Os debates Intelligence2 da BBC são a versão inglesa dos Prós&Contras em que o tema da semana é apresentado na forma de uma moção que vai a votos na audiência. A semana passada a moção esmiuçada foi «Será a Igreja Católica uma força para o bem no Mundo?». Contra a moção, uns fantásticos e eloquentes Christopher Hitchens e Stephen Fry, que esmagaram literalmente um discípulo de Bento XVI, o arcebispo John Onaiyekan, e a deputada ultra conservadora Ann Widdecombe que a defenderam.
Como refere o católico Andrew Brown, a votação dá uma ideia do que aconteceu: antes do debate a favor,678, contra,1102 e 346 indecisos. Após o debate, 34 espectadores continuavam indecisos mas apenas 268 apoiavam a moção e uns espantosos 1878 partilhavam a posição de Hitch&Fry. Vale a pena assistir na íntegra ao debate, o melhor debate a que me lembro de alguma vez ter assistido.
Só não concordei com o comparação com o "Prós e Contras". Há diferenças abissais, a começar pela falta de uma apresentadora que anda entre o histérico, o paternalista, o mal-criado, o ignorante , o engajado politicamente... à direita diga-se.
De resto, excelente o programa. Retenho a absoluta serenidade com que um homossexual se revela e é revelado publicamente. E também Fry a pôr no lugar a religião: algo que só a cada um diz respeito, não a um monte de sotainas obcecadas com a sexualidade e com a cama alheia.
Apesar dos retrocessos que a conservadora Grã-Bretanha de vez em quando mostra ao mundo (recordemos ainda hoje a notícia de que vão haver ainda maiores restrições à imigração) é um país que seria bom almejar ser.
Fry ganhou o debate sozinho. Fez, logo de início, a distinção entre católicos e igreja católica, um pormenor importante. Hitchens nada disse de especialmente inteligente. O arcebispo meteu os pés pelas mãos (não havia ninguém mais preparado intelectualmente?), e Anne Widdecombe, apesar de ter estado melhor que o arcebispo, tem uma voz muito irritante. Em suma, um debate programado para ser perdido por um dos lados. Com excepção de Fry, que gostei de ouvir, é um debate desinteressante.
o debate até tem alguma piada. Mas reedita aquelas justificações com barbas do protestantismo contra o catolicismo. nesse sentido, é mais a Church of England a bater no ceguinho do que um debate sério sobre religião. e claro, o Hitchens foge à pergunta sacramental - se ele também pensa assim em relação às outras religiões - porque não tem resposta para ela. nesse sentido, é de uma pobreza confrangedora dado que os argumentos que ele dá em relação ao catolicismo podem ser aplicados ipsis verba a todas as outras religiões...
mas o problema começa logo na pergunta que preside ao debate, é uma pergunta idiota que apenas mostra o facciocismo da Church of England.
Afinal os ingleses são o país que proíbe um católico de ser Rei ou Rainha ou de sequer estar casado(a) com um católico(a).
E afinal o costume de celebrar o "remember, remember the 5th of November" é contra um católico que quase conseguiu destruir com um atentado (terrorista) o parlamento britânico (esse dogma...) no início do séc.16.
Seria absurdo condenar a Igreja cujos monges e mosteiros desde a queda do Império Romano, preservaram e copiaram diligentemente toda a literatura e história clássica (contra todo o barbarismo que lhe sucedeu), ou cujos jesuítas têm cerca de 35 crateras da Lua com o seu nome (por serem os seus investigadores), ou a criação da universidade e o academismo por toda a Europa.
Talvez falte lembrar que ser anti-ICAR é o "prejudice" por excelência que fica sempre bem e nunca mal (muito menos que isso seja discriminação...).
Seja da esquerda (mas não só, hoje até aquela direitinha"neo-cons inspired") moderna, ou do antigo anti-clericalismo liberal de inspiração francesa, seja dos países protestantes em especial do domínio anglo-saxónico.
Pouco fica, só mesmos os católicos, de tradição universal mas algo individualista também, supra-nacional e extra-estado restam para defender o catolicismo. E já não são poucos.