Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Como escreveu o João Pinto e Castro aqui (e eu aqui), alguns dos nossos economistas andam baralhados com estas coisas do endividamento. O que fazer quando os mercados financeiros não confirmam os juízos que, teoricamente, deviam ser verdades axiomáticas? Nogueira Leite tem uma teoria: os mercados andam distraídos. Fabuloso. É uma estratégia conhecida: quando a teoria não parece estar a funcionar, introduz-se uma excepção que permite ir mantendo a ilusão que a economia não anda aos papéis e continua a saber muito bem como estas coisas funcionam.

 

Se me permitem, eu tenho outra teoria. Cá vai: o endividamento não é um pecado de um conjunto de economias esclerosadas, mas sim uma necessidade sistémica da economia mundial. Não podemos falar de economias endividadas e viciadas em níveis de consumo insustentáveis sem olhar para os vícios dos produtores — excedentes comerciais, moedas subvalorizadas, controlos de capitais, consumo interno demasiado baixo, etc. Posto isto, torna-se difícil impossível punir os "infractores". Mas quando ouvimos falar os nossos economistas-catástrofe, até parece que quem empresta vive noutro planeta, e que estes, caso a situação continue a piorar, podem sempre passar a comprar dívida pública de Marte.


10 comentários:
De Luís Lavoura a 23 de Novembro de 2009 às 13:36
Excelente post.

Os credores dependem dos devedores tanto quanto o inverso.


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 14:27
Luís


Seria verdade num mercado de moeda e crédito.


De Joca a 23 de Novembro de 2009 às 14:03
Que é com quem diz:
Quem trabalha, que pague.


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 14:26
João Galamba


Essa perspectiva estaria correcta se fossemos fingir que o crescimento do endividamento público (e agora até o privado) não está suportado em monetização directa e indirecta (a compra potencial ou efectiva de dívida pública e agora até privada pela simples emissão de moeda) por parte dos Bancos Centrais e sistema bancário.


Esta é a realidade nominal. Mas em termos reais (recursos reais), todo o investimento tem de estar sustentado em poupança prévia. Mas na economia monetária, a disfunção entre a realidade monetária e a real está estabelecida.




O essencial é que o João Galamba estaria certo se o sistema, como diria um bom liberal, tivesse assegurado um "equilíbrio natural" entre o crédito, poupança e investimento.


Na medida em que o crédito de forma disfuncional se transformou numa variável nominal independente decidida de forma artificial (criação de reservas e moeda), a não-sustentabilidade da dívida está na verdade assegurada a prazo.


O crescimento do endividamento público e privado advém em primeiro de moeda e crédito se terem como "fundido" num único conceito.


Mas na prática e de forma simples, apenas cresce não porque existe de facto poupança real adicional que a sustem mas apenas porque nominalmente fabricam todas as reservas e moeda necessária para ser colocada nos mercados.


O que estamos a assistir é uma espécie de suicídio alegre.


De José Viegas a 23 de Novembro de 2009 às 16:20
Não está a haver inflação, mesmo com toda essa moeda emitida pelos bancos centrais a juros quase nulos.
As dívidas contraídas correspondem a investimentos e activos reais das empresas, ou produtos -- reais -- adquiridos pelos consumidores. Quando houver inflação os bancos centrais farão subir as taxas de juro para a dominar. Qual é o seu problema?


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 16:40
"Qual é o seu problema?"O problema é o mesmo de sempre: a razão porque em primeiro lugar existem bolhas (a doença) seguidas de crises (a cura) é precisamente a expansão de crédito por inflação quantitativa de moeda, que em geral tem pouca expressão nos preços do consumidor final.


As bolhas de activos como casas, bens de capital, activos financeiros sobem numa espiral temporariamente virtuosa acelerando o crescimento económico (ou a sua ilusão).


A sua expressão


"As dívidas contraídas correspondem a investimentos e activos reais das empresas"


deve transformar-se numa pergunta:


E esse crédito ao investimento (ainda que fosse virtuoso) é financiado por poupança real prévia? Claro que não.


E esse é o motivo para as bolhas e crises económicas e bancárias.

Previsível é a reacção dos economistas aos efeitos de uma crise: recomendar a continuação da inflação de crédito (expansão de crédito por simples criação de moeda).

É uma crendice acreditar que o crédito e o investimento que é suposto sustentar pode impunemente ter lugar por ato-criação.

Esta história dura desde que existe banca (e o sistema de reservas parciais) mas foi especialmente agravado com os Bancos Centrais.


De José Viegas a 23 de Novembro de 2009 às 16:46
Você está muito confuso, vá ler Krugman!


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 17:00
Krugman e o resto da classe estão confusos desde Keynes.


Esta disfunção colectiva em separar crédito de poupança chega a ser estranho.


Como se pode manter a crendice que nominalmente fabricando moeda para expandir o crédito, isso faz com que os recursos reais necessários a suportar/sustentar o investimento apareçam?


Primeiro diz-se que o problema é uma depressão psicológica do consumidor, depois que é o crédito não está a circular.


Conclusão: querem evitar à força a poupança (porque prejudica o consumo e sem consumo não há crescimento , dizem...) e ao tempo mesmo expandir o crédito.


Um dia vão inventar uma palavra para caracterizar esta disfunção colectiva.


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 17:35
Faltou-me dizer que os "extremistas liberais" de Chicago  (generalizando) neste ponto (e em outros) cometem o mesmo erro de pensar que o que importa é tratar das causas que possam provocar inflação nos preços  do consumidor, escapando-lhes assim o problema dos efeitos de taxas de juro artificialmente baixas e inflação quantitativa de moeda a entrar por via crédito ao investimento, onde as "asset bubbles" são já a última manifestação visível antes de um crash.


De JP Santos a 24 de Novembro de 2009 às 09:51
"Não podemos falar de economias endividadas e viciadas em níveis de consumo insustentáveis sem olhar para os vícios dos produtores — excedentes comerciais, moedas subvalorizadas, controlos de capitais, consumo interno demasiado baixo, etc."

Concordo inteiramente, um dos problemas fundamentais da economia mundial (mas que tem evoluido de forma positiva nos últimos meses) é os dos desequilíbrios externos. Em que existe um grupo de países com enormes superávites (China, Japão e produtores de petroleo) e um país que tem tido défices externos colossais (os EUA) fruto de políticas a meu ver erradas. É um problema sério mas que julgo que será soluvel.
Mas confesso que o que me preocupa mais é ver esse mesmo tipo de desequilíbrios (em escala agravada) dentro da União Europeia e da Zona Euro onde na ausência do instrumento cambial vai ser ainda mais dificl a sua resolução.



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