Segunda-feira, 16 de Novembro de 2009
Leio aqui a entrevista ao Jardel e reconheço nela muitas dores, homens, mulheres, à altura do chão, por terem largado a vida ao vício, por uns anos pessoas estrangeiras nas suas pátrias, pátrias de afectos, pátrias de compromissos. Há pessoas a quem a vontade, a sorte, a vida, os amigos, o dinheiro até, permitem um dia encontrar por um tempo demorado um espelho e nele o sentimento próximo da morte que é a vergonha e a doença que predomina todas as doenças, a solidão.
Jardel é entrevistado e o título abusivo da peça é "luto todos os dias para não me entregar ao diabo". Lê-se cada uma das suas respostas e sente-se a resistência do jogador, que mereceu uma canção do Rui Veloso, a falar sobre a sua queda, mas o jornalista insiste como termos que são facadas para quem já viu alguém passar por uma depressão ou já a sentiu na pele e está perante uma pessoa a querer levantar-se e seguir em frente. Pergunta-se: "que aconteceu para se perder?" Jardel pede para não falar nisso. Diz que não quer falar nos problemas pessoais. Mas o jornalista prossegue: "mas esses problemas já acabaram? Já está tudo curado? Curado de todos os males?" A última pergunta é particularmente culpabilizante. O jogador defende-se em frases curtas, diz que tem de tocar a bola para a frente, mas é-lhe atirado à cara que "passou por uma fase péssima, de depressão profunda". Nesta altura Jardel ou a memória da dor de Jardel rende-se - como já vi muitas memórias rendidas - e desabafa que sim, e procura a empatia de um lugar paralelo, diz que Enke também sofreu, mas que nunca chegou àquele ponto de...
Neste momento sei da dor de Jardel e sei da solidão demasiado ruidosa que a sua cabeça atravessou, para se dizer vou seguir em frente como sei. É neste momento que ao ler o jornalista a metralhar Jardel perguntando: qual ponto? Suicídio? Passou-lhe alguma vez pela cabeça.., procurando um título para entrevista que respeitasse ao lado negro do jogador que sempre vende mais do que o lado da sua esperança, que sinto um soco final no estômago e ponho fim à leitura.
Espero que Jardel não tenha ficado muito tempo a pensar nos seus demónios à conta da entrevista que consentiu. Espero que Jardel marque golos. Assim como quem saiba do que ele sente e dê pela sua vontade.
De Maria a 16 de Novembro de 2009 às 14:13
Infelizmente, há jornalistas que são mais mortais que a própria morte!
Porque não escolheu outro título? Por exemplo "Jardel quer jogar até aos 39 anos", ou então "Jardel quer continuar a marcar golos e desafia clubes portugueses ".???
Porque raio os jornalistas e os seus empresários só vêm o lado materialista da sua "quinta" e não têm capacidade suficiente para discernir para além disso. Realmente, há uma falta de Valores de dignidade, solidariedade, etc. que nos dá, como v. diz, "um grande murro no estômago".
Desejo francamente que Jardel, consiga ter uma vida estával, sem "demónios" para felicidade dele e sobretudo que sirva de exemplo para os filhos. No seu curriculo tem uma bonita carreira que foi interrompida "por motivos alheios à sua vontade", mas que VOLTARÀ DENTRO DE MOMENTOS. Felicidades Jardel.
Belo post.
Gostei.
Cumprimentos
"o jogador que mereceu uma canção do Rui Veloso a falar sobre a sua queda"
Que eu saiba, a canção do Rui Veloso não falava propriamente sobre Jardel, muito menos sobre a sua queda. A canção falava sobre outro tema e apenas continha um verso "voar como o Jardel sobre os centrais".
Já agora, nas canções do Rui Veloso a letra é de Carlos Tê. Ele é que deve ser responsabilizado por esse belo verso.
Sim, é um verso, está assim para simplificar. tem razão. e faltavam duas vírgulas. já lá estão. claro que o verso não era sobre a queda do jardel.
De aorta a 16 de Novembro de 2009 às 15:20
este post é para provar o quê mesmo?
é que das duas umas: ou a isabel propõe legislação para proibir os jornalistas de fazer perguntas intimas, ou o seu post não passa de um péssimo exercício de moralismo, uma espécie de "tomar as dores" pela sua amiga f.
acha, aorta? acha mesmo que eu fiz uma manobra com a história de queda e recuperação de um ser humano para maliciosamente "tomar as dores" de alguém? acha mesmo? acha que quis provar alguma coisa? sabe ler? tem sentimentos? acha que tudo o que escrevo tem de ter a consequência de uma proposta de lei? a lei já existe, aorta...acho que vivemos em mundos incomunicáveis. eu não uso as pessoas, sabe?
De aorta a 16 de Novembro de 2009 às 17:32
eu fiz uma pergunta primeiro. se a isabel quiser responder, teria todo o gosto em a ouvir/ler.
depois disso, poderei responder a cada uma das suas perguntas.
De António Marquês a 16 de Novembro de 2009 às 15:32
Gostei muito do seu POST. É triste verificar como ainda há pessoa que se comprazem com o mal dos outros, como se esta viajem pela vida fosse obrigatoriamente um cadafalso. Claro que todos os "Jardeis" do Mundo merecem o amparo e uma mão que os ajude a saltar o cadafalso. O que o jornalista se negou a fazer...
De aorta a 16 de Novembro de 2009 às 18:51
sim, de facto, se há coisa que os jornais e os jornalistas não fazem nem nunca fizeram foi ganhar dinheiro com as desgraças alheias.
pegue num jornal e veja quantas notícias de acidentes, mortes, guerras, fomes, catástrofes naturais, violações do todo o género e feitio, roubos e toda a espécie de crimes, crises económicas e financeiras, desgraças passadas e vindouras. quer mais?
o jornalismo e os jornalistas SEMPRE viveram da desgraça alheia. por que razão com o jardel haveria de ser diferente?
hámuitos casos, aorta. e por isso não se pode fazer um texto a partir de uma história que nos toque e que possa tocar alguém, e que sirva de metáfora para muitas outras, não é? santa paciência...
olá isabel , texto muito bem escrito, comme d'habitude . Sobre o jogador, uma nota nos últimos anos Jardel deu várias entrevistas onde falou sobre sobre a relação dele com a droga e outras dependências.Entrevistei-o duas vezes. Nas duas ocasiões fez questão de abordar o assunto, pediu-me para o fazer. Houve momentos em que me senti confrangida. SEm que as perguntas o justificassem, ouvi respostas que me obriguei a censurar. outras que não pude deixar de publicar. isto é s ó para dizer que é muito difícil entrevistar Jardel sem roçar o que denuncias na entrevista ao i. A referência que ele faz ao Enke é uma pequena amostra de como é desconcertante. E nem s empre é fácil a um entrevistador passar por cima d o que lhe vai dizendo o entrevistado (ou tomar conta dele ).
obrigada, alexandra. deve ser difícil fazer uma entrevista a quem não está bem e manter a ética, como tu fazes. é um exercício de profisionalismo. os jornalistas não são todos iguais. como de resto os juristas, os médicos ou quaisquer profissionais. mas nesta entrevista parece-me mesmo que o jornalista, na fase actual do jardel, está, ele jornalista, a forçar a barra para falar no passado e em termos terríveis, enquanto o entrivistado está a tentar seguir para a frente. admito que nem sempre foi assim. obrigada mais uma vez.
De Maria a 16 de Novembro de 2009 às 21:14
Há os MB profissionais, há os que se seguem e...há MM profissionais do jornalismo. Há, na verdade que separar o trigo do joio....
De Bruno Amaral a 16 de Novembro de 2009 às 15:32
É assustadora a forma como se manipulam as fragilidades alheias por uma boa manchete. A que custo?...
De aorta a 16 de Novembro de 2009 às 16:04
um pouco mais de um euro. é quanto custa um jornal, mais ou menos...
De Pinto a 16 de Novembro de 2009 às 18:05
Comparar o caso do Jardel, que se perdeu em boémias, com o caso de Enke, que perdeu uma filha, provocando ou agravando uma depressão é, no mínimo, ridículo.
Bem, mas desde que vi um vencedor do totoloto a usufruir do rendimento mínimo e um porco a andar de bicicleta já estou preparado para tudo.
Para quem não sabe ou duvide do que falo:
EXPRESSO:
“(…) uma família que teve a sorte de acertar no totoloto, ganhando 600 mil euros, vive hoje de subsídios do Estado. Como aconteceu?
Aconteceu que a família em causa não soube gerir os negócios em que se meteu. Mas possui ainda hoje um património avaliado em 700 mil euros, que se materializa em duas moradias, além de três carros topo de gama.
A Segurança Social diz ao "Correio da Manhã" que tudo é legítimo, opinião que não é partilhada pelos vizinhos. O próprio presidente da Junta (de uma freguesia de Marco de Canaveses) acha que a família não devia ser ajudada. Mas os serviços competentes afirmam que, tendo bens mas não tendo liquidez (e sendo uma família com problemas, desestruturada), fazem sentido e são completamente legais os 365 euros que recebem do Estado.
A própria família, já se vê, concorda com o subsídio. E queixa-se que devia ser maior, porque com 300 e tal euros não vivem três pessoas.
(…)
(http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/547373 (http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/547373))
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De
besugo a 16 de Novembro de 2009 às 23:37
Muito bom.
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