Terça-feira, 10 de Novembro de 2009
No Prós-e-Contras de hoje, José Manuel Pureza disse discordar da estratégia de crescimento económico defendida por Pedro Silva Pereira e Basílio Horta. Para o líder do grupo parlamentar do Bloco o caminho é outro: mais do que criar as condições para reduzir a dependência de energia importada; mais do que minimizar os custos associados à situação periférica de Portugal; mais do que aumentar as qualificações dos nossos trabalhadores; mais do que modernizar o nosso tecido produtivo, o importante é redistribuir a riqueza gerada. Para aumentar o PIB e combater o desemprego, o Bloco propõe que se investa na reabilitação urbana. Só este tipo de investimento tem impacto no imediato, diz o Bloco. O que o PS propõe demora tempo, e, por isso, não serve. O bloco defende um voluntarismo sem princípio da realidade: se existe um problema, o Bloco acha que tem de haver uma solução — imediata, entenda-se.
José Manuel Pureza acha que todos nossos desequilibrios estruturais se resolvem através de um simples choque da procura interna — e acha que a coisa se podia fazer de forma instantânea. Competitividade é sermos como os lá de fora: ter cidades arranjadinhas e ter salários, pensões e prestações sociais iguais aos da Suécia — e tudo isto depende, simples e exclusivamente, da existência de vontade política. A coisa só ainda não se resolveu porque o PS pratica uma política de direita e não é suficientemente sensível aos problemas da pobreza e das desigualdades. Se criássemos os imposto sobre as grandes fortunas; se aumentássemos a progressividade do IRS; se forçássemos os bancos a pagar uma taxa efectiva de IRC mais elevada; se abolíssemos os offshores; se aumentassemos os salários, as pensões e o subsídio de desemprego; se proibíssemos os recibos verdes, Portugal seria um país justo e próspero. A receita parece simples. Se há pessoas que acham que o país não cresce porque temos tido governos estúpidos — o que Medina Carreira diz pode ser entendido deste modo —, o Bloco diz que falta sensibilidade social.
Se excluirmos as nacionalizações, o imposto sobre as grandes fortunas e o fim dos offshores (por não ser possível Portugal fazê-lo unilateralmente, não por não achar que os offshores são um problema), tendo a concordar com a agenda redistributiva do Bloco — e não me parece que estas propostas andem assim tão longe das preocupações do PS; pode haver uma diferença de grau, mas a coisa fica mais ou menos por aí. O problema é que José Manuel Pureza confunde redistribuição e justiça com crescimento económico, e acha que a pobreza e os desequilibrios do país se resolvem "taxando os ricos". Aumentar a justiça e a equidade social é certamente uma agenda importante — o PS fez esforços importantes nesta área, mas pode ser ainda mais ambicioso —, mas, e apesar do que diz o Bloco (e o PC), não é apenas por aí que resolvemos os problemas do país. Redistribuir é necessário, mas não é suficiente.
É sobretudo o populismo, assente num discurso anti iniciativa-privada, que priva o Bloco de uma estratégia de crescimento económico sustentável. A reabilitação urbana — que, diga-se, também consta do programa do PS — é importante, mas é absolutamente irrealista considerar que esta medida, por si só, garante o crescimento económico de que Portugal desesperadamente necessita. O problema da estratégia do Bloco não é só a tendência para diabolizar a iniciativa privada; o problema é que o Bloco fala de Portugal como se o mundo e as pressões associadas à globalização não existissem. Só assim se entende que confunda competitividade com justiça e inverta a relação de causalidade entre, por exemplo, salários e riqueza. Não digo, como alguns à direita, que só podemos redistribuir depois de crescer, mas parece-me evidente que nao podemos implementar uma agenda redistributiva sem atender também ao problema do crescimento da economia.Se para os liberais crescimento é justiça, para o Bloco a coisa inverte-se — uns e outros partilham de uma visão simplista e redutora da dos problemas estruturais da economia portuguesa, refugiando-se em chavões ideológicos sem atender àquilo a que se convencionou chamar realidade.
O bloco desvaloriza o duplo compromisso — competitividade e solidariedade —, pois o combate à pobreza e ao desemprego surgem como independentes do processo de transformação e requalificação da economia, ou melhor, para o Bloco, requalificar é equivalente a redistribuir. Posso estar a ser injusto, mas, por exemplo, não me parece que as propostas do Bloco incluam uma única medida aponte para uma maior competitividade dos nossos bens transacionáveis, e sem esta torna-se difícil de entender como podemos corrigir parte dos nossos desequlibrios e garantir a sustentabilidade da economia portuguesa (leia-se: sustentar o modo de vida que entendemos dever ser o nosso) Se é certo que os baixos salários são um problema, não me parece que aumentá-los constitua uma solução. O nosso atraso não se elimina por decreto. Dizer que Portugal é pobre porque redistribui mal mostra como a verdadeira esquerda que o Bloco diz representar é, verdadeira ou não, uma esquerda incapaz de lidar com a realidade. Para começar, era bom que o Bloco abandonasse a tese de que a única razão pela qual os nossos salários são baixos é porque ainda ninguém se lembrou de os aumentar. Não é tudo, mas seria um bom começo.
De Sejeiro Velho a 10 de Novembro de 2009 às 11:52
Num Mundo globalmente capitalista, destruir o capitalismo num país com a nossa dimensão, teria como consequência a curtíssimo prazo, a redução para metade do nível de vida médio nacional. Seria bom que isso acontecesse a nível mundial, mas localmente seria um desastre. Não seria, porque a população faria de imediato um "24 de Abril".
De Sejeiro Velho a 10 de Novembro de 2009 às 12:01
Num Mundo globalmente sob regimes capitalismos, atacar o radicalmente o capitalismo num país como o nosso - pequeno, periférico, dependente, sem matérias primas, sem terrenos agrícolas férteis - provocaria, a curtíssimo prazo, um colapso económico, com a redução para menos de metade do seu nível de vida actual (aliás artificial). Não chagaríamos a isso, porque a população faria de imediato um "24 de Abril".
De nuvens de fumo a 10 de Novembro de 2009 às 12:17
É off topic, mas acho que merece um minuto.
Quando os senhores patrões deste país tanto falam das baixas fraudulentas, quando se ouve os gestores queixrem-se da preguiça do trabalhador, imaginamos o fabril, o desgraçado, etc
ISTO
http://dn.sapo.pt/inicio/tv/interior.aspx?content_id=1416115&seccao=Media
merecia mais atenção por todos os motivos.
Haja decência, isto mete nojo
As soluções do Bloco (que em parte são também as do PC) parecem à primeira vista, e de um ponto de vista de esquerda, razoáveis. O problema é que para se distribuir riqueza é preciso que ela exista. E a criação de riqueza é o problema do país há muito tempo. E uma vez que somos um país descapitalizado, para criar riqueza (através do crescimento económico) necessitamos de investimento externo. Não me parece possível atraí-lo com nacionalizações e códigos laborais blindados, que favorecem que tem emprego e não a empregabilidade do maior número possível de trabalhadores. Assim, a cura poderia resultar numa melhoria fugaz e, em seguida, numa recaída provavelmente fatal.
Rui, lá estás tu com o neoliberalismo
É mais forte que eu
certamente saberás:
que Portugal está no fim da tabela da OCDE no que toca às discrepâncias entre ricos e pobres, logo, há de facto um problema na distribuição. Nada que assuste o PS. Pelo menos enquanto a maior fatia do bolo for para os varas do costume...
que a reabilitação das escolas (que seria um bom começo para as PME's desafogarem) está blindada a essas mesmas PME's por estarem obrigadas a ter 5 estaleiros em 5 diferentes distritos...
querem mais produtividade: alarguem os prémios indexados ao lucro também aos trabalhadores, premiando o mérito e o esforço. Isso sim seria uma boa medida e agradaria à esquerda e ao PS. As pessoas produziriam mais porque tal se repercutiria ao ordenado, e as empresas lucrariam mais por ver aumentada a produtividade.
Ou achas que só se deve premiar a boa gestão e que só os gestores merecem incentivos?
MFL é que disse que o aumento para 450€ do SM era escandaloso. Por favor, não sigas esse caminho!
Caro Viseu,
Ninguém questiona que Portugal tem um problema grave de desigualdade. O problema é achar que isso se resolve apenas com redistribuição da riqueza. Parece-me injusto não reconhecer os esforços do PS nesta área. Mesmo achando que se pode fazer mais, dizer que PS é igua à direita é pouco sério e não cola com a realidade.
Quanto à reabilitação das escolas, acha credível que se faça centenas de concursos públicos incluindo milhares de PME's da área da construção? Como em tudo, há trade-offs e escolhas. E centralizar concursos poupa dinheiro.
Quanto à avaliação: que eu saiba o sistema de avaliação da função pública já premeia o desempenho. Consta que os sindicatos querem abolir a coisa, mas pode ser que esteja mal informado.
Cumprimentos,
Joao Galamba
Boa prosa.
Se a desigualdade injusta é um problema que não se resolve com mais riqueza injustamente distribuída, a pobreza justa também não será certamente a melhor solução, porque aí nem os pobres se satisfariam!...
O problema fulcral é mesmo este: como conciliar desenvolvimento com justiça. Porque atingir apenas um destes objectivos, equivale a deixar tudo na mesma!
De Zé dos Reis a 10 de Novembro de 2009 às 16:47
Voltamos sempre ao mesmo dilema, queremos acabar com os pobres ou acabar com os ricos?
De José Viegas a 10 de Novembro de 2009 às 18:53
Muito bom texto.
Creio que falta uma palavra na última frase:
"(...) é porque ainda [ninguém] se lembrou de os aumentar."
O comentário de Rui Herbon, só agora lido, faz-me voltar ao assunto.
Penso ser um dos maiores sucessos da publicidade ideológica a criação do mito, explorado até à náusea, de que "para distribuir riqueza, é preciso (primeiro) criá-la". Atribuo o mérito autoral a Sá Carneiro (mas posso estar enganado).
Há muito que me parece de uma ingenuidade atordoante continuar a crer nesta falácia, porquanto é óbvio para qualquer mente desempanada que, se não houver já justiça na distribuição do que existe, dificilmente a haverá quando a riqueza aumentar!
Penso poder aqui aplicar-se uma metáfora básica e acessível a todos os estádios de desenvolvimento intelectual (embora apelando ao imaginário rural), que resumiria assim: em casa onde os filhos comem pão seco e o pai pão com chouriço, dificilmente os primeiros acreditam que, se trabalharem mais, o resultado não será comerem eles pão com chouriço e o pai bife do lombo, ou mesmo lagosta.
Porque tem sido efectivamente este o resultado do capitalismo neo-liberal do mundo pós-guerra fria, com meritória excepção dos Países do Norte da Europa, onde me parece vigorar o regime económico historicamente mais próximo, na prática, dos ideais socialistas, sejam eles os "utópicos", ou os "científicos".
E só poderemos inverter, ou melhor, superar este círculo vicioso se, ao mesmo tempo que pedimos mais esforço e sacrifícios aos pobres e desfavorecidos para ajudar a "criar mais riqueza", começarmos logo ali, à cabeça, a dar passos concretos e decisivos para distrubuir de forma mais justa e equitativa (outro mundo de discussão..) a riqueza QUE JÁ EXISTE!
Voltando à metáfora, se o pai começar logo a trazer umm pouco de toucinho para o pão dos filhos e a comer menos chouriço e mais azeitonas com o seu, talvez seja mais fácil cativar o empenho dos filhos quando lhe prometer um mundo em que eles possam comer já um cachorro e uma mini, enquanto o pai se satisfará, em vez da lagosta, com um franguinho da Guia (que, como a experiência do Capitalismo prova, acabará sempre por se descobrir, afinal, ser bastante mais uma bela posta de cherne, mas aí os filhos até poderão dar o desconto...)!
Desculparão a linguagem de leigo, mas no fundo o que conta é mesmo o conteúdo (que me parece bem claro).
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