era muito claro que havia dois países muito diferentes. E no meu mapa mental, de alguma forma, a Itália, onde ia de férias, a França, até Portugal, estavam mais perto que a Alemanha de Leste, que era um país 'muito estrangeiro'".

 

Apesar de - ou por - ter com Linde uma união simbólica da reunião alemã, Florian não tenciona celebrar o vigésimo aniversário da queda do muro. "Acho que para mim o muro caiu a primeira vez que fui à Baviera visitar os meus pais e naquele sítio onde o comboio parava horas nem sequer abrandou. Senti-me muito agradecido e pensei: 'Este é o meu 9 de Novembro'".

Daniela Rössler, 39 anos, consultora em licença de maternidade (a adorável filha Victoria tem um ano e dois meses) nascida em Berlim Ocidental, também não vai celebrar. Como muitos berlinenses - e alemães - da sua geração, tem sentimentos muito contraditórios sobre o que se passou em 1989. E um grande desapontamento pessoal misturado com a História. "Uma das melhores amigas da minha avó paterna ficou do outro lado. O meu pai ficou amigo do filho e eu da neta. Depois de se poder viajar para lá, iamos lá muito. Eles ligavam a pedir coisas, tipo café, desodorizante, etc. Tipo, telefonavam com uma lista e nós levávamos. Viu o filme A Vida dos Outros? É o retrato exacto do ambiente. Quando íamos ao outro lado diziam-nos: 'não fales alto quando vais na rua, pode haver micros'. Eles revistavam os carros, as pessoas, tudo. Quando tinha 8 ou 9 anos levei um dinheirito meu para oferecer à minha amiga, sabia que era proibido mas levei na mesma. Revistaram-nos à chuva, lembro-me da minha mãe fora do carro com o meu irmão bebé nos braços. O carro era novo e eles tiraram o banco de trás e nunca mais encaixou bem. Eu estava aterrorizada que descobrissem o dinheiro. E o cheiro, o cheiro que aquilo tinha. As casas, os carros. Era um cheiro a sopa de couve, sei lá. Ainda hoje o sinto em alguns sítios." Faz uma careta. Depois de décadas de amizade, porém, as duas famílias cortaram relações. No rosto e na voz de Daniela a mágoa disfarça-se de ironia. "Desde que o muro caiu nunca mais nos falaram. Disseram que vinham beber café e nada. Acho que queriam que tivéssemos pena deles, fizeram-se mais desgraçados do que eram - e esconderam-nos que era possível ter outra atitude, menos amedrontada que a que eles tinham. Usaram-nos e quando não precisaram mais de nós deixaram-nos cair. "

 

Talvez a experiência tenha contribuído para que Daniela e a família desconfiassem desde o início, como muitos outros alemães ocidentais, que estavam a comprar sarilhos. "Na altura achávamos que iam investir imenso no leste e que íamos acabar pobres. E o que se passou foi isso mesmo. Tínhamos um bom sistema de segurança social e foi redireccionado. Ficámos a perder." Hesita. "Sabes, é bom poder falar disto, não posso falar disto com ninguém daqui, senão acusam-me de ser 'a má'. Mas ainda é 'nós e eles'. Há 20 anos os de leste gritavam 'somos um só povo'. E nós dizíamos: 'Também nós'" Ri. "As pessoas que vivem do outro julgam que são como tu e eu. Mas não são. Consigo saber quem eles são. Têm uma certa forma de falar. Há qualquer coisa nos olhos, na maneira de andar... E não se pode perguntar a uma pessoa se é do leste. Acreditas que fingem que são do ocidente? Conheci uma rapariga que disse que era da minha zona de Berlim e era mentira... É tudo muito estranho. São pessoas estranhas. Um sistema totalitário faz as pessoas ficarem dissimuladas, fazerem coisas terríveis acreditando que não estão a fazer mal."

 

Ainda assim, e apesar da distância e estranheza que afirma sentir, Daniela admite que uma das melhores alturas da sua vida foi a temporada que passou num prédio de Berlim Leste para o qual se mudou em 1992. "Fui para um apartamento sem banheira, sem máquina de lavar roupa, sem nada. Era indescritível. Entravas, tinhas uma pia e uma cama. Mas o prédio funcionava como uma comunidade: um tinha uma banheira, outro máquina de lavar, eu fazia bolos... Cada porta tinha um bloco de papel pendurado para deixar recados e combinar coisas. Toda a gente se ajudava. Havia até um que tinha telefone, que era o informador da Stasi - toda a gente sabia. As relações eram muito diferentes." E uma das melhores amigas de Daniela é de leste: Sophie Dolsop, 34 anos, nascida em Dresden, chefe do departamento de comunicação e educação da Nova Sociedade de Arte de Berlim (Neuer Berliner Kunstverein, uma instituição fundada em 1969 no lado ocidental e que em 1994 se mudou, como muitas outras, para a Mitte, a zona mais central de leste). Que, curiosamente, reproduz a mágoa em sentido contrário, falando de 1989 como "um momento perdido na História": "Poder-se-ia ter criado uma alternativa. Haveria a hipótese de fazer uma outra coisa que não a reunificação. A Jugoslávia e a Checoslováquia, por exemplo, dividiram-se nessa altura. Não era óbvio que só podia resultar numa Alemanha. Em 1989 as pessoas vieram para a rua para tentarem ser o sujeito da história e não o objecto. Por isso falhou." Sophie, como muitos alemães de Leste, sente que algo lhe foi roubado. "O que aprendi na escola como história alemã desapareceu. E se se ler o contrato de reunificação, a linguagem é muito complexa. O que houve foi um desmantelamento da Alemanha de Leste. É o fim de uma narrativa, de um Estado soberano. Há uma hegemonia na forma como as pessoas falam do leste - como vencedores." E concretiza: "As pessoas são questionadas numa lógica de bem e de mal, de certo e de errado, culpa e não culpa. E é mais complexo que isso. Privatizavam as suas vidas." Por exemplo: os pais de Sophie, diz, eram do partido comunista "porque tinha de ser, por causa dos empregos. Não era uma coisa política. Mas nunca se pergunta a uma pessoa da Alemanha Federal se os pais eram da CDU, pois não? Pergunta-se isso como se pergunta a alguém que tem ar de "não alemão" (seja lá isso o que for) se nasceu aqui." Uma ideia de ajuste de contas, de acerto constante de posições que não impede que a queda do muro seja um momento fundamental na vida de Sophie. "Quando o muro caiu vivia em Dresden, tinha 16/17 anos e estava no processo de saber quem era. Tudo estava a colapsar. Ia para a escola a pensar que sabia mais que o professor. Tornei-me mais ou menos punk. Queria ir-me embora o mais depressa possível: fui para Londres. Mas antes, logo em Fevereiro de 1990, fui a Paris com uma amiga. Descobri uma cidade cosmopolita. Foi como tomar drogas. Estás ali e de repente tens uma ideia do mundo. Senti isso também em Florença. Pensei que nunca poderia ver aquilo durante a Guerra Fria. Foi um sentimento muito bizarro. É toda uma ideia de Europa que descobres."

 

A vida como cidadã do mundo: Doreen Mende, também nascida no Leste em 1976, costumava jogar com a mãe esse jogo. "Como seria viajar, para onde quiséssemos, pensar e decidir o que quiséssemos". Filha de um fotógrafo freelancer e de uma artesã de têxteis, Doreen prova que nem tudo era uniforme "do outro lado". Por isso mesmo, sentiu-se sempre "muito isolada". "Não sou a típica criança de leste. Os meus pais tinham uma atitude de resistência ao sistema, não fazia parte de estruturas fabris, não era do partido, pertenciam a uma igreja. Criaram-me, a mim e à minha irmã, como burguesas." Faz uma pausa, como quem põe aspas na palavra. "Os meus amigos todos da escola iam para férias que os pais conseguiam através das fábricas e eu não. Agora estou satisfeita de não ter ido, porque era muito ideológico. Mas na altura... e além disso tocava piano, e isso isolava-me ainda mais. Era algo visto como muito burguês apesar de estar previsto no sistema. Tocar música clássica não era encorajado." A irmã mais velha teve problemas a sério. "Apesar de ser a melhor aluna, não a deixaram ir para o liceu. Os que iam para o liceu eram escolhidos, não era automático, e filhos de pessoas como os meus pais não tinham hipóteses."

 

Graças à queda do muro, a irmã conseguiu tirar o curso de medicina e Doreen o do Conservatório. Tornou-se pianista mas desistiu. "Os meus pais ficaram muito tristes, mas eu não queria apenas fazer arte, queria intervir politicamente." Tornou-se curadora de arte, depois de passar pelo trabalho em galerias. Um percurso simétrico do de Markus Drapper, 40 anos, artista plástico nascido em Görlitz, na fronteira com a Polónia, e que depois de uma passagem pela política como opositor ao regime da chamada República Democrática da Alemanha decidiu que chegava de utopias. Esta utopia não vai funcionar, o nome de uma sua peça de 2002, podia ser uma espécie de súmula da sua história, se de algum modo fazer arte não correspondesse a uma utopia.

 

"O meu pai era arquitecto e estava no departamento para o desenvolvimento da cidade. Não estava no partido e acabou por ser despedido. Pouco depois teve um ataque de coração e morreu. Já estava metido na política mas fiquei mais radical quando o meu pai foi despedido. A igreja protestante era o nosso "tecto", havia uma espécie de acordo - assim controlavam-nos. Chegámos a ter um bispo na Stasi. Era uma rede complicada, o sistema era complexo, incluía as suas próprias válvulas de escape. Felizmente o muro caiu antes que a coisa ficasse demasiado intensa e fossemos parar à prisão por 10 ou 20 anos, como era costume nesses casos. Tive muita sorte, porque nessa altura o bispo de Görlitz - isso está documentado - disse à Stasi que me podia ir buscar."

 

No dia em que o muro caiu, Markus estava em Leipzig. "Quando vimos aquilo na TV eu e os meus amigos dissemos: 'Temos de ir!'. Fomos à esquadra local e ninguém sabia o que fazer. Ouvimos na rádio que era preciso um visa e lá fomos a um sítio onde acabaram por nos carimbar o passaporte. Havia uma fila imensa. Perguntaram 'ida só ou ida e volta?'. Já nem sei o que disse. Metemo-nos no comboio na sexta de madrugada [o dia 9 foi uma quinta-feira]. Os comboios estavam completamente à cunha e paravam antes de Berlim, não dava para entrar. Saímos todos e fomos a pé. Entrámos pela Pushkin Allee - passei pelo edifício onde hoje é o meu estúdio. Passámos por um buraco no muro, pela terra de ninguém. Era sábado à tarde e ainda havia lágrimas e champanhe."

 

Lágrimas e champanhe e também "um estranho desapontamento". "Aquilo contra o que lutei tantos anos desapareceu num dia... Já não tínhamos de ter medo, o risco tinha desaparecido. Foi um choque e foi também a razão pela qual decidi fazer algo por mim. Definitivamente acabei a minha crítica politica. Deixei de pensar o que a sociedade podia ser. É melhor concretizar alguma coisa sem pensar se é bom para todos ou para alguém." Garante ainda assim que, apesar desse vazio, nunca sentiu nostalgia da RDA. "A nostalgia é um medo do futuro. Pessoas que olham mais depressa para o passado que para o futuro. As pessoas que dizem que o passado era o paraíso não trataram da sua saúde mental." Dá uma gargalhada, o rosto de menino marcado numa expressão marota. "As pessoas que dizem que era bom também estão a tentar justificar o facto de não terem lutado, de se terem deixado ir. Mas, claro, foi difícil para muitos. A minha irmã, por exemplo, tinha acabado os estudos, tinha filhos e de repente tudo desapareceu. Houve imensa gente que estudou para coisas que deixaram de existir. Mas querer de volta aquilo? É uma forma de agorafobia, o medo dos espaços abertos. Querem o seu nicho de volta."

 

Markus, como quase toda a gente, confessa que fala pouco de 1989 e está cansado do assunto. Mas, como quase toda a gente, quando a conversa começa fala como quem desabafa. "A divisão ainda existe. Não por causa do velho slogan do 'muro na cabeça', mas pela maneira como crescemos. A insegurança que vivíamos, a falta de confiança que tínhamos... Há uma certa mentalidade."

 

Uma mentalidade que também marcou o seu percurso artístico. "Comecei a trabalhar cedo, como impressor, mas andava nas aulas de arte à noite. E o meu professor era muito conservador. Havia um sistema de arte underground mas eu não o conhecia. Ia pintar no verão para o campo" Ri de novo. "Quando comecei a estudar em 1991 foi um choque porque toda a gente viajava e recebia informação. Tinha visto Duchamps e Warhols, claro, mas não tinha percebido. Só depois que percebi que podias, como artista, corromper a arte." O clique, assegura, deu-se em Nova Iorque, depois de uma estada em Londres. Para alguém que tinha vivido imerso no século XIX em termos artísticos, foi como se tivesse entrado numa máquina do tempo. Instalações, vídeo, todas as fórmulas e afirmações possíveis. Abana a cabeça. "Só algum tempo depois percebi que apesar de tudo era um dom ter vivido um outro sistema e outra visão. A tradição que nos ensinaram talvez tivesse um lado bom."

 

Mas algo mais ficou, para além do desenho à vista. "Há uns tempos vi uns filmes franceses muito políticos dos anos 70, muito anti-poder, e o meu coração começou a bater mais forte. Portanto se calhar ainda há aqui qualquer coisa." Há, sim. "Quem vota no PC vota num cliché, numa última tentativa de identificação. Se eu voto? Sim, não me estou completamente nas tintas para a política - em democracia é preciso quem a faça, não tenho desprezo por isso. Mas é um carrossel, agora uns depois outros. E se calhar um político jovem hoje não tem uma ideia utópica..." Outra vez, a utopia. Na sala, a sua filha Malina, de três anos, esconde-se atrás de um sofá, brinca às escondidas com o pai e a visita. A mulher, Renata, polaca de Varsóvia, acaba de chegar, oferece vinho e uvas. Markus reflecte. "O meu desapontamento é tão total como era total o sistema."

 

Do outro lado do muro, outra vez: Mark Waschke, 37 anos, actor, é filho de mais um fugitivo. "O meu pai fugiu de Leste com 17 anos, em 1956. Queria tirar o curso de medicina e não deixavam, por isso passou para o outro lado. A minha mãe era enfermeira. O doutor e a enfermeira conheceram-se no hospital: cliché da telenovela." Apesar da fuga do pai e das viagens frequentes à Alemanha de Leste, do facto de saber que os familiares de lá não podiam fazer a viagem - só os avós, a partir dos 65 anos, estavam autorizados a passar a fronteira (o regime considerava que os idosos se "fugissem" não faziam mossa - Mark não desenvolveu uma rejeição. Aos 14 anos, leu um livro da RDA sobre teatro e pensou ir estudar para lá. "Quando o muro caiu, tinha 17 anos e fui para a escola de actores em Berlim Leste. Era muito boa e tinha óptima reputação. Conheciam muito bem o teatro alemão. Claro que eram conservadores, mas de qualquer modo depois da escola temos sempre dez anos para esquecer tudo o que aprendemos." Como Markus, Mark meteu-se cedo na política. "Estava em grupos anti-fascistas de esquerda. Seis dias depois da queda do muro, foi a celebração do 50º aniversário do meu pai. A família toda reunida, toda a gente muito feliz e esperançada. Eu era o único preocupado por se estar a antever a reunificação. Disse: 'Vão ver que daqui a dois anos vamos ter problemas'". Os problemas, crê Mark, vão levar pelo menos uma geração a desaparecer. "Ou mais de uma geração. As pessoas descontentes estão-no sobretudo com a supressão da sua história. Em muitas cidades havia comités de pessoas que queriam fazer outra sociedade. Meio ano depois já não se falava disso." À chance falhada, que, como Sophie, Mark lamenta, junta-se um mau agoiro. "Todos os objectivos de Hitler foram conseguidos com a reunificação: não há judeus nem comunistas na Europa e somos o grande poder económico."

No café onde Mark marcou o encntro, entra uma revoada de gente mascarada à Rocky Horror Picture Show, que passa no cinema ao lado. Lá fora é a Rosa Luxemburg Platz, onde o colossal Teatro do Povo testemunha a vocação desmesurada, imperial, do país de Mark. "Claro que por outro lado era óbvio que era preciso abrir as fronteiras e juntar as pessoas..." A frase acaba como esta história, sem conclusão.(publicado hoje no dn e no jn)


 

2 comentários:
De Sofia Loureiro dos Santos a 7 de Novembro de 2009 às 18:56
Mais um excelente artigo, Fernanda, que tive oportunidade de ler impresso. Parabéns.


De fernando antolin a 7 de Novembro de 2009 às 21:37
Mas o hino era tão giro é pá que pena...


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