Domingo, 29 de Novembro de 2009

 

“Não há nada a temer a não ser o medo”.

 

A frase é de Franklin Delano Roosevelt, no seu primeiro discurso como presidente dos EUA, em 4 de Março de 1933. Chegou-me muitos anos depois e por via de um filme de Wim Wenders (O Amigo Americano, 1977) dita por Bruno Ganz ou Dennis Hopper -- já não consigo lembrar-me.  Não conhecia na altura o seu verdadeiro autor (crendo que foi Roosevelt o autor dessa parte do discurso), mas isso não me impediu de a adoptar como uma espécie de mantra.

 

Em inglês, a frase tem um subtexto mais rico: não há nada no medo a não ser medo. Há dias, numa qualquer série de TV, ouvi uma concretização prática da máxima. Uma polícia falava com um polícia sobre a coragem necessária para sair da viatura de serviço nos casos em que era provável haver violência. Dizia que as agentes (mais elas por razões terão provavelmente a ver com uma aculturação que não incorpora  a violência física – ou seja, “andar à porrada”)  tendiam a ficar dentro do carro por receio do confronto físico. Mas ela deixara de o ter. Um dia saíra do carro no meio de uma confusão e apanhara umas bordoadas: “Aí percebes que não é nada de especial”.

 

Parece não fazer sentido, não é? Se aquilo de que temos medo se concretiza, pareceria normal ficarmos com mais medo ainda. Mas as mais das vezes sucede o contrário – se a experiência não der cabo de nós, o normal é deixarmos de ter medo. Lembro-me de em criança ter um dia feito esse exercício de racionalidade a propósito da ameaça de uns tabefes. Comecei a pensar por que carga de água havia de ter medo de uma coisa que não era afinal nada de especial – uma humilhação e dor momentâneas, ok, mas não mais que isso (e lá se foi o mais veemente argumento da autoridade dos adultos). Mais tarde – já depois de descobrir a  frase de Roosevelt no filme de Wenders -- encontrei em Sartre o corolário lógico dessa ideia: podemos sempre escolher, decidir o que queremos fazer, qualquer que seja a ameaça. A liberdade existe sempre, mesmo na ponta de uma arma – depende apenas (sim, este apenas é um pouco extravagante mas não deixa de ser isso mesmo, “apenas”) do que estamos dispostos a dar/sofrer por ela.

 

Pensei muitas vezes – e continuo a pensar, digamos que não é um assunto “fechado” – em tudo isto quando alguém diz que fez algo terrível ou envergonhante porque não tinha outra alternativa, ou quando pessoas suportam situações penosas ou degradantes por pavor de qualquer coisa – seja violência física, prisão, morte, abandono, solidão, ridículo, desaprovação social, desemprego, a sorte de terceiros. Todos o fazemos, claro: todos já suportámos o que nunca devíamos ter suportado, todos já agimos de forma que considerámos incorrecta para evitar (a nós, a outros) males que considerámos maiores. Em suma, demos poder ao medo. Claro que é muito mais fácil reconhecer isto que contrariar o mecanismo. O que nos assusta tem sempre muito poder – e todos temos a nossa especial casta de terrores, como os que levam os dois apaixonados de 1984 a traírem-se mutuamente e a matar assim o que tinham de mais precioso – e, no mesmo momento, a sua capacidade de resistir.

 

E se não temos todos, decerto, estirpe de heróis -- a capacidade de resistir a tortura, ameaças de morte, chantagens brutais ou de afrontar riscos medonhos --, na maior parte dos casos (ou seja, nos mais vulgares) aquilo que nos mete medo é quase sempre menos mau que aquilo que o medo nos faz -- fazer e sofrer. Como a polícia da série, se experimentarmos ir à porrada o mais certo é concluirmos que, afinal, não só sobrevivemos como ficámos mais fortes. Que aquilo que tanto nos amedrontava não era, afinal, nada de especial. (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de domingo passado)

 


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