Segunda-feira, 23 de Novembro de 2009
"Um défice descontrolado e um endividamento público tresloucado. É a crise? Seja. Já sabíamos? Pois já e há muito tempo. MFL é que não tinha visão? Desse tipo não tinha de certeza. O que eu quero é que os portugueses que votaram no PS lhe peçam agora o TGV e uma mão cheia de auto-estradas paralelas."
Filipe Nunes Vicente, Mar Salgado
O Filipe acha que os valores do défice e o endividamento actuais mostram que Manuela Ferreira Leite é que tinha razão e que, portanto, os portugueses enganaram-se no voto. Caro Filipe, o problema do endividamento, aquele de que tanto falava Ferreira Leite, era o externo e não o público. Se olhar para o que tem acontecido ao primeiro, verá que este até baixou. (é ir ver os dados) Em suma: isto não tem nada a ver com o que opôs Ferreira Leite a Sócrates nas últimas eleições—e, por maioria de razão, não constitui qualquer tipo de argumento em favor da política económica defendida pelo PSD. Ajuste de contas? Olhe que não é por aqui.
Como escreveu o João Pinto e Castro, o aumento do défice público é uma consequência inevitável do programa de combate à crise (vá lá ver quanto aumentaram os défices da maioria dos países) — e esse aumento, por si só, nada nos diz sobre os méritos ou deméritos das propostas do PS e do PSD. Os últimos dados podem (devem) ser entendido como o preço que pagámos por ter uma recessão menos profunda que outros países (não esquecer que a economia caiu menos do que o esperado) e um aumento do desemprego bastante inferior à média (não confundir com valor da tx de desemprego). Se o Filipe não gosta, prepare-se para defender maiores quedas do PIB e taxas de desemprego mais altas.
Faço minhas as palavras do João Pinto e Castro, vamos lá a ver se a gente se entende: o súbito agravamento do endividamento dos estados não é causado pelas políticas de combate à crise; é causado pelo colapso do sistema financeiro que causou a crise. Percebido? O que o Filipe queria dizer é que, tendo em conta o contexto, Ferreira Leite teria feito melhor gastando menos. Mas isto é uma profissão de fé, um juízo que não decorre nem é validado de qualquer dados macro que tenham sido revelados nos últimos tempos. Por maioria de razão, conclui-se: o resultado das eleições continua válido. Adiante, se faz favor.
De fernando antolin a 23 de Novembro de 2009 às 19:28
Mas o João Galamba agora é o eco do homónimo Pinto e Castro ??
O colapso do sistema financeiro foi resolvido com injecção de moeda (operação que em si não aumenta a dívida dos Estados) nos bancos para que este não entrasse em falência.
O endividamento dos Estados deve-se à tese do endividamento para fomentar despesa numa situação de crise.
Essa tese é o que está em causa.
De
FNV a 24 de Novembro de 2009 às 00:00
Caro João,
Tem razão , queria dizer externo, mas , tanto quanto sei, embora o público tenha baixado também não se recomenda.
O ponto não é o que MFL teria feito, antes o que não prometeu . Quis sublinhar apenas que ela teve (e tem) razão: não há guito.
Fazer não faz nenhum dos dois.
De
JP Santos a 24 de Novembro de 2009 às 09:43
"o problema do endividamento, aquele de que tanto falava Ferreira Leite, era o externo e não o público. Se olhar para o que tem acontecido ao primeiro, verá que este até baixou. (é ir ver os dados)"
Segui o conselho (fui ver os dados) e a verdade é que, segundo dados do Banco de Portugal o endividamento externo (medido pela posição internacional) no 2º trimestre de 2008 correspondia a 93,9% do PIB e no 2.º trimestre de 2009 já ascendia a 105,3% do PIB. Um aumento de 13,9 pp (!!!!). Admito que nos dados do 3.º trimestre (que já devem ter sido divulgados mas não tive ainda tempo de conferir) indiquem um crescimento menor mas ainda será certamente superior a 10 pontos percentuais.
Diga-se, também, que como será facilmente comprovável todas as instituições internacionais (Comissão Europeia, FMI e OCDE) têm vindo a chamar a atenção para a questão do endividamento externo.
De
JP Santos a 24 de Novembro de 2009 às 12:46
Correcção: o valor no 2.º trimestre de 2008 era de 91,5% (93,9% era o valor do 3.º trimestre de 2008).
Caro JPSantos,
O que eu queria dizer é que não há nada neste aumento do défice público que nos permita dizer que o PS está a aumentar o défice externo. Se virmos o que aconteceu ao défice público e ao défice externo durante este ano, constatamos que o primeiro subiu para compensar a queda da despesa e investimento privado e o segundo baixou devido a uma queda das importações maior que a queda das exportações. Atenção, estou a falar doas políticas do PS no ano de 2009, isto é, estab automáticos + aumento de despesa. O PS só teria agravado o défice externo se o aumento do défice público também tivesse aumentado o défice externo. Ora, isto não sucedeu.
É tudo
De Zé Carioca a 24 de Novembro de 2009 às 10:09
"... o problema do endividamento, aquele de que tanto falava Ferreira Leite, era o externo e não o público..."
Será pedir muito a João Galamba que compreenda que o endividamento público naturalmente contribui para o endividamento externo?
"... Se olhar para o que tem acontecido ao primeiro, verá que este [o endividamento externo] até baixou. (é ir ver os dados)..."
Isto é falso. Se quiser ir buscar os dados e mostrá-los, a audiência agradece.
"...o aumento do défice público é uma consequência inevitável do programa de combate à crise..."
Errado. É uma consequência do funcionamento dos estabilizadores automáticos. Tirando as medidas para evitar o colapso do sistem financeiro (que nem sequer se registam como aumento de défice, mas somente de dívida), os "programas" de recuperação não tem servido para quase nada.
"...prepare-se para defender maiores quedas do PIB ..."
E quem defende o aumento da dívida pública e da dívida externa eu diria, prepare-se para defender uma queda do RNB quando, as taxas de juro aumentarem (ou normalizarem) e o PIB já estiver a crescer.
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