Na revista Vanity Fair, a última página é sempre para o questionário Proust. Uma das perguntas costumeiras é “em que ocasiões mente?” Não colocando a hipótese de o questionado não mentir, tenta impedir-lhe (e ao leitor) o embaraço de uma saída simplória -- e mentirosa -- do género “nunca minto”. De todas as respostas que lembro, a melhor foi “sempre que necessário”.
A questão é, então, como distinguir, entre os mentirosos que todos somos, os mentirosos em quem não se pode de todo confiar, aqueles em relação aos quais devemos traçar um cordão sanitário. E não há outra forma de distinguir senão a grandiloquente, a que separa o bem do mal. Sendo o bem a verdade e o mal a mentira, e sendo que em verdade às vezes – mas só muito às vezes -- mentir é bem e o contrário é mal, o mentiroso mentiroso é aquele que não dá valor específico ao bem, ou seja, à verdade. Não é que não saiba o que é verdade e o que é mentira, sabe-o lindamente; é que só valoriza o que lhe convém no momento. Não reconhece mais nada senão a sua necessidade, a sua própria verdade – a dos seus sentimentos, interesses, objectivos. Para gente assim, mentir ou dizer a verdade tanto faz, desde que resulte.
Temos outra palavra para estes mentirosos: desonestos. Pessoas que se especializam em instrumentalizar a verdade. Em fazer dos acontecimentos plasticina. Em dizer: isto nunca aconteceu; nunca disse isso; nunca fiz aquilo; não sei quê passou-se assim e assado – quando sabem que isto aconteceu, que disseram isso, que fizeram aquilo, que não sei passou-se tal qual ao contrário. É exasperante. Mas talvez ainda pior e mais exasperante que isso de mentir por sistema é que os desonestos tendem a acusar outros de fazerem o que eles fazem. Por não terem imaginação para um carácter que não o seu, para se diluírem na multidão, mas, sobretudo, como uma forma mais de desrespeitar a ideia de verdade.
E se calhar está na altura de explicitar a importância da verdade (e não, não vou perguntar, como Pilatos, “o que é a verdade” – para o caso, essa pergunta, que faz todo o sentido, não adianta). De onde vem o tal “valor específico”? Poderia dizer que é porque nos faz sentir melhor, mas o desonesto sente-se bem a fazer o que faz – a mentira, se lhe é útil, é um bem para ele. Poderia dizer que é porque uma divindade qualquer (ou várias) nos vigiam e nos dão notas em função do nosso comportamento – mas não acredito nisso, nem um niquinho. Não: a verdade é uma espécie de pacto com os outros – com o mundo. Um contrato que fazemos entre nós e a ideia de exterior, de real. Um penhor de confiança, uma certidão de justiça. Mesmo se é possível sustentar a verdade contra tudo e todos e mesmo assim – sobretudo assim? – ser leal a esse pacto. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 1 de novembro)
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
