Domingo, 22 de Novembro de 2009

Descobri recentemente algo de revolucionário. Descobri que nos países nórdicos (leia-se ricos) as maioria das pessoas não tem empregados domésticos – esses a que damos, por hábito, estereótipo e atrofia de género, o nome de “mulheres-a-dias”. A primeira pessoa a afiançar-mo, numa conversa em que vá-se saber como tal veio a propósito, foi uma eurodeputada dinamarquesa. A eurodeputada, que, dizem (e, parece, é verdade), como todos os eurodeputados, não ganha nada mal, não tem quem lhe limpe a casa – limpa-a ela. A seguir confirmei a informação numa reportagem com noruegueses que vivem em Portugal: num país (a Noruega) considerado o de melhor nível de vida do mundo no índice de desenvolvimento humano, cada um varre, aspira, esfrega e limpa o pó ao que é seu.

 

À conversa com uma norueguesa de 70 anos, fui iniciada nos segredos: primeiro, ninguém entra em casa de sapatos (ficam logo à entrada), para não sujar o chão; segundo, não se passa quase nada a ferro – “Só as camisas dos homens à frente e mais nada” – terceiro, toda a gente que vive na mesma casa trabalha para a manter asseada, ao invés do que sucede noutras paragens, em que se convencionou que o trabalho doméstico tem género – o feminino, claro – e que não há mulher que não tenha nascido para fazer camas, passar colarinhos e escorrer esfregonas em condições e com, claro está, irreprimível alegria. 

 

É caso para nos pôr a pensar, não é? Tipo, nós aqui a achar que somos os mais pobres e desgraçados da Europa (ou, pelo menos, da Europa “antiga”) e afinal damo-nos a luxos que a Noruega, a Dinamarca e a Suécia não se podem dar. E sem sequer termos noção disso. É certo que em Portugal nem toda a gente tem posses para pagar a alguém para fazer o tal do trabalho doméstico, mas a maioria das pessoas da chamada “classe média” tem pelo menos umas horitas de “empregada” por semana. É talvez, digamos, a definição de classe média: ter uma/um empregada/o para “puxar as orelhas à casa”.

 

Que pensar disto? Que se trata, no caso português, de um sinal de atavismo? Que ter possibilidade/hábito de contratar pessoas para limpar a casa é mau, e que num estádio superior de desenvolvimento nem nos passará tal pela cabeça? Ou que este facto corresponde a um sinal de bem estar que aqueles especialistas que estabelecem os critérios, os coeficientes e os escalões do “desenvolvimento humano” nunca reparam nestas coisas? Tenho para mim que nunca lhes deve ter mesmo passado pela cabeça – como decerto não passou pela cabeça de ninguém em Portugal, e é pena – saber qual é o índice de empregados domésticos per capita em cada país (sim, qual é? A prosperidade, pela vossa rica saúde, não é só carros e telemóveis – pela parte que me toca, é mesmo poder não me ralar com o pó nas estantes e com a limpeza do fogão) e que coisas como “quantas horas passa a aspirar e a estender roupa e a limpar a banheira por semana” não surgem como minimamente relevantes para quem se propõe aferir conforto, felicidade, bem estar e prosperidade.

 

Podia pôr-me para aqui com uma teoria feminista sobre este desmazelo científico (mais certo é que não se dê importância a algo que é considerado “coisa de mulheres”), mas prefiro ir por outro lado – o da invisibilidade da vantagem. Ao invés do que se passa com o valor dos salários ou com o nível de escolaridade, o que se ganha em ter empregados domésticos só se afere em tempo. E o tempo, provavelmente um dos bens mais preciosos de que se pode dispor, não costuma ser muito considerado. Por outro lado, a existência de muitos empregados domésticos tenderá a “baixar” o salário médio de um país – mesmo que, como é o caso português, os salários dos empregados domésticos sejam falseados por ausência de declaração ou pelo nivelamento artificial pelo salário mínimo. Uma pescadinha de rabo na boca. Mas a partir de agora, quando lhe disserem que os noruegueses é que vivem bem, pense nisso: algo que para eles é luxo para nós é normalíssimo. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de domingo passado)

 


 

70 comentários:
De Romeu a 22 de Novembro de 2009 às 17:33
Para eles não é um luxo. Se eles quiserem também arranjam quem lhes limpe a casa.


Nós é que somos desmazelados demais para sequer pensarmos em tirar os sapatos ao entrar em casa e depois precisamos que alguém vá limpar. 


A limpeza da casa por eles próprios faz parte do pack de produtividade nórdica pois, no fim de contas, investem o dinheiro que poderiam gastar em empregados doméstico em livros, concertos, viagens, tantas outras coisas, que geram empregos qualificados e populações mais cultas. Já para não falar que preservam a sua privacidade e incutem um sentido de responsabilidade pelo espaço comum a toda a família.


De Joca a 22 de Novembro de 2009 às 17:35
Eu sei que é a brincar, mas...
 












Bacalhau com cerveja (receita premiada)

Ingredientes:


-bacalhau,
-espinafre,
-azeite,
-alho,
-cebola,
-batatas,
-sal,
-cerveja
-Mulher.

Modo de preparação
:
Ponha a mulher na cozinha com todos os ingredientes (menos a Cerveja, claro!!!) e feche a porta.


Tome umas cervejinhas e assista ao resumo dos jogos da 1ª Liga e quando ouvir '- PRÁ MESA!!!', o prato está pronto a comer!

É uma delícia e praticamente não dá trabalho nenhum.


Bom apetite!



 


 





 


De Joca a 22 de Novembro de 2009 às 17:38
Desculpem a letra ter saído tão grande, mas foi copiado directamente de um mail que recebi.


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:52
eheheh, joca. teve graça.


De Oferta de Emprego a 21 de Agosto de 2010 às 00:34
A brincar a brincar ....


De Luís Lavoura a 22 de Novembro de 2009 às 17:53
Admira-me como é que a Fernanda Cãncio, uma jornalista como 46 anos de idade, só agora se apercebe de uma coisa que eu já sei há mais de vinte anos. EU julgava que a Fernanda fosse muito mais viajada!

Na Alemanha não só não há mulheres-a-dias como também não há porteiras (nem quem faça o seu trabalho). Cada habitante de um prédio tem que, não apenas limpar o seu apartamento, mas também contribuir para a limpeza do prédio - sendo ele a fazer, um dia por semana, o trabalho que cá em Portugal é feito pelas porteiras.

Isto tudo nada tem a ver com feminismo nem com riqueza da sociedade. Tem tudo a ver com uma coisa: desigualdade social. Numa sociedade muito desigual, como a portuguesa ou a norte-americana, é normal as pessoas ricas terem rendimentos que lhes permitem pagar um serviçal - o qual ganha um salário muitíssimo inferior ao do patrão. Numa sociedade nórdica a desigualdade de salários é muito inferior, e por isso as pessoas no topo da escala não ganham assim tanto que possam pagar uma mulher a dias ou uma porteira - a qual lhes iria consumir a quase totalidade do salário.

Declaração de interesses: tenho rendimentos suficientes para ter uma mulher a dias, e ainda por cima tenho filhos pequenos. Mas não tenho qualquer serviçal. Não sei se muitos socialistas se podem gabar do mesmo.


De tragédiaGeek a 22 de Novembro de 2009 às 20:32
Luís, eu tenho empregada, não porque precise muito, mas porque ela precisa desse rendimento para sobreviver (não há empregos, as fábricas fecharam). Não consigo ser indiferente a isso.

Também li este texto da Fernanda com surpresa. Nem parece dela.


De Romeu a 22 de Novembro de 2009 às 21:12
Os empregos estão onde está o dinheiro e a procura.
Se as pessoas investirem em empregadas domésticas, aparecerão mais empregadas domésticas. Se em vez disso investirem em produtos de fábricas aumentarão os empregos em fábricas.


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:38
tragédia, o texto nem parece meu? explique lá, a ver s percebo. se não tiver o chão para esfregar, claro.


De tragédiaGeek a 23 de Novembro de 2009 às 11:25
A minha surpresa vem da superficialidade com que trata este assunto, menos de saber que a F não estava a par desta realidade nos países do norte.

Quem limpa a casa da sua mulher-a-dias ou empregada doméstica (empregada sim, porque não há homens a fazer esse trabalho e não devemos fazer de conta que há a bem de uma igualdade artificial, teórica que não convence ninguém). O marido dela? O bem-estar dela também deve entrar nos coeficientes e os escalões do “desenvolvimento humano?
Há zonas do país onde o trabalho doméstico fora de casa está sempre presente na vida das mulheres, seja ele temporário ou permanente. Não há outra opção. Isso é bem-estar? Não ter opções?

A sua noção de bem-estar é ter alguém para lhe esfregar o chão. Pois muito bem, a minha noção de bem-estar é dividir com a pessoa com quem vivo as tarefas domésticas, que a pessoa com quem vivo, tal como eu, entende que elas são para ser divididas e não para ficarem a cargo de uma das partes. Dividimo-las de facto. A minha empregada ajuda, mas o meu bem-estar não seria diminuído se não a tivesse. Teríamos um pouco mais de trabalho, é tudo. Os noruegueses têm mais bem-estar que os portugueses dê-lhe as voltas que lhe der.


De Limpinha a 23 de Novembro de 2009 às 23:43
Já não há chãos para esfregar. 
Há um balde e uma esfregona para passar o chão rapidinho pk o arroz já está a agarrar no tacho o refogado e é preciso mexer, o miúdo já anda levantado e ainda tem trabalhos para fazer, a máquina da roupa está a apitar a dizer q acabou e há roupa para estender e gaita, precisa-se de se fazer um xixi e nem se consegue! É a vidinha triste da maioria das mulheres portuguesas, inclusivé das nossas "queridas" empregadas qd chegam a casa delas!


De Mafalda Edpírito Santo da Cunha a 22 de Novembro de 2009 às 20:40
Luis Lavoura:
O que anda a fazer aqui pelo blog? Não tem uma roupinha para passar a ferro? Umas crianças para dar banho? O jantar por fazer? Já arrumou a cozinha? Pôs a roupa na máquina?
Com a sua idade e com filhos pequenos, admira-me como é que tem tempo para andar sempre por aqui a lançar as suas pérolas de cultura.
A sua companheira sabe que anda por estas bandas? Cá para mim, hoje ninguém vai dormir na vizinhança, com boa sessão de spanking que a sua dita companheira lhe está a preparar, seu maroto desleixado...


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:39
that's the spirit, mafalda.


De Luís Lavoura a 23 de Novembro de 2009 às 10:28
Respondi-lhe no meu blogue.


De Filipe Moura a 22 de Novembro de 2009 às 22:38
"Declaração de interesses: tenho rendimentos suficientes para ter uma mulher a dias, e ainda por cima tenho filhos pequenos. Mas não tenho qualquer serviçal. Não sei se muitos socialistas se podem gabar do mesmo."

Ah grande Luís Lavoura! (Sem qualquer ironia.)

Concordo na generalidade com o seu comentário. Só acrescentaria que a principal razão não é a desigualdade social: é pura ética protestante (que é o que em Portugal mais falta faz).

Apesar de tudo este é um tema que me deixa dúvidas, Luís. A minha principal objecção às mulheres a dias tem a ver com não acreditar que essa seja a vocação de ninguém. Ninguém nasceu para aquilo (ao contrário de outras profissões, como cozinheiro). Mas que dizer de empregado de mesa? Ou de empregado da limpeza em qualquer lugar público (profissões bem necessárias)? Por que pode uma empresa contratar estas pessoas, mas tal estar errado para um privado? Como argumentar aqui sem cair em contradição?

Finalmente, um ponto muito importante - este assunto não tem nada, NADA, a ver com feminismo. Feminismo é igualdade (e por isso obviamente eu sou feminista). Igualdade é repartição de tarefas que nos dizem respeito, não a entrega delas a um terceiro só porque são menos nobres.


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:57
  
filipe, tinha visto aquele teu outro comentário mas depois não percebi em que post tinha ido parar e acabei por não responder. vejo que tens pensado um bocadinho nisto. a resposta que dou ao luis lavoura também é para ti em parte. essa da vocação é muito boa. e a da entrega das tarefas 'por serem menos nobres' também. quando se põem as crianças na creche tb é por cuidar delas 'ser menos nobre'? e as pessoas q não sabem cozinhar e comem sempre fora, também o fazem por cozinhar ser pouco nobre? os preconceitos classistas aparecem onde menos s espera -- ou não.


De Luís Lavoura a 23 de Novembro de 2009 às 10:33
Esse argumento do "ninguém nasceu para isso" é inadmissível.

Eu sou um liberal. Sou portanto anti-moralista. Para mim ninguém nasceu para nada, mas todos são livres de tudo. As mulheres são livres de ser jornalistas, de trabalhar a dias, de se prostituirem, ou de ser empresárias. (Os homens são igualmente livres de todas essas coisas.) Não nasceram para nenhuma dessas coisas, mas são livres de ganhar a vida de qualquer dessas formas, consante a vocação e o trabalho que arranjem.

Ao contrário do Filipe, que é comunista e portanto moralista, e acha que o mundo deveria ser assim e não assado, eu abstenho-me de passar julgamentos. Desde que as pessoas respeitem a minha liberdade, eu respeito as delas.


De Filipe Moura a 23 de Novembro de 2009 às 20:49
Fiz ao Luís uma pergunta concreta, sobre a qual penso diversas vezes e não encontro resposta para ela - e o Luís responde-me com chavões. Mas gostei da sua definição de liberal como anti-moralista. Mas sou moralista. Não aceito que alguém tenha nascido para serviçal, tal como não aceito que ninguém tenha nascido para escravo (e ser serviçal, para mim, é uma forma moderada de ser escravo - não é por acaso que os paíeses onde mais se encontram empregadas domésticas são os países onde há alguns séculos havia escravidão).
Sim, Fernanda, e claro que sou preconceituoso. Todo o marxismo é baseado num preconceito - um preconceito contra as classes mais ricas. Claro que tenho preconceitos de classe. Qual é o problema disso?


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 22:10
o problema dos preconceitos é geralmente sempre o mesmo: impedir-nos de aquilatar a realidade pelo q é, levando-nos a ver o que ela não é.


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:35
olá, luis. tenho 45 anos ainda, se não se importa. de facto quando viajo não tenho o hábito de inquirir sobre quem faz a lida da casa e esta descoberta é recente. mas sei que está bastante enganado quanto ao que se passa no seu próprio país. os salários da generalidade das pessoas que fazem serviço doméstico que conheço não são nem de perto nem de longe assim tão inferiores aos das pessoas que conheço que lhes pagam. ao contrário do que é costume assumir-se -- e que o luis, talvez por não ter alguém a quem paga para fazer a lida da casa, assume. o ordenado é geralmente pago à hora, a uma média de 6 euros. alguém que faça, como é uso, pelo menos 8 horas por dia em diferentes casas ganha 960 euros por mês limpos. é mais do que ganham muitos jornalistas que conheço, e com a vantagem de se poder fazer basicamente o que se quer, parar quando se quer e, como é muito comum, fazer as horas que se entender e cobrar as que apetecer. espero que a sguir não me diga que o trabalho doméstico é degradante, ou coisa que o valha. o que é degradante é haver quem o qualifica como tal, e usa o termo 'serviçal' para designar alguém que o faz.


De Luna a 22 de Novembro de 2009 às 18:26
Olá Fernanda


aqui pela Holanda creio também não ser muito comum haver empregadas domésticas, o que me parece ter origem em inúmeros factores, um dos mais importantes mencionados num comentário anterior, que é a menor diferença salarial entre classes. De facto, não havendo trabalho precário, mesmo uma empregada doméstica ganharia relativamente bem, sendo que ter uma é realmente um luxo que não está ao alcance da maioria, mesmo que não viva nada mal. Depois, é uma questão de cultura e herança religiosa: são protestantes, muitos puritanos, e defendem a austeridade, pelo que reramente se vêem grandes manifestações exteriores de  riqueza. Além de que são o povo mais forreta do mundo, que leva o seu pãozinho de casa para o almoço para poupar, pelo que pagar a uma empregada nem pensar. E sim, tiram os sapatos à porta de casa, o que é giríssimo quando se vai toda aperaltada e de sapatinho da moda a dinner-parties e nos vemos obrigadas a andar de meias a noite toda. 


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:37
eheheh, que imagem alucinante, luna. tu com um vestido translumbrante e descalcita, a dar cabo das meias. selvajaria. quando vieres a minha casa podes passar a noite toda nos escarpins, te juro.


De Maria a 22 de Novembro de 2009 às 19:52
Confesso que estou um bocado confusa e talvez "envergonhada"....
Será asssim um luxo tão grande, uma pessoa que sai de casa bem cedo para trabalhar, tem uma profissão que não lhe permite chegar a casa a horas decentes, ganhar por ex. entre 1500 e 2000 €/mês ( que é pouco) e pagar umas horitas a uma "desempregada" para, ao menos lhe aliviar as pernas, passando a roupa a ferro e limpar os vidros....? Eu acho que não! Em vez de ir a uns concertos de música clássica (de que gosto muito), ligo a Mezzo, faço outras coisas de que gosto e/ou tenho necessidade e quando há uns "troquitos" que sobram, vai-se a um Concerto, compra-se um disco ou aquele livro que nos anda "atravessado" mas que não se tem podido chegar a ele.
Simplicidade, sim, mas escravatura, não. Eu. pelo menos, não posso dispensar umas "horitas" de uma pessoa que me "liberte" um pouco. Na verdade os nórdicos ( e eu conheço 2 famílias) são diferentes de nós, em tudo. Não quero com isto dizer que o que eles fazem está tudo certo. Têm pecaditos.


De Romeu a 22 de Novembro de 2009 às 21:19
A questão do luxo depende de como você convive com a sua própria perspectiva sobre o serviço.


Se você não se importa de pagar para que lhe limpem a casa em vez de pagar para que façam outra coisa, então não tem de se ralar, fica ao seu critério.


Mas é como tudo, se de repente toda a gente passasse a ir ver concertos de música clássica em vez de ter empregadas domésticas, haveria um incentivo enorme para as pessoas se formarem em música e diminuiria o número de pessoas a limpar casa, havendo uma transferencia de vagas entre profissões. Já se se pegasse no dinheiro dos ordenados das empregadas e se fosse comprar pornografia nacional com ele, então exisitiria um boom nas profissão ligadas à indústria porno portuguesa, e um decrescimento das empregadas domésticas.


Acho que a responsabilidade é somente por aí, em decidir em que áreas queremos investir e criar em emprego. Mas isso fica ao critério de cada um, julgo eu.


De Fernando a 22 de Novembro de 2009 às 21:21

Eu também tinha a ideia que os nórdicos eram quase perfeitos até ter de coabitar com duas dinamarquesas, a verdade não é bem como relata. Podem até deixar os sapatos na entrada mas não é porque se importam com a limpeza, é mais um habito do que outra coisa...

Sou voluntário e na casa onde vivo actualmente já passaram uma portuguesa, um indonésio, turca e inglesa, actualmente vivo com estas duas dinamarquesas e adivinhe quem é ou foi o mais desleixado? As dinamarquesas (e de longe), não imagina, a porcaria que fazem (que não limpam), no que toca a lavar a loiça (se é que posso chamar o que fazem lavar...) são uma desgraça, tiram os sapatos para depois pisar a própria porcaria que fazem, se não for eu a limpar a casa elas não limpam. E lá se foi a minha ideia dos nórdicos... Felizmente para elas que há um português (imagine um português) a servir-lhes de escravo a limpar a casa, e limpo porque não estou para viver num chiqueiro... vão ser assim tão asseadas lá bem para o norte!

Fiquei impressionado com a quantidade de línguas que falam, para além da língua materna, uma fala fluentemente inglês, alemão e espanhol a outra inglês e alemão, tomara a mim ter saído da escola falando inglês fluentemente... mas tirando este aspecto não me impressionaram nadinha ao contrário dos turcos que tenho conhecido, a minha ideia (preconcebida) era que as raparigas eram umas pudicas os rapazes uns machistas do pior, e felizmente lá se foi a minha ideia dos turcos...

Pode até ser que eu tive azar com estas duas, mas é a minha experiência...



De Luís Bonifácio a 22 de Novembro de 2009 às 21:29
Cara Fernanda.


Vá viver para a Noruega e depois diga-me se com um salário de Jornalista Norueguês consegue arranjar alguém que lhe limpe e arrume a casa.


Não é preciso ir para tão longe, basta ir para Londres.


Tenho um irmão e uma cunhada que são doutorados em Inglaterra e tiveram de ambandonar a velha Albion poorque o salário de doutorado num Universidade Inglesa não chega para lá viver.


Pergunte ao C.E.S. de que paises Europeus lhes chegam diariamente pedidos de emprego.


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:45
luis bonifácio, não faço ideia de quanto ganha um jornalista nórdico. mas sei que há jornalistas portugueses que ganham menos q quem faz o trabalho doméstico. ganham menos, trabalham o dobro das horas, são tratados abaixo de cão e se forem despedidos têm a maior dificuldade em arranjar trabalho, enquanto que a maioria das pessoas que tem empregados domésticos morre de medo de os chatear não vão despedir-se.


De Luís Bonifácio a 23 de Novembro de 2009 às 23:12
Cara f.

Obrigada pela sua resposta.

Se reparou no meu comentário não estava a falar dos Jornalistas em Portugal, situação que por amizade, acho que comuns bem conheço e me enojam, mas sim de mulheres-a-dias e trabalhadores de classe média em países com um rendimento superior (aquilo que chamamos de países mais avançados).
O caso da Noruega é especial por várias razões. É o pais mais rico do mundo, foi o único país da Europa a rejeitar, em sede de referendo, a adesão à União Europeia. Tem um sistema de distribuição dos lucros da indústria petrolífera que constitui uma importante fonte de rendimento de toda a população, pelo que nenhum Norueguês necessita de aceitar trabalhos de terceira categoria. Por outro lado tem uma política muito restritiva de entrada de imigrantes. Apenas tem as portas abertas para pessoal qualificado e o regime justiça/policial faz com que não existam Imigrantes ilegais. Por isso às famílias Norueguesas não resta outra solução senão limpar eles próprios a casa e engomarem a sua roupa (Estou a exagerar, pois existem engomadorias).
Eu não sou professor, mas conheço muitos casais de professores do ensino secundário e com certeza a f. também conhece. Todos os casais de professor que eu conheço, estão a pagar uma casa, têm carro próprio (Alguns até têm dois) e todos sem excepção têm mulher-a-dias duas manhãs por semana em média.
Agora acredite no que eu lhe vou dizer. Este nível de vida de um casal de professores em Portugal é uma perfeita miragem para um casal de professores na ….
França;
Benelux;
Alemanha;
Áustria;
Inglaterra;
Países Nórdicos.

Uma das razões para isto é sem dúvida a amplitude de rendimentos existente nesses países em comparação com o nosso, o que faz com que uma semana de colégio infantil em Inglaterra custe cerca de 500 € por criança.
A situação do nível de vida dessas classes profissionais nesses países da Europa (com excepção dos Nórdicos) é tal que neste momento Portugal é um destino apetecido para Investigadores Universitários, por exemplo.
Sempre que vejo Professores a protestar contra as condições salariais e a exigir mais salários e as outras benesses a que estavam habituados, não sei se deva rir ou chorar. Acho simplesmente que deviam ir para França ou Inglaterra viver e trabalhar um ano (Acho que não chegavam a aguentar dois meses).
Cumprimentos


De Filipe Moura a 22 de Novembro de 2009 às 23:29
Repito o comentário de há dias:

Com que então descobriste que nos países nórdicos as pessoas não têm empregadas domésticas? Se investigares mais um bocadinho, vais descobrir - coisa inacreditável - que até compram brócolos! Que gente tão avançada!

Gostei francamente da forma desarmadamente sincera com que mais uma vez te expões num texto como este - quatro anos depois dos brócolos! A única coisa que me irritou - mas irrita sempre e não é só em ti - é a definição de "classe média". Quem define "classe média" como tu não sei em que mundo vive.

Eu esta semana tenho é muito trabalho - um congresso para organizar, e não tenho mulher a dias... Mas havemos de voltar a este assunto. Que dá uma discussão maior que a dos senhorios...

Beijinhos.



De f. a 23 de Novembro de 2009 às 00:48
eis uma discussão interessante, filipe, essa da classe média. vamos a ela.

devo dizer-te q m diverte sobremaneira a reacção q sempre obtenho quando assumo o facto de pagar a uma pessoa para me aspirar o chão e lavar a cozinha e a casa de banho. dir-se-ia que toda a gente que comenta e escreve na bloga passa o dia de esfregona na mão. ou será q ainda vivem em casa da mãezinha?


De Luís Lavoura a 23 de Novembro de 2009 às 10:41
O seu problema, Fernanda, é provavelmente que você tem um padrão demasiadamente elevado de limpeza.

As cozinhas e casas-de-banho não precisam de ser limpas todos os dias. Para que hão-de ser? Micróbios há por todo o lado, de qualquer forma. E, quando uma pessoa lava a louça, pode sempre aproveitar a água com detergente que está no alguidar para extirpar alguma mancha nas paredes ou no fogão.

O chão, desde que uma pessoa tenha um mínimo de cuidados (comer sempre sobre pratos para não deixar migalhas, andar em casa sempre de chinelos e não em sapatos de rua) pode ser aspirado apenas uma vez por semana (ao fim de semana). Basta.


De Filipe Moura a 23 de Novembro de 2009 às 20:57
No meu caso, quando estou em Lisboa fico sempre em casa da mãezinha (foi o caso deste fim de semana) - mas vou-lhe às compras e trago coisas muito pesadas, que ela não pode.
Mas vivo em Braga, onde comprei casa (pois claro - pior do que ser serviçal, só mesmo ser inquilino). Esqueceste-te de uma terceira possibilidade, para além das que enumeraste, Fernanda: é não limpar a casa. E mais não digo.
(Digo apenas que cozinho o meu jantar e lavo a loiça todos os dias. E faço sopa caseira. Limpo o fogão e o frigorífico quando eles estão mesmo a ficar imundos. O mesmo para o resto, mas sucede mais rapidamente com o fogão e o frigorífico.)


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 01:20
e beijinhos também


De Paulo a 23 de Novembro de 2009 às 00:45
Sinceramente, estou-me a borrifar para os nórdicos e para as suas questões com empregadas de limpeza. Apenas quero registar que a ser verdade o que alguém diz mais acima e a Fernanda tiver a idade que ele diz que tem, tomara muita menina na casa dos vinte ser assim como você.
Não leve a mal, é que a esta hora (e em boa verdade a outra hora qualquer) não consigo arranjar nada de verdadeiramente brilhante para dizer.
Cumprimentos,
Paulo


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 02:29
paulo, seja qual for a hora e o assunto, sinta-se sempre à vontade para se estar a borrifar para ele e para me cumular de elogios -- tão merecidos, i'm sure -- e para, a seguir, colocar a hipótese de q eu leve tal coisa a mal por não conseguir arranjar nada brilhante para dizer. enfim, era bom de mais. mas não tenho 46 anos. ainda não. esperem mais um pouco e depois podem festejar e barrar-me com alcatrão e penas. ou assim.


De Paulo a 23 de Novembro de 2009 às 23:33
Fernanda, creia que todos os elogios que lhe dirijo são sentidos. Uma mulher bonita é sempre uma mulher bonita e a beleza a mim sempre me emocionou.
Para além disso gosto muito da forma como escreve e  por esse motivo agradeço-lhe os textos que publica e que alegram os meus dias.
Um beijo,
Paulo


De Carlos Azevedo a 23 de Novembro de 2009 às 01:15
Apenas umas breves notas:
1) Conheço vários nórdicos, e garanto que a maioria não tem empregada doméstica porque efectivamente não lhes passa pela cabeça tal. Assumem, naturalmente, que a cada um cabe limpar e arrumar as suas coisas. Não é certo ou errado; é apenas uma forma de estar na vida.
2) Não sei que empregadas domésticas a Fernanda Câncio conhece, mas, tal como refere o exemplo de jornalistas que ganham mal e porcamente e poucos direitos laborais têm (ora, aí está uma boa causa para alguém se ocupar), o mesmo se passa com as empregadas domésticas. Com uma agravante: nós, portugueses, não temos a mentalidade dos nórdicos, e gostamos bem de marcar o lugar que cada qual ocupa na "hierarquia social". As empregadas domésticas estão na base.
3) Nos comentários há quem goze com o facto de um dos comentadores, que não conheço de lado nenhum, se dar ao luxo de vir aqui comentar tendo filhos e casa para cuidar. Engraçado: até parece que assumem que as empregadas domésticas não podem ter um blogue ou comentar em blogue alheio. Sei lá, umas desgraçadas que não estão à altura dos elevados assuntos que por aqui se discutem. Se isso não é preconceito...


De f. a 23 de Novembro de 2009 às 01:23
a ideia de que as empregadas domésticas (as e não os, anoto) estão na base da escala social é sobretudo de representação. não tem a ver com o salário nem com a sobrecarga de trabalho e decerto não tem a ver com o poder. se o carlos pagar a alguém para lhe limpar a casa, saberá do q falo. se não paga, é normal q não saiba.


De Carlos Azevedo a 23 de Novembro de 2009 às 01:39
Se eu pago ou não a alguém para me limpar a casa é irrelevante para apreciar a questão.
Anota eu ter utilizado o género feminino, e anota muito bem. Eu falo da realidade que conheço, e em Portugal desconheço casos de empregados domésticos do sexo masculino a trabalhar em casas particulares (mas, lá fora, por acaso, já conheço). Mas, teoricamente, tem razão: empregados domésticos.
Estão efectivamente na base. Aliás, se a Fernanda conhece o país em que vive, sabe que muitas  mulheres que ainda hoje estão no activo como empregadas domésticas vieram das aldeias para "servir" (era a expressão que se usava, eram só mulheres, e diz tudo) em casas da classe média, média-alta e alta, e que tal era prática comum até há cerca de 25 anos. Eram efectivamente oriundas de famílias muito pobres, e algumas vinham trabalhar para a cidade quase de graça apenas para não sobrecarregarem o agregado familiar com a despesa da sua alimentação. A mentalidade que isto criou (e que originava; é uma pescadinha de rabo-na-boca) não desaparece em 20 ou 30 anos.


De Vanda a 23 de Novembro de 2009 às 05:11
Eu acho que é o Carlos que considera essas senhoras como classe baixa, sinceramente. Já ninguém trabalhará de graça, e lá porque pessoas como o Carlos ainda considerarem empregadas domesticas como estando abaixo, socialmente, dos restantes, não quer dizer que isso seja uma representação verdadeira da sociedade.


Digo-lhe mais: tenho duas pessoas amigas cujas mães são empregadas domesticas. Uma pegou nela, saiu de casa e separou-se do marido abusivo quando começou a trabalhar e a ganhar dinheiro por ela própria A outra, antes dona de casa, encontrou lugar como empregada quando o seu marido foi preso, e tornou-se financeiramente independente. 


Se estas duas mulheres tivessem encontrado emprego no café, no supermercado, na lavandaria, na loja da esquina, ninguem teria sequer pensado duas vezes antes de lhes dar os parabens. Mas o Carlos claramente pensa que se em vez de lavar loiça e servir cafés num estabelecimento comercial estas senhoras aspiram e limpam janelas e (ui!) lavam escadas, então são umas desgraçadas exploradas. Porquê?


Parece-me que o preconceito é principalmente seu. As pessoas fazem o que podem com o que têm, com o que arranjam. Tenho conhecidos e amigos absolutamente dependentes das suas empregadas para conseguir ter algum tempo com os filhos, amigos, etc - e que as consideram parte da familia. Se lhes der o nome de Personal Assistants já fica mais descansado?


De Carlos Azevedo a 23 de Novembro de 2009 às 10:13
A Vanda leu mal tudo, mas mesmo tudo, o que eu escrevi.

Vejamos se me faço entender:

1) A Vanda não me conhece, pelo que dispenso que tire ilações sobre a forma como eu, pessoalmente, vejo as pessoas que efectuam trabalho doméstico, sobretudo quando, como é o caso, nada do que eu escrevi lhe dá bases para o fazer.

2) Eu não vejo as pessoas dessa forma, por feitio e por educação. O que não signifique que não observe o que me rodeia. Pelo que observo e pelo que me contam, concluo que o trabalho doméstico é geralmente visto como inferior, o que não significa que não existam excepções.

3) Do mesmo modo, concluo que as mulheres ainda não estão em plena igualdade com os homens numa sociedade como a nossa, o que não significa que seja machista; concluo também que os homossexuais não estão em plena igualdade (casamento, adopção, etc.), o que não significa que seja homofóbico. Percebeu onde quero chegar com estes exemplos?

4) Em nenhum momento disse que todas são umas desgraçadas exploradas. Eu próprio, se fosse necessário, faria o que fosse preciso, dentro da legalidade, para sobreviver. 

5) Mas acho engraçado que me dê dois exemplos de situações extremas que levaram mulheres (e mulheres, aponto agora eu) a trabalhar como empregadas domésticas. Talvez eu percebesse melhor o seu ponto de vista se me indicasse exemplos de pessoas que abdicaram de empregos como, por exemplo, sei lá, jornalistas (desses que a Fernanda Câncio refere como explorados, e há-os certamente) para se dedicarem ao serviço doméstico.
6) A sua expressão «as pessoas fazem o que podem com o que têm, com o que arranjam», quanto a mim, diz tudo.

7) Preconceituoso, eu? Retira isso do que eu escrevi?  Haja paciência.


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