Sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

ainda não li a decisão citada -- tenho tido mais e melhor que fazer -- mas conheço os termos (de resto, extraordinários) daquela de que recorri. em todo o caso, e porque agora não tenho muito tempo, vamos ver se percebi (e se percebemos todos, porque isto, caso ainda se não tenha percebido, diz respeito a todos):

 

não atenta contra a reserva da intimidade quem identifica publicamente outra pessoa com base numa sua relação íntima, sem que esta a isso autorize;

 

a matéria em causa --  identificar uma pessoa com base na sua alegada relação íntima -- era 'do conhecimento público' (não interessa pelos vistos perceber como -- isto é, por que meios e com que legitimidade e rigor e deontologia jornalística é que terá chegado ao 'conhecimento público') e de 'interesse jornalístico' (será o mesmo que o interesse de vender jornais/revistas/folhas de couve? seria muito muito interessante que a comissão explicasse que é que considera interesse jornalístico, embora fiquemos desta forma com uma ideia).

 

apesar de haver 'conhecimento público' e 'interesse jornalístico', afinal não há infracção disciplinar porque 'tal relação afectiva foi assumida na biografia autorizada do primeiro-ministro'. esta parte é das mais interessantes desta curta notícia e também da decisão da comissão. quem lê fica obviamente com a ideia -- foi com esse objectivo que a coisa foi pensada -- de que na dita biografia (que se apelida de autorizada para significar que foi como que escrita ou pelo menos toda aprovada pelo biografado, o que a comissão se exime de provar ou sequer de consubstanciar) o biografado 'assume' a tal dita relação. por acaso é falso. mas o mais relevante nem sequer é isso -- é que em relação à queixa de alguém que considera não dever ser qualificada com base numa eventual relação íntima, uma comissão composta essencialmente por jornalistas decida que basta para a qualificar como tal a existência de uma (não existente, de resto) assunção da outra parte da alegada relação (que terá sucedido ao princípio do contraditório? à necessidade de atender a 'todas as partes'? e, já agora, à mera decência?)). é de facto muito bom.

 

por fim: a queixosa/recorrente 'não podia ignorar a repercussão e as apreciações que as suas opiniões coincidentes com as manifestadas pelo chefe do governo teriam'. a ver se percebemos também esta: se uma pessoa não só tiver opinião como for chamada a dá-la sobre um determinado assunto, deve sempre ter o cuidado de certificar que não é nem de perto nem de longe coincidente com a de alguém com quem tem ou julgam que tem uma relação íntima, para não correr o risco -- ou merecer, pelos vistos -- que apresentem a sua opinião como sendo 'apenas' a de alguém que tem uma relação íntima com o outro, desqualificando-a assim -- à pessoa e à opinião -- por completo.

 

voltarei a este assunto quando tiver mais vagar. para já, e para se perceber como pode haver opiniões um bocadichinho diferentes, atente-se a este excerto de um parecer do conselho deontológico do sindicato dos jornalistas sobre o mesmo assunto:


'Classificar de tecnicamente incorrecta e deontologicamente reprovável o enfoque e identificação da jornalista como sendo "namorada de" nos títulos e destaques das notícias, em análise, elaboradas pela SIC, Correio da Manhã e Expresso.'

 

 adenda: a propósito destes assuntos, um velho texto do provedor do dn, com respostas minhas, de judite de sousa e ricardo costa


12 comentários:
De maiquelnaite a 13 de Novembro de 2009 às 12:28
Olha os namorados, primos e casados!


De Fernando Pratas a 13 de Novembro de 2009 às 12:31
Fernanda, tem toda a razão. Mas é ou não é?


De fernando antolin a 13 de Novembro de 2009 às 15:23
caro homónimo Pratas: discordo da f. em 300% das vezes, mas aqui o que é que temos a ver com isso , do é ou não é ??


De Zé Carioca a 13 de Novembro de 2009 às 12:39
Se eu bem entendo, neste assunto têm sido debatidos dois temas:

(i) se é ou não do conhecimento público que sicrano é namorado de fulana, como se chegou a esse conhecimento público, se esse alegado fato, sendo ou não do conhecimento público deve ser mencionado na comunicação social;

(ii) se fulana, admitindo-se que é efetivamente namorada de sicrano, deve evitar comentar as atividades de sicrano ou do governo de sicrano ou, se o fizer, se deve tornar público a existência dessa relação afetiva ou mencionar a existência de um conflito de interesses.

(Neste último assunto, acho até que quando Fernanda escreve melhor é quando critica o governo, mas isto foi um aparte.)

Eu proponho um terceiro tema:

(iii) Como nada disto se deve levar muito a sério proponho à Fernanda que verifique junto da tal comissão se a sua alegada condição de namorada do PM lhe dá lugar a alguma precedência no protocolo do estado.


De Nathalie a 13 de Novembro de 2009 às 12:52
Sincèrement, cela m'est égal (que vous soyez ensemble ou pas)... et si jamais vous l'êtes, et bien ca prouve que vous avez bon goût !!!! ;)


De /me a 13 de Novembro de 2009 às 13:47

Eu acho que se deveria referendar se a Fernanda namora ou não com o actual PM.


De m&m a 13 de Novembro de 2009 às 14:18
http://www.publico.clix.pt/Media/fernanda-cancio-continua-a-questionar-expressao-namorada-do-primeiroministro_1409735 (http://www.publico.clix.pt/Media/fernanda-cancio-continua-a-questionar-expressao-namorada-do-primeiroministro_1409735)

já arranjou o carregador do TM?
o Publico  tenta contacta-la, sem resultados.
;)


 


De f. a 13 de Novembro de 2009 às 14:20
esse texto é logo o primeiro lincado no post. pois, o meu telefone tá ali tão quietinho. se calhar mandaram uma carta


De Nathalie a 13 de Novembro de 2009 às 14:33
Ou um mail... veja là se é interceptado... ;)


De Romana Borja-Santos a 13 de Novembro de 2009 às 15:46
Boa tarde Fernanda Câncio,

Tentei contactá-la desde esta manhã várias vezes para o telemóvel e através do número geral do DN (onde me disseram que só estaria da parte da tarde). Tem um email meu desde as 11h17 e enviei-lhe agora mesmo um SMS. No email deixei o meu telemóvel e o contacto directo aqui do jornal. Quando puder entre em contacto comigo.

Atentamente,

Romana Borja-Santos
Jornal PÚBLICO


De Zé Carioca a 13 de Novembro de 2009 às 22:34
Romana,


Pensava que no Público ensinavam a escrever assim:


"...Quando puder entre em contacto comigo SE FAZ FAVOR"


De A.A a 14 de Novembro de 2009 às 18:29

Cara Fernanda,
Venho alegremente propor-lhe que considere namorar comigo. Não terá, com certeza, problemas que alguém pense serem minhas as suas opiniões. E, verdade, eu ficaria tão contente. De resto, não a via sequer a perder tempo com merdas destas.


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