Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009

Vamos lá a ver se a gente se entende: o súbito agravamento do endividamento dos estados não é causado pelas políticas de combate à crise; é causado pelo colapso do sistema financeiro que causou a crise. Percebido?

Acontece que, em virtude dessa infeliz mas não inocente circunstância, o desemprego atingiu níveis inauditos em quase todo o mundo. Deitar a mão aos bancos foi uma tremenda injustiça, mas uma injustiça, para já, inevitável. Era o que faltava que os estados não tentassem agora fazer tudo o que está ao seu alcance para mitigar o sofrimento das dezenas de milhões de desempregados que, não tendo a mínima responsabilidade no sucedido, foram, porém, as suas verdadeiras vítimas.

Ninguém em seu perfeito juízo acha que o endividamento não tem importância nenhuma. Mas certos malucos permitem-se achar que é a única coisa importante.

Até onde terá que crescer o endividamento? Confesso que não sei.

Se tudo voltasse rapidamente à normalidade, a intervenção pública deveria reduzir-se rápida e drasticamente. Mas eu não acredito que a economia vá regressar rapidamente à normalidade, de modo que o mais natural é que os estados não possam deixar de sustentar a procura e o emprego nos próximos tempos.

Não baralhemos, pois, as coisas. A responsabilidade dos custos extraordinários que todos suportaremos não deve ser atribuída aos desempregados, mas aos que lucraram com a bolha que nos trouxe até aqui e aos que justificaram os seus actos com teorias tontas e interesseiras.

A finalizar, um último ponto. O que vem a ser, precisamente, um nível de endividamento público excessivo? Sessenta por cento, oitenta por cento, cem por cento do produto? E por quê?

Para nos situarmos, considerem que qualquer família que adquira casa própria costuma endividar-se numa proporção bem superior a 100% do seu rendimento anual. Por hoje, fiquemos por aqui.

Próxima paragem: as consequências do endividamento público sobre o nível das taxas de juro.


20 comentários:
De Luís a 23 de Novembro de 2009 às 18:25
Muito interessante... não tivesse a dívida externa portuguesa crescido astronomicamente antes de se sentirem os efeitos do "colapso do sistema", esse malvado.


Explicar às criancinhas quem é o lobo mau implica saber onde é gasto o dinheiro que se pede emprestado... Antes, durante e depois da crise. 


De ricardo g. francisco a 23 de Novembro de 2009 às 18:29
Correcção.


A responsabilidade é dos governantes que não souberam tomar opções. Continuaram a gastar sem rigor em projectos de investimentos suportados por previsões de crescimento acelerado e em simultâneo aumentaram as despesas sociais.


Pode discutir se deviam ter gasto mais aqui ou mais ali. Ou menos em todo o lado, mesmo. Mas a responsabilidade é de quem toma decisões.


A atitude de desculpar com factores externos desresponsabilizando os governantes é a raiz dos nossos males.


Ricardo G. Francisco


De Anónimo a 23 de Novembro de 2009 às 18:34
O seu ABC do Endividamento começa por escamotear um dado importante: os nossos compromissos com a UE, via tratados e adesão à moeda única. Talvez sejam renegociáveis; despiciendos é que não são certamente, esteja o PS ou o PSD no governo.


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 18:51

Bem , um drogado vai aumentando as doses até...


" Era o que faltava que os estados não tentassem agora fazer tudo o que está ao seu alcance..."


O endividamento actual resulta das sucessivas "injecções" por parte do sistema monetário.


A tentativa de (ilusão) de cura por doses maiores das próprias causas tem algo de primitivo.


Ou a droga acaba ou o braço morre. Uma das duas vai despoletar a segunda parte da crise.


De Credito Pessoal a 23 de Novembro de 2009 às 18:52
Olá,

Concordo em parte com o artigo, só acho que o endividamento dos estados deve-se também às políticas de combate à crise. Mais desempregados envolvem sempre mais apoios que aumentam o défice do estado, não deve é ser o grande responsável pelo aumento do défice (o sector bancário tem o seu peso).

Mas também é como diz no artigo, que soluções existiam? Deixar bancos com peso no sector financeiro português fechar? Não apoiar quem perde o emprego?

Em relação ao "ajudar" os bancos, todo esse dinheiro tem de ser um dia devolvido com juros, julgo que não estou enganado.


De João Pinto e Castro a 23 de Novembro de 2009 às 20:18
Vou explicar outra vez muito devagarinho: nas despesas do Estado de 2009 não há um tostão que tenha ido para apoiar os bancos, BPN e BPP incluídos.


De Anónimo a 24 de Novembro de 2009 às 11:21
Esta sua resposta só mostra desonestidade e falta de vergonha na cara. É a CGD que está a aguentar o BPN e o senhor sabe perfeitamente quem é o único accionista da CGD - o Estado!! Não entra nas contas de 2009, entra nas contas que tiver de entrar quando a conta for apresentada...


De Nuno a 24 de Novembro de 2009 às 16:13
Exactamente, o que quer dizer o que JPC afirmou,  não entra nas contas de 2009!


De Anónimo a 25 de Novembro de 2009 às 10:58
"Por acaso até entra:


COMUNICADO

Aumento de Capital da Caixa Geral de Depósitos, S.A.Nos termos do disposto no art. 249º do Código de Valores Mobiliários, a Caixa Geral de Depósitos, S.A. (“CGD”) informa que, na sequência de deliberação social unânime, de 27 de Maio de 2009, o Estado Português, accionista único desta sociedade, aprovou um aumento do capital social em EUR 1.000.000.000, elevando-o para EUR 4.500.000.000. As novas acções, em número de 200 milhões, foram integralmente subscritas pelo Estado ao seu valor nominal de EUR 5 cada e será realizado em numerário.
Este aumento de capital, anunciado em Dezembro de 2008, tem como principal motivação o fortalecimento dos instrumentos de capital necessários para a CGD continuar a contribuir para uma maior dinamização da economia nacional, através do financiamento às familias e às empresas. Este aumento de capital contribuirá também para assegurar a manutenção da estratégia de crescimento da Caixa Geral de Depósitos, nomeadamente em mercados internacionais, com investimentos recentes, tais como o Brasil e Angola.
Apesar de a CGD não verificar qualquer constrangimento ao nível dos seus rácios, sendo considerada uma das instituições financeiras mais seguras do mundo, esta operação contribuirá para o reforço e solidez da instituição e para a estabilidade das notações de rating, garantindo, desde já, um rácio de adequação de fundos próprios de base (tier 1) superior a 8 por cento.
Caixa Geral de Depósitos, S.A.
27 de Maio de 2009

Data:27-05-2009 "


De Nuno a 27 de Novembro de 2009 às 18:37
Gde confusão que para aí vai. Não sabia que as contas da CGD entravam para o OE! Preciosismos!


De Anónimo a 27 de Novembro de 2009 às 18:49
Caro Nuno, se ler melhor e não fizer confusão, vai ver que as contas entram mesmo no OE. Isto por uma razão simples, que passo a explicar devagarinho. A CGD é detida integralmente pelo Estado. A CGD fez um aumento de capital. O Estado entrou com o capital. logo, o Estado entregou à CGD aqueles milhões todos. Per-ce-beu?


De Nuno a 27 de Novembro de 2009 às 19:05
Se o capital foi logo inteiramente realizado parece julgo que terá razão. Se me pudesse explicar agora ainda mais devagar quanto desse aumento de capital foi para o BPN a fundo perdido eu agradecia a sua sapiência e conhecimento! Agradecido caro antónimo!


De Anónimo a 27 de Novembro de 2009 às 18:51
E um preciosismo de 4500 milhões de euros... Coisa pouca na terra da abundância rosa...


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 18:56
Uma nota sobre o crédito à habitação e "Para nos situarmos, considerem que qualquer família que adquira casa própria costuma endividar-se numa proporção bem superior a 100% do seu rendimento anual. Por hoje, fiquemos por aqui."


Repare-se que todos sabemos mais ou menos que o crédito à habitação foi o que sustentou a bolha (de crédito e de preços e de sobre-actividade económica nesse sector). E se em média hoje se pode dizer que a maior parte da população se endivida, quem é que na verdade é que está a a poupar?


As taxas de juro artificialmente baixas incentivam o endividamento e o consumo. Algo tem de ceder mais cedo ou mais tarde e isso é a crise. Com o fim de uma bolha e o medo de deflação a solução preconizada é mais endividamento e incentivo ao consumo. Novamente algo vai ter de ceder.


De João Pinto e Castro a 23 de Novembro de 2009 às 20:20
Quem está a poupar são os chineses, os japoneses e os alemães. Hei-de voltar a isso.


De Carlos Novais a 23 de Novembro de 2009 às 21:02

Sim, os chineses têm conseguido crescer à custa de altas taxas de poupança, mas ao mesmo tempo como também são vítimas do presente paradigma, tiveram e têm o seu próprio problema de bolha induzida por um sistema bancário de expansão de crédito e moeda. O que resulta é uma mistura de factores benignos e malignos que nunca será possível prever por via empírica a intensidade de um ou outro.


Agora, quando em cada ano o total de crédito (e/ou endividamento) sobe isso deve-se em parte, não porque a poupança monetária aumentou nesse montante mas apenas porque mais moeda foi criada para que esse aumento tivesse lugar. Esta é a chave do problema económico. O crescimento do total de endividamento em % do PIB que como que explodiu logo a seguir aos americanos renunciarem default ) a Bretton Woods e isso só é possível porque o crédito deixou de ser uma transferência de moeda entre poupança e o investidor para passar a ser um acto de criação de moeda no próprio acto/registo do empréstimo bancário.




Na verdade algumas teses mais ou menos mal fundamentadas mas com instinto certo que falam do debt deflation " estão certas.


Neste sistema, o pagamento agregado de juros dos empréstimos bancários é deflacionista , assim o sistema tem de no mínimo de criar moeda no valor dos juros em cada ano para manter o valor agregado de depósitos bancários.


Se começarmos a falar em pagamento/reembolso de empréstimos bancários tal é ainda mais deflacionista .


A crise bancária revela-se quando um crash de preços provoca o desaparecimento nominal e real do colateral dos bancos, levando as pessoas a pedir transferências para outros bancos por pressentirem as diminutas reservas.


A resolução é "fácil": os bancos centrais injectam toda a moeda necessária para que não se dê uma falência.


Mas isso, como é intuitivo, troca novamente (porque já assim sucedeu na bolha) as voltas a qualquer calculo económico fiável (e um que equilibre poupança com investimento, ou deverei dizer...crédito e poupança) um em que as trocas monetárias tenham lugar porque correspondem por analogia a factores reais.


Parece complicado mas não é nada. Só nos temos de libertar da ilusão como antes que a terra era plana ou que o universo girava à volta da terra.


Agora é mais fácil, é só aceitar o "difícil" conceito que o crédito para ter lugar em termos reais, tem de ser precedido de poupança real prévia.


Fabricar moeda (ou como dizem os economistas para baralhar pensamentos simples: "expansão monetária") é uma ilusão.


O processo é piorado quando em crise a tese da mais despesa e mais dívida surge como a tábua de salvação.


Temos medo das dores e sintomas do processo de cura, e nem sequer uma baixa generalizada de salários aceitamos - o que poderia resolver ou minimizar o desemprego.


De Joca a 23 de Novembro de 2009 às 20:50
Ainda não percebi porque é que não começaram por tratar o cão com o pelo do próprio cão, e querem tratá-lo com o meu pelo.


De JMG a 23 de Novembro de 2009 às 23:26

Quem se endividou para comprar uma casa tem a casa, que tem um certo valor de mercado, dentro de alguns anos superior ao valor da dívida; quem se endividou para investimentos reprodutivos tem o retorno do investimento, que, se o investimento não tiver sido um disparate, assegura a amortização, o serviço da dívida, e ainda um lucrozinho. O Estado Português tem-se endividado para fazer investimentos não reprodutivos e para consumir, sendo que uma parte demasiadamente significativa do consumo é de bens importados. Daí a dívida externa e a pública. Para entender isto não é preciso ser economista. Mas para não entender isto é preciso ser economista.



De Carlos Novais a 24 de Novembro de 2009 às 00:06
"Para entender isto não é preciso ser economista. Mas para não entender isto é preciso ser economista."


ahah tem toda a razão.


De Damião Fernandes a 24 de Novembro de 2009 às 02:00
"A finalizar, um último ponto. O que vem a ser, precisamente, um nível de endividamento público excessivo? Sessenta por cento, oitenta por cento, cem por cento do produto? E por quê?
Para nos situarmos, considerem que qualquer família que adquira casa própria costuma endividar-se numa proporção bem superior a 100% do seu rendimento anual. Por hoje, fiquemos por aqui."

E as crianças a quem explica as coisas são do ensino especial, não...?


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