Terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Não devemos ser injustos. As tretas do Friedman deram agora barraca, mas, durante trinta anos, trouxeram prosperidade a todo o mundo numa escala sem precedentes.

Será verdade?

Não. Quando, a partir do final dos anos 70, o monetarismo foi adoptado em Inglaterra e, depois, nos EUA, o resultado imediato foi uma crise (ou melhor, duas: uma em cada país) de enormes proporções, da qual só foi possível sair com um aumento sem precedentes dos défices públicos.

As prescrições friedmanianas de controlo do crescimento da massa monetária foram prontamente abandonadas. Passado pouco tempo, nada restava da parte "científica" da doutrina.

Ficou apenas a fé ilimitada nos poderes dos mercados desregulados e a desconfiança doentia em relação aos poderes públicos, "argumentos" suficientes para justificar iniciativas como a diminuição dos impostos sobre os ricos, a desregulamentação financeira, a redução do salário mínimo e, em geral, a desvalorização das políticas sociais.

E os resultados económicos de longo prazo? Ao contrário do que frequentemente se diz, nos países mais desenvolvidos não só o crescimento do produto per capita foi muito mais lento do que nos trinta anos anteriores como as desigualdades se agravaram extraordinariamente.

Curiosamente, o fracasso nunca persuade os iluminados a repensarem as suas crenças, mas em insistirem em mais do mesmo. Se o remédio falha, a única solução é tomar mais remédio.

Isto faz lembrar irresistivelmente a União Soviética. Também aí, o planeamento central não falhou só nos anos terminais da perestroika, mas logo que foi ensaiado pela primeira vez, no período chamado comunismo de guerra. Mas também os soviéticos concluiram do fiasco que o mal não estava na prescrição mas na insuficiência da dose.

11 comentários:
De João Galamba a 22 de Outubro de 2008 às 01:04
Excelente. Só falta falar daqueles que acham que sempre vivemos em socialismo. Não te esqueças que para certos maluquinhos o Friedman também é era espécie socialista.


De CN a 22 de Outubro de 2008 às 10:24

Objectivamente a moeda é fabricada de forma socialista-fascista e incentiva todo o sistema bancário a conceder crédito por pura fabricação de moeda em vez de captação/mobilização de poupança ("Crédito fácil", "crédito em excesso"...?)

Para benefício da elite financeira-industrial que recebe as novas quantidades de dinheiro e o gasta na economia primeiro que os outros, assim prejudicando toda a população.

A prazo provoca bolhas que os especuladores de bolsa ou imobiliário etc. aproveitam (tudo com crédito apenas possível por fabricação de moeda) e depois rebentam dando lugar a recessões e crises bancárias.

Depois esse mesmo sistema, com mais fabricação de moeda vai ajudar todos os que fizeram a festa na fase de expansão.

Maluquinho é quem não tem curiosidade em inquirir sobre tão grave, perigoso e imoral sistema de coisas.

Ler no Vento Sueste por exemplo o que chamo do argumento à esquerda contra o inflacionismo:

O ciclo especulativo
http:/ ventosueste.blogspot.com /2008/10/o-ciclo-especulativo.html

A visão austro-libertarian sobre a inflação monetária
http:/ ventosueste.blogspot.com /2008/10/viso austro-libertarian -sobre-inflao.html

Cmpr

CN


De CN a 22 de Outubro de 2008 às 10:26
Friedman era óptimo como libertarian (legalização das drogas, combate aos monopólios das ordens profissionais, etc)

O seu pior era mesmo a sua especialidade e Nobel: o monetarismo.

PS: Monetaristas e keynesianos nunca perceberam a relação entre a moeda, crédito, poupança e investimento.


De Luís Lavoura a 22 de Outubro de 2008 às 10:41
"nos países mais desenvolvidos [...] o crescimento do produto per capita foi muito mais lento do que nos trinta anos anteriores"

Isso não interessa nada. O que interessa é o desenvolvimento dos países mais pobres, o qual tem sido explosivo durante a última década.

Os países mais desenvolvidos não pecisam de crescer mais, muito obrigado.

É aliás justo que os países mais desenvolvidos cresçam menos, através da deslocalização de parte da sua capacidade produtiva para países mais pobres - os quais necessitam mais dela.


De João Pinto e Castro a 22 de Outubro de 2008 às 11:34
"Isso não interessa nada". Fale por si, Luis Lavoura.

Os únicos países pobres que têm crescido rapidamente são a China e a Índia, e esses recusaram o chamado consenso de Washington. Mantêm o comércio externo e os movimentos de capitais controlados, conservam importantes sectores públicos e adoptam políticas activas de promoção de novos sectores. Liberalismo zero, portanto.


De Luís Lavoura a 22 de Outubro de 2008 às 11:50
É completamente falso que só a Índia e a China estejam a crescer rapidamente. Toda a América Latina está a crescer rapidamente (principalmente o Perú, a Colômbia e o Chile). A África está a crescer a um ritmo nunca visto (6% ao ano). O Paquistão e o Irão estão a 7% ao ano. Países da Europa de Leste como a Roménia e a Bulgária estão felizes da vida. E assim por diante.

E não é com "liberalismo zero". Crescem precisamente porque admitem investimento estrangeiro e porque têm liberdade comercial com outros países. É claro que há países mais liberais do que outros. Mas praticamente todos os países menos desenvolvidos estão a "performar" otimamente.


De João Pinto e Castro a 22 de Outubro de 2008 às 13:01
"Toda a América Latina está a crescer rapidamente". Falso.

"África está a crescer a um ritmo nunca visto (6% ao ano)." Só nos dois últimos anos e numa parte da África. E já foi muito visto noutras épocas, só que o Luis ainda não era nascido.

Os países do Leste europeu cresceram recentemente depois de mais de uma década em que recuaram vinte anos.

Agora notem estes fantásticos exemplos de liberalismo económico que o Luis foi arranjar: Perú, Colômbia, África (será Angola?), Paquistão e Irão.
Nos tempos que correm, tudo o que vem à rede é peixe.


De CMF a 22 de Outubro de 2008 às 13:36
"Os países do Leste europeu cresceram recentemente depois de mais de uma década em que recuaram vinte anos."
Basta ver os GDP de alguns países de Leste para se perceber que após uma quebra natural em 90 e 91, o crescimento nos anos 90 foi contínuo e com números bastante interessantes (uma das excepções é a Roménia, que teve várias problemas para se "democratizar" plenamente). Num registo mais empírico, bastaria ter visitado alguns desses países nos anos 90 para se perceber que aconteceu menos esse tal recuo de 20 anos. Suponho então que deve estar a falar do Leste europeu pré-Muro (mas nessa altura recuavam-se muitas décadas em poucos anos). Caso contrário, é caso para sugerir, também, auto-medicação para fanáticos...


De Rodrigo Adão da Fonseca a 22 de Outubro de 2008 às 14:03
O problema das visões keynesianas - assim como dos modelos restributivos da segurança social - é que assentam numa antecipação dos cash flows futuros, dando a sensação que, como que por passe de mágica, de repente o mundo descobriu uma árvore das patacas. Depois, quando aparece a factura para pagar - como no caso da presente crise - o truque é culpar quem não tem nada a ver com isso, o liberalismo ou quem defende o controle na emissão da moeda em função da produtividade da economia.

Uma economia saudável vive da poupança e do crédito concedido em cima dessa mesma poupança. Quem acredita em árvores das patacas, na emissão disparatada de moeda, e em défices públicos como arma para sustentar o crescimento da economia, pode criar bolões provisórios de oxigénio, mas a prazo asfixia o crescimento, e abre lugar aos cenários de crise.


De João Pinto e Castro a 22 de Outubro de 2008 às 17:23
RAF, limpe essas merdas da cabeça. Vai ver que ainda vai ser muito feliz e viver muitos anos.


De Luis Moreira a 22 de Outubro de 2008 às 22:21
Se não fosse a Segurança social neste altura estaríamos á beira de uma guerra mundial, tal a miséria que andaría por aí.E as seguradoras estariam,como estão,a serem controladas pelos Estados.Olha se tivessem que pagar as pensões de milhões de pessoas!


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