Domingo, 22 de Novembro de 2009
Alexandra Tavares Teles

A propósito deste post, lembrei-me que não ouvi uma voz, um trinado, uma interjeição, um pio à Comissão da Carteira quando, em 2009, a jornalista Fernanda Câncio foi vítima de uma tentativa de homicídio profissional, preparada com a disciplina dos atiradores de elite e posta em prática com a ladineza dos mais arborescentes métodos de execução pública. Porque considerar a alegada - quem sabe o que é rigoroso no retrato íntimo de alguém? Os deuses? - vida privada de um jornalista como factor de incompatibilidade profissional ou, em em consequência  da devassa desse território privado, ensaiar o furto à liberdade de quem vive da sua profissão, é isso mesmo: um homicídio profissional em forma de execução pública.
Quando se analisa a opinião publicada em jornais e revistas de informação, deve ter-se em conta, acima de tudo, o valor do argumento de quem a emite. É o valor do argumento, juntamente com a coerência da argumentação, que determinam a credibilidade de opinião e opinador. Bastaria à Comissão da Carteira ter perdido uma hora a ler algumas das páginas que a jornalista Fernanda Câncio tem, de forma lúcida e coerente, escrito ao longo dos anos sobre Jornalismo em geral e investigação jornalística em particular, para confirmar a justeza de um comunicado, uma nota, uma frase, uma palavrinha sobre a reptilínea perseguição de que Câncio foi alvo. Mas nem uma voz, um trinado, uma interjeição, um pio quando em causa estava, afinal, o direito de um jornalista ao seu trabalho: quando se ameaça o valor, a coerência e - dessa forma - a integridade de um jornalista, não se faz menos do que pôr em causa o próprio direito ao trabalho desse profissional.
No caso de Fernanda Câncio, esse direito transformou-se num dever. O dever de não ceder. E os senhores e senhoras da Comissão da Carteira, na sua maioria jornalistas (embora pareçam, por vezes, mais dotados para a procrastinação), deveriam ser os primeiros a reconhecer a importância de direitos e deveres dessa classe e natureza. Em nome do Jornalismo e dos jornalistas. Em nome do exercício da cidadania.
Perante os mais recentes acontecimentos, percebe-se que não vale a pena lembrar-lhes nada disto: são simplesmente incapazes de o compreender. E isso, antes de ser grave, é muito, muito triste. Em benefício dos seus representados, poderiam ao menos lembrar-se de que, no caso de Fernanda Câncio, a calúnia está em toda a parte; o caluniador, em nenhuma.


3 comentários:
De dnemesio a 22 de Novembro de 2009 às 21:54

este silêncio é assustador, pois diz muito dos "profissionais"  que compõem esta corporação. esta reacção pelo silêncio mostra-nos uma corporação sem capacidade de análise, sem capacidade de auto-crítica e sem moral. exigia-se mais da classe jornalística. não quero ser incorrecto nem ofender ninguém, mas,  a palavra que me tem ocorrido com frequencia, quando vejo alguns jornais e muitos programas "informativos" na tv, é: abutres!


De Zé António a 22 de Novembro de 2009 às 23:29
Só por curiosidade, e o SJ e o seu Conselho Deontológico, o que é que dizem?


De MFerrer a 23 de Novembro de 2009 às 09:34

 
Cara Alexandra,
Com toda a consideração deixe-me discordar.
Pode até parecer alguma arrogância ou até cinismo. Mas não é uma coisa nem outra.
Na minha opinião, formada naquilo que alguma leitura e um pouco de experiência me foi ensinando, esta coisa da informação é dumagrande simplicidade e qq espanto quando mostra a verdadeira face só pode surpreender quem anda distraído.
realmente não houve, não há e não haverá nunca essa coisa mirífica do "jornalismo independente.

Quer ver?
De quem são os jornais? Os grupos de media? Aqui, e no mundo inteiro?
Parece uma vulgar teoria conspirativa, mas não é!
É apenas e sem mais rodeios ideológicos a verificação de que os inocentes serão sempre sacrificados no altar dos interesss económicos e religiosos que detêm o poder e controlam a ideologia dominante.
Sabe Alexandra, há muito que me apercebi que os pobres votam nos ricos, os soldados votam nos generais, os agricultores votam nos representantes dos latifúndios..., as mulheres votam nos  homens e os eleitores genericamente ...compram jornais, vêem televisão e assumem que estão a escolher um caminho melhor. A realidade, madrasta, há muito, mesmo nos sistemas que já não usam a violência formal, se encarregou de nos mostrar que a chamada imprensa livre não passa de um instrumento que apenas pretende vender uma dada realidade, uma certa ideologia o mais das vezes, a dominante.
Numa coisa vc tem toda a razão. isto é uma vergonha!
MFerrer 


Comentar post

Autores
Alexandra Tavares-Teles
Ana Matos Pires
Ana Vidigal
Diogo Serras
Domingos Farinho
Fátima Rolo Duarte
Fernanda Câncio / f.
Filipe Nunes
Gonçalo Pires
Hugo Mendes
Inês de Medeiros
Inês Meneses
Irene Pimentel
João Cóias
João Galamba
João Pinto e Castro
Maria João Guardão
Mariana Vieira da Silva
Palmira F. Silva
Paulo Côrte-Real
Paulo Pinto
Shyznogud
Tiago Julião Neves

Arquivo

Isabel Moreira

Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon

correio | twitter | facebook

Fevereiro 2012
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4

5
6
7
8
9
11

12
13
14
15
16
17
18

19
20
21
22
23
24
25

26
27
28
29


artigos recentes

o piegas coelho

"Sit Ubo Sit!.Good dog!!!...

joão duque,

Populus in res publica su...

Os Cinco Pecados Mortais ...

Os Cinco Pecados Mortais ...

AT/DT

Todos os dias há uma nova

Hum, como falar do assunt...

Leituras: History Will Te...

João Fernandes no Reina S...

O tempora! O mores!

...

Antoni Tàpies (1923- 2012...

A bem da minha úlcera vou...

últimos comentários
José Luís Sarmento, eu não conheço lingua mais ins...
De facto, lembrei-me agora. Ou melhor: lembrei-me ...
Grande texto. É preciso repetir vezes sem conta to...
Mas porque é que não fazem um recurso com base num...
Você foi mesmo procurar a palavra "merdia" nos dic...
E o José luiz Sarmento lembrou-se agora que é cont...
Só um "idiota" nos podia ter chamado piegas nas di...
De acordo quanto à pieguice, porque é dela que der...
Eu não sou contra ESTE acordo ortográfico. Sou con...
Merdia - contracção entre a palavra merda e media,...
arquivo
tags

todas as tags

outros lugares
Subscrever feeds