Sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Qualquer profissional sabe os riscos que corre quando critica os membros da mesma profissão. Há sempre um conflito de interesses entre a sua consciência - ou seja, aquilo que acha que é verdade e que deve ser dito - e o interesse de não arranjar problemas com "a corporação". Quando em Abril de 2009, num painel de debate da TVI24, disse que considerava não haver jornalismo de investigação no caso Freeport, mas notícias plantadas sob a forma de "informações" alegadamente (sublinhe-se o alegadamente) extraídas de um processo em segredo de justiça, estava bem consciente desse conflito de interesses e do risco que as minhas declarações implicavam, apesar de outros opinadores - caso de Ferreira Fernandes, neste jornal, utilizando a feliz expressão "milho aos pombos" e sublinhando serem os pombos "animais estúpidos" - terem dito o mesmo antes e depois.

 

Na SIC, no Expresso e no Correio da Manhã, as minhas opiniões tiveram direito a peças noticiosas. O destaque das três, porém, não foi a existência de jornalistas que criticam o jornalismo que se faz; foi a minha identificação como "namorada de José Sócrates". Considerando intolerável quer a devassa da minha vida íntima quer a redução da minha pessoa a sucursal de outra, apresentei queixa dos autores das peças ao Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas e à instituição que legalmente tem a função de fiscalizar a deontologia da profissão, a Comissão da Carteira Profissional dos Jornalistas.

 

O CD (cujo parecer é de Julho de 2009 e, curiosamente, não foi noticiado) considerou "tecnicamente incorrecta e deontologicamente reprovável o enfoque e identificação da jornalista como sendo "namorada de" nos títulos e destaques das notícias, em análise, elaboradas pela SIC, pelo Correio da Manhã e pelo Expresso", relembrando que "a devassa da vida privada dos cidadãos por alguns meios de comunicação não é, por si, susceptível de transformar acontecimentos privados em públicos, nem a sua divulgação e conhecimento legitima que eles possam ser retomados por outros media". A Secção Disciplinar da CCPJ, porém, arquivou as queixas. Recorri para o plenário; o recurso foi indeferido. E porquê? Diz a CCPJ que era "de interesse público", identificar a relação, "que era pública" (a CCPJ não vê nisto contradição) por causa do "conflito de interesses" - a saber, o de ter "defendido publicamente" a pessoa de quem, segundo a CCPJ, sou "publicamente" namorada.

 

E que faz este órgão máximo e autorizado da deontologia jornalística para declarar "pública" uma relação cujos alegados membros nunca tornaram pública - ou seja, nunca declararam publicamente existir? Não se atrapalha: refere fotografias de paparazzi efectuadas à porta da minha casa como eventual "liberdade de informar", juntando-as aos autos (sim, juntando-as aos autos) e diz que a relação é "assumida" numa biografia de José Sócrates, inferindo ser o próprio biografado a assumir nela a tal da relação - o que é falso, mas a ser verdade não podia ter qualquer relevância na apreciação da queixa de outra pessoa e nas questões deontológicas a dirimir (até porque nenhuma das peças cita fontes no que ao alegado namoro respeita). Concluindo: aquilo que a CCPJ cita como provas da "publicidade da relação" ou é nulo ou é falso. O rigor continua na definição do "conflito de interesses". A CCPJ situa-o na "defesa do primeiro-ministro", sem mais. Esquece-se de explicitar por que carga de água dizer que não houve jornalismo de investigação no caso Freeport é "defender o primeiro-ministro". Acha a CCPJ que todos os opinadores que disseram o mesmo são namorados do primeiro-ministro? Ou só quem a CCPJ acha que não tem namoro com o PM pode criticar o jornalismo em Portugal? E, mais bizarro ainda: por que raio haveria conflito de interesse no facto de uma jornalista opinar sobre jornalismo, sejam quem forem as suas relações pessoais?

 

Colher esta visão de uma relação, real ou percepcionada, meramente pessoal (o que é diferente de uma relação hierárquica, económica, etc.) como ferrete de suspeição permanente não é só uma intromissão intolerável na esfera privada e uma menorização obscena da pessoa atingida, da sua capacidade de julgamento e da sua liberdade. É um absurdo que, arvorado em princípio, prescreveria - como aliás faz (sem, aparentemente, se dar conta de incorrer na atitude que no mesmo parecer considerara ilegítima, isto é, a de "retomar" a devassa efectuada por outros) o parecer citado do Conselho Deontológico do Sindicato - a publicação de "declarações de interesses", em actualização permanente, de quem opina (e de todos os jornalistas, por maioria de razão) ao lado das colunas e das notícias, em rodapé nas TV, com listagens de amigos, familiares e amantes (sobretudo, claro, os clandestinos), presentes, passados e futuros, para não falar de quem lhes paga almoços, de quem lhes oferece presentes e, já agora, quando forem jornalistas, de quem lhes passa as notícias. A não ser, claro, que toda esta preocupação só diga respeito à minha pessoa e a CCPJ e o CD queiram, em concorrência com a chamada imprensa "do coração", conhecer, a par e passo, as vicissitudes da minha vida amorosa, mascarando esse voyeurismo com preocupações deontológicas. O que não é só sonso, deplorável, antiético e persecutório: é uma espécie de ilustração perfeita do infeliz estado a que chegou o jornalismo português.

 

(publicado hoje no dn)


58 comentários:
De Sofia Loureiro dos Santos a 20 de Novembro de 2009 às 13:07
Excelente. Parabéns.


De fblourido a 20 de Novembro de 2009 às 13:09
Para além de classificar a atitude da CCPJ como infantil e ridícula , pergunto: a quem se recorre num caso destes? Quem é a entidade a seguir?


De f. a 20 de Novembro de 2009 às 13:44
há recurso para os tribunais.


De fblourido a 20 de Novembro de 2009 às 16:39
Claro. Não evita o embaraço causado à vossa classe. Decisões deste calibre por parte de órgãos colegiais que se pretendem esclarecidos (ainda para mais, este em particular) não abonam nada a favor de quem os integra e devem envergonhar os representados. Digo eu. Força no combate que a espera pelas suas - e, já agora permita-me, nossas - convicções.


De j a 20 de Novembro de 2009 às 17:28

Nos tribunais!


Você não tem mesmo mais que fazer? Namorar mais, por exemplo.


 


E nos tribunais garanto que perde. Vai uma aposta?


Apesar de eu achar os argumentos da decisão CCPJ pouco felizes, mas mais na forma que no conteúdo.


E de achar que você tem 99,9%, repetindo o que já disse num comentário feito há pouco, meio a brincar com este assunto, e que você ainda não publicou e, acrescento, também pouco me interessa que o faça ou não.


 


A sua razão não se contextualiza no plano jurídico. Por aqui perde, pode ter a certeza.


A questão é ética. De bom senso. Ponto final. 


 


(Continua) 



De j a 20 de Novembro de 2009 às 17:29
(Continuação)

E a lei nem sempre tem bom senso e muitas vezes é mesmo pouco ética.


 


E do que se trata é do muito jornalismo de sarjeta que temos, não generalizando mas quase.


Porque se você não fosse a “namorada do Sócrates” não era “ninguém”.


E esta forma de fazer notícias para vender é execrável. E você, ao dar-lhes conversa, está também a contribuir para isso.



De altino a 20 de Novembro de 2009 às 13:22
Pois, Pois Jota Pimenta...mas eu vi uma referência a esse respeito (com fotografia da referida e tudo) numa revista cor-de-rosa onde terá sido dito que J Sócrates ouve a opinião da namorada quanto á escolha da "toilete" ( e cito de cor). Isto não saiu numa trama politico-jornalistica, bem sei. Pergunto: Foi "devassa" autorizada?


De f. a 20 de Novembro de 2009 às 13:45
se não se importa, leia o texto acima. se o tivesse lido, decerto não lhe ocorreria comentar nos termos em que comentou. 


De Rafael Marques a 20 de Novembro de 2009 às 13:24
Cara f,

Porque é que não reedita aquele seu brilhante texto metafórico sobre Dreyfus?




De f. a 20 de Novembro de 2009 às 13:47
caro rafael, o texto está disponível na net. e não tenho qualquer problema com ele. já o rafael, pelos vistos, tem um problema com o actual post, já que só lhe ocorre chutar para fora. se não tem nada para dizer, rafael, por que é que diz? vá antes dar um passeio no campo, sempre exercita qualquer coisa.


De pedro frederico a 20 de Novembro de 2009 às 13:27
Boa tarde,

"ilustração perfeita do infeliz estado a que chegou o jornalismo português"....pena tenho que a ilustração perfeita não caiba num post, decerto nem em mil...os seus "amigos" decerto sabem isso...o jornalismo precisa duma purga, ..por este andar aconselho os verdadeiros jornalistas a imigrar...ainda me recordo do presidente do sindicato dos jornalistas num debate em 2005 pós debate Sócrates/SAntana a fazer campanha fervorosa pelo primeiro...isto diz alguma coisa desse género, dessas pessoas, dessa vergonha que é o jornalismo português...




De Luís a 20 de Novembro de 2009 às 13:34
Outra vez?


Não há paciência...


De f. a 20 de Novembro de 2009 às 13:49
sim, realmente é estranho que eu esteja preocupada com a minha dignidade pessoal e profissional. devia esquecer, não era? diga lá, luis: está-se nas tintas para a sua dignidade e aconselha que eu siga o seu exemplo, é isso? 


De francisco a 20 de Novembro de 2009 às 14:09

É como venho dizendo, A Pide e e a bufaria andam por aí, não excluindo destes, a corporação dos "jornalistas" que tantas glorias... deu ao fascismo no passado e que muitos continuam a querer manter.


De Dani a 20 de Novembro de 2009 às 14:12
É indecente a posição da entidade responsável. Se nem com estas supostas reguladoras se pode contar, então estamos todos "atirados aos pombos"... É uma vergonha.

Tem todo o direito de defender a sua vida privada e só lhe digo que sorte tem o primeiro-ministro se tiver uma pessoa tão correcta e de valores como a Fernanda ao seu lado.

Confesso que cada vez mais me sinto instrumentalizada por jornalistazecos, maus profissionais que por aí andam. E sinto que cada vez menos acredito em tudo o que é dito na comunicação social...

Imigrar vai ser para mim a solução, embora não seja jornalista.

Que país este...


De Hélder António a 20 de Novembro de 2009 às 14:35
Olá, Fernanda.

http://periodiccircumspection.blogspot.com/2009/04/carolina-reis-anda-amigada-com-o.html

Com os melhores cumprimentos,

http://periodiccircumspection.blogspot.com/2009/04/fernanda-cancio.html


De Nuno Abrantes a 20 de Novembro de 2009 às 14:49
Parabéns pelo texto. O jornalismo em Portugal está mesmo na penúria...


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