Domingo, 29 de Novembro de 2009

há uma ou duas semanas, fomos informados de que os números de mulheres mortas pelos maridos, namorados, ex-maridos, ex-namorados e quejandos este ano eram inferiores aos de 2008. desde então, por extraordinária ironia, acumularam-se os casos. acordei hoje a ouvir, na tsf, o relato de outro. uma mulher morta a tiro, com uma caçadeira, pelo marido/companheiro/o raio que o parta à porta do posto da gnr, depois de ter feito queixa por violência doméstica. parece que a seguir, porém, o homem ainda matou um guarda, já dentro do posto, com um revólver.

 

vejamos: segundo a notícia, ele conseguiu não só mandar a ambulância regressar ao posto (a ambulância não tem rádio? não comunicou ao posto o que se passava?) como 'pedir para ver a mulher' à porta do posto. matou-a e ainda conseguiu, depois de a matar, entrar dentro do posto armado e disparar sobre dois guardas, matando um. algo me diz que se ele tivesse roubado um banco à mão armada ou fosse um desses miúdos de periferia de pele escura não se teriam esquecido de lhe pôr umas algemas e de o revistar no chão, entre pontapés, em vez de só lhe tirarem a caçadeira. mas era um homem que 'tinha perdido a cabeça'. quem sabe um homem 'cego pela paixão', 'louco de ciúmes'. um como eles, talvez tenham pensado os guardas, que 'estragou a vida, coitado'. pois é. daqui em diante, talvez pensem diferente. ou talvez não. afinal, tanta gente com obrigações de não se deixar resvalar para o bonitinho e de não embarcar em ideias imberbes de amores trágicos e desencontros do destino, romeus e julietas, quando uma miúda de 20 anos é brutalmente assassinada e metida de saco de plástico na cabeça dentro da mala de um carro, à execução da mafia, acaba a escrever isto que a joão releva, 'a fronteira que ultrapassaram'. olha, estes dois do posto da gnr -- aliás três, a contar com o guarda morto -- também ultrapassaram a fronteira. do amor. que lindo. sai um filme, faz favor.

 

adenda: nos comentários a este artigo do público, um anónimo que diz viver perto informa que dentro da ambulância ia a filha da morta e do assassino, de cinco anos, que sofreu ferimentos ligeiros -- para além de ver a mãe ser morta pelo pai. mais um pormenor para o filme de amor.


40 comentários:
De congeminações a 29 de Novembro de 2009 às 16:16
Estes Romeus do século XXI matam os seus amores mas não têm a coragem de pôr fim à sua existência o que seria um favor que nos faziam pois a sociedade viviria   muito mais segura, sem eles.


De anónimo a 29 de Novembro de 2009 às 16:41
Segundo dizem algun(mas)s entendido(a)s as mulheres foram arranjando ao longo dos milénios estratégias para lidar com o poder masculino ... Depois há homens que não gostam ...

O homem está morto ...


De José Manuel Vieira a 29 de Novembro de 2009 às 17:30
F:
Compreendo o s estado de espirito, mas nada se resolve sem cabeça fria e objectividade para analisar o problema.No dia 25 p.p assisti,aqui em Castelo de Paiva,a jornadas s violência doméstica. Foi impressionante o testemunho de varias mulheres. Até á data neste concelho 50 mulheres participaram OFICIALMENTE á GNR violência doméstica,mostrando que é uma chaga social que a meu ver só se resolverá com a denúncia pública, como AINDA, com a educação (desde o básico), com temas que formem uma nova sociedade CIVICA E CULTURALMENTE DIFERENTE.
Cumpts.


De f. a 29 de Novembro de 2009 às 19:22
caro josé manuel vieira, explique-m lá o q é q neste post não é objectivo. e o q é q neste post não tem a ver com a forma como culturalment a violência doméstica/sobre as mulheres é percepcionada.


De Sérgio a 29 de Novembro de 2009 às 17:34
Fernanda, gosto de si, da sua maneira de colocar estas questoes, sem papas na língua, infelizmente, nesta sociedade de hoje, só falando assim se consegue ser ouvido, quando li a notícia hoje, a primeira coisa que pensei foi precisamente como é que nem no posto da GNR esta mulher conseguiu ser protegida de ser selvaticamente abatida, à frente da filhinha de 5 anos, e, mais ainda, como é que um homem que acabou de fazer uma coisa destas, nao é revistado, e ainda mata mais uma pessoa.

Concordo a 100% com o que disse, os guardas nao viram nele um criminoso, viram nele o tal "louco de ciúmes", "o coitado, que estragou a vida", e essa idiotice de nao tratar um filho da puta destes como um vulgar criminoso custou a vida a mais um deles e podia ter custado a outros mais.

O problema é a sociedade nao considerar estes crimes verdadeiros crimes, matar a mulher por ciúmes,  é um crime socialmente aceitável e perdoável, é incomprensível, mas é assim, portanto tem que se usar palavras duras, cruas, que as pessoas entendam, e para que saibam que isto tem que mudar.

Parabéns e continue com essa garra, é de pessoas assim que precisamos, aguerridas, lutadoras.


De Carlos Marques a 29 de Novembro de 2009 às 18:03
Sou contra a violência. Ponto. E não separo a violência em violência incompreensível e violência compreensível. A violência tem de ter o mesmo tratamento. A violência desse homem não devia ter acontecido. Ele devia ter sido impedido, algemado, atordoado se necessário. O tratamento que a polícia dá aos criminosos devia ser igual para todos. Sejam esses assassinos de mulheres, sejam os tais “miúdos” da periferia. Se eles fossem de vez em quando, em bando, corajosos como sempre, para a sua rua, sempre queria ver se continuava a achá-los miúdos. Ou se tivesse filhos que tivessem de fazer todos os dias o caminho da escola a pé na tal periferia, sempre queria ver se continuava a pensar que a violência merece tratamentos distintos.


De f. a 29 de Novembro de 2009 às 19:19
carlos marques, há-de, quando tiver oportunidade, explicar-m onde raio leu neste minúsculo post q eu considero/defendo q a violência deve ter tratamentos distintos. é capaz d s dar o caso d eu estar a defender/considerar, neste mesmo minúsculo post, que não deve. custa assim tanto ler o q s escreve antes de correr a comentar n'importe quoi?


De Carlos Marques a 29 de Novembro de 2009 às 22:06
Ok, se defende que a violência deve ser duramente combatida, seja contra maridos que se julgam acima da lei, seja contra miúdos que se julgam fora da lei, então estamos de acordo.  


De Maria a 29 de Novembro de 2009 às 18:25
F.
Parabéns pelo seu excelente trabalho sobre o tema no DN e também pelos seus post's tão objectivos e carregados da emoção e revolta que também eu sinto.
Em relação a este caso de hoje, pergunto?

E agora os filhos? E a criança que assistiu a tudo (à violência em casa e...fora dela!?O egoísmo assassino não tem sentimentos.
Que poderemos fazer? Sim, nós, sociedade civil para ajudar a recuperar valores e a ajudar as vítimas,mesmo as que "pensam" que o não são. Uma coisa é certa. DENUNCIAR, DENUNCIAR, DENUNCIAR....
Há que fazer algo, muito urgente, em termos de legislação para, ao mínimo indício (depois se averiguará), meter os agressores atrás de ferros.
Ao nível do ensino, é OBRIGATÒRIO, desde já, confrontar os jovens com este tipo de realidades, discutir com eles e, na escola haver desde cedo, uma "certa forma de controle " e de detecção de sinais de violência. Terá que passar pelas escolas este trabalho. Sei que há já um projecto português, mas baseado numa grande experiência canadiana, a funcionar numa escola/piloto e que se destina precisamente e maioritariamente para a PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA, o que é muito importante. Afinal há tanta gente da área da Psicologia, etc, no desemprego ou a trabalhar "aos soluços", porque não se trabalhar a "sério" nesta prevenção e detecção de situações de violência???


De Afonso a 29 de Novembro de 2009 às 18:43
Cara Fernando Câncio, infelizmente, mais um caso... O que se está a passar? http://www.publico.pt/Local/homem-mata-a-tiro-a-mulher-e-militar-da-gnr_1411905 (http://www.publico.pt/Local/homem-mata-a-tiro-a-mulher-e-militar-da-gnr_1411905)


De f. a 29 de Novembro de 2009 às 19:20
afonso, este post é sobre esse caso, ou não?


De Susana A. a 29 de Novembro de 2009 às 18:46

Eu, para além de incredulidade, sinto-me desconfiada  das pessoas que romantizam estes crimes "passionais". Para além de não saberem o que é o amor, conseguem de alguma forma identificar-se com os sentimentos que residem na génese destes crimes, entre os quais o amor nunca se inclui. Ou são pessoas com fraco entendimento quanto a este nobre sentimento, ou são potenciais agressores. Ou ainda, ambos.


De Fernando a 29 de Novembro de 2009 às 19:52
Numa pequena comarca do interior centro, dos 593 inquéritos que o Ministério Público registou em 2008, 52 (8,7%) diziam respeito crimes de violência doméstica. Se extrapolássemos apenas 8% para o todo nacional de inquéritos registados em 2008 (557 884), teríamos 44 630 respeitantes a tais crimes. Creio que estes números dizem bem da importância do problema e da oportunidade das suas intervenções.


De Carlos Azevedo a 29 de Novembro de 2009 às 19:56
Sim, para a puta que os pariu, para a prisão ou até, antes de cometerem o crime,  para debaixo da terra. Mas deixe o amor fora disto. Nestes casos, ele nunca esteve sequer por perto. Pelo menos, não por parte daqueles que mataram.


De f. a 29 de Novembro de 2009 às 20:07
carlos, desculpe, esse 'deixe o amor fora disto' é p mim? começo a desesperar com esta história de comentários sobre posts q não se leram.


De Carlos Azevedo a 29 de Novembro de 2009 às 20:17
Não desespere, porque não é para ler literalmente. Eu percebi o post, que li e subscrevo. (Eu tenho muitos defeitos, mas não me ponha no mesmo saco dos maluquinhos que vêm aqui só para a insultar. Grato fico.) Foi apenas uma forma de dizer que nestas questões o amor é simplemente a única coisa que garantidamente, por parte de quem matou, nunca existiu. E só a associação do sentimento amor a esta gentalha, ainda que por ironia, já é demais.


 


De f. a 29 de Novembro de 2009 às 20:40
não o coloco nesse saco, decerto, como deverá saber. a associação do amor a esta gentalha existe como sabe e foi aliás hoje relevada pela joão no post q fez sobre a coluna de opinião do miguel gaspar no público. o título, como percebeu, refere-se a isso.


De Carlos Azevedo a 30 de Novembro de 2009 às 00:35
Não tinha lido o post da Maria João Pires que refere quando comentei o seu (embora, como escrevi acima, tenha percebido que o uso da palavra amor era irónico), nem tão-pouco o texto de Miguel Gaspar - que é ridículo. Uma coisa é amar (que, seja lá o que for para cada qual, não é certamente isto), outra é sentir que o outro é um objecto da nossa propriedade. Romantizar o que se passou é transformar um crime numa história a la Romeu e Julieta, pelo que, além de ridículo, é perigoso.

(Compreenderia melhor a romantização se o rapaz, em vez de matar, se tivesse matado; o auto-sacrifício até é poético, e por vezes dá boas prosa e poesia. Já sacrificar o outro é tudo menos poético.)

 


De f. a 30 de Novembro de 2009 às 00:47
bom, agora sim. eheheh. é q este post parte precisamente do texto do miguel gaspar.


De Carlos Azevedo a 30 de Novembro de 2009 às 01:20
Já agora, deixo aqui o exemplo de uma campanha interessante: http://www.maltratozero.com (http://www.maltratozero.com).
Não sei até que ponto uma campanha com esta ajuda, mas mal também não fará, certamente.


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