Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

hoje recebi um livro enviado por alguém que so conheço por sms e uma ou duas conversas telefónicas. perguntei: por que me envia um livro? é verdade que faláramos de livros -- faláramos de pouco mais -- e que tinhamos trocado gostos (roth, mccarthy, mcewan). a resposta foi: porque gostamos de livros e somos poucos (achei essa da irmandade um bocado exagerada, mas pronto).

 

o livro, de um 'novo americano' (novo para o ofertador do livro, acho eu, e para mim certamente, nunca li nada deste homem já entradote) é de rush. chama-se mating.parece que se passa em áfrica, onde o autor viveu muito tempo (talvez viva ainda), na zona do kalahari, o deserto vermelho.

 

mating: ora que nome, como dizer, inesperado, quase hilariante (não me perguntem porquê, eu não saberia sequer começar a explicar -- ou por outra saberia mas seria muito maçador).

 

para a troca quis vender rhys -- e vendi, não sei se com inteiro sucesso --, hardy (o meu favorito, jude the obscure) e, for something completely different (embora talvez não tanto assim), to kill a mocking bird.

 

à harper lee li-a em agosto de 2006, no brasil (em pacote com o everyman e com o l'amour do stendhal, sim, caraças, uma salada russa). foi tudo que eu esperava e mais. comprei logo meia dúzia para oferecer -- ofereço espasmodicamente livros de que gosto muito, como uma evangélica a impingir bíblias.

 

escrevi sobre ele no glória fácil, em novembro de 2006.

 

little things in between

há muito tempo que andava para ler to kill a mockingbird, de harper lee. naquele tipo de coincidências felizes que de tão felizes não nos parecem coincidências (também acontece com as infelizes, hélas), encontrei uma edição da random house, ainda por cima linda, a olhar para mim na fnac quando lá fui comprar a molhada de livros para férias.

é um bom livro para se ler no início da adolescência. não calhou. mas lê-lo agora, bem longe, bem depois -- tão tão depois -- é como entrar numa máquina do tempo. para quando os verões eram infinitos e os pais invencíveis e sempre justos e sempre ali. quando todos os dias inventávamos novas brincadeiras e faziamos de tudo uma aventura e até o frio e o calor eram uma conversa do mundo connosco. quando estava tudo tudo por estrear.

e depois, quer dizer, antes e durante, há a linguagem. contar como uma criança, pensar como uma criança, é uma arte difícil. lee domina-a sem alardes. to kill a mockingbird é uma história de amor pela infância contada por alguém que, como ruy belo, sabe que o verão era a única estação.

é também uma história do amor de um homem invisível por duas crianças, o amor de um estranho que vela pelo rapaz e a rapariga que vivem na casa ao lado. sem esperar nada em troca, apenas a possibilidade de os ver e de os amar e de, um dia, se for preciso, lhes salvar a vida.

'neighbours bring food with death and flowers with sickness and little things in between. boo was our neighbour. he gave us two soap dolls, a broken watch and chain, a pair of good-luck pennies, and our lives.'

às vezes penso que, ao contrário do que é comum dizer-se, as pessoas sem crianças as vêem como um milagre maior que as que as têm. falta de hábito, talvez, ou uma atenção diferente à gramática da infância, um enternecimento não possessivo com esse milagre fugaz.
 
------------------------------------------------------------------------------------------------------
 
harper lee ganhou uma série de prémios e depois mais nada: nunca mais escreveu. tinha só este livro perfeito para escrever -- para quê outros? ser capaz assim de saber quando aceitar o silêncio do mundo sem mais quixoterias. little things in between, little things in between. como um livro oferecido por um quase desconhecido, um vizinho invisível que deixa coisas no buraco da árvore.

22 comentários:
De Jake a 20 de Novembro de 2009 às 07:03
Não vinha aqui há muito tempo por isso só agora vi que o "Jugular" está a esvair-se em sangue!!

Está com o período?
Vai ser uma nove série da Fox ou do AXN?
FOI ASSASSINADO???
Suicídio...?
Trnasformou-se num vampiro no Holloween???

Spooky.....







 


De f. a 20 de Novembro de 2009 às 10:54
eheheh


De maria de albuquerque a 20 de Novembro de 2009 às 11:10
Li "to kill a mockingbird " (não matem a cotovia) quando tinha 14 ou 15 anos e adorei o livro. Nessa época eu devorava livros, todos os temas me interessavam... Hoje tenho 48 anos, nem todos os temas me interessam, mas continuo a ler, embora já não devore livros. Sempre que me perguntam por um livro que me tenha marcado esse é um dos que me salta imediatamente à memória.
Curiosamente, há pouco tempo ofereci um exemplar a uma miúda
de 15 anos e ela achou-o chato. Fiquei surpreendida, pensei que o ia adorar como eu.  Será um livro "datado"?


De f. a 20 de Novembro de 2009 às 11:26
maria, não creio. mas tenho para a troca: desde que ofereci ao meu sobrinho mais velho o cartuxa d parma e ele nem o leu todo porq achou chato q decretei q alguma coisa d errado se passa com esta juventude (eheheh).


De S a 20 de Novembro de 2009 às 11:53
Eu comprei o "To Kill a Mockingbird" mas ainda não tive oportunidade de o ler. Ando a ler outra escritora sulista, a Flannery O'Connor; muito duro e muito aconselhável. Não sei se a f. desconhece, mas a Harper Lee tentou voltar a escrever outro romance; todas tentativas frustradas resultantes de um bloqueio de escritor prolongado. Sucess to soon?

P.S.; Sou o único que se irrita com a tradução do título para português "Não matem a cotovia"? :s


De Marco a 20 de Novembro de 2009 às 16:20
«P.S.; Sou o único que se irrita com a tradução do título para português "Não matem a cotovia"? :s»

Os brasileiros perderam uma oportunidade soberana com este título, que traduzido à letra daria "Matando o sabiá"... :)

É que nós não temos cá mockingbirds, o mais parecido exteriormente é para aí o tordo... Mas eles tem precisamente o bicho...

Decidiram traduzir como "O sol é para todos"... boing...

Mas podia estar o dia todo a falar de vários atrofios que tenho com as traduções de livros, filmes, séries... em títulos e não só...

F., bem lembrado este livro; já lá vão alguns anos que o li, e nunca mais o vi (não era meu). Infelizmente está esgotado na Wook, ia comprar um para mim e outro para oferecer (a uma sobrinha que lê, hehehe).

E fiquei a saber que faz parte do plano nacional de leitura, e esta hein?


De S a 20 de Novembro de 2009 às 17:32
eheh.

Lembro-me também que "O Padrinho" foi traduzido no Brasil para "O Poderoso Chefão"! Atroz. 

No entanto, existem algumas liberdades a que os tradutores se dão que  resultam, como por exemplo "Wuthering Heights", de tradução difícil para o português, que ficou "O Monte dos Vendavais"; lindíssimo.


De S a 21 de Novembro de 2009 às 17:06
No prefácio da edição que tenho, faz-se referência que o título mais rigoroso, seria " O Alto das Ventanias Uivantes"... Eu sei de qual gosto mais. :)


De f. a 21 de Novembro de 2009 às 15:18
marco, encomendei há dois natais uma série de traduções tugas do to kill, era uma edição nova, mas não me lembro de q editora.


De Marco a 21 de Novembro de 2009 às 15:27
Era este?

http://www.wook.pt/ficha/por-favor-nao-matem-a-cotovia/a/id/62399 (da Difel, 2004)

Infelizmente não sobram muitas horas na minha vida para fugir muito do eixo Vila Real-Aveiro; o que tenho mais perto de mim é a Bertrand, e os sacaninhas têm o péssimo hábito de ser carotes...

Pode ser que me mandem vir num Jumbo...


De fernando f a 20 de Novembro de 2009 às 14:23
Também ofereço livros, por falar nisso está a chegar a altura, pois pelo natal é memo a minha única oferta.Achei piada á expressão, " como uma evangélica a impingir bíblias", especialmente pela inverosimilhança, aliás provavelmente foi o que a motivou.
Olhe que os anos estão a fazer-lhe moça, já diz mal da juventude, do tipo no meu tempo é que era.


De Nathalie a 20 de Novembro de 2009 às 16:55
Un inconnu vous offre des fleurs... !!! Oups,  non, un livre... Charmante intention tout de même... ;)


De Nuno Cruz a 20 de Novembro de 2009 às 16:58
Nao li o To Kill a Mockingbird, mas o filme é belíssimo (como tantos dessa grandiosa época do cinema americano) e deu-me a vontade ingrata de ler o livro que lhe deu origem.


De f. a 21 de Novembro de 2009 às 15:20
leia. e fique sabendo q resolvi lê-lo depois d ver o capote -- outro filme, portanto -- e por causa da personagem harper lee e do papel q, desconhecia, terá tido no in cold blood.


De mimi a 20 de Novembro de 2009 às 17:06
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<BR class=incorrect name="incorrect" <a>Uaahhhh</A> !!!

Finalmente encontro alguém que gosta de Mary McCarthy!
Parece impossível, mas foi preciso que passassem todos estes anos.

'A Gente Com Quem Ela Anda'? 'O Grupo'?

A Lee é mais consensual, principalmente por causa do filme, acho eu.


De f. a 20 de Novembro de 2009 às 17:14
mimi, mccarthy, no caso, é cormac.


De mimi a 20 de Novembro de 2009 às 17:20
:(((

Ainda tive esperança de encontrar companhia, forcei para ali...

A Mary foi uma grande mulher, era capaz de gostar.


De f. a 21 de Novembro de 2009 às 15:20
não conheço. vou investigar.


De Rui Herbon a 20 de Novembro de 2009 às 19:12
Vale a pena ler a recente entrevista de Cormac McCarthy ao Wall Street Journal :
http :/ online.wsj.com article SB10001424052748704576204574529703577274572.html " http :/ online.wsj.com article SB10001424052748704576204574529703577274572.html </a>


De f. a 21 de Novembro de 2009 às 15:21
obrigada, rui. e ele dá tão poucas


De fernando antolin a 21 de Novembro de 2009 às 09:55
Os dois últimos que reli foram "el camino" do Miguel Delibes e "capital del dolor" do Francisco Umbral. Aconselho vivamente.


De Paulo a 21 de Novembro de 2009 às 15:00
Para além de bonita, gosta de livros e escreve bem. Só você para me fazer estar a ler este post com o netbook à altura dos olhos, seguro numa só mão e a ouvir os Feelies.
Um beijo e um bem haja deste «bicho da terra». ;oD
Paulo
PS - Pessoas como você são um raio de luz (leftist or right wing it simply doesn't matter)


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