Terça-feira, 10 de Novembro de 2009

o daniel tem razão quanto à calhandrice e ao machismo. mas nada disso é novo -- tem sido aliás um vê-se-te-avias -- e por esse motivo não especialmente digno de nota, mesmo se como de costume obsceno e deplorável, no post a que se refere. parece-me que a questão mais, digamos, relevante (se se pode usar este qualificativo para algo que venha daquilo) é outra.

 

talvez por estar com a história do muro e de tudo o que ele significa tão fresca -- estive a semana passada em berlim em trabalho para o dn e jn -- e por, na reportagem que fiz sobre berlinenses 'comuns' me ter cruzado com os relatos de um quotidiano vigiado, amedrontado, em que tudo -- a começar pelo mais privado -- era pasto de espiões e informadores e matéria de acusação e condenação quando considerado 'ilegítimo' (o que é dizer em desacordo com a visão dos que mandavam), encontrei naquele arrazoado a clara evidência da mesma atitude, ou, melhor dito, da mesmíssima ideologia.

 

é evidente que as tomadas de decisões políticas são discutíveis e sindicáveis, e o autor daquele post pode ter a opinião que entender sobre o que leva alguém a decidir-se por esta ou aquela posição política. pode até -- por que não? -- interrogar-se sobre a influência que estas ou aquelas pessoas ou relações (imagino por exemplo que um político católico com um confessor/orientador fixo poderá ser bastamente infliuenciado pelo mesmo) poderão ter sobre essas atitudes, desde que, bem entendido, as relações em causa sejam públicas, o que significa publicamente assumidas, e que o próprio tenha caucionado essa publicitação (sob pena de se estar a falar com base em mexericos, o que torna a coisa, além de idiota, assim para o canalha). mas seria por exemplo absolutamente execrável aventar que por exemplo o presidente da república veta diplomas alvo de desaprovação da igreja católica não porque é católico e porque isso está de acordo com aquilo em que crê, ou seja, com a ideologia que o norteia (mesmo que possa para tal solicitar e considerar opiniões a muita gente, incluindo padres), mas porque o seu confessor/orientador da mesma igreja o ameaça com o fogo dos infernos caso o não faça. e ainda mais execrável (sobretudo vindo de um jurista, coisa que, ouvi dizer, aquela pessoa é) comparar a influência 'espiritual' desse orientador/confessor com o lobbying para aprovação de uma lei qualquer que permitiria ao orientador/confessor ou à organização de que faz parte (por hipótese) averbar uns lugares bem pagos ou estender a respectiva influência em áreas nas quais estão interessados.

 

e esta atitude/ideologia é execrável porquê? pelo que revela de incapacidade de aceitar a ideia de liberdade e de respeitar os processos de formação de convicções alheios, colocando-os sob suspeita permanente e sob policial escrutínio. é execrável e revoltante pelo que revela de absoluta indignidade -- a da menção de alegadas relações íntimas e privadas para 'explicar' a formação de convicções e para apoucar essas mesmas convicções, apresentando-as como fruto de pressões que se insinua serem suspeitas, imorais, quiçá ilegais. a visão do mundo que está contida no post a que o daniel faz menção não é só pobre e alcoviteira. é sobretudo totalitária no sentido em que revela uma vontade de tudo controlar, de tudo censurar, de tudo policiar, de tudo ter o direito de saber, escutar, sindicar e, o que não é o menos, aprovar ou reprovar, aceitar ou condenar. é afinal essa ideia monstruosa que está em causa: se há algo com que esta pessoa não concorda, se alguém defende uma posição que lhe parece errada, esse algo ou essa posição só podem ser fruto de um qualquer 'desvio' ético, de um qualquer processo menos claro, de um tráfico qualquer.

 

faltava, claro, ao autor do post, que se auto-elogia a coragem de 'ir mais longe' que outro pobre espírito citado, ir até ao fim do argumento e explicitar que 'remédio' prescreve para o que tanto o atormenta. quererá ele decidir com quem se dão, falam e a quem dão atenção e crédito os tomadores de decisões políticas? quererá determinar que as pessoas com quem esses decidores se dão jamais podem em público dar opiniões sobre seja o que for (o que, como é óbvio, está longe de lhe resolver o problema)? quererá decidir sobre o quê e em que circunstâncias podem essas pessoas dar opiniões? quererá talvez remetê-las à clandestinidade, ao exílio social, ilegalizá-las? ter coragem seria explicitar a sentença, a deliberação, a vontade. a coragem, claro, de ser completamente completamente stasi. ou inquisidor -- fascista, enfim.

 

resta assinalar a parte divertida da coisa. certificar que poucas coisas me orgulhariam mais que ter algum motivo para crer que as minhas opiniões sobre o casamento das pessoas do mesmo sexo, há muitos anos pública e privadamente expressas -- e não haja dúvidas que as exprimo sempre que me surge uma oportunidade, como aliás faço em relação a tudo o que, como é o caso, me merece tomadas de posição vigorosas -- contribuiram de algum modo para que acabe a discriminação dos casais do mesmo sexo no acesso ao casamento. parece-me aliás que tal está muito longe de constituir segredo. não precisa de esforços policiais ou mexeriqueiros de nenhuma espécie, do testemunho de nenhum vizinho, de vídeos, gravações ou do concurso de 'escutas ambientais' para ser comprovado: está na cara.

 

há, parece, quem chame a isto 'pôr-me a jeito'. eu chamo-lhe existir. se não se importam -- e mesmo que, como é o caso, se importem. e tanto.


11 comentários:
De fernando f a 11 de Novembro de 2009 às 00:04

Do longo post, retenho duas palavras, stasi e existir. Stasi</a> em vez de pide denuncia que da longa noite, só apanhou a madrugada. Existir é isso, é  fazer-se ouvir, expor-se em nome daquilo em que se acredita. Caso tivesse nascido bem dentro da noite, acredito que teria tocado todas as trombetas.


De f. a 11 de Novembro de 2009 às 00:27
caro fernando, subentende-se. ou acha q tenho de falar de todas as polícias políticas? mas a stasi vem a propósito não só da data que se celebrou como do filme q dá nome ao post e, sobretudo, do facto de ter feito da vigilância de todos por todos uma imagem de marca. dir-m-á q todas as polícias políticas têm essa determinação, mas umas são mais bem (portanto mal) sucedidas q outras. creio q a stasi, felizmente p nós, era bem mais eficiente q a pide.

 


De David Oppenheimer a 11 de Novembro de 2009 às 09:00
Belo post , Fernanda. Ainda bem que não se deixa intimidar.


De Joao Fernandes a 11 de Novembro de 2009 às 10:05
JAS e VLX dizem sóbrios o que este senhor diz bebâdo: http://www.youtube.com/watch?v=9L-O28YdUTo (http://www.youtube.com/watch?v=9L-O28YdUTo)


"a liga tem que inbestigar"


Que baixaria...


De joão viegas a 11 de Novembro de 2009 às 10:26

Pois, não digo que não.

Mas por muito certeiras que sejam estas considerações, e as do Daniel de Oliveira, nada como ir ler o post comentado para medir a indigência argumentativa total e verificar, concretamente, o repugnante esterco inseparavel das categorias morais do autor do mesmo.

Aquela merda até vem assinada e tudo. Não sei quem seja o animal. Prefiro não tentar saber, não va eu descobrir que ele tem, no meu pais, uma posição social, que lhe passaram diplomas universitarios, que arrota postas em periodicos com mais de 5 leitores. Tudo razões de sobra para armar barricadas ja...

Estamos a atingir patamares preocupantes, é o que eu digo.


De fblourido a 11 de Novembro de 2009 às 10:59
Por vezes, e penso, cada vez mais amiúde, encontro neste País concidadãos que me envergonham. 'Ponha-se a jeito' dempre que puder. Saiba, se é que não o sabe - não tenho dúvidas que assim é -, que existem pessoas que desprezam este tipo de atitude. Não serão poucas, penso.


De Isabel Moreira a 11 de Novembro de 2009 às 11:00
Este texto é uma lição. Maravilhoso, F.


De Irene Pimentel a 11 de Novembro de 2009 às 11:04

Post magnífico e muito certeiro. É mesmo uma questão de mentes totalitárias.


De Ana Matos Pires a 11 de Novembro de 2009 às 11:41

Essa é a verdadeira (e grave) realidade, Irene, e aparentemente ainda sem a desculpa da senilidade, pelo menos no presente caso.


De Palmira F. Silva a 11 de Novembro de 2009 às 13:06
Sem dúvidas uma pulhice fruto de mentes totalitárias com espírito de rata de sacristia que, à falta de capacidade de existirem, se entretêm em mexeriquices deste baixo nível.


De Marcelo do Souto Alves a 11 de Novembro de 2009 às 11:23
           Enfim, até as coisas mais torpes têm o seu lado positivo: é um grande prazer ler este luminoso texto, que exprime magnificamente tudo aquilo que nós instantaneamente sentimos, mas que dificilmente conseguimos verbalizar, quando nos atigem os fundamentos viscerais onde se gera a cólera.



         Pena é que o motivo para ele ter sido escrito seja a prova indesmentível de quão vil e ignominioso nível o debate político atingiu já em Portugal!



              Sinceramente, quando aos catorze anos recebi a inestimável bênção do 25 de Abril, nunca pensei que, no meu País, se pudesse vir a retroceder tanto, em termos morais, três décadas passadas...


Comentar post

Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Fernanda Câncio / f.
Gonçalo Pires
Inês Meneses
Irene Pimentel
Isabel Moreira
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão / mj
Maria João Pires
Miguel Vale de Almeida
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Rogério da Costa Pereira
Tiago Julião

correio | twitter | facebook

Novembro 2009
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9


22
23
24
25
26
27
28

29
30


artigos recentes

Os fora da lei

a estrada

listas

T(ão) B(om)

Climategate

Há muita cobardia no ar

eu, abaixo assinada, depl...

Obrigatório ler

little things in between

Lá fora

I've a feeling we're not ...

O Orçamento Participativo...

Pausa para café...

Mitos

História

últimos comentários
Esse é exactamente o tipo de comentário cretino qu...
Maria, os perdedores são uma maçada. Que façam pel...
A estrada terminou para Jorge Ferreira,do "Tomar P...
Caro nuvens, Aí é que está o problema, se os tives...
passar das palavras aos actos.
Se ler artigos cientificos passa-lhe isso.Se andar...
oh, mas nos actores judiciais nunca há conflitos d...
Hum... parece que andamos todos a pescar a mesma f...
Concordo... Da mesma maneira que por exemplo a Cim...
Que a crise passe? Sempre me impingiram a crise em...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds

 

 

 

 

online