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Rudimentos de economia pacóvia

Se o último ano demonstrou algo, foi que não importa que nos portemos financeiramente mal, desde que nos portemos um nadinha melhor que os outros.

Que interessam os défices portugueses, se a ousadia dos EUA, da Inglaterra, da Irlanda, da Espanha ou da Grécia nos colocam na invejável posição de esbanjadores envergonhados?

Metam isto na cabeça: a partir do momento em que meio mundo partilha da nossa desgraça, encontramo-nos em boa e sólida companhia. A dívida, chegadas as coisas a este ponto, é um problema tão grave para os credores como para os devedores.

A presente crise tem na sua raíz um excesso de poupança, com a particularidade de ele se encontrar concentrado num punhado de países: China, Japão, Alemanha e pouco mais.

Estes países queriam ao mesmo tempo produzir cada vez mais e conservar balanças comerciais largamente excedentárias. Ora, isso só é possível se eles emprestarem a outros para eles lhes comprarem o que produzem em excesso. Quando estes últimos atingiram o limite das suas capacidades de endividamento, o motor gripou.

Curiosamente, a China, o Japão e a Alemanha parecem convencidos, contra toda a evidência, de que podem continuar a jogar o jogo mercantilista. A chanceler Angela Merkel (um caso de rara perspicácia) não entende que só se pode vencer Mercedes se alguém comprar Mercedes. O governo chinês persiste em manter o valor da sua moeda colada ao dólar para assegurar que as t-shirts permanecem baratinhas. O Japão medita há duas décadas no assunto.

Só é possível uma saída airosa da crise se os países com excesso de poupança pouparem menos e os países com carência de poupança pouparem mais. Se os segundos se emendarem, mas os primeiros teimarem - que é o que está a acontecer -, a tendência será para a estagnação duradoura e a permanência de elevado desemprego, porque, globalmente, a poupança aumentou ainda mais.

Nos países com poupança mais baixa, as empresas e os consumidores inverteram drasticamente os seus comportamentos. Consomem e investem agora menos e, logicamente, aforram mais. A única maneira de evitar o colapso económico é a intervenção massiva dos governos para suprir a quebra abrupta da procura efectiva.

Mas isso implica o aumento dos défices públicos e, excluído o seu financiamento pela emissão de moeda, o crescimento brusco do endividamento público. Felizmente, para já, o excesso de poupança a nível mundial encarrega-se de manter as taxas de juro a um nível muito rasteirinho.

Como irá tudo isto acabar? Não sabemos, mas uma coisa vos garanto: o que quer que seja não depende em nada de nada daquilo que façamos cá na santa terrinha. Neste particular, cumpre-nos apenas cuidar de não dar demasiado nas vistas.

Só um provinciano incurável não entende isto.



 

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