«Um papão na nossa despensa» é o título de um artigo de parceria entre o i e o The New York Times publicado em Portugal no dia 12, que dá conta duma controvérsia acesa em terras do Tio Sam, controvérsia que estranhamente nunca me apercebi ter cruzado o Atlântico, nem mesmo depois de a UE ter aumentado, há cerca de dois anos, os limites de Ingestão Diária Tolerável (TDI) do referido papão, o xenobiótico cuja fórmula está indicada no copo da figura, o bifenol A ou BPA.
A toxicologia endocrinológica é uma área emergente que se debruça sobre o efeito de compostos designados xenobióticos (substâncias químicas de origem exógena ao homem, quer «naturais», por exemplo originárias de plantas, quer produtos sintéticos). Entre os xenobióticos incluem-se substâncias químicas que mimetizam estrogénios e anti-androgénios e ainda moléculas que interagem com o sistema endócrino.
A maioria dos estudos nesta área, de certa forma despoletada por problemas como os originados pelo DDT (o,p'-1,1,1-tricloro-2,2-bis-p-clorofeni
Em Agosto de 2007, no De Rerum Natura, referi as preocupações levantadas por um grupo de cientistas em relação ao BPA, um composto presente numa série de plásticos, nomeadamente nos policarbonatos muito utilizados para produzir biberões e garrafas de água. Estas preocupações começaram a ser ecoadas e, ainda em finais de 2007, um painel de discussão organizado pelas National Institutes of Health (NIEHS, NIDCR) e United States Environmental Protection Agency resumiram o consenso alargado na comunidade científica no que concerne a um possível papel carcinogénico do BPA no artigo «An evaluation of evidence for the carcinogenic activity of bisphenol A».
Já em 2008, foi publicado um relatório preliminar do National Toxicology Program (Programa Nacional de Toxicologia) que referia a possível ligação entre o bifenol A e tumores pré-cancerosos, puberdade feminina precoce e mudanças comportamentais. Desde então, a controvérsia sobre os possíveis perigos do BPA tem aumentado de tom. Assim, em 2008, Estados como a Califórnia, Maryland, Minnesota e Michigan, consideraram restringir ou mesmo banir a presença de BPA em produtos destinados a crianças. No vizinho Canadá, o ministro da Saúde, Tony Clemen efectuou uma consulta pública de 60 dias para decidir se seriam banidos neste país os biberões de policarbonato, decisão que começou a ser implementada em Junho de 2009.
Os dados existentes sugerem que seria prudente limitar a nossa ingestão de BPA até se determinar com um maior grau de certeza se o BPA é relativamente seguro para humanos. Mas diria que os dados disponíveis indicam claramente que é necessário limitar o máximo possível a libertação de BPA para o ambiente já que animais de menores dimensões parecem ser afectados por quantidades muito diminutas deste composto.
Claro o seu efeito em humanos é díficil de estudar porque nós estamos expostos a uma enorme quantidade de xenoestrogénios, nomeadamente na alimentação (quer em produtos animais quer vegetais) . Sem termos ideia da nossa dose diária destes compostos não podemos afimar com certeza se nos devemos preocupar com os riscos postos pelo BPA ou se faremos melhor em nos preocuparmos com outras fontes de xenobióticos.
O princípio de precaução e as evidências existentes são no entanto suficientes para ter decidido já há uns tempos evitar a utilização de policarbonatos. Quem tiver dúvidas sobre se um determinado plástico é ou não policarbonato pode procurar o triângulo no fundo de recipientes de plástico pouco flexível e verificar se nele está inscrito o número 7 (e por vezes as letras PC).

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