Quinta-feira, 26 de Novembro de 2009
Se o último ano demonstrou algo, foi que não importa que nos portemos financeiramente mal, desde que nos portemos um nadinha melhor que os outros.
Que interessam os défices portugueses, se a ousadia dos EUA, da Inglaterra, da Irlanda, da Espanha ou da Grécia nos colocam na invejável posição de esbanjadores envergonhados?
Metam isto na cabeça: a partir do momento em que meio mundo partilha da nossa desgraça, encontramo-nos em boa e sólida companhia. A dívida, chegadas as coisas a este ponto, é um problema tão grave para os credores como para os devedores.
A presente crise tem na sua raíz um excesso de poupança, com a particularidade de ele se encontrar concentrado num punhado de países: China, Japão, Alemanha e pouco mais.
Estes países queriam ao mesmo tempo produzir cada vez mais e conservar balanças comerciais largamente excedentárias. Ora, isso só é possível se eles emprestarem a outros para eles lhes comprarem o que produzem em excesso. Quando estes últimos atingiram o limite das suas capacidades de endividamento, o motor gripou.
Curiosamente, a China, o Japão e a Alemanha parecem convencidos, contra toda a evidência, de que podem continuar a jogar o jogo mercantilista. A chanceler Angela Merkel (um caso de rara perspicácia) não entende que só se pode vencer Mercedes se alguém comprar Mercedes. O governo chinês persiste em manter o valor da sua moeda colada ao dólar para assegurar que as t-shirts permanecem baratinhas. O Japão medita há duas décadas no assunto.
Só é possível uma saída airosa da crise se os países com excesso de poupança pouparem menos e os países com carência de poupança pouparem mais. Se os segundos se emendarem, mas os primeiros teimarem - que é o que está a acontecer -, a tendência será para a estagnação duradoura e a permanência de elevado desemprego, porque, globalmente, a poupança aumentou ainda mais.
Nos países com poupança mais baixa, as empresas e os consumidores inverteram drasticamente os seus comportamentos. Consomem e investem agora menos e, logicamente, aforram mais. A única maneira de evitar o colapso económico é a intervenção massiva dos governos para suprir a quebra abrupta da procura efectiva.
Mas isso implica o aumento dos défices públicos e, excluído o seu financiamento pela emissão de moeda, o crescimento brusco do endividamento público. Felizmente, para já, o excesso de poupança a nível mundial encarrega-se de manter as taxas de juro a um nível muito rasteirinho.
Como irá tudo isto acabar? Não sabemos, mas uma coisa vos garanto: o que quer que seja não depende em nada de nada daquilo que façamos cá na santa terrinha. Neste particular, cumpre-nos apenas cuidar de não dar demasiado nas vistas.
Só um provinciano incurável não entende isto.
Mais uma vez demonstro falta de "espírito corporativo"
A agência de notação de risco Moody's reforçou hoje o seu outlook negativo sobre o rating da dívida da república portuguesa, devido à revisão em alta do défice.(...)
"O facto de o ministro das Finanças admitir que o défice orçamental poderá ser de oito por cento do Produto Interno Bruto [PIB], muito superior ao anteriormente estimado, sugere que as perspectivas de curto prazo são agora mais preocupantes", escreve a Moody's na nota.
A agência destaca que a situação orçamental portuguesa "estava já a deteriorar-se há algum tempo, ainda antes de a crise financeira começar". Além disso, a economia portuguesa "está presa numa dinâmica de baixo crescimento devido à fraca competitividade", o que faz com o Governo tenha de "tomar decisões difíceis se quiser reduzir a dívida".
A Moody's considera ainda que o acordo a que Portugal chegou com Bruxelas para reduzir o défice orçamental para três por cento do PIB até 2013 é "irrealista" face ao passado recente.
"O Governo falhou em trazer o défice para baixo do limite dos três por cento do Pacto de Estabilidade e Crescimento em múltiplas ocasiões e fez pouco para o reduzir para baixo dos três por cento nas poucas ocasiões em que o conseguiu", diz a agência.
Além disso, a Moody's acrescenta que, "uma vez que a reversão das medidas de estímulo que foram tomadas durante a crise for excluída para 2010, o ajustamento ainda terá de ser mais drástico se o objectivo de reduzir o défice para 2013 for para ser cumprido".
De
JP Santos a 27 de Novembro de 2009 às 10:12
"Só é possível uma saída airosa da crise se os países com excesso de poupança pouparem menos e os países com carência de poupança pouparem mais."
Inteiramente de acordo (embora isso não signifique défices externos zero). Estou, aliás, convencido disto desde, pelo menos, a crise asiática de meados da década de 90. Mas permita-me uma pergunta, embora seja verdade que Portugal é irrelevante do ponto de vista da economia mundial, em qual dos dois grupos coloca Portugal ?
É claro que Portugal tem carência de poupança.
De
JP Santos a 27 de Novembro de 2009 às 13:25
Então correspondendo a poupança nacional ao somatório das poupanças privada e pública (ou seja do saldo orçamental) certamente que concordará também comigo que, na zona euro, o maior esforço expansionista deveria ocorrer nos países do centro da Europa (nomeadamente, Alemanha, Países Baixos e Áustria - não incluo a Bélgica por razões relacionadas com os elevados níveis de divida pública) e que Portugal (tal como noutros países da periferia como Irlanda, Espanha ou Grécia)deveria ser um dos países, nomeadamente da zona euro, onde deveria ser maior a preocupação com a contenção das despesas públicas e o desequilibrio das contas públicas deveria ser maior.
Com certeza, embora isso não signifique que essa deva ser a prioridade da política económica.
"Nos países com poupança mais baixa, as empresas e os consumidores inverteram drasticamente os seus comportamentos."
Esta afirmação parece-me a modos que um exagero. O deficit externo de Portugal e dos EUA continua calamitosamente elevado. Se não me engano, a última previsão do Banco de Portugal apontava para um deficit externo de 8,5% do PIB este ano. O que é uma enormidade. Será verdade que os portugueses estão a esforçar-se por poupar, mas estão ainda muitíssimo longe de ter o sucesso que a frase citada sugere.
Está confirmado que a poupança das famílias e das empresas aumentou muito este ano em Portugal, o que se reflectiu na enorme descida das importações. Logo, o défice externo também baixou muito.
Todos sabemos, aliás, que o consumo baixou apesar da subida muito significativa dos salários reais.
A grande incógnita está em saber que os portugueses retomarão ou não rapidamente os seus anteriores padrões de consumo.
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