Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

No dia 24 de Novembro de 1859, faz hoje 150 anos, foi publicado o livro que revolucionou o mundo, «A Origem das Espécies» de Charles Darwin. Há dias, o facto de ter sentido necessidade de escrever o post «Delusions», em que recordo um pouco da história das Origens, mostra que o meu parágrafo optimista de há um ano não se concretizou. De facto, a proposta de que os seres vivos evoluem gradualmente através de selecção natural chocou profundamente a sociedade do século XIX e continua, no século XXI, a não ser aceite por demasiados.
As ideias de Darwin foram tão revolucionárias que foi necessário mais de um século de testes empíricos para confirmar alguns corolários da teoria da evolução, por exemplo, no que respeita à selecção sexual, isto é, à evolução de traços relacionados com o sexo, como a coloração intensa dos machos de muitas espécies, ou as plumagens exuberantes e canções complexas das aves. Curiosamente, William Donald Hamilton, o biólogo que confirmou a selecção sexual, revolucionou a biologia com os artigos «The Genetical Evolution of Social Behaviour I e II», publicados no Journal of Theoretical Biology em 1964. E digo curiosamente porque estes artigos, que explicam a base genética do altruismo e são por isso considerados a maior contribuição à teoria da evolução depois de Darwin, respondem a algo que intrigava Darwin no «Descent of Man»: a evolução da moralidade humana.
O comportamento moral, escreveu Darwin, não traz vantagens para o indivíduo. Mas uma tribo regida por valores que enfatizem «o espírito de patriotismo, fidelidade, obediência, coragem e solidariedade» será certamente mais coesa e organizada e terá assimmaiores chances de vitória na disputa por recursos naturais ou territórios com tribos menos virtuosas. A selecção natural agiria assim não somente sobre indivíduos, mas também sobre grupos.
Darwin deixou em suspenso esta selecção de grupo, conceito que foi retomado por Hamilton. Hamilton explicou a emergencia de características altruistas/morais de uma forma muito simples: algo que prejudique o portador de um gene mas que aumente o sucesso reprodutivo de outros individuos que o possuam pode aumentar a frequência desse gene na população. Richard Dawkins sintetizou esta explicação de Hamilton no título do livro que publicou em 1976 «O Gene Egoísta».
O livro de Dawkins causou quase tanta polémica quanto a Origem das Espécies, embora, parafraseando Dawkins, as suas ideias sejam actualmente «ortodoxia de manual». Bem, as propostas de Dawkins podem ser ortodoxas para cientistas, a maior parte das pessoas quando ouve falar em selecção natural pensa em «perpetuação da espécie». Na realidade, Dawkins mostrou-nos que não é bem isso que está realmente em causa com um exemplo esclarecedor: quando um leão ganha a supremacia num grupo de fêmeas, mata normalmente os filhotes de outros machos. Ele não está minimamente interessado em perpetuar a espécie. Quer apenas perpetuar os seus genes egoístas.
Claro que, no nosso caso, a evolução cultural pode ser tão importante quanto a genética na evolução do altruísmo/moral. Ou antes, são interdependentes porque o nosso desenvolvimento social e cultural evoluiu a par e passo com o nosso genoma. Por outro lado, muitos dos mecanismos emocionais em que assenta o nosso sistema moral podem ter sido seleccionados ao longo de nossa evolução como primatas sociais. Novas exigências sociais exerceram pressão evolutiva que levou ao aparecimento do que normalmente chamamos moral.
Ou seja, hoje, 150 anos depois, a árvore de pensamento revolucionário que Darwin plantou desenvolveu e continua a desenvolver ramos, alguns inesperados. «A cultura está nos genes, mas os genes também dependem da cultura», uma frase do físico e biólogo Rob Boyd resume um dos novos ramos da árvore esboçada há século e meio, um ramo assente em selecção mas agora não natural mas sim cultural. Uma selecção não mais dominada pelos genes egoístas mas uma selecção cultural que nos permite evoluir talvez mais rapidamente do que nunca ...
De
LA-C a 25 de Novembro de 2009 às 08:53
Palmira, uma pergunta a que só respondes se quiseres. Porque é que deixaste de escrever estes artigos no De Rerum Natura? Se nem um artigo destes lá publicas, porque manténs o nome na lista de co-autores do De Rerum Natura?
Isto é mera curiosidade, se for inconveniente e não quiseres responder então nem publiques o comentário.
olá Luís:
O Paulo já tinha escrito um texto fantástico sobre Darwin, não valia a pena dizer mais :)
Sobre escrever pouco no DRN, atea culpa, ando com uma imensa falta de tempo e já tenho de escrever tanta coisa sobre ciência que sabe bem escrever outras coisas aqui na jugular :) mas mal as coisas normalizem retomo :)
De
Shyznogud a 25 de Novembro de 2009 às 10:38
Além do mais este foi "encomendado", azucrinei a Palmira para marcar a efeméride.
De Anónimo a 25 de Novembro de 2009 às 11:55
Cara Palmira,
Estive a ler os seus posts sobre o tema e começo por saudá-la pelo equilíbrio e pelo bom senso. Aprendi alguma coisa e isso vai sendo raro nos blogs que correm (e este não e excepção).
Noto apenas que há alguma incompreensão (també, da sua parte) em relação a alguns comentários (exagerados, sim) dos leitores cristãos. Não sou criacionista (seja lá o que isso for) e sou católico. Parece-me tão absurdo negar eidências como a si. A diferença (acho que a única diferença) é que não vejo a ciência como um fim em si mesma. Se sou cristão, sou humanista e vejo o conhecimento como ferramenta, instrumento, apoio. Não vivo para ele, procuro-o para mim.
Percebo quem lhe diz que alguns cientistas são arrogantes... Têm razão. Mesmo a Palmira, quando afirma que a ciência explica... vai explicando. Mas o meu Deus (o dos católicos) não é o Deus das lacunas, é o Deus do todo. Não compreender isto levará sempre a opor a Igreja à ciência e generalizar erros que não se podem generalizar.
Dito isto, entendo a sua luta contra os fanáticos. Apoio-a e acho-a de interesse público. Cumpre um papel que poucos cientistas cumprem. Informar em vez de escarnecer.
Muito obrigado
De S a 25 de Novembro de 2009 às 14:45
O Gene Egoísta do Richard Dawkins foi dos livros mais fascinantes que já li. Para além das teorias em volta da "sobrevivência dos genes", um dos aspectos mais interessantes foi a introdução do conceito de meme que ainda hoje é utilizado, fora já do domínio das teorias da evolução; precisamente, "o meme do meme." :)
Lembro-me que um dos capítulos mais extradordinários, era uma simulação em computador dos comportamentos de "ataque ou fuga" (se me lembro correctamente); foi um daqueles livros em que lia uma capítulo de cada vez e depois deixava assentar as ideias e conceitos, fascinava-me por eles e só depois voltava à leitura.
Por causa dele comprei em seguida "A Origem das Espécies" mas ainda não arranjei o tempo para lhe dedicar...
De miguel soares a 26 de Novembro de 2009 às 12:03
não é assim tão certo que os seres vivos evoluem gradualmente por selecção natural. já ouviu falar do "equilíbrio pontuado", a teoria proposta por Niles Eldredge e Stephen Jay Gould? qualquer aluno do 1.º ano de biologia, da UC pelo menos, a conhece. de acordo com esta teoria, os eventos de especiação são raros, rápidos e geograficamente localizados.
De Nuno Palha a 27 de Novembro de 2009 às 19:59
Se vir a Origem das Espécies o tal gradualismo não é assim tão estrito e a tal "rapidez" do equilíbrio pontual não é tão digamos...rápida (uns bons milhares de anos!!). O equlíbrio pontuado foi muito exagerado ao achar-se revolucionário. Esta não é a só a minha opinião mas a de muitos biólogos evolutivos. O próprio "geograficamente localizado" deve muito à teoria da especiação peripátrica do Ernst Mayr, que se o senhor ler (como eu tive de ler quando estudava biologia) verá que se encaixa perfeitamente no neodarwinismo.
Mas concordo como é óbvio que há casos em que não há qualquer gradualismo.
Quanto à selecção natural, parece-me que o seu papel na evolução está cada vez melhor documentado. Basta folhear umas Natures ou Sciences dos últimos anos e encontra-se uns bons exemplos.
Quanto ao papel de Darwin ao tornar o evolucionismo não só como credível, mas também como a única boa explicação para a diversidade dos seres vivos acho que nunca é demais referir a sua contribuição manifestamente gigantesca.
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