Segunda-feira, 30 de Novembro de 2009
Maria João Guardão

Uma pessoa começa o ano a juntar-se ao quase meio milhão dos que por via da crise ou quejandos passam a reportar ao centro de emprego. Uma pessoa descobre que o dito fica mesmo ali no bairro, é só descer, virar uma esquina, dobrar outra e pronto já lá está (e isto não é despiciendo, daí em diante a pessoa está obrigada ao “dever de apresentação quinzenal”, i.e, a fazer o trajecto a cada 2 semanas*). Uma pessoa lá vai inscrever-se, recebe uma senha cor de rosa (há 3 cores no sistema), nem espera por aí além e é recebida por uma profissional cortês, eficiente q.b. e capaz de esclarecer quase todas as dúvidas que a desempregada neófita traz consigo. A pessoa sai do centro de emprego com um suspiro de alívio e a certidão do seu novo estado debaixo do braço: uma pasta catita em cuja capa se pode ler, a verde (esperança?),
- Em acção para o emprego - dossiê de apoio
e cujo interior está recheado de separadores verdes. É um arquivo pessoal para ser preenchido com o plano pessoal de emprego*. A pessoa desempregada tem um momento de reminiscência dos seus anos  escolares, descobre numa gaveta a coisa de fazer furos e começa a dispor folhas na pasta catita e de argolas. Tem um plano que é pessoal e é de emprego e não vê a hora de o pôr em acção*.
Passados nem bem 30 dias recebe um cheque no correio. O seu primeiro subsídio de desemprego, ena. O fundo optimista da pessoa desempregada pensa
- o sistema funciona
e congratula-se. Começa a marcar reuniões com vista ao plano que é pessoal e é de emprego. Um mês e meio mais tarde a pessoa desempregada abre o envelope em correio registado que contém o  documento essencial para dar início ao processo de candidatura para deixar de ser uma pessoa desempregada: a declaração da Caixa de Previdência a que pertence, estabelecendo o montante do subsídio de desemprego a que tem direito e o período durante o qual este é concedido. A pessoa desempregada recorre a todas as técnicas zen de que ouviu falar para não desatar aos berros no meio da estação dos Correios
- aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaargh


vai para casa e passa o mês seguinte ao telefone, no e-mail e outra vez ao telefone a tentar perceber porque é que  o seu subsistema de Segurança Social concluiu que ela tem direito a menos seis meses de subsídio de desemprego do que as disposições legais estabelecem. Ninguém explica. Volta a pesquisar a lei e as adendas aos documentos legais e confirma os seus cálculos iniciais. Arranja o contacto de uma alta funcionária do Instituto da Segurança Social a quem escreve um longo e-mail expondo a situação. O parecer informal (sem consulta do processo) da alta funcionária dá razão à pessoa desempregada que volta a expor o caso ao seu subsistema de SS., recorrendo da decisão tomada. Este informa-a de que “ foi tomada em consideração a reclamação apresentada” e solicitados “esclarecimentos à Direcção-Geral da Segurança Social”. A Praga de Kafka e a Lisboa da pessoa desempregada transformam-se em cidades-geminadas até que, 5 (cinco) meses depois, a pessoa desempregada vai à estação de Correios levantar uma carta registada do seu subsistema de SS. que declara que a pessoa tem direito
não aos X meses que o subsistema declarou
não aos X meses+6meses a que a pessoa desempregada  julga ter direito
mas sim a X meses+6 meses+3 meses de subsidio de desemprego.
- uuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuiiiiiiiiiiii
grita a pessoa desempregada à porta da estação dos Correios – e os transeuntes acham que é mais uma que fala aos berros ao telemóvel -  apesar de continuar a não saber que equação desaguou naquele número, 9 (nove) meses de diferença a 41,922€ por dia (é fazer as contas).
O que sabe é que vai acabar o ano a pertencer ao mais de meio milhão dos que por via da crise ou quejandos ainda não conseguiram deixar de reportar ao centro de emprego (ela deve ser mais por via dos quejandos). Mas, caramba, barafusta. E volta a marcar reuniões com vista ao plano que é pessoal e é de emprego. Agora só falta preencher o formulário de candidatura ao PEOE* e aguardar o deferimento.
-    Piece of cake.
(continua)


* o tema será esmiuçado (sou eu e o Oscar Wilde, não resistimos a um verbo fashion) em próximos episódios da série
 
6 comentários:
De Anónimo a 30 de Novembro de 2009 às 20:24
Minha cara,


este foi um dos melhores textos que li por aqui, mas não vai ser muito comentado. Sabe, é que o desemprego é uma maçada; não é nada fashion...


De Maria João Guardão a 1 de Dezembro de 2009 às 21:28
tanquios caro anónimo. mas olhe que o desemprego está imenso na moda..


De outro desempregado a 30 de Novembro de 2009 às 20:46
Eu gostava de ter tido a adjudicação dessa pastinha verde, ó se gostava.


De Maria João Guardão a 1 de Dezembro de 2009 às 21:36
pela sua rica saúde, outro desempregado, você  conserve-se longe da pastinha verde, olhe que aquilo faz mal à vista


De g_l a 1 de Dezembro de 2009 às 02:08
Muito bom. Reencaminhei para uma desempregada.


De Maria João Guardão a 1 de Dezembro de 2009 às 21:42
Obrigada g_l. Se  essa outra pessoa está desempregada vai com certeza precisar de barafustar mais dia menos dia.


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