esta coisa de acharmos que não houve história ou que o que ficou para trás é sempre mais benigno e somos o tempo do apocalipse -- e isto por mais que devamos ter noção do que de trás nos reafirma o mistério essencial do que somos, a terrível incompreensão de quase tudo, a brutalidade alucinada da nossa natureza. jogos de computador poderiam mudar-nos? oxalá. as relações entre pais e filhos estão rarefeitas? comparadas com quê? com o tempo em que nas classes altas as crianças eram criadas por serviçais e amas e nas classes baixas começavam a trabalhar mal andavam? ninguém leu oliver twist? ou os gaibéus?
num dos mails que troquei com o meu entrevistado, em resposta às questões que lhe surgiram, respondi: 'acho que estas coisas aconteceram sempre. Dostoievsky não escreveu sobre um jovem estudante que resolve matar para provar que pode? Crimes tremendos, inexplicáveis, imprevisíveis sempre aconteceram. Penso que a grande diferença que sentimos é o facto de agora se dar tanta importância a este tipo de acontecimentos. E não só por voyeurismo, mas também porque numa sociedade menos violenta, mais controlada, a violência é mais notada. É claro que toda a gente se choca por os protagonistas serem não só jovens como diferenciados -- sobretudo no caso da Carla e do João -- mas será que isso não significa que esperamos que os crimes violentos, hediondos, pertençam aos ignaros e aos pobres (aos brutos?) e portanto longe de nós?'
claro que não sei, ninguém sabe, de onde vem isto que aconteceu a carla e joana. não sei de onde vem o que fizeram david e joão (e digo fizeram porque, se com joão, apanhado a matar carla, não há qualquer dúvida, haverá lugar para poucas, se algumas, com david). mas se não podemos eximir-nos de pensar e pensar e pensar nisto, não me faz sentido, qualquer sentido, atribuir a 'culpa' a jogos de computador ou a quaisquer alegadas desagregações familiares. temos de ir mais fundo que isso -- temos de olhar para nós, questionar que ideia distorcida, infeliz, torturada, do amor e das relações se expõe aqui, que noção de poder e posse, desprezo e ausência total de empatia ergue os golpes que derrubaram carla e joana. carla e joana, duas de nós. como eu e tu.
Fernanda,
Está a querer encontrar encontrar explicações exclusivamente sociológicas para o que aconteceu (que não é novo e existe em todas as sociedades).
Há uns anos encontrei um paper de chamado "the biological roots of heat-passion crimes" (penso que é isto) escrito por M. Goldstein que é muito interessante para a discussão dos porquês de que fala.
De
Shyznogud a 28 de Novembro de 2009 às 19:35
Explicações sociológicas? Tem mm a certeza q leu o texto q está a comentar?
"temos de olhar para nós, questionar que ideia distorcida, infeliz, torturada, do amor e das relações se expõe aqui, que noção de poder e posse, desprezo e ausência total de empatia ergue os golpes que derrubaram carla e joana. carla e joana, duas de nós."
"Penso que a grande diferença que sentimos é o facto de agora se dar tanta importância a este tipo de acontecimentos. E não só por voyeurismo, mas também porque numa sociedade menos violenta, mais controlada, a violência é mais notada."
Não me parece necessário colocar aqui todo o texto, pois não?
Por um lado nega-se (e bem) a influência dos jogos de computador e das famílias destruturadas e por outro: "o que é o amor? É o amor mau? Temos de olhar para NÓS e questionar...."
De
f. a 29 de Novembro de 2009 às 00:44
damião, se acha que olharmos para dentro e questionarmos a ideia de amor que se expõe nestes casos é apelar à sociologia, realmente não sei que lhe diga.
Não acredito que segue o que a Maria João Pires disse...??
Não é apelar à sociologia (o que quer que isso seja) é olhar para um fenómeno que existe provavelmente desde que existe a espécie humana, que é transversal aos mais diversos modelos de sociedade e explorar outros ângulos explicativos do problema.
E não, não acho (obviamente) que as raizes biológicas dos crimes passionais os expliquem na totalidade (e muito menos os desculpam).
Também não acho que a explicação destes casos seja exclusivamente psicopatológica, a maior parte dos homicidas passionais não têm uma perturbação de personalidade anti-social (a propósito do post relacionado da Ana Matos Pires).
Se é o termo sociológico que lhe faz impressão é só porque o toma em sentido estrito (e eu acho que ao contrário da Maria J. Pires o não fez). Eu só chamei à atenção que, na génese destes fenómenos, estão provavelmente factores que quase nunca estão presentes nas reflexões que se fazem sobre os mesmos. Não queria, de modo nenhum, entrar numa discussão "C.P. Snow like" e muito menos elaborar sobre o que é apelar à sociologia.
De
Ana a 28 de Novembro de 2009 às 19:43
"se não podemos eximir-nos de pensar e pensar e pensar nisto, não me faz sentido, qualquer sentido, atribuir a 'culpa' a jogos de computador ou a quaisquer alegadas desagregações familiares. temos de ir mais fundo que isso -- temos de olhar para nós, questionar que ideia distorcida, infeliz, torturada, do amor e das relações se expõe aqui, que noção de poder e posse, desprezo e ausência total de empatia ergue os golpes que derrubaram carla e joana. carla e joana, duas de nós. como eu e tu."
concordo completamente, penso que hoje em dia se artibuem demasiadas vezes a culpa dos nossos actos a froças externas a nós.
De bluesmile a 28 de Novembro de 2009 às 21:12
Cara F:
Deixe-me cumprimentá-la por esta reportagem. Na mediocridade em que nada o jornalismo português nestes últimos tempos, achei que este seu trabalho é excelente e deve ser divulgado.
Há uns meses atrás , numa entrevista a um jornal, o Saramago falava com uma lucidez extraordinária das alterações do papel social da mulher nas sociedades contemporãneas e de uma espécie de ódio latente a este feminino liberto e autónomo.
Falou mesmo desta questão do assassínio das mulheres como algo atávico - se não as podemos controlar, vamos matá-las. Tentei encontrar a entrevista na net mas penso que não está online.
Fiquei a reflectir nesta entrevista a propósito dos últimos casos de homocídio de jovens mulheres. E sim, penso que é uma tendência, algo de radicalmente novo, esta violência fora dos quadros de "conjugalidade institucional", em que a mulher tem aparentemente tem uma maior liberdade para fazer as suas opções.
Claro que é infantil falar da "culpa dos computadores" ou das "famílias rarefeitas", mas não devermos reflectir sobre este súbito despoletar de uma violência cruel contra as mulheres, em contextos de não conjugalidade?
Para a minha geração ( tenho 45 anos) era completamente inconcebível pensar que uma jovem mulher adulta e com formação académica superior pudesse sequer tolerar um "namoro " violento ou certas formas de "controlo" do par.
Hoje observo com perplexidade que miúdas de 15, 18 20 anos consideram "normal" que os namorados lhes controlem as saídas, lhes fiscalizem os telemóveis ou as proibam de usar certas roupas. E
Acho ainda mais extraordinário que as relações de domínio , muitas vezes relacionadas com a prática de sexo sem intimidade ou gratificação, (às vezes sob pressão do parceiro), sejam hoje uma banalidade.
De
f. a 29 de Novembro de 2009 às 00:51
não sei se essas relações de domínio e de prática de sexo sem intimidade e gratificação d q fala são mais banais hoje que ontem e anteontem.
tenho a mm idade e outra noção das coisas -- vi muitos namoros violentos e muitas formas de controlo do par in my time. acho que as coisas demoram a mudar, se é q alguma vez mudarão. o poder tende a fazer parte de todas as relações, e exerce-se de formas que são geralmente codificadas (aqui o damião -- ver comentários acima -- vai ter de perdoar a sociologia).
mas concordo q a autonomização progressiva das mulheres e o desencontro dessa realidade com as expectativas dos homens em relação ao papel delas também é um factor nestas coisas. não creio é que seja o único.
Está perdoada...!
Não lhes chame factores sociológicos (que isso parece irritar algumas pessoas) diga psico-sociológicos ou antropo-psico-sociológicos. Mas não se esqueça dos bio-antropo-psico-sociológicos.
De
f. a 29 de Novembro de 2009 às 03:38
suspiro.
A fantasia sobre os "bons velhos tempos" é pelo menos tão antiga como o livro do Genesis. Há também um argumento muito recorrente sobre a imutabilidade da "natureza" humana.
A taxa de variação das características genéticas é muito baixa na escala de tempos da evolução das espécies, continuamos a ter dois braços, duas pernas e algumas funções cerebrais mais ou menos sofisticadas, como a capacidade de imitação que partilhamos, por exemplo, com os macacos japoneses. O que ja´não anda tão devagar é a cultura que vai nascendo das interacções sociais e que molda a vida das sociedades.
Se é um erro atribuir os crimes que vai sendo cometidos às novidades de hoje, independentemente dos seus eventuais méritos, será um erro simétrico argumentar que, dado que existem crimes desde sempre, as novidades de hoje não merecem uma avaliação crítica.
Eu não descartaria com tanta leveza a má influência de alguns jogos de computador embora, neste caso concreto, não tenha informação sobre essa possível influência.
De
f. a 29 de Novembro de 2009 às 03:47
não descarto a importância do fenómeno. acho que essa de perspectivação gratuita, sem espessura, da violência e do sangue existe, mas vejo mais o seu efeito em casos como o de columbine, ainda que ache sempre que uma única chave de leitura é inadequada. neste tipo de crimes, porém, tenho as maiores dúvidas d q exista qq relação. as pessoas que foram mortas foram-no por serem aquelas pessoas, não por serem alvos indiferenciados. tratava-se, creio, de destruir a carla e a joana. aquela carla e aquela joana. é algo de muito pessoal, muito dirigido, muito específico.
Acho que sim, que estes crimes foram muito dirigidos a pessoas mas aos fenómenos do tipo columbine eu acrecentaria os de assaltos à mão armada a desconhecidos seguidos de homicídio por "dá cá aquela palha".
De
JP Santos a 29 de Novembro de 2009 às 11:45
Em primeiro lugar parabéns pela excelente reportagem.
Penso no entanto que o texto e os comentários anteriores falham na análise dos porquês. Pelo que pude ler da reportagem (e de um artigo sobre o caso da Joana publicado no suplemento P2 do Público) os casos deviam ser analisados do ponto de vista da psicologia.
Os comportamentos descritos nos dois casos revelam claros sinais de comportamentos obsessivos de carácter patológico e mesmo psicótico em que existe uma (muitas vezes crescente) desconexão entre a realidade e fantasia.
Em ambos os casos detecto claros sinais de dificuldades em construir um relacionamento saudável. Pelas descrições ambos os relacionamentos eram tensos e complicados, cheios de zangas, desconfianças e ciúmes. Em que as zangas acabavam em frequentes reconciliações revelam a existência de uma grande vinculação com o outro que torna extremamente dolorosa e até aterradora a mera hipótese de uma "separação" definitiva.
Nestas situações os envolvidos podem facilmente sentir-se encurralados entre uma relação problemática que sentem que não tem futuro e uma separação que os aterroriza, o que pode a uma "solução" trágica do conflito, nomeadamente quando sentem que perdem o controlo da situação.
Para mim a principal explicação é pois de ordem psicológica. Dito isto estes comportamentos de tipo obsessivo podem (designadamente quando já existia uma predisposição) ser despoletados ou agravados por elementos que gerem stress ou ansiedade como será por exemplo uma familia desestruturada ou um ambiente escolar ou profissional que seja percebido como ameaçador que podem conduzir à procura de uma busca para fugir à realidade.
Se eu estiver certo estamos perante um quadro diferente dos tipicos "crimes de honra" e o actual (no sentido das últimas décadas) contexto económico e social de grande competitividade e incerteza pode ser um elemento para uma maior frequencia destes casos. Quanto à relação com os jogos de computador a unica que vislumbro é o facto dos jogos poderem desempenhar esse papel de fuga da realidade (geralmente com desfechos menos trágicos).
De
f. a 29 de Novembro de 2009 às 20:12
portanto 'noção de poder e posse, desprezo e ausência total de empatia ergue os golpes que derrubaram carla e joana' não são factores psicológicos?
De
JP Santos a 29 de Novembro de 2009 às 22:10
Não julgo que se devam criar polémicas onde elas não existem mas como elaborou o comentário em forma de questão faço notar que o "temos de olhar para nós, questionar que ideia distorcida, infeliz, torturada, do amor e das relações se expõe aqui" que precede esse texto fez-me crer que estava a apelar para uma explicação de tipo social. Vejo que não seria essa a intenção e por isso penitencio-me pela incorrecta interpretação.
De estudante a 29 de Novembro de 2009 às 14:48
Bom se calhar fui a única a dar importância ao leve pormenor: "um leve ansiolítico"
(No dia em que matou
Carla, João Oliveira não terá tomado a medicação - um leve ansiolítico
- que um médico do centro de Saúde lhe teria receitado para a depressão
que lhe fora diagnosticada em Agosto.)
Não teria sido por ele não ter tomado o ansiolítico mas sim o efeito
que este medicamento (de curta duração!!) estaria a ter na conduta do
rapaz.
Muitos factores existem que levaram a este desfecho mas o que estes medicamentos podem fazer à mente
de um rapaz de 28 anos - sejam eles leves ou pesados -
ninguém tenha dúvidas.
No nosso país estes medicamentos são prescritos a
torto e a direito. Os médicos têm que ser responsabilizados.
Observando as estatísticas, estas substâncias parecem ser facilmente
obtidas (ou então andamos todos deprimidos e ansiosos!), estando na realidade o paciente sob controlo da situação e não o médico que em primeiro lugar receitou a terapeutica.
Estes medicamentos são muito perigosos - aliás qualquer um
percebe que substâncias que actuem nos receptores de neurotransmissores, alterando a sua função - por exemplo inibindo o sistema nervoso central e diminuindo a ansiedade - são substâncias que impedem o controlo consciente das nossas acções.
Hoje em dia, os jovens tem horários incertos e se não se dorme as horas
suficientes para que o efeito do comprimido não afecte a vida diária ..
mais cedo
ou mais tarde perde o domínio sobre si, sobre os seus pensamentos e
atitudes. Sendo o mais grave disto tudo a ilusão de que se está a
controlar a situação e o possível abuso no controlo da sua "ansiedade". Os comprimidos são pequenos - tomar um comprimido é diferente de tomar meio comprimido e um paciente não sabe disso - o potencial/acção daquelas moléculas é substimado pela maioria.
O folheto diz que em pequenas doses (recomendadas pelo médico) não
causam danos físicos ou mentais. Porém maior mentira não poderia ser
dita.
Se calhar a chave de pelo menos um dos casos, não está em vídeo jogos
mas sim no efeito de substâncias sintéticas no cérebro humano.
Apelo à reflexão pela parte dos leitores que tomam este tipo de
medicação: lidar com as situações por si e não medicado. E se o ritmo
de vida é propício ao consumo destas drogas, se calhar devia parar e
mudar de vida.
Factores sociais, sem dúvida que sim; factores psicológicos, psiquiátricos até, também.
Simplificar demasiado é inimigo de compreender. Por isso, é inglória qualquer divagação, neste formato, sobre um tema tão complexo.
Preocupa-me o crescimento da inconsciência social, do desprezo pelo outro, ou mesmo do absoluto desinteresse por si próprio (último e desesperado pedido de socorro?), sobretudo porque penso no que espera os meus filhos.
Parece-me ser de investigar mais na análise da conjugação explosiva destes dois fenómenos: a cada vez maior desvalorização social das chamadas "vidas comuns", que antigamente preenchiam os sonhos de felicidade da maioria de nós, e cada vez menor capacidade de "reserva psicológica" de cada um de nós que, apesar de nunca termos passado por experiências traumáticas como as que caracterizaram outras gerações - guerras, por exemplo -, parece estarem esgotadas antea ainda de se atingir a maturidade. Com quê? Boa pergunta...
Que será que nos esgota a nossa "capacidade de encaixe" psicológica para situações- (às vezes apenas aparentemente) -limite? A omnipresença da violência servida em casa (pela televisão)? A sensação (incosnciente?) de ilimitada liberdade sem responsabilidade que nos inculcam no Ensino? A incapacidade de aceitar situações adversas, ou apenas inesperadas (e desesperantes)?
Ou será, mais ainda do que isso, a perda das referências morais atemorizantes ("ir para o Inferno"), ou mesmo, fruto talvez de uma difusa sensação de omnisciência ("basta ir à «net»"), da própria capacidade de SONHAR?
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