Domingo, 8 de Novembro de 2009

Tive ontem o enorme privilégio (sim, privilégio, embora proporcionado a todos e de forma gratuita), que vou continuar aliás a ter hoje, de poder visionar as oito horas e outros tantos capítulos da série documental A Guerra Filmada, realização de Trinidad Aguirre. Trata-se de uma série produzida pela televisão pública espanhola e pela Filmoteca de Espanha, em 2006, no 70.º aniversário do início da guerra civil espanhola, e agora exibida, em duas sessões, dia 7 e 8/11, com repetição dias 9 e 10, entre as 15 h e as 19 h, no Centro de Congressos do Estoril, no âmbito do Estoril Film Festival. Como explicou ontem o director da Filmoteca Espanhola, José Maria Prado, o material cinematográfico foi pesquisado em diversas Cinematecas europeias, incluindo a portuguesa, bem como nos arquivos da ex-URSS e ex-Jugoslávia. A série é composta por filmes de propaganda de ambos os lados beligerantes, bem como por reportagens realizadas enquanto ocorria esse terrível conflito, onde não existe qualquer espaço para uma impossível neutralidade. Lembre-se que se tratou de uma guerra civil relativamente à qual os contemporâneos a nível mundial tinham de tomar partido.

Os autores da série, que tiveram o cuidado de mostrar filmes dos dois campos beligerantes, optaram por manter a montagem original e a voz off originais, sendo apenas cada capítulo introduzido pelo historiador Julián Casanova. Embora os filmes sejam de propaganda, realizados tanto pelo campo republicano e das Esquerdas, como pelo do Exército sublevado e golpista de Franco, da Falange, das Direitas reaccionárias e da Igreja católica, retratam o ambiente, a vida quotidiana, as classes sociais, as campanhas da guerra, bem como a luta política, social e religiosa…

 

O que me espantou foi o enorme entusiasmo revolucionário, a pulsão libertária, emancipatória e igualitária que se vislumbra do lado republicano. É que tenho de confessar. Mais uma vez, não resisti em tomar partido. Despindo o hábito de historiadora com que assisti de forma interessada a todos os filmes, fossem realizados pelos franquistas, pelos comunistas ou pelos anarquistas da FAI/CNT, tenho que dizer que a minha simpatia foi de novo para um dos campos. É que se as tropas sublevadas comandadas por Franco ganharam a guerra, aliás com o apoio nazi-fascista, e derrubaram o regime republicano eleito, a hegemonia cultural, ideológica e até moral ficou do lado dos derrotados. Devo de facto confessar que vibrei com os hinos do campo republicano e a repetição sem fim da Internacional (que conhecia, desde os anos 60, de um disco em vinil da Chants du Monde). Ainda hoje gosto desses hinos, que não deixei de trautear involuntariamente, embora reconheça que o hino da Falange, Cara al Sol, também é bonito.
Confesso que, mesmo esteticamente, não por acaso, acho os jovens, as mulheres e homens do lado republicano mais bonitos e elegantes, apesar da pobreza do vestuário e dos sapatos de pano bascos. Confesso que também me emocionei com a defesa de Madrid, a chegada das Brigadas Internacionais à capital espanhola, a partida de Barcelona da coluna Durruti e a campanha destes destacamentos libertários e anarquistas da FAI/CNT na frente de Aragão. E, embora reconhecendo que a violência existiu de ambos os campos e que o anti-comunismo e o ódio aos vermelhos de um dos lados era acompanhado pelo ódio anti-clerical e anti-burguês e anti-aristocrática do outro lado, revoltei-me com a propaganda franquista de Salamanca e Burgos e assisti com admiração à forma como eram tratados os abastecimentos na retaguarda de Barcelona, pelos proletários da CNT.
Não posso deixar de esquecer que a República espanhola, cujo governo da Frente Popular foi eleito, foi derrubada por uma parte do Exército através de um golpe de Estado e de uma tremenda guerra civil. Também não esqueço que, durante a guerra, foram fuzilados na retaguarda entre 120 e 150 mil pessoas, e entre 50 e 60 mil do lado republicano. Mas quando a guerra terminou, em 1939 (faz este ano 70 anos), os vitoriosos “nacionalistas” fuzilaram 50 mil derrotados, até 1945. Além disso, prenderam meio milhão de espanhóis e obrigaram à fuga do país de cerca de outro meio milhão (números e dados retirados do artigo «Eles e nós. A guerra civil de Espanha vista atrás da câmara, Público, P2, 7/11/2009, pp. 12-13).
Os 8 de capítulos da série intitulam-se: A República em Guerra; A Espanha Heróica; A Revolução Social; A Defesa de Madrid; Campos de Batalha e Política de Retaguarda; Uma Guerra Internacional; Resistir, Vencer; Até ao Final da Guerra e A Vitória.
            E agora vou a correr para o Estoril, assistir a mais quatro episódios.

7 comentários:
De fernando antolin a 8 de Novembro de 2009 às 18:00

Aconselho a leitura da obra "Spanish Civil War, Revolution and CounterRevolution" do inglês Burnett Bolloten,correspondente da United Press em Espanha e que acompanhou o conflito do lado republicano. É um excelente documento e dá-nos uma visão bem menos romântica do que foi a República Espanhola e o papel do PCE em todo o conflito(e no "antes" do mesmo).Ficam bem evidentes as rivalidades da esquerda, a estratégia de aniquilamento de anarquistas e anarco-sindicalistas por parte do PCE, enfim,um quadro em que as chamadas forças democráticas espanholas da época não saem lá muito bem.É um assunto que me interessa particularmente e sobre o qual tenho lido algo,dos mais diversos autores,sendo que possuo e prezo como documento importante,um diário da guerra civil,escrito por um primo direito do meu Avô paterno e que lutou pelo lado de Franco,alistado na Falange em Valladolid aos 18 anos e depois combatente no exército regular.Este conflito não o consigo ver como preto/branco, tem realmente muitos cinzentos...

cumprimentos


De Irene Pimentel a 8 de Novembro de 2009 às 20:08
Tem toda a razão. Não há nada a branco e preto e as zonas cinzentas são sempre as mais numerosas. Eu é que decidi deixar de lado por uns momentos o "politicamente correcto" (e não o digo aqui de forma pejorativa) e cair no mais completo subjectivismo. Vou tomar nota do livro que me indicou. Também gostaria de ler o diário que referiu. os melhores cumprimentos


De Luís Lavoura a 8 de Novembro de 2009 às 20:49
"a hegemonia cultural, ideológica e até moral ficou do lado dos derrotados"

A hegemonia moral? Desculpe Irene, nem por sombras!

Os derrotados foram, essencialmente, os comunistas estalinistas. Contra-revolucionários, que esmagaram a revolução popular de Julho de 1936 e estabeleceram a reação a essa revolução, com o esmagamento de quem a fez e das suas conquistas.

A Irene tem que aprender umas coisinhas sobre a verdade da Revolução e da contra-revolução (Maio de 1937) espanhola. A história não é nada bonita.

O livro do anarquista Bolloten acima referido será sem dúvida útil. A melhor referência de um observador imparcial sobre a revolução e a contra-revolução espanholas é sem dúvida <i>The Spanish Cockpit</i>, de Franz Borkenau. Se quiser eu empresto-lhe. Certamente que, após ler esses livros, ficará com uma visão bem menos romântica da Guerra Civil espanhola.

Basicamente, foi uma luta entre dois regimes totalitários e contra-revolucionários, cada qual deles pior do que o outro. Entre os dois, que viesse o diabo e escolhesse.


De fernando antolin a 8 de Novembro de 2009 às 21:35
Sobre as simpatias políticas de Bolloten nada posso dizer, desconheço-as.Interessantes são também os escritos de Ramon Salas Larrazábal e José Manuel Martinez Bande,estes mais sobre a parte militar,sendo que Larrazábal escreveu 6 volumes sobre o Exército Popular da República(arranjei-os na casadellibro) muito bons. Não se descure o escrito por Ricardo la Cierva,pese o seu pendor pro-franquista.E como não ler os amargos escritos de Manuel Azaña testemunho privilegiado como ninguém,atendendo ao seu cargo de Presidente da República Espanhola.

E depois pode sempre conhecer-se alguns dos lugares  onde tudo se passou e a mim o que mais me impressionou foi Belchite,perto de Zaragoza ou imaginar o pesadelo da batalha de Teruel,num dos mais frios invernos havidos em Espanha e que transformou a pequena e bela cidade aragonesa num cemitério gelado e destruído.

Entristece-me o que vejo por vezes passar-se aqui "ao lado" e espero que o apelo de Azaña em 1938,no discurso de Mestalla,Paz,piedad y perdón seja ainda e sempre escutado.


De Luís Lavoura a 9 de Novembro de 2009 às 09:13
Burnett Bollotén foi um anarquista.


De Francisco Clamote a 9 de Novembro de 2009 às 00:12
Conheço pouco sobre a Guerra Civil Espanhola, mas fiquei a saber um pouco mais, depois de ler, quer o "post" da Irene Pimentel, quer os comentários que me antecedem. Felicito-os a todos pela elevação com que tratam o tema, até porque não é frequente encontrar em blogues tanto conhecimento e tanta elevação em comentários sobre assuntos políticos. Bem hajam pela lição.


De Luís Filipe Rocha a 5 de Dezembro de 2009 às 20:47
Creio que ficámos lado a lado no primeiro dia de projecção da "Guerra Filmada". Por isso, permito-me chamar a sua atenção para o seguinte: nos primeiro e segundo parágrafos do seu post, a Irene fala dos "dois lados/campos beligerantes"; mas no terceiro, fala de "filmes realizados pelos franquistas, pelos comunistas ou pelos anarquistas." E de facto, no meu entender, na Guerra Civil de Espanha existiram esses 3 Campos, o que distingue o conflito das outras guerras, civis ou não, do séc. XX.


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