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Ricoeur (e Obama)

Para Ricoeur, qualquer forma de pensamento, que se preocupe verdadeiramente com a verdade, tem de incorporar os ensinamentos de Marx, Freud e Nietzsche —que são os três mestres da suspeita. Estes três pensadores são incontornáveis, pois qualquer recuperação do sentido das coisas tem de lidar com a destruição, por eles operada, da ilusão que está na base de grande parte do imaginário e da filosofia modernos: a ideia de indivíduo.

 


Mas atenção: Ricoeur não quer destruir simplesmente a noção de indivíduo e entrar numa espécie de pós-modernismo, que se fascina com noções de diferença e do 'Outro'. Ricoeur pretende recuperar a noção de indivíduo. Mas recuperar não significa simplesmente rejeitar Marx, Nietzsche e Freud. Implica sim fazer algo a que Hegel chamou de aufgehoben (a famosa dialéctica), e que é, simplificando, algo que afirma, rejeita e transcende a 'verdade' inicial (aquela que os três autores referidos destruiram) , procurando uma nova versão que incorpore e transcenda a posição dos seus críticos.

 

Uma das coisas que eu acho fascinante em Ricoeur é a sua coragem intelectual e o respeito pelas opiniões dos outros. Ele é alguém para quem a ideia de verdade se aproxima de um ideal inclusivo, que é algo por construir— e que requer imaginação e capacidade de lidar com aquilo que aparenta ser pura oposição. Ele é alguém —e esta é só para chatear o RAF— que soube pôr em prática aquilo a que Hegel chamou a 'identidade do idêntico e do não idêntico', que não é mais do que o reconhecimento de que a universalidade que alguns pensam já ter encontrado é um projecto sempre por realizar, que requer simultaneamente o trabalho criativo da imaginação e uma fé na sua possibilidade.

 

Só para terminar, a religiosidade de Ricoeur, baseada sobretudo numa interpretação criativa de textos religiosos, foi aquilo que lhe permitiu fundamentar esse ideal de universalidade futura. O seu Cristianismo era o oposto do dogmatismo, da certeza e da intolerância que infelizmente abundam na religião (mas não só...). O seu Cristianismo era o de uma religião do amor e da esperança, profundamente comprometido com o espírito do tempo e sem recurso a qualquer tipo de dogmas. Esse cristianismo é, na minha opinião, o único que merece respeito e admiração. Curiosamente é o mesmo tipo de religiosidade que eu vejo em alguém como Obama. Talvez por isso, dou por mim a olhar para as suas referências a Deus e à religião sem me sentir minimamente incomodado. E muito menos considero que a sua religiosidade, que é obviamente parte integrante do seu projecto político, colida com qualquer ideal de secularismo.

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