Sábado, 14 de Novembro de 2009

«Geralmente, estamos dispostos a pensar que os nossos hábitos, as nossas convicções, a nossa religião e os nossos políticos são melhores do que os deles, ou que os nossos direitos dados por Deus anulam os direitos deles, ou que os nossos interesses exigem ataques defensivos ou dissuasivos contra eles. (...) Quando estas convicções implicam o sono da razão, o despertar crítico é o antídoto». Simon Blackburn «Pense: Uma Introdução à Filosofia»

 

Diz o Maradona, com  a verve que o caracteriza, que o meu post sobre homeopatetices «é um bom exemplo do que considero ser a vacuidade inerente ao exercicio da promoção da ciência» explicando mais à frente que assim o considera porque a ciência deveria ser  «No fundo, uma puta que trabalhasse de borla, mas que não aborrecesse». E aparentemente o meu post aborreceu mais pessoas para além dos charlatães (homeopatetas mas não só) que me insultam com alguma regularidade.

 

Embora o vazio tenha sido tratado em tom jocoso pelo maradona, que aparentemente nunca ouviu falar do efeito placebo e acredita que a homeopatetice «funciona»,  a verdade é que a homeopatetice e banhas da cobra similares, embora pareçam, não são uma piada e podem ser deadly serious, literalmente, como mostraram os resultados catastróficos na África do Sul  da campanha genocida em relação à SIDA de outro adepto de «medicinas alternativas».

 

No entanto, apesar de a homeopatetice poder de facto ter resultados mortíferos ou fazer mal à carteira dos incautos que caem nas suas garras, a minha maior objecção a estas crenças injustificadas é o mal que fazem à sociedade como um todo.  Melhor que eu, David Colquhoun, catedrático de Farmacologia na Universidade de Londres e há muitos anos um vácuo gerúndio, usando a terminalogia do Maradona, contra obscurantismos alternativos sortidos, explicou no Guardian porquê.

 

«Um aspecto menor do obscurantismo tem sido o ressurgimento de ideias mágicas e supersticiosas acerca de medicina. A existência de homeopatas normalmente não faz muito mal. Os seus placebos não contêm nada e não envenenarão o vosso corpo. O seu grande perigo é que envenenam a vossa mente.

É verdade que consultar um homeopata pode pôr a vossa vida em perigo se isso corresponder a um atraso de um diagnóstico a sério ou se eles recomendarem
placebos para prevenir a malária, mas a objecção mais forte [a estas charlatanices] é cultural. Os homeopatas são a manifestação de uma cultura em que o «wishful thinking» é mais importante que a verdade, uma sociedade em que tudo o que se diga três vezes é verdade e não se olha para os factos».

 

Este envenenamento da forma como se pensa hoje em dia tem consequências mais graves do que pretender tratar o cancro com água sacudida ou pílulas de açúcar. E o post do Maradona explica também porquê quando ele diz  que «não vale a pena promovê-la [a ciência] para além da exposição do âmbito dos seus métodos». Ora o método científico assenta na capacidade crítica para avaliar a autenticidade dos problemas, a solidez de hipóteses, teorias e argumentos, ou seja assenta no pensamento crítico com que deveríamos olhar para todos os problemas, mesmo aqueles que não são passíveis de uma abordagem científica. Assim, aquilo que advoga o Maradona, a quem recomendo vivamente a leitura o post do Desidério «Crítica, direito político e direito epistémico», é o abandono da razão crítica em favor do pensamento mágico.

 

N'«O Mundo Infestado de Demónios: a ciência vista como uma vela na escuridão», Sagan demonstra uma nítida preocupação com o espaço cada vez maior oferecido pelos meios de comunicação a explicações pseudo-científicas e místicas. Como antídoto a este adormecimento da razão em prol do pensamento mágico, apresenta-nos o método científico, ou seja, encoraja os leitores a pensar critica e cepticamente, construindo e racionalizando argumentos, válidos e inválidos, que precisam ser provados de forma independente, racional e lógica.

Num mundo cada vez mais assombrado pelos demónios da razão adormecida, urge reacender as velas de Sagan e estimular o pensamento crítico!  Assim, embora já saiba que vou incorrer no Dies Irae maradoniano, continuarei a desmontar todas as banhas da cobra para que tenha tempo. Porque,  como se inicia o livro de Sagan, «É melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão». Mesmo quando o acender da vela queima alguém que normalmente apreciamos...

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5 comentários:
De José Viegas a 14 de Novembro de 2009 às 10:11
É por coisas destas que se percebe que maradona não é senão um observador de pássaros.


De José Viegas a 14 de Novembro de 2009 às 10:53
Bolas!... fugiu-me a boca para o politicamente correcto.
Voyeur, voyeur de pássaros -- era o que queria dizer.


De Aquasky a 14 de Novembro de 2009 às 11:42
O maradona é bom rapaz. Ou pouco pateta, mas bom rapaz.


De jj.amarante a 14 de Novembro de 2009 às 19:13
Uma pessoa que escreve isto:
«Geralmente, estamos dispostos a pensar que os nossos hábitos, as nossas convicções, a nossa religião e os nossos políticos são melhores do que os deles...» vê-se logo que não é português...


De TragédiaGeek a 14 de Novembro de 2009 às 22:22
Acho muito bem que continue a desmontar as banhas de cobra, mas talvez devesse exercer algum pensamento crítico em relação à forma como “acende a vela” tendo em conta o público que precisa dela.
Quando a Palmira diz coisas como: “de facto ilustra a estupidez extrema de quem acredita em homeopatetices” (não é apenas estupidez, ela é também extrema) está a insultar quem acredita, os vulneráveis, e não necessariamente quem vende a banha de cobra que pode até não acreditar em nada mais do que no facto de ser um bom negócio. A Palmira acaba assim por aparecer aos crentes como cientista arrogante que começa por não lhes reconhecer capacidade intelectual e depois despeja conhecimento científico que não deverá fazer, para eles, uma vez que já os classificou como extremamente estúpidos, sentido nenhum.
Este seu texto de resposta ao Maradona, por contraste, é muito superior centrando a mensagem, de forma acessível, naquilo que interessa, ou seja, na denúncia dos perigos que estas crenças representam.


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