“Não há nada a temer a não ser o medo”.
A frase é de Franklin Delano Roosevelt, no seu primeiro discurso como presidente dos EUA, em 4 de Março de 1933. Chegou-me muitos anos depois e por via de um filme de Wim Wenders (O Amigo Americano, 1977) dita por Bruno Ganz ou Dennis Hopper -- já não consigo lembrar-me. Não conhecia na altura o seu verdadeiro autor (crendo que foi Roosevelt o autor dessa parte do discurso), mas isso não me impediu de a adoptar como uma espécie de mantra.
Em inglês, a frase tem um subtexto mais rico: não há nada no medo a não ser medo. Há dias, numa qualquer série de TV, ouvi uma concretização prática da máxima. Uma polícia falava com um polícia sobre a coragem necessária para sair da viatura de serviço nos casos em que era provável haver violência. Dizia que as agentes (mais elas por razões terão provavelmente a ver com uma aculturação que não incorpora a violência física – ou seja, “andar à porrada”) tendiam a ficar dentro do carro por receio do confronto físico. Mas ela deixara de o ter. Um dia saíra do carro no meio de uma confusão e apanhara umas bordoadas: “Aí percebes que não é nada de especial”.
Parece não fazer sentido, não é? Se aquilo de que temos medo se concretiza, pareceria normal ficarmos com mais medo ainda. Mas as mais das vezes sucede o contrário – se a experiência não der cabo de nós, o normal é deixarmos de ter medo. Lembro-me de em criança ter um dia feito esse exercício de racionalidade a propósito da ameaça de uns tabefes. Comecei a pensar por que carga de água havia de ter medo de uma coisa que não era afinal nada de especial – uma humilhação e dor momentâneas, ok, mas não mais que isso (e lá se foi o mais veemente argumento da autoridade dos adultos). Mais tarde – já depois de descobrir a frase de Roosevelt no filme de Wenders -- encontrei em Sartre o corolário lógico dessa ideia: podemos sempre escolher, decidir o que queremos fazer, qualquer que seja a ameaça. A liberdade existe sempre, mesmo na ponta de uma arma – depende apenas (sim, este apenas é um pouco extravagante mas não deixa de ser isso mesmo, “apenas”) do que estamos dispostos a dar/sofrer por ela.
Pensei muitas vezes – e continuo a pensar, digamos que não é um assunto “fechado” – em tudo isto quando alguém diz que fez algo terrível ou envergonhante porque não tinha outra alternativa, ou quando pessoas suportam situações penosas ou degradantes por pavor de qualquer coisa – seja violência física, prisão, morte, abandono, solidão, ridículo, desaprovação social, desemprego, a sorte de terceiros. Todos o fazemos, claro: todos já suportámos o que nunca devíamos ter suportado, todos já agimos de forma que considerámos incorrecta para evitar (a nós, a outros) males que considerámos maiores. Em suma, demos poder ao medo. Claro que é muito mais fácil reconhecer isto que contrariar o mecanismo. O que nos assusta tem sempre muito poder – e todos temos a nossa especial casta de terrores, como os que levam os dois apaixonados de 1984 a traírem-se mutuamente e a matar assim o que tinham de mais precioso – e, no mesmo momento, a sua capacidade de resistir.
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
