a malta que anda para aí a falar de juízes -- mais concretamente de um juiz -- e lhes chama, assim tipo piada giríssima, 'meretíssimo' fazia bem em dar uma volta nos dicionários. basta um, aliás.
(Do lat. meritissìmu-, «digníssimo; justíssimo»
É uma caraterística da pronúncia lisboeta, trocar por e o primeiro de dois is em sílabas subsequentes.
Assim: ministro --> menistro; militar --> melitar; definido --> defenido; meritíssimo --> meretíssimo.
Os lisboetas falam assim, o que se há-de fazer. E depois transpõem para a escrita os seus erros de pronúncia.
Olhe que não há erro de pronúncia nenhum dos lisboetas, Luís, não seja tão aporessado. Encontrará muito facilmente explicações sobre o tema. Por exemplo aqui de onde retiro este excerto
"Não é de hoje que data a influência da escrita sobre a pronúncia. Por via dela, vemos muito boa gente, mormente entre as pessoas chamadas cultas, fazer os maiores esforços para contrariar as tendências e a índole tradicional da língua, e conseguir, com maior ou menor êxito, estropiar algumas dúzias de palavras.
Dá-se o caso, por exemplo, nos vocábulos, em i tónico precedido de sílaba que contém outro i: ministro, vizinho, etc. Qualquer sujeito que usa colarinho e gravata julgar-se-ia desonrado se não torcesse a boca toda para pronunciar mi-nis-tro; e a senhora que se preza de saber falar e lê romances, franceses, trava infindáveis conversas com a vi-zi-nha do lado, como ela lhe chama. E ambos, para tornarem bem audível esse i pretónico, dão-lhe duração igual à do i tónico. Ora isto é contrário às normas da pronúncia do português europeu, em que a maior quantidade silábica pertence à sílaba tónica.(...)"
ou aqui, texto bem mais curto:
"A pronúncia com e e não com i na sílaba ci deve-se a uma dissimilação dos dois ii, muito antiga na língua portuguesa. Neste caso, ín – i passou a ín – e (e mudo); outros exemplos são ministro ou vizinho, cujos primeiros ii também soam como e mudo na pronúncia normal do nosso país. Quanto a princesa, o seu étimo é o francês princesse, antiquíssimo galicismo."
Ou com muito mérito. É suposto todos os Juízes terem muitíssimo mérito, daí serem "meritíssimos".
(Meninos, prestem atenção à aula e não se riam mais, por favor...)
Daí até serem considerados (em primeiro lugar, pelas suas próprias estruturas sindicais) todos absolutamente infalíveis e, na prática, inimputáveis é um simples passo de pardal, uma questão de mero pormenor...
(Pois, aqui a história começa a não ter graça nenhuma)
Para além do mais, os Juízes consideram-se, muitos deles pelo menos, não funcionários públicos, mas antes "órgãos de soberania"!
(se se rirem assim outra vez vão todos lá para fora e eu vou fazer queixa ao Presidente do Conselho Executivo, que até é um banana, mas é filho de um Juíz...)
De
Laura a 13 de Novembro de 2009 às 18:56
perdoe-me (talvez) a ignorância, mas os magistrados, não são, de facto, um órgão de soberania? Não são eles os detentores do poder judicial?
Cara Laura, órgãos de soberania serão, se assim o quiser, os Tribunais, enquanto sede legítima do Poder Judicial.
Contudo, por maior relevância que os Juízes detenham, colectiva e até individualmente, dentro de um Tribunal, não chega para poderem ser tratados, eles próprios, como "órgãos de soberania", pois aquilo que fazem dentro dos Tribunais, mesmo o seu papel mais nobre - julgar os outros -, não só está sujeito a regras estritas e a escrutínios vários (ou seja, é uma soberania por assim dizer colectiva), como no fundo nunca deixará de constituir em larga medida uma missão profissional! Que, como qualquer profissão, também deve estar balizada por regras laborais (ou não têm até os Juízes uma Associação Sindical?)!
Por isso, os Juízes são "apenas" funcionários, sem dúvida os mais importantes, mas ainda assim FUNCIONÁRIOS (públicos, pois claro), dos verdadeiros órgãos de soberania que são, esses sim, os Tribunais.
Penso que será fácil perceber melhor, se pensar no ridículo que seria dizer que Cavaco Silva (ou Jaime Gama) são também eles, tal como os Juízes, "órgãos de soberania"...
Embora, atenção, haja uma substancial diferença entre os órgãos de soberania Tribunais e os restantes, diferença esta onde talvez resida, aliás, o fulcro deste fatal equívoco: é que, ao contrário de todos os restantes Órgãos de Soberania, nos Tribunais o poder não se conquista democraticamente nas urnas, mas sim provém unicamente de escolhas de cariz ACADÉMICO E PROFISSIONAL, onde o critério basilar deverá ser o de mérito, pelo que nunca seria possível equiparar o desempenho de um cargo político obtido pela via democrática a um cargo com poderes de soberania, sim, mas cuja lógica de obtenção não é política, mas sim estritamente corporativa e laboral.
De g_l a 13 de Novembro de 2009 às 12:14
Acerca da influência da pronúncia sobre a escrita:
"prescrutar", "prespectiva" (esse erro, normal e recorrente nos jornais), "prefazer". Lembra-me sempre a palavra castelhana "pregunta".
Curiosamente, quando se referem ao cargo executivo municipal utilizado no Brasil, insistem em escrever "perfeito" (outro erro banalizado na nossa imprensa).
Hoje em dia, com a Internet e correctores de texto, não se percebe.
Está de acordo com o estado da Justiça: digamos que meretíssimo é o passo intermédio entre meritíssimo e meretríssimo.
De Anónimo a 13 de Novembro de 2009 às 12:22
Pá, mais uma achega etimo-psico-antropológica para a questão: talvez confundam os juizes com putas e então o que queriam dizer mesmo era "meretrissimo".
Pedro
De pt a 13 de Novembro de 2009 às 13:07
Ainda bem que abrevio sempre para Mmo. ou escrevia mal quase de certeza.
Olha tu, já trataste do polvo?
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